Sim, Senhor.
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Beth estava deitada de olhos abertos. Sua mente vagueava por diversos lugares, enquanto descansava o corpo no macio colchão. Estava preocupada com todos os desdobramentos na casa de seu filho. A revelação sobre a partida de Sara e Jason a deixou um pouco desconfortável, ela reconhecia que os dois eram pilares da casa.
Pensou em Emma e em como ela iria digerir todas as novas informações. Os adultos conseguem canalizar os seus medos e frustrações, no entanto as crianças como sua neta, não deviam nem se preocupar com problemas como esses.
— Posso entrar, vó ? — Emma abriu sorrateiramente a porta do quarto. Estava parada no escuro corredor aguardando a resposta de Beth.
— Claro minha abelhinha ! Perdeu o sono ? — Ela deu duas batidas no colchão e aconchegou sua neta ao seu lado. — Aconteceu alguma coisa ?
— Não estou conseguindo dormir direito. — Coçou os olhos — Posso dormir com você ?
— Claro que pode, querida. Eu também não estou conseguindo dormir direito. — A luz do abajur estava acesa e iluminava o rosto bonito de Emma. A cada dia, ela se parecia mais ainda com Maggie. — Eu tenho uma ideia muito melhor. O que acha de pedirmos ao seu pai para dormirmos no quarto dele ? Ele pode ser grande mas não é maior que nós duas.
Emma abriu um sorriso imenso e aquilo aqueceu o coração preocupado de sua avó. A pureza na fala e nos gestos de Emma eram contagiantes.
De mãos dadas elas deram poucos passos até chegar no quarto do supervisor. Beth deu duas batidas na porta mas não obteve nenhuma resposta. Sentiu o peito apertar em pensar que iria acordar seu filho, sabia o quão raro era ele ter uma noite de sono. Mas ela era avó, e avós são pais de açúcar.
Iria prevalecer a vontade de sua neta.
Levou a mão a maçaneta e girou o objeto prata. Abriu a porta e o breu do quarto logo tomou conta dos seus olhos, apenas as luzes dos postes da rua iluminavam o ambiente.
“Gil caiu morto na cama e nem deu-se o trabalho de fechar o blackout”
Quando finalmente seus olhos se adaptaram ao ambiente, ela precisou segurar um grito na garganta. Sara e Grissom dormiam tranquilamente e abraçados na enorme cama. Com o ar preso nos pulmões, ela deu um passo para trás e impediu a entrada de sua neta no quarto.
Seria demais para Emma aquela cena. Iria despedaçar o seu coração de maneiras irreparáveis.
Os dois estavam traindo a confiança dela.
Puxou a porta novamente e tratou de bater com um nível de força que fizesse o “casal” acordar.
— Em, acho melhor irmos para o seu quarto. — Beth tentava se acalmar e principalmente transparecer tranquilidade em sua voz. — Seu pai está dormindo e acho que ele merece uma boa noite de sono no natal.
— Poxa ! Gosto tanto da cama dele. — Ela torceu a boca em um bico engraçado. — Mas tudo bem, podemos dormir abraçadinhas na minha cama então.
Beth agradeceu internamente por sua neta não ter visto nada. Tinha certeza que ela não conseguiria disfarçar caso tivesse presenciado aquela cena. Foram a passos lentos para o quarto colorido da caçula e deitaram na cama.
Se já estava difícil para Beth conseguir pegar no sono, agora era uma certeza que passaria o restante da madrugada em claro.
No outro quarto, Sara ouviu um barulho vindo do corredor. Seus olhos se abriram e ela levou alguns segundos para entender onde estava. Impulsionou para levantar mas sentiu o braço pesado de Grissom sobre a sua cintura.
— Ei, Griss. Acorda ! — Com um pequeno esforço ela conseguiu empurrar o braço dele. Sentou-se na cama e arrumou os seus cabelos. — Grissom ! — Ela elevou um pouco o tom de voz e sacudiu o ombro dele.
— O que houve, querida ? — Piscou o olho algumas vezes tentando dispersar o seu sono. — Aconteceu alguma coisa ?
— Ouvi um barulho vindo do corredor. É melhor eu voltar para o meu quarto.
— Calma, Sara ! Talvez Jason ou a minha mãe possam ter saído do quarto. — Grissom reuniu suas forças e sentou-se ao lado de Sara.
— Isso que acabamos de fazer é uma maluquice. Tenho que voltar.
Ele apenas assentiu com ela. Realmente era perigoso os dois ficarem ali juntos com a casa cheia como estava. Grissom levantou-se e foi conferir o corredor e certificar que não tinha ninguém andando pela a casa. Os dois se despediram e Sara desceu sorrateiramente as escadas, suas passadas eram suaves como o toque de uma borboleta.
…
Na manhã seguinte, Beth foi a primeira a levantar. Havia conseguido cochilar algumas horas durante a madrugada mas não estava cansada. Levantou decidida e foi para o escritório, vasculhou a agenda organizada em busca do telefone do advogado de seu filho.
Encontrou o telefone de Edward e por sorte, o telefone residencial do advogado também estava anotado. Ligou para a residência do procurador e depois de alguns toques foi atendida por ele. Em uma breve conversa, Beth falou sobre a urgência que o seu filho tinha em marcar uma reunião com ele e convenceu o advogado a recebê-lo ainda naquela semana.
— Trabalhando essa hora, vó ? — Jason estava saindo de seu quarto quando viu Beth fechando a porta do escritório atrás de si.
— Não, Jay. Apenas vim procurar um livro. Vamos descer para tomar o café da manhã ? — Desviou o assunto e Jason pareceu aceitar a resposta.
— Sim. Vou apenas acordar a Emma e já me encontro com você.
Beth assentiu e desceu as escadas. Encontrou Stella terminando de arrumar a mesa. O cheiro delicioso do café invadiu suas narinas e ela sentiu o seu corpo aquecer. As duas senhoras trocaram um rápido e cordial “bom dia” e ela serviu-se de uma generosa xícara de café. Precisava estar energizada para as próximas horas.
— Bom dia. — Sara apareceu na cozinha e foi recebida por um breve abraço de Stella e Beth.
— Querida, ontem o Freddie me ligou e me disse que não conseguia entrar em contato com você.
— Mais tarde eu retorno as ligações dele. — Sara respondeu enquanto bocejava. Depois que saiu do quarto de Grissom, sua preocupação não a deixava dormir.
— Freddie ? Namorado novo, Sara? — Jason chegou na cozinha acompanhado de sua irmã. Emma estava pendurada em suas costas e se divertia enquanto seu irmão balançava o corpo.
— Um velho amigo, Jay. — Sara estreitou o olhar enquanto o rapaz a encarava com um olhar malicioso.
“Namorado ou quase namorado da Sara se chama Gilbert, Jay !” - Pensou Beth.
— Freddie e Sara são ex-namorados. — Stella comentou enquanto encarava Sara. A governanta sabia que da parte do rapaz ainda existia muito amor e carinho, mas Sara parecia ter anulado todo e qualquer sentimento por ele.
— E amizade entre ex-namorados funciona ? — Jason fez a pergunta em um tom irônico que deixou Sara sem graça.
— Funciona se houver limite e respeito.
Beth escutava tudo em silêncio e voltou a sua atenção quando viu seu filho chegando silenciosamente na cozinha. Ele não tinha reparado que estava sendo periciado pelos olhos atentos de sua mãe. Havia sido surpreendido pela informação sobre o namoro de Sara e Jason, ela havia falado que eram apenas amigos.
— Venha, Gil ! Junte-se a nós. — Stella fez um sinal indicativo com as mãos para o entomologista se aproximar. Ele achou melhor reter o seu descontentamento com a informação que tinha acabado de receber.
Fizeram a refeição e todos mantinham uma conversa animada, menos Grissom que preferia observar tudo atentamente. Ele sentia o olhar inquisitivo de sua mãe e estava começando a ficar incomodado com as investidas dela.
— Precisamos conversar. — Ela sussurrou para ele, enquanto todos estavam atentos a uma das histórias de Emma.
Ele assentiu e pediu licença para sair da mesa. Foi seguido por sua mãe e juntos foram até o escritório. Beth trancou a porta e sentou-se na cadeira presidencial. Grissom acomodou-se do outro lado da mesa e pegou o pequeno pedaço de papel que sua mãe estendia em sua direção.
— O que é isso ? — Virou o papel branco em busca de mais informações.
— Você tem uma reunião essa semana com o Dr. Edwards. Ele concordou em recebê-lo para você tratar sobre o seu divórcio.
— Como assim ? — Corrigiu a postura da cadeira e projetou o corpo para frente. Amava sua mãe, mas ela havia feito algo sem a sua autorização. — Isso é um assunto particular.
— Que seja, Gilbert ! — Respondeu irritada. — Mas a partir do momento em que você se sente confortável em dormir tranquilamente com a sua namorada dentro dessa casa, já deixou de ser um assunto privativo por muito tempo.
Ele ficou calado, parecia que tinha levado um soco no plexo solar. Então o barulho que Sara havia escutado era sua mãe fechando a porta. Não queria se expor daquela forma e muito menos expor Sara.
— A única coisa que preciso te pedir é discrição.
— Ora, Gilbert ! Você comete um vacilo como esse e ainda acha que está em posição de me dar algum tipo de conselho ? É óbvio que eu vou manter a minha discrição. — Suspirou resignada. — Quem mais sabe sobre isso ?
— Apenas o Brass. — Grissom não conseguia manter um contato visual com a sua mãe. Seus pensamentos estavam acelerados demais e ele não conseguia manter um raciocínio rápido.
— Você foi muito descuidado. Emma estava comigo quando eu entrei no quarto.
— Ela viu alguma coisa ? — Pela primeira vez ele sustentou o olhar. Ele quase tinha certeza da resposta negativa mas o seu coração não deixava de bater acelerado contra o peito.
— Não ! Eu consegui tirá-la do quarto antes que ela pudesse ver alguma coisa. — Beth pode ver quando seu filho respirou aliviado. — Agora me escute. Eu não aprovo esse tipo de relação. Eu torço pela a sua felicidade e bem estar. Não me interessa quem esteja ao seu lado ou que você esteja sozinho. Mas um relacionamento como esse é insustentável, Gilbert.
— Eu estou tentando fazer a coisa certa, mãe.
— Gil, tentar não é o suficiente e você sabe muito bem disso. — Seu tom de voz estava mais calmo. — Se essa história chega aos ouvidos de pessoas erradas, você pode perder tudo o que já conquistou depois da partida da Maggie.
— Eu reconheço o meu erro, tudo bem ? — Levantou-se e começou a vaguear pelo o escritório. Nunca gostou de ser confrontado, ainda mais em situações em que sentia-se vulnerável. — Corri o risco de pagar um preço alto por isso, só que a partir desse momento, serei eu o responsável por tomar as decisões.
— Você tem as rédeas das suas vidas mas lembre-se que você não tem como controlar as consequências, Gilbert.
Ele apenas assentiu querendo encerrar o assunto. Beth entendeu que ele não queria mais prolongar e respeitou. Se Grissom ainda fosse um jovem rapaz que estivesse sob a sua tutela, ainda teria muito mais a ser discutido. No entanto, ele era homem de 50 anos e muito responsável, porém, descuidado.
— Você me promete que vai resolver tudo isso ?
— Sim, mãe.
— Agora, seja forte. A pior parte ainda está por vir.
…
Ele estava sentado no banco de sua SUV sozinho. Tinha acabado de sair do escritório de Edward, o advogado havia prometido que entraria com o processo de divórcio ainda naquele dia. A situação entre Grissom e Maggie era peculiar, mas nada de colossal, talvez fosse demorar um pouco mais que o usual.
Grissom sentia-se perdido naquele momento. Seus olhos não conseguiam focar em nada dentro do estacionamento do prédio comercial, cada ponto movente era o suficiente para dispersar a sua atenção. Ele odiava aquele sentimento, porque ele sabia que quando sua mente ficava inquieta, ele vagueava até as memórias com Maggie.
Por mais que ele tentasse, às vezes esses pensamentos o acertavam com muita força.
A risada contagiante de Maggie veio a sua mente como alguém tivesse apertado um botão play. Ela era fascinante em todos os aspectos. Era intensa, energizada e muito amorosa. Maggie era como uma luz em ambiente escuro, ela tinha a capacidade de acender qualquer sentimento dentro dele.
Ele jamais imaginou que um dia seria casado e fosse constituir uma família. Agora encontrava-se ali disposto a enfrentar um divórcio. Ainda temia pela reação de seus filhos, mas esse era um passo que ele precisava dar.
Lembrou-se da fotografia que havia recebido. Vê-la tão feliz e descontraída, fez o seu coração partir em diversos pedaços. Sentia muita falta dela.
Tinha saudade da companhia, das risadas, das conversas antes de dormir e seus conselhos. Amava a capacidade que ela tinha em sempre enxergar o lado bom das situações.
Mas todos esses sentimentos começaram a se dispersar como areia lutando contra brisa. Havia sido gradual, no entanto bem doloroso.
A buzina de um carro ecoou próximo e o despertou de seu veraneio. Levou a mão ao seu rosto cansado e suspirou fundo. Precisaria ser bem mais forte para ter que enfrentar todas as consequências que estavam por vir. Olhou em seu relógio e viu que ainda teria algum tempo antes do seu turno iniciar.
Deu partida no carro e dirigiu pelas ruas conhecidas de Las Vegas. Naquele momento, ele precisava compartilhar tudo o que sentia. A rota era conhecida, e ele sabia que poderia chegar a qualquer momento, que seria recebido.
♦♦♦
Sara estava no campus da faculdade. Havia terminado a sua reunião junto com a sua orientadora. Elas ajustaram algumas partes do trabalho de Sara e conversaram a respeito do futuro dela. Olivia, aproveitou a oportunidade para reiterar a oferta de mestrado em Chicago, ela seria a coordenadora da pesquisa e Sidle era uma mente brilhante que ela queria ter ao seu lado.
— Promete que vai pensar a respeito, Sara ? Tenho certeza que a sua presença na pesquisa vai agigantar todo o trabalho.
— Nossa, Olivia ! Eu fico muito feliz com as suas palavras. — Sara sorriu vitoriosa. Só ela sabia o quanto tinha batalhado para chegar até ali, e escutar o elogio de uma professora que ela tinha uma enorme admiração era impagável. — Eu preciso fazer alguns ajustes antes de aceitar a sua oferta.
— Leve o tempo que for disponível, Sara. Vou esperar pela sua resposta.
As duas despediram-se cordialmente e Sara seguiu a direção oposta à sua professora. Mary e David estavam a aguardando no jardim do campus. Iriam aproveitar o raro tempo vago dela para almoçarem juntos.
— Finalmente ! O seu trabalho tem tantos defeitos que precisa esperar esse tempo absurdo ? — David abraçou Sara e rodopiou no ar, deu um beijo estalado na bochecha da morena e passou o seu braço sobre o ombro dela. — Espero que Freddie não sinta ciúmes.
— Pura perda de tempo da parte dele. — Sara revirou os olhos e arrancou uma gargalhada de seus amigos. — Nem se você fosse a última pessoa do mundo, David.
— Doeu bem aqui. — Ele pegou a mão da morena e levou até a altura do coração. — Bem no meu coração.
— Você vai superar, David. — Mary interviu e piscou para o amigo. O trio caminhou animado pelo campus. Era muito bom poder ter um tempo ali e principalmente com eles. Desde que Sara aceitou o emprego como babá, o seu tempo na faculdade limitava-se às aulas e alguns projetos de extensão.
Eles conversavam animadamente enquanto aguardavam a chegada de Simon, que ainda estava fazendo a prova. Bem alocados em uma sombra, os amigos falavam de banalidades do dia a dia e também de projetos para o futuro. Sara ouvia atentamente seus amigos quando viu uma figura conhecida caminhar ao lado de um homem bem vestido.
Robert encerrava a conversa com um forte aperto de mão quando visualizou Sara. Com as mãos no bolso, caminhou vagarosamente até ao encontro dela. Cumprimentou cordialmente o trio e direcionou o olhar para a morena que o encarava de uma forma pouco amistosa.
— Podemos conversar em particular, Sara ?
— Acho que não temos nenhum assunto para ser tratado, Robert. Se nos der licença…
— É um assunto importante. — Ele a interrompeu e sorriu de lado. Sentiu o olhar pesado do rapaz mas ignorou e continuou sustentando sua atenção em Sara. — Não vou tomar muito o seu tempo.
Mary encarou sua amiga e sabia que assunto entre eles não seria nada amigável. Lançou um olhar cúmplice para Sara mas ela agitou a cabeça discretamente, iria resolver aquilo sozinha. Pediu licença aos seus amigos e saiu em uma caminhada lenta ao lado de Robert.
— Estive em reunião com o Sean. Desert Palm é referência para os alunos da residência de medicina. Estávamos calibrando nossas metas.
— Me poupe dos detalhes. — Ela revirou os olhos e suspirou fundo. Não sabia o motivo da conversa mas tinha certeza que não seria agradável.
— Claro ! — Sorriu ironicamente. — Na realidade tem bastante tempo que quero conversar a sós com você, mas o seu guarda costa não me deixa aproximar.
— Novamente, Robert. Me poupe dos detalhes e me fale logo de uma vez por todas o que quer.
— Gosto de mulheres nervosas. — Ele tentou acariciar o rosto de Sara, mas ela deu um passo para trás. O encarou furiosa e ameaçou em abandonar a conversa, mas ele delicadamente segurou em seu braço. — Ainda não acabamos.
— É a sua última chance de falar.
— Meu recado é simples — Suspirou e colocou a mão na cintura. — Ou melhor, o meu conselho é simples. — Sorriu vitorioso quando percebeu que Sara encolheu. — Você e o Gilbert devem ser mais discretos.
— O que te faz acreditar que eu e o Gilbert estamos juntos ? Isso já virou uma obsessão.
— Evidências não mentem. — Robert pegou o seu celular do fundo da sua calça social. Procurou por alguns segundos e achou o que precisava. — Veja só.
Sara sentiu os seus joelhos fraquejarem quando viu a foto. Era ela e Grissom abraçados na viagem que fizeram até Henderson. Não tinha como ter dúvida, a imagem havia sido capturada de frente e os dois pareciam estar bem à vontade.
— Você é doente ao ponto de nos seguir ? — A boca dela estava seca e o seu coração batia descompassado. Seria difícil manter a seriedade naquela conversa.
— Você não vale a pena esse esforço, Sara. Vocês deram um azar. Scott teve a mesma ideia que vocês e também esteve na cidade. Azar de uns e sorte de outros. — Deu de ombros.
— Eu fico impressionado com a sua capacidade de ser covarde.
— Sara, entenda de uma vez por todas. Isso não é sobre você. Aliás, você já devia ter entendido que não passa de um lanche para Gilbert. Algo que ele come de vez em quando e depois troca por outra novidade. Foi assim com Heather e Alana, não pense que na sua vez será diferente.
— Isso é patético, Robert. — Deu uma risada sarcástica. Na realidade, ela estava desesperada por dentro mas não deixaria transparecer, se ele sentisse que estava amedrontado, iria investir mais pesado.
— Patético é essa situação de vocês dois. — Ele virou a tela do celular e ficou observando a foto. Balançou a cabeça em negativa e mordeu o lábio inferior. — Imagine o estrago que essa foto pode causar. — Deu um assobio alto.
— Isso é ridículo, Robert. Você quer vender essa imagem de um bom cidadão mas não passa de uma pessoa de baixo caráter.
— É pelo visto você está realmente apaixonado pelo Grissom. Ele nunca te contou sobre Alana e a Heather, né ? — Ele ergueu a palma da mão em direção ao céu e balançou o ombro. — Eu no lugar dele também não faria isso. Para conquistar um novo filé como você, é preciso saber medir as palavras.
— Robert, se você não tem outros planos aqui na faculdade ou tem outra pessoa para infernizar a vida, pode ir embora.
— Claro, Sara. — Ele sorriu novamente. — Então ficamos combinado assim, você fica afastada do Grissom e essa foto fica afastada das pessoas que poderiam ficar decepcionadas com vocês. — Dessa vez ele conseguiu segurar o queixo de Sara, balançou levemente a cabeça dela e piscou.
— Talvez Heather tenha algo a acrescentar também. — Ela conseguiu desvencilhar do toque dele e deu um passo para trás. Sua vontade era acertar um belo soco no rosto dele, mas jamais chegaria a esse ponto. — Ou você pensa que tem o teto de vidro ?
— Minha doce Sara ! — Ele aproximou-se novamente mas ergueu as mãos quando viu a posição defensiva dela. — Você realmente acha que alguém vai acreditar nessa história ? Você acha que a minha amada esposa vai escutar o que uma babá desqualificada como você tem para falar ? — Seu tom de voz era tranquilo, pouco se preocupava com a ameaça.
— Eu não tenho nada a perder com essa história, Robert.
— Mas o Grissom com certeza tem, Sara. — O seu semblante se fechou e seus olhos ficaram escuros de raiva. — E eu consigo potencializar todo o estrago. Agora cumpra a sua parte do acordo. — Ele apontou o dedo em riste. — Aliás, o seu namoradinho não pode saber da nossa conversa, do contrário você vai pagar caro por isso.
Ele ajeitou a sua blusa social e suavizou o seu semblante. Piscou para ela e voltou a caminhar em direção ao estacionamento do campus. O seu recado já estava dado e sabia muito bem que a sua interlocutora iria entender. Na realidade, ele pouco se importava com Sara. Ela era apenas um meio para atingir Gilbert.
No início do relacionamento da sua filha, eles tinham um bom convívio. Talvez não tivessem muitas coisas em comum, mas sempre houve respeito mútuo. Mas quando Robert quase virou parte de uma investigação criminal e o seu genro descobriu sobre as suas idas ao domínio de Heather, tudo mudou.
Robert nessa época vivia tenso. Ter a sombra do seu segredo revelado rondando a sua casa cada vez que o supervisor chegava, o fazia sentir arrepios. Ele não aceitava isso, ele era dominador e aquele tipo de situação era inadmissível.
Soube através de uma das dominatrix que trabalhavam com Heather, que o seu genro também frequentava a mansão. Cindy revelou que os dois apenas mantinham uma conversa, talvez ele fosse um dos poucos amigos de Lady Heather.
Aquilo foi como um bálsamo em sua alma. Não se importava se ele estava ali apenas para manter um bom diálogo com a dominatrix. Sua filha jamais aceitaria uma amizade como aquela. Maggie era ciumenta, assim como sua mãe.
Manteria aquela carta na manga o tempo que fosse necessário, sabia que em algum momento iria usá-la.
Conseguiu assumir uma postura dominadora e superior novamente. Grissom parecia não se importar com aquela atitude, mas Robert finalmente estava em paz consigo novamente. No entanto, as notícias não paravam de chegar.
Um dia encontrou sua filha chorando no colo de sua esposa. Aquela cena havia partido o seu coração. Maggie e Carol eram o seu tendão de Aquiles e não admitiria jamais que alguém as machucasse.
Depois de muita insistência, Virginia acabou confidenciando a ele que Maggie desconfiava que Grissom estivesse a traindo com uma parceira de trabalho. Aquela história fez o seu sangue ferver de uma maneira que ele sentiu todo o seu corpo entrar em combustão.
Ele pensou em diversas maneiras para confrontar o seu genro mas sua filha havia sido categórica e o impedido. Pensou em acabar com a reputação do perito e entomologista e fazê-lo amargar pelo o restante de sua vida o que ele havia feito com sua filha.
Então a sua filha Maggie partiu. Ela saiu sem ao menos se despedir ou dizer se voltaria. Robert perdeu o seu chão. Ninguém nasce preparado para perder uma filha ou ser pai de uma pessoa ausente. Estava perdido novamente. Tentou de todas as formas reencontrar sua pequena Meg, mas ela parecia ter evaporado do mundo.
Depois de juntar os seus pedaços, jurou que iria infernizar a vida de Grissom. Tinha plena convicção que Maggie havia ido embora por não suportar todos os problemas que tinha ao lado dele. Ele a conhecia muito bem e sabia que ela não era uma alma que nasceu para ser presa.
Robert era frio e calculista. Soube muito bem fazer a leitura de toda a situação. Sara para ele era apenas um meio de atingir o perito. Pouco se importava com as opiniões da jovem.
Seu plano estava em execução
Era isso que importava.
…
Grissom estava sentado diante de uma bela mesa posta. O cheiro do chá de hortelã rondava por toda a sala e a música clássica ecoava pelo o ambiente trazendo paz e tranquilidade. Estava na mansão de Lady Heather, sua velha amiga e “quase” terapeuta. Ela era uma das poucas pessoas que tinha a facilidade de compreendê-lo.
— Me desculpe pela demora. Tive um problema com um dos meus clientes. — Grissom pode sentir a presença de sua amiga na sala. Heather era uma mulher imponente e certeira. Poderia senti-la a metros de distância.
— Aproveitei o tempo para ficar a sós com os meus pensamentos. — Heather atravessou a sala e parou próxima a mesa. Serviu uma generosa xícara de chá para o entomologista e observou enquanto ele sorvia a bebida quente. — Pode sentar. — Grissom não gostava quando ela se colocava naquela posição.
Ela apenas assentiu e sentou-se na cadeira confortável. Suspirou fundo e fez uma rápida análise do seu amigo.
— Eu poderia perguntar como você está, mas seria perda de tempo. O que está te angustiando? — Grissom remexeu-se na cadeira, estava sem graça com a pergunta da ruiva. — Gilbert, eu não me importo que você venha aqui apenas quando precisar de um conselho. A nossa amizade é pautada dessa forma.
— Bem… — Ele deslizou a palma da mão sobre o tecido da delicada toalha de mesa, ainda estava buscando as palavras e o tom certo para iniciar a conversa. — Acho que coloquei um ponto final no meu casamento.
— Você apenas oficializou, Gilbert. Talvez isso te incomode, a formalidade. — Ela deu de ombros e estudou a reação dele. — Você ainda não entendeu como vai repassar essa informação para todos.
— Não sei como abordar esse assunto com os meus filhos, esse é o meu medo.
— E quanto a Robert e sua esposa ? São esses que você deve temer. Seus filhos em regra esperam que seja um homem feliz, mas os pais de sua ex esposa… — Deixou a frase morrer no ar.
— Eles vão precisar digerir a informação.
— O que Sara acha sobre isso ? Quais são os seus próximos passos em relação a ela ? — Heather desviou o assunto. Grissom era um homem maduro e muito sério, ele saberia resolver todos os imbróglios com seus filhos e ex-sogros. Mas ele era incapacitado emocionalmente e ela era como o seu apoio.
— Eu não sei como estamos. Sara é uma mulher encantadora e decidida. Existe alguma coisa dentro dela que me faz querer abandonar tudo para estar apenas ao lado dela.
— Essa coisa se chama paixão, Gilbert. Você está perdido porque não consegue admitir para si que está apaixonado por essa jovem. Você está sendo correspondido por ela. Aposto que o sexo entre vocês é infinitamente melhor do que com a Maggie. Ela te traz o sopro de vida novamente, mas você teme que ela possa arrancar a qualquer momento.
— Me pego questionando se ela merece um homem confuso como eu sou.
— Você não é confuso. Você é covarde. Não confunda as coisas, por favor. — O tom de voz tranquilo de Heather. Ela bebeu um pouco de chá sem açúcar e esperou o entomologista se recompor. — Você estava confortável em manter o seu casamento de fachada porque sabia que se algo desse errado entre você e a Sara, poderia voltar correndo para o “ imaginário mundo de Maggie”.
— Eu não sei o que fazer em relação a isso.
— Demonstre afeto. Só dessa forma você saberá o que ela sente também. Sara não é o tipo de mulher que vive por uma aventura.
Grissom suspirou fundo, Heather tinha razão. Sara nunca havia cobrado nenhum posicionamento, mas ele não poderia se esconder por trás do seu problema o restante da sua vida. Sara merecia algo melhor. Ela não seria eternamente o seu romance secreto.
Os dois conversaram por mais alguns minutos. Grissom iria aproveitar o tempo que ainda tinha antes de iniciar o seu turno para conversar com Sara. Precisava aproveitar a injeção que tinha recebido das palavras de Heather. Sua amiga sempre o tratava de forma dura e precisa, mas era a única forma que tinha eficácia com ele.
Parado diante da porta do apartamento dela, ele surpreendeu-se quando Sara abriu a porta. Sua aparência parecia estar um pouco abatida e seus olhos castanhos estavam opacos. Poucas vezes encontrou com ela daquela forma.
— Está tudo bem, querida ? — Entrou no apartamento e fechou a porta atrás de si. — Aconteceu alguma coisa ?
— Apenas um princípio de gripe, nada demais. — Mentiu. Ela disfarçou um sorriso cansado. Na realidade, ela estava desesperada. Não sabia como digerir a ameaça de Robert sem afetar as pessoas com quem ela mais se importava.
— Se você quiser eu posso comprar alguns analgésicos antes de ir para o laboratório. Acho que vi uma farmácia próxima daqui. — Ele deu alguns passos para aproximar-se mas Sara parecia estar estática e outra dimensão. — É apenas uma gripe, Sara ?
— Não precisa se preocupar, Griss. Eu já tomei algumas vitaminas e um antigripal, amanhã eu estarei recuperada. — Sorriu de lado e reduziu o espaço entre eles. Abraçou o seu corpo largo e forte e afundou seu rosto no pescoço dele.
— Se você me garante que já está medicada, eu fico mais tranquilo. — Ele apertou o corpo dela contra o seu. Sentia muita falta de compartilhar um tempo juntos. Com as festividades de fim de ano e os estudos dela, o tempo estava escasso. — Hoje andei ocupado com algumas burocracias.
Sara escutou em silêncio, sabia qual era o assunto. Ergueu a cabeça e ficou observando Grissom se perder em seus pensamentos. Achava gracioso a maneira tímida que ele tinha quando estava naquela posição. Respirou fundo e tentou processar como devia agir naquele momento.
Robert estava muito decidido, e como ele havia enfatizado, o problema não era ela e sim o homem que estava parado na sua frente.
— Acho que daqui alguns meses eu vou ter resolvido um grande problema na minha vida. Vai ser muito bom poder encerrar ciclos.
— Você merece um recomeço. — Abriu um sorriso tímido. — Vai ser bom se livrar de alguns fantasmas.
Ele apenas assentiu. Estava feliz por ter Sara ao seu lado, mais feliz ainda em poder finalmente avançar no relacionamento. Sabia que ambos se incomodavam com status e o segredo. Ele era separado de fato, mas isso não impedia que julgamentos fossem feitos a respeito deles.
— Espero não arruinar com essa nova oportunidade. — Ele ergueu o queixo de Sara e colou os seus lábios aos dela. O beijo era quente e com bastante paixão. Grissom sabia que era totalmente rendido a ela, ele não conseguia mais disfarçar. — Talvez eu esteja apaixonado por você. — Encostou a sua testa na dela.
Ele estava com os olhos fechados quando sentiu a mão macia de Sara acariciar o seu rosto. Ela deslizava os seus dedos delgados por toda a extensão da face dele. O carinho era delicioso e ele sentia-se em paz. Sentiu algumas lágrimas quentes deslizar por sua pele e imediatamente desfez o contato.
— O que está acontecendo ? — Ele segurou o rosto dela em suas mãos. Sara parecia estar fazendo um esforço para segurar as outras lágrimas que pareciam que iriam derramar. — Por favor, me deixe saber.
— Grissom ! — Ela prendeu a respiração. Não tinha ideia de quais seriam os seus próximos passos. Não queria de forma alguma ceder às ameaças de Robert, mas também não queria ferir as pessoas que estivesse ao seu redor.
Quando o supervisor a encarou novamente, sentiu todo o seu corpo estremecer. Ele reconhecia aquele olhar, tinha certeza que não conseguiria suportar aquilo novamente. Engoliu a seco e deu um passo exitante para trás. Ele viu o olhar de Maggie em Sara.
Sara queria muito ouvir aquelas palavras vindo da boca dele. Sempre sentiu que era recíproco, mas vê-lo falando sobre eles de forma aberta a fez subir até as nuvens. Queria ter escutado isso antes de ter tido a fatídica conversa com Robert.
Ela não duvidava do sentimento de Grissom.
A campainha do apartamento soou alto no ambiente. Sara se recompôs rapidamente, não sabia quem estaria do outro lado da porta, na realidade ela não aguardava ninguém naquele dia. Enxugou as suas lágrimas teimosas e rumou em direção a porta, mas o toque suave de Grissom em seu braço a fez estagnar novamente.
— Eu talvez também esteja apaixonada por você. — Ela deu um sorriso sincero e depositou um beijo delicado na bochecha do supervisor. — Mas eu acho que eu tenho certeza.
Ela jamais poderia deixar de ser recíproca naquele momento com ele. Grissom rodeava os seus pensamentos boa parte do dia, sentia-se feliz e protegida ao lado dele. Ele a respeitava e jamais ousou a tratar como um objeto.
Grissom sentiu o seu coração bater em compasso novamente. Por alguns breves segundos achou que Heather estivesse errada em sua tese.
— Cariño ! Finalmente eu consegui te encontrar. — Freddie estava parado na porta com um sorriso encantador. — Stella me revelou que hoje você não estava trabalhando. Passei apenas para te dar um abraço e saber como você está.
O supervisor apenas acompanhou com o olhar a entrada de Freddie. O rapaz ruivo aproximou-se e trocou um breve aperto de mão. Sara indicou o sofá para o velho amigo sentar e foi surpreendida por um ligeiro beijo na bochecha.
— Preciso ir agora, Sara. Tenham uma boa noite. — Sara acompanhou Grissom até a porta. Tentou transmitir calma e seriedade para ele. Antes de ir embora ele precisava ter certeza de duas coisas: Seus sentimentos eram recíprocos e que Freddie era apenas um velho amigo. — Cuide-se. Estou a sua disposição. — Ele sussurrou a última frase e sumiu da visão de Sara.
No trajeto até o laboratório, sua cabeça fervilha em pensamentos. Não sabia descrever o que tinha acabado de acontecer. Sentiu o peito arfar quando lembrou-se do olhar de Sara e o fato de ser idêntico ao de Maggie. O mesmo olhar que Maggie o havia encarado algumas semanas antes de ir embora.
Maggie havia mudado repentinamente. Toda a sua alegria e astral haviam dado lugar a ansiedade e temor. Na época ele não conseguia traduzir a situação, mas parecia estar sempre atenta e vigilante aos menores movimentos.
Ele já havia visto aquele filme e não gostava do final.
O fato de Sara ter omitido a informação sobre o namoro com Freddie o deixou desconfortável.
Na recepção, foi informada por Judy que uma detetive de Chicago havia entrado em contato algumas vezes. Foi direto para a sua sala, ainda tinha alguns minutos antes de começar o turno. Aproveitaria para ler os seus e-mails e respondê-los. Abriu o seu moderno notebook e viu que tinha alguns e-mails para serem respondidos, mas um em especial chamou a sua atenção.
Caso MontBlanc (URGENTE)
Olá, Dr. Grissom.
Preciso de todos os arquivos referente ao caso de MontBlanc que estão disponíveis nos arquivos de Las Vegas.
Agradeço desde já.
Cordialmente.
Det. Alana Herson.
Alana surgiu como um fantasma em sua vida novamente. Não havia tido contato com ela desde o atentado em sua casa. Ela havia voltado para Chicago a pedido do capitão da sua corporação. Ele também havia sido afastado do caso e o supervisor do turno vespertino havia assumido o caso.
Iria providenciar os arquivos imediatamente. Questionou-se se Mont havia feito novas vítimas.
Ele sentia o seu corpo queimar como o grande incêndio de Roma. No entanto, ele era o próprio imperador Nero.
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