Sim, Senhor.

40 Capítulo 40


Notas iniciais
Boa leitura.

Grissom tinha acabado de chegar no laboratório, quando Judy alertou que havia uma visita importante o aguardando em sua sala. O supervisor apenas agradeceu cordialmente a informação e rumou para o seu escritório. No caminho encontrou com Catherine e pediu a perita para distribuir todos os casos enquanto estivesse ocupado.

Parado na porta de sua sala, não reconheceu quem era a mulher que estava de costas para a porta. Ela parecia estar entretida com algum tipo de leitura. Imaginou ser uma nova funcionária ou alguma defensora do Estado querendo discutir algum caso em andamento.

— Dr. Grissom! — Alana sentiu a presença do supervisor e levantou-se. Estendeu a sua mão para um comprimento cordial e sorriu para o ex-companheiro. — Enviei um e-mail comunicando sobre a minha visita, mas acho que você não chegou a ler. — Ela conseguiu ler a surpresa no olhar dele.

— Me desculpe, provavelmente devo ter deixado passar o seu e-mail. — Respondeu um pouco sem graça. — As coisas não mudaram por aqui. Excesso de trabalho e escassez de tempo. — Ele deu a volta em sua mesa e sentou-se em sua cadeira confortável. Alana só poderia estar relacionada a MontBlanc e a necessidade de todas as provas — De volta a Las Vegas ?

— Finalmente conseguimos prender MontBlanc, ou melhor, Arthur Dyer. — Retirou da pasta parda a foto do serial killer e entregou para ele. — Conseguimos capturá-lo em Utah. O único erro dele foi o suficiente para o andamento da investigação.

— Isso é ótimo, Alana. — Ele analisou a foto do criminoso. Olhos castanhos, cabelos pretos e um rosto comum. MontBlanc parecia despercebido por muita gente no dia a dia, seria difícil até mesmo fazer um retrato falado dele.

— Esse pesadelo finalmente chegou ao fim. Ele foi de longe o caso mais desafiador da minha carreira. — O olhar dela focou no quadro de borboletas atrás do supervisor. — É muito bom dar essa notícias para os familiares da vítima. Temos uma reunião daqui a algumas horas com o promotor do caso aqui em Las Vegas. Vamos unir as jurisdições para oferecermos uma denúncia que garanta no mínimo uma prisão perpétua para aquele desgraçado.

— Como assim, nós temos uma reunião ? — Grissom arregalou os olhos e ficou estático com aquela informação. Fazia pelo menos três anos que ele não tinha nenhum contato com aquele caso. — Eu não estava sabendo disso.

— Grissom, eu te enviei um e-mail e não recebi nenhuma confirmação. Como eu sei que você é desatento, eu liguei para a Judy e pedi para ela repassar o recado. Provavelmente deve ser algum desses recados na sua mesa que você decidiu ignorar.

Ele remexeu na papelada na sua mesa até encontrar o recado com a bonita caligrafia de Judy. Fechou os olhos com força e suspirou fundo. Ser mais organizado era uma das metas principais da sua vida e ele não conseguia cumprir.

— Me desculpe, Alana. — Ele encostou o corpo na cadeira resignado e um pouco envergonhado de sua displicência. — Mas a minha presença é realmente necessária ?

— Sim, Grissom. Você foi o único na ativa que trabalhou comigo para a resolução deste crime, e é de extrema importância que você nos ajude a organizar a denúncia. — Ela fechou a pasta parda que estava sobre a sua perna e esticou para o supervisor. — Eu dirijo enquanto você lê o nosso relatório.

Grissom teve vontade de rir daquela situação. Estava cem por cento desprevenido para aquela reunião e ainda por cima não teria tempo hábil para poder ao menos organizar suas ideias. Alana parecia não se compadecer da sua situação e pelo pouco que se lembrava dela, não seria uma atitude estranha.

— Depois de tantos anos, ele deixou uma digital na cena do crime ? — Eles estavam caminhando no estacionamento até o carro da detetive.

— Por incrível que pareça sim. — Ela sorriu vitoriosa.- Uma das vítimas entrou em luta corporal e acabou se ferindo. Provavelmente ele retirou as luvas para poder limpar o corte e o seu sangue. Conseguimos uma parcial da digital dele na torneira da pia.

— Vocês conseguiram um mandado de prisão apenas com uma parcial ? — Ele fechou o relatório e olhou para a sua ex-parceira. Alana estava diferente. Com os cabelos mais curtos e uma expressão mais suave, ele reparou na aliança na mão esquerda.

— Conseguimos um nome. Levamos ele para a delegacia e foi aí que toda a mágica aconteceu. — Alana aproveitou o sinal fechado para encarar o supervisor. Os olhos azuis estavam diferentes, ele havia emagrecido e a sua aliança dourada desaparecido do dedo. — Quando ele me viu, ele retirou um papel do bolso e me entregou.

— Conexão Finalizada.

— Exatamente. Depois disso começou o show de horrores. Ele confessou sem esconder nenhum detalhe como ele planejava e executava os seus crimes.

— Existia alguma conexão entre as vítimas ou todos foram escolhidos de forma aleatória ?

— Todos de forma aleatória. Ele disse que gostava de brincar de deus. Arthur trabalhava para uma empresa de TV a cabo, então enquanto ele estava em seu serviço, ele conseguia observar a rotina de alguns clientes ou de seus vizinhos. Quando ele se interessava por alguma vítima, as vigiava até se sentir confiável para atacar.

— Eu posso acreditar veemente que ele acredita que foi que ele soube quando encerrar toda essa loucura. Provavelmente se considera o vencedor.

— Quando ele me entregou o bilhete, ele considerou que todas as buscas foram encerradas.

— E não foram ? — Grissom retirou o seu óculos e levou dois dedos nos olhos pressionando levemente até terminar em seu delicado nariz.

— Ainda estamos confirmando se existe algum cúmplice. Essas investigações ainda estão em andamento.

Grissom achou melhor não se aprofundar. Tinha que focar no seu relatório e confiar em sua memória para lembrar-se do fatídico caso. Terminou a viagem em silêncio enquanto fazia algumas anotações mentais.

O promotor Brandon já estava aguardando a dupla. A sala de reuniões estava preparada para a apresentação do caso e suas evidências. Havia um pequeno grupo para acompanhar todo o raciocínio e auxiliar com possíveis intervenções.

— Agradeço que tenha se deslocado até Las Vegas, detetive Alana. — Brandon era um homem de meia idade. Um rosto aristocrata.

— É o meu trabalho. — Alana assentiu e organizou suas anotações, não queria deixar nada passar em branco naquela ocasião. — Ei, dê a introdução ao caso e eu vou completando com as evidências, eu sei que você não vai conseguir se lembrar de todos os detalhes.

Grissom apenas assentiu e no seu íntimo agradeceu a sugestão da ex-parceira. Tinha conseguido acessar o seu palácio mental, mas poderia deixar algum detalhe essencial passar despercebido.

— Arthur Dyer é um assassino confesso de pelo menos 10 homicídios cometidos em um espaço de 5 anos. A peculiaridade do caso é a forma em como ele cometia os assassinatos. Ele sempre sequestrava duas vítimas ao mesmo tempo. Injetava um poderoso sedativo e iniciava o processo de remoção dos órgãos. As vítimas vinham a óbito por receberem um órgão que não era compatível e após isso, ele descartava em algum lugar público nas cidades com um bilhete escrito: Conexão Finalizada.

— Arthur deu início a faculdade de medicina no ano de 1989 mas não chegou a concluí-la. De acordo com os documentos oficiais da faculdade, ele foi desligado após um processo administrativo concluir que ele estava furtando sedativos dos armários e dopando desnecessariamente os pacientes durante o seu estágio. — Alana entregou uma cópia do relatório para cada presente.

— A história dele começou em Las Vegas há 3 anos atrás quando a minha equipe foi chamada para periciar um corpo próximo ao lago Mead. O bilhete foi o que chamou a atenção dos meus investigadores e só depois quando o legista nos informou que os órgãos como coração, fígado e rim não eram compatíveis com a vítima. — Grissom concluiu enquanto estava sob o olhar atento do promotor e todos os seus assistentes

— Dias mais tarde um corpo foi encontrado em Jackspot e com o mesmo modus operandi e quando a segunda vítima foi levada a mesa do legista, confirmou-se que os seus órgão haviam sido trocados pelo o corpo encontrado no lago Mead.

Alana continuou resumindo os pareceres técnicos do caso. Apresentou um laudo psiquiátrico feito por um competente profissional em Chicago. Arthur havia confessado todos os seus crimes e não sentia remorso por nenhum deles.

— Inclusive, todos os funcionários que foram envolvidos nesse caso sofreram algum tipo de atentado. O meu parceiro em Chicago sofreu um acidente após Arthur sabotar os freios do seu carro e no meu caso, enquanto estive em Las Vegas, eu e o Dr. Grissom fomos vítimas de disparos feitos contra a minha casa.

Grissom assimilou aquela informação em silêncio. MontBlanc, ou Arthur Dyer, havia se preocupado em atingir cada perito ou policial de forma individual, mas em seu caso, nada havia acontecido.

Talvez o atentado na casa de Alana e a polícia espreitando ao redor o houvesse espantado o suficiente para ele sair de Las Vegas antes que ele pudesse tentar algo contra ele.

A reunião se estendeu por algumas horas. Grissom gostava do promotor Brandon porque ele sempre ouvia todas as explanações sem interromper, o que facilitava a vida do perito e policiais.

— Essa vai ser a denúncia mais tenebrosa que eu já ofereci durante toda a minha carreira. Um ex-médico que gostava de brincar de deus. Escolhia as vítimas de forma aleatória e acreditava que de uma forma estavam todas ligadas.

— O que unia as suas vítimas era o poder que ele tinha em suas mãos. Provavelmente ele gostava de ver as vítimas implorando por suas vidas.

— Não canso de me espantar com a humanidade, Dr. Grissom. — Brandon encarava o horizonte. Estava realmente surpreso com tudo o que tinha escutado. — Alana, eu vou entrar em contato com a promotora Lia para oferecermos denúncia o mais breve possível.

— Contamos com isso. A prisão preventiva dele irá expirar em menos de uma semana, por isso a urgência dessa reunião.

— Não se preocupe, já estaremos formalizado tudo antes mesmo que você pouse novamente em Chicago. — Brandon trocou um aperto de mão cordial com a dupla e retirou-se com todos os seus assistentes.

Alana sentiu uma sensação de dever cumprido emanar em seu peito. Foram mais de 5 anos na busca daquele serial killer e finalmente poder dar uma resolução para todas as vítimas e seus familiares era gratificante.

— Um café antes que eu o devolva ao laboratório ?

Grissom apenas assentiu. Depois de tantas horas de reunião, eles mereciam. Alana dirigiu até uma cafeteria que ela costumava frequentar no tempo em que morou em Las Vegas. O lugar permanecia o mesmo e uma sensação de nostalgia invadiu a sua mente.

— Como estão as coisas, Grissom ? Muita burocracia e pouco tempo?

— Sempre ! Las Vegas não para e os papéis para assinar sobre a minha mesa também não.

Uma garçonete chegou com o pedido dos dois. Ele limitou-se a uma boa xícara de café para poder enfrentar o restante do turno, e Alana complementou o seu pedido com uma fatia de bolo.

— Minha vida mudou completamente desde que eu fui embora de Vegas. Fiquei afastada por 6 meses da minha atribuição para poder me recuperar. Depois disso foi um pouco estranho voltar para toda a rotina, mas encontrei uma pessoa que soube lidar com todo esse furacão.

— Me conte sobre o seu marido e seu filho. — Grissom bebeu um pouco do seu café e sorriu quando viu o rosto de curiosidade da sua ex-companheira.

— Por acaso me segue em alguma rede social ?

— Sua aliança e o seu corte de cabelo. Mães de primeira viagem preferem aderir um corte mais curto por acharem que demanda menos tempo para os cuidados. Minha esposa… — Ele parou por breves segundos para corrigir. Precisava se acostumar. — Minha ex-esposa fez a mesma coisa quando nosso primeiro filho nasceu.

O rosto de Alana transformou-se de curiosidade para preocupação. Ela respirou fundo e tentou se recompor, aquele não era o momento certo.

— Eu tinha me esquecido do seu lado dedutivo, Sherlock. — Ela piscou para ele. — Você está certo. Me casei com o Daniel no ano passado, nós nos conhecemos alguns anos atrás em uma convenção em Nova York, e ano passado nos reencontramos e o resto da história você já sabe. — Sorriu. Pegou o seu celular em sua bolsa e abriu a galeria para mostrar uma foto de sua filha. — Essa é a Sofia, completou 5 meses semana passada.

— Meus parabéns, Alana. Agora você entende todo aquele papo sobre proteção parental. Aposto que você parou de cometer loucuras como sair armada no meio de um funeral, ou trocar tiros com suspeitos.

— Você está certo. Sou uma pessoa muito mais moderada depois que Sofia nasceu. Na realidade, eu até estou gostando do serviço administrativo.

Eles conversaram mais algumas amenidades e Grissom se divertia com todas as histórias sobre a maternidade dela. Quando Jason nasceu, ele era preocupado na mesma intensidade que Alana.

Grissom a analisou em silêncio. Alana era uma mulher muito bonita e sua personalidade era cativante. Lembrou-se do episódio de um ‘quase’ beijo na casa dela e sentiu um arrepio inconveniente correr pelo o seu corpo. Durante muito tempo questionou-se o que poderia ter acontecido caso eles não tivessem sido surpreendidos.

— Como está o seu ex-companheiro ?

— Richard se recuperou bem. Depois do acidente de carro, ele resolveu largar a polícia de vez. Mudou-se de Chicago e a última notícia que eu tive sobre ele, era que ele estava morando no subúrbio de Nova Jersey.

Grissom assimilou aquela informação em silêncio. MontBlanc, ou Arthur Dyer, havia se preocupado em atingir cada perito ou policial de forma individual, mas em seu caso, nada havia acontecido.

Talvez o atentado na casa de Alana e a polícia espreitando ao redor o houvesse espantado o suficiente para ele sair de Las Vegas antes que ele pudesse tentar algo contra ele.

— Era a forma que ele tinha para coagir e espantar quem chegasse perto dele. Foi assim com Richard, com você e comigo. — Grissom bebeu um pouco mais do seu café. Odiava as memórias daquele dia.

Alana engoliu a seco. Ela sabia mais do que ele imaginava mas não tinha autorização para falar e aquilo a incomodava profundamente, mas novamente: ossos do ofício.

— Arthur é um homem frio, Grissom. Tenho 16 anos de carreira e nunca me deparei com um olhar tão frio como o dele. Ele não sentia nenhum tipo de remorso pela as vítimas e quando começou a relatar sobre os crimes, um sorriso doentio brincava nos lábios dele.

— Provavelmente ele acredita que o jogo só encerrou porque ele aceitou.

— As vezes eu penso nessa possibilidade. Que foi intencional deixar um vestígio para ser encontrado.

— Isso não importa, Alana. Eu também fico irritado quando acho que o assassino está sendo mais inteligente que toda a minha equipe, mas no final do caso o que me importa é a condenação com base nas evidências.

O celular de Grissom começou a tocar no bolso de sua calça, capturou o aparelho e viu o nome de Nick no visor do celular. O texano estava o aguardando para iniciarem o interrogatório do suspeito de homicídio da Boulevard.

— Preciso voltar para o laboratório. Ainda tenho um caso para concluir.

Ela apenas assentiu. Ainda tinha mais alguns detalhes para acertar com o supervisor mas ainda não seria o momento certo. Havia uma investigação em aberto e ela não queria dar falsas expectativas para ele.

— Então é aqui que nos despedimos novamente. — Parada na porta do laboratório, Alana olhava para o local com certa nostalgia. Tinha gostado de ficar ali alguns meses. — Ainda estarei em Vegas por mais alguns dias. Entrarei em contato se tiver mais alguma novidade.

Sara terminava de ajudar Emma com a sua lição escolar, as duas passaram boa parte do tempo emergidas no mundo da literatura, o tema do trabalho era Shakespeare. Aproveitaram que Grissom não estava em casa e pegaram um exemplar dos sonetos em seu escritório.

Emma era muito zelosa com os seus trabalhos escolares. Muito criativa, deixava transparecer toda sua inteligência enquanto produzia o seu cartaz sobre o trabalho. Sara apenas auxiliava com a montagem, o restante era obra exclusiva da menina.

— Seu trabalho está impecável, Em. Nota 10.

— Obrigada, Sarinha. Estou animada em apresentá-lo. Será que posso ensaiar com você ?

— Claro, vá em frente.

Sara acomodou-se e ficou encantada com a destreza e eloquência. Ela fez um pequeno resumo da vida do autor e completou lendo o soneto XVIII de Shakespeare, que era o seu preferido. A morena encheu-se de orgulho pela sua pequena pupila, sentiu uma leve pontada no peito pensando que um dia poderia decepcioná-la.

— Meu pai escreveu esse soneto e me deu de presente, minha mãe disse que ele fez isso logo depois que eu nasci. — Uma sombra de tristeza pairou no quarto. Era uma das raras vezes que Emma falava sobre a sua mãe. — Você quer ver ?

A morena sinalizou positivamente e Stella entrou no quarto para aproveitar a companhia das duas. O quarto silencioso chamou a atenção da governanta, seus olhos cruzaram com Sara que indicou a menina. Emma abriu uma gaveta e puxou uma pequena caixa lilás.

— Eu nem me lembrava dessa caixinha, Em. Tem tanta memória sua aí dentro. — Stella achegou-se a ela e conseguiu arrancar um sorriso dela.

A pequena embalagem tinha algumas fotos, alguns bilhetes escritos por todos de sua família e alguns pertences menores. Emma achou o soneto escrito por seu pai e entregou para Sara, remexeu no fundo e encontrou uma foto dela ainda recém nascida no colo de Jason.

— Você era tão pequenina quando chegou nessa casa. Eu lembro que o Jay passava o dia inteiro do lado do seu berço, falava que queria ver você crescer.

— Lembro quando ele saiu correndo e gritando pela casa falando que eu tinha crescido na frente dele.

Stella riu daquela memória. Jason e Emma estavam brincando no quarto do rapaz, quando ele saiu correndo gritando em plenos pulmões que tinha visto sua irmã aumentar de tamanho.

— Não sabia que você se recordava sobre isso, você era muito pequena quando isso aconteceu.

— Tenho memória de elefante. — Emma abriu um sorriso que irradiou o ambiente. Sara observou que na “caixa de memórias” não tinha nenhuma foto de Maggie. Talvez tivessem retirado qualquer fotografia da mulher para não causar pequenos conflitos toda vez que achassem a imagem.

— Esse presente eu ganhei dos amigos do meu pai. — Sara segurava um pequeno crachá com uma foto de Emma de cabelo amarrado e um sorriso com dois dentes. O crachá imitava a identificação dos CSI’s. — Eles falaram que quando eu crescer, eu vou tomar o lugar do meu pai.

— Tomara que não, minha querida. Aquele lugar é muito assustador.

— Eu quero ser astronauta, Stelinda.

— Semana passada era bailarina. — Sara sussurrou para Stella e sentou-se ao lado dela.

— Agora vamos arrumar toda essa bagunça, comer alguma coisa e depois a senhorita vai para cama. Não é hora da princesa estar acordada.

Elas se uniram na tarefa de organizar o cômodo, Emma não economizava na bagunça quando ia realizar alguma tarefa escolar. Com o auxílio de Stella, em pouco tempo elas terminaram. A governanta tinha preparado uma rápida refeição, tinha combinado de ir jantar com Freddie em sua casa nova. Sara por sua vez recusou o convite.

— Encontramos vocês ! — Beth e Grissom apareceram na porta do quarto. Sara pode observar alguns traços de Beth no rosto do seu chefe.

— O que faz aqui ? — Stella que terminava de guardar alguns materiais, surpreendeu-se com a presença dele.

— Eu moro nessa casa, Stella. — Ele riu e todos acompanharam a resposta espontânea dele. Beth sentiu-se um pouco mais leve com o humor de seu filho. — Eu estourei as minhas horas extras e não pude mais ficar no laboratório.

— Isso é mais comum do que você pensa, Beth.

— Eu sei, Stella. Consigo imaginar quantas vezes por mês ele é convidado a retirar-se do laboratório.

Grissom ignorou o comentário das duas e foi admirar o trabalho feito por Emma. Sua filha caçula era uma menina muito inteligente e super caprichosa. Ela não media esforços para entregar o melhor de si em tudo o que fazia e ele admirava muito a sua personalidade.

Emma era uma menina fragilizada por conta da ausência de Maggie.

No início, ele chorava sozinho no quarto vendo toda a tristeza de sua filha.

Emma não comia. Tinha pesadelos recorrentes. Tinha crise de choros constantes. E por muitas vezes ficava em silêncio.

Com muito cuidado, terapia e paciência, ela foi dando espaço para a criança feliz e iluminada que era.

— Gostou do meu trabalho, pai ? — Emma sentou-se na cama, entre Grissom e Sara.

— Está impecável, minha abelhinha ! — Ele sorriu e beijou-lhe o topo de sua cabeça. O cheiro de shampoo invadiu suas narinas e fechou os olhos por alguns instantes. — Fico feliz que tenha se lembrado do soneto que eu te dei.

— Escolhi falar sobre Shakespeare justamente por causa desse soneto. — Retribuiu o sorriso para o seu pai e ganhou um abraço apertado. Ela praticamente sumia nos braços largos. — Todo esse trabalho me deu fome. Vou aproveitar o pedaço de torta que a Stella guardou para você.

Sara achou melhor não interferir no momento ‘pai e filha’. Levantou-se e recolheu os livros da biblioteca pessoal de Grissom. Deixou os dois conversando no quarto e foi para o escritório.

Ela estava exausta. Eram muitas informações desconexas em sua mente e precisava criar soluções para todas elas. Era uma oportunidade de mestrado em outro estado, a conversa tenebrosa com Robert, e as investidas discretas de Freddie.

Mas o que mais a deixava sem rumo era Grissom.

Sentia que o amava mas ao mesmo tempo tinha receio em admitir o seu sentimento. Sempre que pensava em dar o próximo passo, as palavras de Robert vinham ecoar em sua mente como um pesado martelo.

Ela já havia amado daquela forma uma vez.

Freddie.

Quando o namoro deles começou a dar errado, ela teve a distância como uma forte aliada. Freddie estava em Barcelona e ela em Las Vegas reconstruindo sua vida.

Depois de Freddie houve outros até chegar em alguém que fizesse o seu coração bater novamente.

Grissom.

Apesar das inseguranças, Grissom havia provado que era um homem espetacular. Em todas as dificuldades ele esteve ao lado dela, muita das vezes correndo o risco de ser mal interpretado ou até mesmo julgado pela as pessoas que estavam ao seu redor.

No entanto, havia Robert e todo o seu poder de destruição.

Ele poderia destruir tudo o que Grissom havia levado anos para construir: uma relação sólida com os seus filhos.

Ela não queria isso, e era nesse exato ponto que os seus sentimentos se confundiam: ela o amava ao ponto de precisar se afastar dele.

Iria doer, assim como tinha doído em relação ao Freddie.

Mas ela tinha a distância como uma aliada novamente.

Estava disposta a mudar-se para Chicago. Seria uma nova vida e uma nova oportunidade.

Longe de todo o conflito, ela conseguiria ler as relações por outro ângulo.

— Sara ! — Grissom atravessou o escritório e a encontrou parada encarando a grande janela. Tocou delicadamente em seu ombro e a segurou quando ela assustou-se — Me desculpe, não era a minha intenção assustá-la.

— Estava apenas distraída, não se preocupe. — Ela forçou um sorriso tímido e virou-se para ele. — Folga forçada.

— Essa semana eu extrapolei as minhas horas extras. — Suspirou fundo. — Casos difíceis e resolução de casos antigos. — Apoiou-se na mesa e segurou a mão de Sara, reparou quando o olhar dela desviou para a porta. — Não se preocupe, estamos trancados.

— Só não quero dar mais motivos para sua mãe continuar me encarando de uma forma estranha.

“E com razão” — pensou Grissom.

— Ela está em uma ligação com as suas sócias na sala, não vai soltar aquele celular tão cedo.

Ele fechou os olhos por breves instantes e sentiu os lábios de Sara colados ao seus. Deslizou sua mão até a nuca delicada dela e aprofundou um pouco mais o beijo, sentia saudades de tê-la em seus braços.

Sara abriu espaço e sentiu a língua quente de Grissom encontrar com a sua. Enlaçou seus braços no pescoço dele e soltou o peso sobre o corpo largo do supervisor. Em um gesto rápido e ousado, ele a levantou e sentiu quando ela prendeu as suas pernas em sua cintura. Seus corpos foram ao encontro da parede próxima a janela.

Eles precisavam estar juntos naquele momento e não se importavam com o externo.

Sara reprimiu um gemido quando sentiu a língua quente e úmida de Grissom deslizar pela extensão do seu pescoço e salpicar beijos molhados por todo o seu rosto. Um calor incendiou o seu corpo e ela decidiu retribuir a altura.

Com a ajuda das mãos experientes de Grissom, ela se livrou da camisa social que usava. Capturou a sua boca com volúpia e o conduziu até o sofá que estava próximo a eles. Sentada em seu colo, ela saboreou toda a extensão do tórax e terminou com a sua língua dançando ao redor de sua orelha.

— Precisamos fazer silêncio. — Sua fala era entrecortada.

Sara não deixou ele prolongar a sua frase, ela sabia muito bem o que os dois precisavam fazer. Encaixada em seu colo, ela rebolou sobre o seu centro e sentiu quando Grissom tornou o beijo ainda mais voraz. Ele agarrou a sua cintura pressionou o seu corpo contra a sua ereção.

Ele levantou e trouxe Sara colada em seu corpo. Em meio aos beijos, ele tentava liberar um espaço considerável em sua mesa. Sentou o corpo da morena na mesa e abriu um pequeno espaço para poder admirá-la.

Retirou a blusa cinza dela e a peça juntou-se à sua camisa social. Uniu suas bocas novamente e com uma de suas mãos livres desabotoou o sutiã rendado da morena. Afastou de sua boca para poder dar atenção aos seios expostos.

Circulou a sua língua pelo mamilo enrijecido e sugou com um pouco mais de força quando ouviu o gemido dela. Levou uma de suas mãos até os lábios de pressionou levemente indicando o silêncio novamente. Sara capturou dois dedos dele e começou a chupar e passar a língua entre as dobras de seus dedos.

Aquela ação fez a ereção dele latejar. Deslizou os seus dedos úmidos pela barriga delgada de Sara e abriu o zíper da calça dela. Seus dois dedos úmidos insinuaram em suas entranhas e ela contraiu o corpo em reação.

Se eles precisavam fazer silêncio. Ela estava à beira de falhar miseravelmente.

Sara sentia que precisava se entregar de corpo e alma para ele, porque provavelmente aquela seria a última vez que estariam juntos.

Com os seus dedos, ele quase a fez atingir o êxtase, mas ele precisava estar dentro dela, o seu corpo suplicava por aquilo. Sem pedir licença e em um acordo velado, eles se desfizeram das últimas peças de roupa que ainda o impediam.

Sentada na ponta da mesa, ela abraçou a cintura de Grissom com as suas pernas e cravou os seus dentes no ombro dele quando sentiu ele dentro de si. A cada movimento que ele insinuava ainda mais dentro dela, sentia suas entranhas se contraírem.

Grissom envolveu os cabelos dela entre a sua mão e puxou de uma forma rude para trás, ele perdia o controle quando estava com ela. Afundou o seu rosto no pescoço dela e tentava segurar um gemido rouco, mas palavras desconexas saiam de sua boca.

Sara cravou as unhas nas nádegas dele e puxou ainda mais para perto o corpo dele. Os movimentos foram ficando cada vez mais intensos e rápidos, e os dois precisaram abafar os gemidos um na boca do outro.

Quando estava próximo a chegar ao clímax, ele levantou a cabeça e novamente puxou o cabelo de Sara para trás, queria poder encará-la naquele momento. Ela contraiu o seu centro, tornando sua carne ainda mais apertada e Grissom não conseguiu conter um gemido alto.

— Sara ! Sara ! — Era a única coisa que ele conseguia sussurrar.

Ele aumentou as estocadas e desaguou dentro dela, mas manteve a velocidade até ela atingir o prazer. Ficou a encarando enquanto ela chamava o seu nome em meio a gemidos. Sara caiu cansada sobre a mesa e recebeu uma carícia no rosto.

Apoiou a sua face sobre a mão macia dele e fechou os olhos. Eles podiam estar completamente errados em fazer aquilo mas ela não se arrependia.

Os olhos azuis embebidos de luxúria a encaravam de uma forma nada amistosa. Os dois precisavam inventar desculpas pelos barulhos, mas não naquele momento.

O olhar de Grissom era um caminho sem saída.

O corpo de Sara era um caminho sem saída.

Grissom estava nos corredores do laboratório em busca de Warrick, precisava enviar o perito para uma nova cena de crime. Naquela noite todos os peritos estavam em cena e ele nao poderia sair do laboratório por conta de uma reunião com o diretor do departamento.

— Ei, Rick ! Assalto no hotel Rio. Muita imprensa e muita pressão, tome cuidado. — Ele entregou o relatório para o CSI que havia acabado de entregar as evidências de outro crime para Greg analisar. — Me desculpe, camarada. Redução de equipe e eu não posso sair.

— Tudo bem, Griss. Prefiro mil vezes estar em campo. Boa sorte com a sua reunião.

O moreno aceitou de bom grado a nova atribuição e rumou em direção ao estacionamento. Grissom ficou parado no meio do corredor fitando todo o funcionamento do laboratório. Era incrível como todos os funcionários eram peças essenciais para que o maquinário forense funcionasse.

Sentiu o seu celular vibrar dentro do seu bolso. Pegou o aparelho e viu que era uma mensagem de Edwards, seu advogado.

Precisamos conversar.

Agende um horário o mais breve possível

Aquela mensagem poderia significar tantas coisas e ele achou melhor não se preocupar com aquilo naquele exato momento. Teria uma reunião massante pela frente e precisava estar com a mente livre de problemas.

— Ei, Grissom. Vamos ?

Olhou para trás e viu Ecklie o aguardando. O supervisor diurno parecia estar bem animado com a reunião, ao contrário dele.

Grissom não soube mensurar quanto tempo ficou preso naquela sala. O assunto burocrático era entediante e um fardo. Ele não sabia ser político e muito menos se prestava ao papel de ser “puxa-saco” do diretor. Se conquistasse algo seria apenas pelo o seu esforço.

Novamente o seu celular vibrou, sendo que dessa vez a mensagem era de sua cunhada, Carol.

Você pode me encontrar na minha casa após o seu turno ?

Preciso conversar com você.

Ele achou estranho o teor da mensagem. Mantinha uma boa relação com a sua cunhada, mas não tinham esse tipo de aproximação. A mensagem de seu advogado surgiu novamente em sua mente e ele pensou que pudesse existir alguma comunicação.

Ponderou se de alguma forma, a notícia de seu divórcio poderia ter chego aos ouvidos de Robert e Virginia.

Seria o momento de encarar o monstro de frente.

Depois de horas de reunião, ele estava livre. Olhou para o relógio e imaginou se sua cunhada ainda estivesse acordada naquela hora. Queria aproveitar o seu intervalo para sanar as suas dúvidas a respeito da mensagem enviada mais cedo por ela.

Uma breve ligação e Carol disse que estava aguardando a sua presença.

Dirigiu alguns minutos até o apartamento da caçula e sentiu-se incomodado pela forma que ela o encarava quando abriu a porta.

— Aconteceu alguma coisa, Carol ? Você não me parece estar muito bem.

— Não se preocupe, Griss. — Ela ensaiou um sorriso mas estava tensa demais. — Será que você pode me aguardar na biblioteca ?

— Você está estranha, Carol.

— Eu te explico quando chegar lá. — Apontou a porta branca e sentiu-se aliviada quando o seu cunhado acatou o seu pedido.

Era a primeira vez que estava ali. A pequena biblioteca possuía um acervo de bons livros, o local era aconchegante e bem iluminado. Havia muito da personalidade dela ali. Admirava Carol pelo espírito livre.

— Gil !

Grissom sentiu a sua boca ficar seca e seu coração disparar. O ar parecia faltar em seus pulmões e sentiu dificuldades em respirar. Piscou os olhos várias vezes para certificar-se que não estava em um sonho, mas era tudo realidade.

Ele conhecia aquela voz.

Conhecia muito bem.

— Maggie ?

Notas finais
Quem está de volta ? Ela mesmo.