Sim, Senhor.

22 Capítulo 22


Notas iniciais
Olá ! Como vocês estão ? Eu estou bem, aproveitando minhas férias para organizar algumas coisas e colocar alguns assuntos nos seus devidos lugares. Gostaria de agradecer a Lola por favoritar a fic, seja bem vinda ! Espero que minha fic esteja tão boa quanto a sua. :D Queria agradecer também a galera que está acompanhando a fic, vi no sistema do site mas não tenho acesso ao nome de todos :( Obrigada de coração. Sem delongas, Boa leitura.

A chuva prolongou madrugada adentro, os remédios que Grissom havia tomado fazia efeito proporcionando um maior conforto e qualidade para ele finalmente descansar. Sara demorou a pegar no sono, quando reparou que ele dormia profundamente achou melhor desligar a televisão.

Da janela do apartamento, a chuva parecia dançar no vidro. As cores do centro de Las Vegas refletiam dentro do quarto escuro e frio, Sara enrolou-se no pesado cobertor hospitalar e tentou desligar o seu pensamento…

O que ela sabia que seria impossível.

Não sabia como aquele beijo tinha acontecido, com a ponta do seu dedo indicador ela passava delicadamente sob o lábio inferior. Ela mesmo não sabia explicar quem tomou a iniciativa, foi tudo explosivo quando seus olhares se encontraram. O gosto do beijo era bom mas não sabia se compensava o peso na consciência.

Grissom dormia virado para a “cama” de Sara, com a mão esquerda sobre a barriga, ela podia ver a aliança dourada em sua mão, engoliu a seco e virou-se contra ele. Sua mente a torturava a cada instante.

Aos poucos ela acabou sendo vencida pelo o cansaço do corpo, dormia mas não profundamente como era de seu usual, estava atenta se por acaso Gil precisasse de sua ajuda. O estofado não proporcionava nenhum tipo de conforto, talvez propositalmente já que a função do acompanhante é auxiliar o paciente.

Nas primeiras horas do dia Grissom despertou, deitou-se virado de barriga para cima e tentou-se situar onde estava, uma leve fisgada na costela o lembrou que ainda estava internado. Olhou para o lado e viu Sara dormindo em uma posição pouco confortável, provavelmente uma dor no pescoço iria acompanhá-la por alguns dias. Fechou os olhos novamente e lembrou-se do rápido beijo que havia trocado com ela, tinha receio da reação dela.

— Acordado a muito tempo? — Sara ainda se acostumava com a luminosidade no quarto, com os olhos apertados ela sentou-se, passou a mão espalmada no rosto e tentou ajeitar os cabelos desgrenhados.

— Uns 10 minutos. Ainda está cedo, se quiser pode voltar a dormir. — Grissom cruzou as mãos sobre a barriga, estava tenso.

— Esse estofado não é muito convidativo para dormir. — Ela espreguiçou-se e bocejou logo em seguida.- Vou procurar um café para tomar, você aceita?

— Não, estou bem.

Sara levantou-se e vestiu sua jaqueta e seu boné preto, conferiu o relógio do quarto que marcava 06:15, não era de seu habitual acordar tão cedo mas era praticamente impossível ter um sono de qualidade ali, a sua desculpa era o estofado mas na verdade ela não conseguia encontrar uma maneira de ficar confortável ao lado dele depois do que tinha acontecido. Abriu a porta do quarto e encontrou o corredor vazio, lembrou-se que no início do andar havia uma máquina de café expresso, seria o suficiente para mantê-la acordada. Retirou algumas moedas de seu bolso e aguardou o café ficar pronto. O silêncio catedral foi quebrado por Scott que colocou alguns prontuários no mármore branco onde a cafeteria estava ligada.

— Me desculpe assustá-la, Sara. — O homem de meia idade esticou a mão e Sara retribuiu o gesto.

— Só estou com os meus reflexos baixos, do contrário não teria me assustado. — Ambos riram e pela primeira vez ela pode ver o vice-diretor do hospital sem a defensiva.

— Está acompanhando, Gilbert? — Sara retirou o copo com o café fumegante e logo em seguida o médico colocou o dinheiro.

— Sim. — Ela bebericou o café e gostou do sabor. — Sua família ficou presa em Mount Charleston. Vim mais para um apoio moral.

— Muito bem, imagino que ele esteja bem acompanhado mesmo. — A máquina emitiu um sinal sonoro indicando que o expresso do médico estava pronto. — Estou indo até o quarto onde ele está, me acompanha ? — Apoiando os prontuários no corpo, Scott indicou o braço para Sara.

— Ainda vou fazer algumas ligações primeiro.

Sara sorriu sem graça e sem entender o gesto do médico, o primeiro encontro que eles tiveram no hospital ele não havia sido nada amigável e agora se mostrava completamente diferente do que era. Cansada demais para criar neuroses achou melhor ligar para Stella para atualizá-la do estado de Grissom, depois do quarto toque a senhora atendeu.

— Liguei muito cedo?

Já estava para acordar mesmo.— Escutou a governanta bocejar do outro lado da linha, segundo depois escutou a porta sendo encostada.— Já chegou ao Congresso?

— Na realidade eu nem fui. Estou no hospital ainda.

Você passou a noite aí?

— Sim.

Um silêncio pairou na linha, Sara pode escutar Stella suspirar fundo.

Como ele está? Ontem conseguimos falar com o Robert mas ele não mencionou que você estava com o Grissom.

— Eu nem cheguei a ver o Robert, pensei inclusive que ele tivesse conseguido ir até vocês.

Ele disse que não iria arriscar pegar estrada com as fortes chuvas.

— Entendi. Mas fiquem tranquilas, Grissom está bem, reclama um pouco de dor mas isso é normal já que fraturou uma costela.

Eu duvido ele fazer repouso durante a recuperação.

Também tenho as minhas desconfianças. Avise a todos para não se preocuparem que ele está bem, provavelmente vai ter alta hoje.

Estamos apenas aguardando a liberação dos guardas para voltarmos para Vegas, acredito que chegamos durante a tarde.

— Tudo bem, eu aviso a ele. Agora preciso desligar, vou terminar o meu café antes que esfrie.

Fica bem, Sara. Até mais tarde.

Click.

Caminhou até o quarto e encontrou Scott, Robert e um terceiro médico conversando com Grissom. Entrou sorrateiramente e fechou a porta com a delicadeza de uma pluma. Todos repararam que ela estava no quarto com Gil desviou o olhar.

— Bom dia, Sara.

— Bom dia, Robert. — Com um golpe de olhar ela conseguiu encarar as reações de todos no quarto. — Depois eu retorno, vejo que estão ocupados.

— Jamais, querida. — Robert a puxou e apoiou o seu braço no ombro de Sara. Ela estava no meio dele e de Scott, sentia-se totalmente acuada e deslocada. — Estamos repassando as orientações para o Gilbert antes dele ser liberado mas como conhecemos a teimosia dele será bom que você escute tudo e depois repasse para os outros. — Com a mão apoiada no ombro, ele fez um carinho com o polegar.

Grissom sabia que seu sogro o estava o provocando, aquilo era repulsante, Sara não tinha nada haver com a desavença entre eles.

— Você e o Sr. Grissom, são…? — Dr. Brandon apontava a caneta para os dois.

— Amigos. — Sara sorriu para o jovem médico que meneou a cabeça.

— Sr. Grissom o que vai ajudar na sua recuperação será o repouso, você vai sentir dores nesses primeiros dias mas os analgesicos vão aliviar por hora. Quanto as escoriações, vou te passar alguns antissépticos para uso local.Eu recomendo algumas sessões de fisioterapia para você

até que esteja recuperado.

— Estou liberado então?

— Sim, Sr. Grissom. Vou pedir a uma das enfermeiras que retire toda a aparelhagem e vou deixar o seu laudo de alta na recepção. Cuide-se, daqui um mês quero revê-lo para ver a sua progressão.

Brandon pediu licença a todos e saiu. Sara ainda encontrava-se encurralada nos braços de Robert. Lançava um olhar para Grissom de súplica, ele precisava tirar ela daquela posição. Tentou mover mas o homem apertou ainda mais em seu abraço, pra ela era constrangedor.

— Sara vai te fazer companhia até eles chegarem? — Robert sorriu para Sara e encarou Grissom.

— Não tem necessidade, Robert. Em casa eu posso me virar sozinho. — Grissom sentou-se na cama com uma certa dificuldade, ao menor movimento o seu corpo doía. — Se vocês me derem licença eu preciso me trocar.

Robert retirou o braço do ombro de Sara e para ela parecia ser um alívio de vinte quilos. Saíram os três do quarto, no corredor os dois médicos se despediram de Sara. Encontrou-se na parede e fechou os olhos, era informação demais para ser processada depois de uma noite mal dormida. Uma jovem enfermeira passou por ela e entrou no quarto, fechou os olhos e sentiu uma leve dor de cabeça se iniciar.

— Finalmente estou livre. — Grissom apareceu na porta, cada pisada sua parecia ser calculada para evitar a dor.

— Eu te deixo em casa, vamos?

— Não quero te atrapalhar. Você deve aproveitar a sua folga.

— Vamos, em nada me atrapalha.

Ele concordou e caminharam juntos no corredor, o silêncio permanecia entre eles. Grissom dirigiu-se à tesouraria para quitar as contas de sua internação, Sara achou por melhor aguarda-lo em seu carro, não queria cruzar com Robert ou Scott novamente, os dois estavam reagindo de uma forma muito estranha. Após tudo pago ele dirigiu-se ao carro dela, deu duas batidas no vidro e entrou.

— Finalmente, detesto ficar em hospitais.

— Acho que ninguém gosta, apenas os médicos.

Sara ligou o carro e saiu do estacionamento, agradeceu por não ter encontrado ninguém conhecido.

— Acho que você devia ligar para a sua mãe. Falei com Stella mais cedo mas, acho que elas ficariam mais tranquilas em escutar a sua voz.

— Você tem razão. Pelo o que eu conheço de D. Beth e Stella, ambas estão nervosas por não estarem aqui.

Grissom pegou o celular no bolso de sua calça, digitou o número de sua mãe que atendeu logo em seguida. Pelo celular, Sara conseguiu ouvir o grito de euforia que Beth havia dado ao ouvir a voz dele. Ele tentou explicar como se acidentou e a todo tempo era interrompido por sua mãe que o repreendia, encarou Sara e fez um sinal de rendição apontando o celular.

— Mãe, não tem necessidade. Eu consigo me virar até vocês chegarem.

— Gilbert Grissom, acho que você já passou da idade de ser teimoso. Peça a Sara que te faça companhia até que a gente chegue.

— D. Beth, não vai ser necessário. Chegando em casa eu vou tomar um banho e fazer repouso. — Ele falava pausadamente mas sua mãe não concordava.

Deixe eu falar com a Sara, Gilbert.

Ela está dirigindo, não pode atender.

Então coloque no viva voz.

Vou precisar desligar, mãe. Tenho outra chamada na linha e provavelmente é alguém do laboratório. Até mais, amo você.

Click.

Sara mordeu os lábios para não rir. Gilbert Grissom, um homem reconhecido e admirado por muitos, recebendo ordens de sua mãe. Ele riu e Sara não aguentou, acabou o acompanhando. O celular de Sara que estava dentro de um pequeno compartimento em seu carro começou a tocar, a seu pedido Grissom pegou o celular e arqueou a sobrancelha quando viu o nome no visor: Stella

— Oi, Stella.

Oi Sara, minha querida. É a Beth. — Sara colocou a mão no microfone do celular e sussurrou “é a sua mãe”. Grissom revirou os olhos.

— Olá, Beth. Como está?

Minha querida eu sei que você está dirigindo. Você pode me fazer um favor? Fique com o Gilbert até chegarmos, eu sei que ele tem uma grande dificuldade de receber ordens e seguir orientações médicas. Você faria isso por mim?

— Posso sim. Não precisa ficar preocupada, vou ficar de olho nele.

Obrigada, Sara. Não sei como te retribuir.

Não se preocupe. Agora eu preciso desligar para evitar outro acidente.

Click.

— Minha mãe acha que eu ainda tenho a idade de Emma.

— Ela só está preocupada, é a reação natural de toda mãe. Dê um desconto para ela.

— Eu não sei como te agradecer. — Ele desviou o olhar do trânsito para poder encará-la. Sara sentia o peso do olhar dele mas se negava a olhar. Da última vez que isso ocorreu não havia terminado de uma forma esperada.

— Está tudo certo.

O resto do trajeto foi feito sem conversas, o hospital era um pouco afastado da casa de Grissom. Para quebrar o gelo, Sara achou melhor ligar o som em alguma rádio local, tocava alguma música da banda The Wallflowers, o ritmo era agradável aos dois. O trânsito fluia bem, o que fez com que chegassem na casa alguns minutos antes do previsto. Sara estacionou o carro e Grissom desceu, fechou a porta e começou a sua saga de calcular os passos para evitar a dor.

— Eu vou subir e tomar uma ducha.

— Eu posso pedir alguma coisa para você comer. Não me ofereço para fazer por que sou um desastre na cozinha.

— Uma refeição não seria uma ideia ruim. Peça algo que agrade o seu paladar, faço companhia a você.

Grissom olhou para a escada e suspirou, não seria fácil subir como o de costume. No segundo degrau já sentiu uma pontada dolorido, levou a mão ao lado direito do peito e tentou mais um degrau.

— Ei! Não estou aqui somente por que a sua mãe me pediu. Pode me pedir ajuda também — Sara colocou a mão na cintura de Grissom e pediu que ele apoiasse nela. Aos poucos ele foi ganhando confiança para subir a escada. — Prontinho.

— Obrigada, Sara.

Ele caminhou até o seu quarto, ao entrar no cômodo a sua vontade era de deitar em sua cama e descansar, desviou o desejo e foi até o seu armário, pegou uma troca de roupa e uma toalha limpa. No banheiro, retirou a jaqueta com facilidade mas a sua camisa seria uma tarefa complicada, começou levantando o braço esquerdo mas não tinha tanta mobilidade.

— Droga.

Esbravejou, abriu o armário a procura de uma tesoura, seria a única saída. Encontrou o objeto e cortou sua camisa até ter facilidade em retirar do seu corpo. As outras peças foram tranquilas de tirar. Não sabe quanto tempo ele ficou debaixo da ducha quente, seu banheiro estava todo embaçado, recolheu a sua roupa e foi se trocar no quarto. Optou por uma calça de moletom preta e um casaco de moletom cinza aberto. Ao chegar na escada, ele viu quando Sara levantou-se do sofá para ajudá-lo, com a mão esquerda aberta ele a impediu de subir.

— Se vou passar alguns dias com essa dor, vou precisar começar fazer algumas coisas sozinhos.

— Mas você sabe que não precisa, né ? — Sara colocou as mãos na cintura e o observou descer com dificuldades a escada, em alguns degraus ela parava e fazia uma careta de dor. Ela precisava concordar, era muito teimoso.

— A nossa comida já chegou ?

— Sim. — Ela mordeu o lábio inferior. — Como eu não sei se o seu paladar é refinado e também não conheço grandes restaurantes, eu apostei em uma coisa que todo mundo gosta e come.

— Que seria? — Grissom inclinou a cabeça um pouco para frente.

— Pizza. — Ela ergueu os ombros e abriu um sorriso engraçado. Ele conferiu em seu relógio e viu que o horário não combinava com aquele prato.Novamente, ele pode ver aquela atitude de menina que ela tinha, era encantador. Sorriu de lado e indicou a mesa da cozinha para irem comer.

Grissom tirou uma considerável fatia, havia se alimentado quando deu entrada no hospital. O sabor era agradável, com o passar do tempo ele aprendeu a gostar de pizza, nos incontáveis turnos sua equipe optava por uma refeição fácil e prática de comer enquanto estavam a caminho de alguma cena.

Algo o incomodava, ele precisava tocar no assunto sobre o beijo. Várias vezes tentou iniciar o assunto mas faltava a coragem, reparou também que ela não o encarava nas vezes que eles conversavam.

— Sara. — Ele coçou a testa e logo em seguida tamborilou os dedos na mesa. — Podemos conversar?

— Po...demos. — Era tudo que ela queria evitar, queria tratar aquilo com nunca tivesse acontecido.

— Eu não sei o que aconteceu comigo no hospital para agir daquela forma com você.

— Eu… Você… — Abria e fechava a boca várias vezes, sem encontrar as palavras. — Só vamos esquecer isso. Para o nosso bem.

— Sim, Sim ! Claro. — Ele concordou veemente, querendo terminar o assunto tanto quanto ela.

— Acho que estamos a flor da pele e interpretamos as coisas de uma forma errada.

— Verdade. Isso não vai voltar acontecer.

Ela meneou a cabeça em afirmativa e voltou a comer a pizza, encarando o chão ela queria sumir daquela cozinha, estava um clima bem constrangedor. Se houvesse um buraco no chão da cozinha ela com certeza entraria ali.

Grissom pediu licença e pensou em ir para o seu quarto deitar mas encarar aquela escada novamente não estava em seus planos, encarou o sofá e decidiu ficar por ali mesmo. Sentou-se no espaçoso sofá branco e gostou da sensação de ser abraçado pelo macio estofado. Pegou o celular no bolso do seu casaco e viu que tinha duas ligações perdidas: Uma de Catherine e outra de Heather. Retornou o celular para bolso e pegou o seu notebook que estava alguns metros de distância.

Ligou o aparelho e uma imagem de Jason e Emma surgiu na tela, em seu ambiente de trabalho era contra ter qualquer tipo de exposição ou fotos de sua família, naquele edifício circulavam centenas de pessoas e a ideia de ter desconhecidos vendo o rosto de seus familiares o apavorava. Abriu o seu email pessoal e deparou-se com dezenas de emails não lidos, na correria do seu dia a dia não tinha tempo para sua caixa de mensagem. Sara sentou-se na poltrona e pegou uma revista qualquer que ficava na mesa de centro, se não fosse a pedido de Beth ela não ficaria ali com ele depois de tudo o que aconteceu.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Sim. — Grissom fechou o notebook e virou a sua atenção para ela.

— Você convive com o Robert mais tempo que eu. Óbvio. — Sara revirou os olhos e Grissom achou graça do gesto involuntário. — Eu achei que hoje ele estava agindo de uma forma estranha.

— As aparências enganam mas não se preocupe.

Sara não quis questionar a última fala de seu patrão mas algo ficou subtendido. Ela tinha impressão que cada pessoa daquela família guardava algum segredo, alguns por proteger terceiros e outros por interesse com a própria pele.

Era uma sensação diferente mas Grissom sentia que precisava proteger Sara, ele sabia das artimanhas que seus sogros tinham, para proteger Maggie e seus interesses seriam capaz de passar por cima de qualquer pessoa e ela não merecia isso. Em momento algum ela se mostrou uma ameaça quando entrou naquela casa para cuidar de seus filhos.

— Desculpe perguntar mas eu fui criada sem muito contato e carinho. Só estranhei a reação do Robert, ele sempre foi muito formal.

— Esqueça isso. — Grissom encarou Sara mas quando seus olhares cruzaram os dois trataram de desviar. — Você me disse uma vez que cresceu em um orfanato.

— Sim. Entrei quando tinha 12 anos e fiquei até completar a minha maioridade. — Ela se calou.

— Não devia tocar no assunto.

— Sem problemas, eu não me importo em falar. No começo quando eu entrei era muito complicado, todos na escola sabia que a Laura finalmente tinha parado de apanhar do marido alcoólatra por que matou ela facadas. — Ela abriu a boca mas não encontrou palavras, apoiou o cotovelo nas pernas e levou as duas mãos na nuca. — As crianças conseguem ser cruéis quando querem. Depois veio a frustração de não ter sido adotada por Stella.

— Espera — Ele a interrompeu. — Então é de você que a Stella sempre falava? Ela sempre me dizia que não guardava mágoas de seu falecido marido mas uma coisa que ela nunca soube aceitar era a recusa dele de adotar a criança mais linda que ela já havia conhecido.

Sara sorriu e ruborizou, Stella nunca havia contado isso para ela. Amava aquela senhora como sua mãe, ela representava o maior laço de amor que ela conhecia. Sara sentiu uma lágrima surgiu mas limpou rapidamente antes que escorresse.

— Vamos mudar de assunto. Não quero que fique triste. — Ele esticou a mão e segurou a dela. Que fosse para os ares todo aquele excesso de zelo.

— Eu estou bem. Só fiquei surpresa com essa informação.

— Parece que de certa forma nossas vidas vivem diversas reviravoltas mas, isso não nos impediu de sermos o que somos.

— Velho clichê : O que não te mata, te fortalece.

— O pior é quando o problema te mata gradativamente enquanto você tenta se fortalecer. Depois de dois anos eu recebi uma foto de Maggie.

Sara que ainda estava com os braços apoiados na perna, corrigiu a postura. Era uma revelação e tanto. Pensou imediatamente em Emma e Jason, será que aquilo era um sinal que Maggie estava por perto?

— Recebi em um envelope pardo sem nenhuma identificação. Foi uma facada em uma ferida em cicatrização.

— Você acredita que foi ela quem mandou?

— Não. — Ele meneou a cabeça em negativa. — Conheço Maggie o suficiente para saber que ela não teria coragem de fazer isso. Ela foi embora sem me olhar nos olhos, ela me conhece e sabe que enviar uma foto dessa foto iria me desmontar.

— Grissom, eu não entendo. Por que alguém enviaria uma foto da sua esposa do nada?

— Porque as pessoas insistem que eu fique preso no passado, as pessoas conseguem viver com o fantasma dela. Eles querem que permaneça preso nos acontecimentos dos anos anteriores.

— Eles, você se refere Virgínia e Robert? — Pensou duas vezes antes de fazer aquela pergunta.

— Os principais. — Ele ergueu as sobrancelhas. A verdade era que ele se acostumou a ficar naquela zona de conforto, viver sempre a espera do retorno de Maggie e seguir a vida da onde ela parou.

— Você se sente bem vivendo dessa forma?

— Sabe Sara, nós nascemos sabendo que tudo nessa vida tem um fim. A vida um dia termina, relacionamentos longos terminam, sofrimentos acabam e aí por diante. Apesar de termos a certeza que tudo acaba não nos conformamos com isso, sempre questionamos quando nos deparamos com o fim. Quando é a nossa vez sempre existem as perguntas : “Por que não deu certo?” “Onde foi o erro” “Por que ele partiu tão cedo?”. — Grissom franziu a testa e projetou os lábios para frente. — Toda vez que eu penso em Maggie em me pergunto onde foi o meu erro e qual foi o grito de socorro que ela gritava e eu não escutava. -Ele ficou em silêncio fitando a parede e desligou-se do ambiente da sala.

Sara observou Grissom, tinha certeza que tinha chegado muito perto do seu lado frágil. Ele permitiu que ela conhecesse o seu lado mais fraco e sensível, talvez ele estivesse somente em meio a um devaneio e ela pode presenciar.

— Grissom, não é justo que você viva pensando que é o culpado de sua esposa ter ido embora. Você é um super pai, um bom homem e acredito que seja um bom marido.

— Sara. — Ele suspirou. — Obrigada mas você não me conhece de verdade. Mas fique com essa boa imagem que você tem de mim. — Piscou para ela e abriu um sorriso melancólico.

A campainha soou alto, pelo o horário não era a sua família que tinha chegado. Não esperava a visita de ninguém, cogitou ser Catherine mas a perita ainda não teria encerrado o seu turno já que agora eles estavam trabalhando com a equipe reduzida. Pediu educadamente para Sara abrir a porta, havia encontrado uma posição no sofá que amenizasse a dor.

Sara abriu a porta e deparou-se com uma bela mulher parada na entrada. A ruiva vestia uma calça preta bem colada ao corpo, um corpete da mesma cor modelava a sua cintura e o seu busto, um blazer vermelho cobria seus braços e trazia uma formalidade. Os olhos verdes destacavam sobre a sua pele branca, a franja penteada para o lado esquerdo ornamentava seu rosto. Ela encarou Sara dos pés a cabeça de uma forma bem lenta e detalhada.

— Grissom, está ?

— Sim. — Ela não havia gostado nenhum pouco da forma que a desconhecida havia a encarado, com a cabeça levemente inclinada para trás a ruiva a olhava com ar de superioridade. — Entre.

Sara deu passagem para ela e fechou a porta atrás de si, agora foi a vez dela de encará-la dos pés a cabeça.

— Heather? — Grissom levantou do sofá abruptamente, assustou-se com a presença da dominatrix em sua casa. Uma dor aguda atingiu a sua costela, levou a mão no local gemendo de dor.

— Esperava essa sua reação ao me ver. — Ela parou em pé atrás da poltrona, o mesmo olhar de superioridade ela lançava ao perito.

Grissom encarou Heather e depois Sara que estava parada na porta. Heather reparou a troca de olhares e olhou para o chão, o seu olhar era em câmera lenta. Parecia uma leoa encarando sua presa.

— Vamos ao meu escritório. Podemos conversar melhor lá. — Ele indicou as escadas e a seguiu. Sara percebeu a tensão que ele ficou quando Heather entrou em sua casa, meneou a cabeça quando Grissom passou por ela. Subindo as escadas com dificuldade, ele saiu da vista de Sara.

Agora que ele está acompanhado eu poderia ir embora”

Finalmente sentou-se no sofá, quando Grissom falou o nome de Heather imediatamente associou com a fala de Hank. A mulher parecia ter algum efeito sobre ele que mudou de humor de uma rápida. De olhos fechados, seu corpo implorava por um descanso, seus ombros estavam doloridos mas ainda não poderia dormir.

Aquela fala ficou rondando em sua cabeça, ele também tinha seus segredos. Afinal de contas quem não tem? Por cima de seu ombro, encarou a escada. A fala de Hank somada a fala dele acenderam uma dúvida sobre a fidelidade dele. Abriu os olhos quando o seu celular começou a tocar, levantou-se e pegou o aparelho sobre a mesa, reconheceu o número sendo do manicômio judicial.

— Alô.

Bom dia, senhorita Sidle. Gostaríamos de confirmar a sua visita à paciente Laura Sidle.

Está confirmada.

Encaminhamos para o seu e-mail todas as recomendações para o dia da visita.

— Obrigada.

Ela não tinha muito tempo para se preocupar com o segredo dos Grissom’s ainda tinha um grande problema para resolver. O barulho de buzina ecoou dentro de casa, Sara olhou e viu Virgínia chegando com toda a família.

Que vontade de arrancar essa buzina e fazer essa mulher engolir"

Ao lado do carro esportivo de Virgínia, estacionou Robert. Jason foi o primeiro a descer do carro auxiliou Beth e Stella, logo em seguida Emma apareceu e correu para os braços do avô que a rodopiou no ar.

A confusão está armada"-Pensou Sara.

— Oi Sara. — Jason deu um abraço caloroso e apertou o nariz dela. — Onde está o meu pai?

— Está no escritório com uma amiga dele. — Mordeu o lábio, nervosa.

— Tia Catherine está aqui? — Arqueou a sobrancelha, assim como era comum de seu pai fazer.

— Ahn, a mulher se chama Heather.

— Estranho, não me lembro de nenhuma amiga do meu pai com esse nome. — Jason deu de ombros e foi em direção a escada mas estagnou no primeiro degrau quando viu a bela ruiva no alto ao lado do seu pai.

Grissom sentiu o coração parar de bater por alguns segundos, não contava com a visita de Heather e muito menos que ela fosse encontrar com sua família.

— O que essa mulher está fazendo aqui? — Virgínia colocou a pequena valise no chão e entrou na casa. Sua fala era totalmente agressiva, caminhou e parou praticamente ao lado de Jason. — É muito desaforo da sua parte Gil, trazer essa mulher aqui.

Robert acompanhava tudo parado na porta de entrada, apoio o corpo batente da porta e cruzou os braços, meneava a cabeça em negativa. Finalmente o seu olhar cruzou com o olhar de Grissom, deu de ombros deixando bem claro que não iria interferir no assunto. Heather observou os dois e encarou Grissom por cima do ombro.

— Virgínia, aqui não. — Grissom falou pausadamente. — Heather é minha amiga e veio me fazer uma visita.

— Amiga, Gilbert? Você realmente acha que eu vou acreditar nisso ?

— Virgínia, aqui não. Emma e Jason não precisam presenciar isso. Por favor, vamos manter a postura.

— Sara, será que você pode fazer o seu serviço e levar as crianças para outro lugar? — A mulher bufou e encarou Sara. Estava a beira de perder a paciência e se a babá de seus netos continuasse a olhar daquela forma iria sobrar para ela. — Você não me ouviu, garota?

— Observa bem como você fala com Sara. — Ignorando totalmente a sua dor, desceu as escadas com uma agilidade que sua costela não poderia lhe dar. — Ela não tem nada haver com essa confusão. Portanto, o mínimo de respeito com ela.

Virgínia ensaiou uma risada irônica, com a boca semi aberta sua língua circulava por dentro dos dentes. Grissom estava parado na sua frente a encarando, ele sabia que sua sogra acreditava veemente que ele e Heather tiveram alguma coisa, boato surgiu no hospital e rapidamente chegou ao ouvido dela.

— Ela também, Gilbert? — Apontou para Sara que entendeu perfeitamente a insinuação. Ia enfrentá-la quando Beth segurou o seu braço.

— Emma e Jason, venham! Vamos sair e deixar eles conversarem, essa conversa não interessa nenhum pouco a vocês.

— Desculpa, vó. Mas me interessa muito saber o que está acontecendo aqui. Quem é essa mulher, pai ?

— Jason. Por favor, escuta

— Pai, para ! Chega de mentiras. — Foi a vez de Jason alterar o tom de voz.

— Deixa eu me apresentar, Grissom. — Heather parou ao lado de Jason. — Sou Heather, amiga do seu pai. Eu o conheci durante uma investigação e desde então mantemos uma boa amizade, sou antropóloga então você pode imaginar que eu e seu pai temos muito assuntos em comum. — Ela abriu um sorriso que iluminou o seu rosto.

Jason encarou a mulher da cabeça aos pés, a história por parte dela parecia convincente mas não entendia a fúria de sua avó Virgínia, sabia que ela tinha o estopim muito curto mas ela não parecia estar falando da boca para fora. A reação dela ao ver a Heather foi um choque.

— Venha Jason. Vamos para outro lugar, depois você pode tirar todas as dúvidas que quiser com o seu pai. — Beth o chamou com a mão e indicou a porta principal para saírem. Emma estava abraçada na cintura de Sara sem entender toda aquela confusão, engolia a seco para não chorar. Odiava aquela tensão. Passaram pela porta e quando Sara passou ao lado de Robert ele colocou a mão em seu ombro, fazendo que ela parasse para dar atenção.

— Cuidado. Grissom não é o que você imagina ser. — Ele sussurrou e deu duas leves batidas em seu ombro.

Virgínia andava de um lado para o outro na sala, certificou-se que seus netos estivessem a uma distância segura para não escutar aquelas discussão. Passou a mão em seu cabelo, os desalinhando. Retirou o lenço do pescoço, aquele tecido verde parecia a sufocar.

— Você não tem respeito por essa casa? Trazer a sua amante aqui dentro?

— Quantas vezes mais eu vou precisar falar que eu nunca tive nada com Heather? — Grissom estava estressado, aquele assunto havia voltado duas vezes em menos de quinze dias. — Pare de acreditar em boatos.

— Ora, Gilbert. Todos nós sabemos que isso é verdade, quantas vezes Maggie me confessou do seu comportamento estranho.

— Você e o Robert sempre souberam que o meu casamento com Maggie passou por uma crise terrível, era óbvio que eu teria um comportamento estranho já que a minha esposa me tratava como um estranho dentro de casa. Sua filha partiu muito antes de ir embora.

— Manere as palavras para falar da minha filha, Gilbert. — Ao ouvir aquilo, Robert saiu do batente da porta e foi em direção de Grissom, parou a frente de sua esposa. — Eu não estou aqui para brincadeiras.

— Nem eu, Robert. — Heather falou encarando Virgínia que tentou se aproximar da dominatrix mas Robert a impediu colocando a mão em seu barriga. — Acho melhor eu ir, Gilbert.

— Tudo bem, Heather. — Ele balançou a cabeça inconformado com aquela situação, estava beirando o estresse extremo. — Robert e Virgínia, por favor façam o mesmo. — Ele apontou a porta.

— Você está nos expulsando? — Virgínia mal acreditou no que seu genro acabará de falar.

— Sim, se vocês se lembram eu acabei de sofrer um acidente e preciso ficar de repouso e de preferência em paz. Esse assunto não vai chegar a lugar nenhum como já aconteceu outras vezes.

Heather encarou Grissom e despediu-se de uma forma breve. Reconhecia que tinha sido ousadia ir até a casa do perito porém não se importava com as consequências. Estava prestes a sair pela porta quando parou e virou para onde os três estavam.

— Aliás, Virgínia. Você devia escutar o que o seu genro diz. O perigo não mora aqui, está mais perto que você imagina.

Notas finais
Virgínia e Robert são embustes demais. Mas Virgínia nem sabe que quem conhece realmente Heather é o marido dela e não o genro !