Sim, Senhor.
48 Capítulo 48
Notas iniciais
A vida é um sopro.
Não importava qual filósofo, autor ou romântico tivesse proferido uma frase tão certa quanto aquela. Os alquimistas passaram anos e anos em busca do elixir da vida, mas diversas tentativas fracassadas o fizeram entender que não existe fórmula para uma vida eterna.
A vida é única.
Frágil e única.
Grissom não conseguia processar os últimos momentos. Não existia uma câmera lenta para poder analisar aquela situação de outros ângulos e proteger todos os envolvidos. Ele estava descendo as escadas do fórum quando ouviu um grito de uma voz muito conhecida.
Seus olhos reconheceram imediatamente a presença de Sara, mas ao contrário do que esperava, ela não corria em sua direção. E foi nesse exato momento que flashes começaram a surgir diante deles.
Desviou o foco por breves segundos e viu MontBlanc saltando de trás de uma caixa de correios azul com uma arma em punho. A adrenalina sucumbiu todo o seu corpo naquele momento
A vida parou…
Sara cruzou novamente os seus olhos e saltou por cima de Jason, o empurrando da direção do projétil, mas a arma já havia disparado novamente e dessa vez Jason fora atingido e o seu corpo arremessado contra o chão.
A vida parou…
Um motorista que passava naquele exato momento, não conseguiu evitar a colisão com a mulher que ainda tentava recuperar o seu equilíbrio. A van que carregava alguns instrumentos musicais colidiu na lateral do corpo de Sara, que fora arremessada alguns metros à frente.
Mais dois disparos
Muitos gritos e pessoas correndo.
E como em um passe de mágica, tudo ficou em silêncio.
Não havia buzina de carros, gritos desesperados ou barulho de passos apressados.
Como a vida fosse colocada em sua velocidade normal, tudo voltou a fluir.
— JASON ! — A voz de Maggie saiu desesperada e ela saiu correndo em direção ao seu filho. O rapaz estava caído e pressionava sua mão contra o seu ombro direito. O sangue escorria por entre os seus dedos e manchava a sua camisa branca. — Jason, fale comigo.
— Dói muito ! — Sua voz saia em um gemido. Ele não conseguia abrir os olhos e sentia toda aquela dor irradiar pelo o seu corpo.
Grissom saiu correndo em direção a seu filho e o seu coração despedaçou quando viu a quantidade de sangue e o olhar desesperado do rapaz. Sentou-se atrás dele e puxou o seu corpo para cima do seu. Embalava Jason como se fosse um recém nascido.
— Me deixe ver ! — Naquele momento Maggie não conseguia ser apenas médica e ter toda calma para realizar o seu atendimento. Era o seu filho que havia sido baleado e estava sangrando no chão. Afastou a mão do rapaz e constatou que tinha sido atingido, e com aquela perda de sangue, eles precisariam urgentemente de uma ambulância.
— Alguém chame uma ambulância. — Grissom berrava a plenos pulmões e percebeu que alguns desconhecidos já empunhavam seus celulares em busca de socorro. — Jay, vai ficar tudo bem. Fique conosco ! Por favor !
Jason não se recordava de sentir uma dor tão forte como aquela, todo o seu corpo tremia e ele não conseguia raciocinar direito. Tentou se mover e isso só intensificou a sua dor, estava sendo difícil até respirar.
Maggie trocou de lugar com Grissom, ela iria iniciar os primeiros socorros até a chegada dos paramédicos. O supervisor segurou a mão de seu filho, queria ter o poder de arrancar toda aquela dor e passar para ele.
Abaixou um pouco a cabeça quando percebeu que Jason tentava balbuciar algumas palavras
— Sa..ra. Sa..ra... — A voz saiu baixa e acompanhada de gemidos de dor enquanto o seu peito arfava.
Um estalo ocorreu na cabeça do entomologista e só então lembrou-se que a alguns metros de distância estava Sara também ferida. Um olhar cúmplice da médica o autorizou a se afastar do seu filho.
Ele correu mais que as suas pernas permitiam. Olhou para os lados e viu o corpo de MontBlanc estendido no chão, ele havia sido alvejado. Aqueles dois disparos provavelmente havia ceifado a vida daquele lunático, e em seu íntimo torcia por aquilo.
Conseguiu afastar alguns curiosos que estavam próximos de Sara e jogou-se ao lado dela.
— Ei Sar ! Querida, sou eu ! — Ele optou por não mexer em seu corpo, pelo o impacto da batida, não queria arriscar colocá-la e um risco ainda maior. — Não me deixe, por favor.
Segurou em sua mão e fez um delicado carinho em seu rosto. Era visível algumas escoriações em sua face. Sara não esboçava nenhum tipo de reação e aquilo o deixou desesperado. Verificou o seu pulso e respirou um pouco aliviado ao perceber que ela estava viva.
— Sar, eu estou aqui do seu lado. Em breve o socorro já vai estar chegando e tudo isso vai passar. — Sussurrava para ela. Os olhos de Sara se abriram por breves segundos e ele sorriu ao encará-la novamente. — Eu te amo, por favor, fique comigo.
Grissom sentiu quando a morena apertou sua mão com um pouco de força. Entendeu aquilo como um sinal que ele precisava. Acariciava o seu rosto e o tempo todo tentava falar palavras que a pudesse tranquilizar.
Os minutos seguintes foram desesperadores. O barulho do som das sirenes cortou pela as ruas e os curiosos abriram espaço para os paramédicos se aproximarem de Jason e Sara. A equipe de primeiros socorros afastou Grissom e Maggie dos feridos, e nesse momento o casal se encarou mais uma vez.
A médica apontou para a ambulância de Sara, ela sabia que a moça estava sozinha e não teria ninguém para acompanhá-la até o hospital. A ambulância com Sara foi a primeira a partir. Os médicos a colocaram no balão de oxigênio e iniciaram os processos com as primeiras verificações. Grissom segurava em sua mão e em seu íntimo fazia uma prece interna para que nada de ruim ocorresse com ela e Jason..
A entrada no hospital foi conturbada. Sara foi levada direto para a análises clínicas, e uma enfermeira prontamente explicou para Grissom que ele não poderia acompanhá-la naquele momento, e sugeriu para o homem assustado que ele preenchesse a ficha com os dados da paciente.
Jason chegou alguns minutos depois e passou pelo mesmo procedimento. Maggie ainda tentou argumentar com o grupo de paramédicos para acompanhar o seu filho, mas eles foram categóricos em afirmar que o acesso seria restrito.
— O que aconteceu, Gil ? — Maggie saiu correndo em sua direção e agarrou o seu corpo em um abraço desesperado. — O nosso filho tomou um tiro e aquela moça foi atropelada. Eu não sei como reagir a tudo isso. Eu estou desesperada.
— Eu também estou ! — O supervisor não conseguiu conter as lágrimas. Aquilo era uma demonstração do inferno na Terra. Apertou Maggie em seus braços e beijou-lhe o topo de sua cabeça. — Como Jason está ?
— Ele está consciente e os médicos suspeitam que a bala esteja alojada, mas ainda é preciso fazer alguns exames. E a moça ?
— Bem, ela… — Grissom passou a mão espalmada em seu rosto. Sentiu os pelos da barba mal feita roçarem em sua pele. — Ela está muito ferida. Não sei dimensionar — Suspirou cansado e sentiu a mão de Maggie segurar o seu rosto. Ele pode ver de perto a angústia no olhar da médica — Vamos passar por isso juntos.
Maggie apenas assentiu e ele uniu os corpos novamente em um abraço. Ficaram daquela forma até se acalmarem o suficiente para resolverem toda a parte burocrática. Grissom tinha poucas informações sobre Sara e fez o suficiente para que nada prejudicasse a sua internação.
Havia se passado mais de uma hora, quando o supervisor saiu em busca de algo que pudesse os alimentar enquanto aguardavam notícias de Jason e Sara. Encontrou uma máquina de café e retirou algumas notas de sua carteira. Levou o líquido fumegante até Maggie, que permanecia de cabeça baixa com estivesse em uma prece.
— É melhor nos alimentarmos. — Ele esticou o copo de isopor e a mulher prontamente aceitou, mas não tinha apetite para nada naquele momento. Grissom lançou um olhar incisivo e ela viu-se obrigada a beber um pouco do líquido preto.
— Sua roupa está completamente manchada de sangue ! — Maggie apontou para o peito de seu marido e só então ambos deram-se conta o quão sujo ambos estavam. Ela passou a mão em sua blusa branca e a palma da sua mão mostrou que o sangue ainda estava fresco. — Isso não pode estar acontecendo.
Maggie desesperou-se novamente, e chamou a atenção de alguns acompanhantes que estavam na recepção. Grissom ajoelhou a sua frente e segurou suas mãos, ele também estava desesperado mas algo dentro dele o alertava que ele precisava se manter firme, não podia ser a última base a desabar.
— Peggy ! — Escolheu a chamar pelo o apelido carinhoso entre eles. Aquele apelido surgiu logo no primeiro dia que se conheceram. Ela havia se apresentado e ele por diversas vezes confundia o seu nome a chamando de Peggy. — Precisamos ser fortes nesse momento ! Jason vai precisar da nossa força nesse momento.
— Você tem razão. — Ela limpou o rosto e tentou se recompor. Bebeu um pouco mais do café já morno e respirou fundo, iria precisar ficar tranquila, por mais difícil que fosse a situação. — Agora faz sentido aquela conta maluca que o Arthur fez na audiência.
— 15 você e 16 Jason. — Grissom concluiu com o olhar fixo no relógio acima do balcão. A cada minuto ficava mais aflito em busca de respostas. Sentiu quando Maggie encostou sua cabeça em seu ombro e pareceu relaxar por um instante. Ele também precisava disso, tombou a sua cabeça sobre a dela e fechou os olhos.
Quietos e em silêncio, escutaram a voz de um homem que perguntava sobre os responsáveis de Jason Woolf Grissom. Os dois levantaram em um sobressalto e caminharam apressados em direção ao médico.
— Nós somos os pais dele. Como ele está ? — A voz de Maggie era apressada e ela sentiu um leve toque de Grissom no seu ombro.
— Prazer, eu sou o Dr. Patrick. O quadro do filho de vocês é estável. A bala estava alojada no ombro direito dele, mas conseguimos remover o projétil durante a cirurgia. — Ele pode ver quando o casal respirou aliviado. — O rapaz teve muita sorte, mais alguns centímetros a bala pegaria no peito dele.
— Isso é uma ótima notícia. — Maggie virou-se para Grissom e sorriu. — Quando poderemos vê-lo?
— Optamos em manter o rapaz na UTI. É o nosso procedimento padrão em vista do ocorrido, mas não se preocupe. Ele está estável e acredito que daqui algumas horas ele vai estar acordado e podendo receber breves visitas. Portanto eu sugiro que os senhores vão para casa trocar de roupa e voltem mais tarde.
O médico reparou nas roupas ensanguentadas dos pais do seu paciente, era certeiro que os dois não iriam sair do hospital enquanto não tivessem notícias de seu filho, mas naquele momento era inviável os dois permanecerem ali daquela forma.
— Doutor, alguma notícia da Sara Ann Sidle ? — A voz de Grissom exitou. Ele poderia afirmar que estava 50% mais tranquilo, mas precisava de notícias de Sara para finalmente respirar aliviado.
— Ela não é a minha paciente. — O médico analisou em sua prancheta e viu o nome da paciente. — A responsável por ela é a Dra. Amber. Infelizmente eu não tenho notícias.
Grissom sentiu o seu peito formigar. Tudo o que ele queria era que aquele dia acabasse ou que tudo fosse um pesadelo e em breve ele fosse abrir os olhos e tudo aquilo iria sumir em um piscar de olhos.
— Gil, eu acho que deveríamos aceitar a sugestão do Dr. Patrick e voltamos para o hotel para trocar de roupa e talvez descansar por alguns minutos. O nosso Jay está bem e ainda vai demorar algumas horas para voltar. — Ela esticou as mãos para tocar em seu rosto.
— Eu não vou sair daqui sem ter informações de Sara. — Ele segurou no punho de Maggie e afastou suas mãos de seu rosto. — Se você quiser retornar para o hotel eu posso conseguir um táxi para você.
— Não será preciso. — A voz dela saiu mais ríspida do que ela imaginava. Ela não estava chateada com o fato dele querer notícias das ex-babá, mas sim de como o comportamento dele mudava quando se tratava de Sara.
Grissom viu uma mulher com um jaleco branco caminhando na recepção e torceu para ser a médica responsável por Sara. Aproximou-se e leu no jaleco da jovem: Amber Colin.
— Imagino que pelo olhar aflito o senhor esteja procurando informações a respeito da senhorita Sidle. — Ela esticou a mão e prontamente o homem à sua frente apertou. — O Dr. Patrick me encontrou no corredor e me disse que você aguardava informações. O senhor seria o que da senhorita Sidle ? — Ela deixou a frase morrer no ar.
— Bem, eu...eu — A mente de Grissom tentava procurar a resposta mais franca para dar, porque na realidade nem ele sabia a resposta para aquela pergunta. — Eu sou amigo dela.
— Ela não tem nenhum parente próximo dela ?
— Eu sou a única pessoa próxima a ela. Por favor, me dê noticias dela !
— Ok ! — A médica reparou no desespero que emanava do homem à sua frente. — Eu e toda a equipe médica ainda não conseguimos definir se o caso da Sara foi sorte ou milagre. O acidente que ela sofreu poderia a levar ao óbito, mas de alguma maneira o impacto foi reduzido e evitou maiores danos.
— Ela está acordada ? Eu posso vê-la ? — Ele precisava certificar que ela estava bem.
— Me acompanhe… — A médica caminhou alguns passos e estagnou no corredor. — Qual o seu nome ?
— Gilbert.
— Ok, Gilbert. Eu preciso explicar o quadro clínico da senhorita Sidle, por esse motivo eu questionei se ela tinha algum parente. Sara quebrou duas costelas e sofreu uma luxação no braço direito. Teve diversas escoriações pelo corpo devido a fricção do corpo ao solo. Fizemos uma bateria de exames e por sorte ou milagre, ela não sofreu nenhum dano cerebral aparente, mas mesmo assim ainda precisamos mantê-la em observação.
— Eu posso ser o seu acompanhante, se este for o problema.
— Não, esse não é o problema. — Havia muita seriedade na voz da médica. Ela estava em uma batalha interna se deveria ou não explicar a respeito daquele procedimento médico. — O problema é que a senhorita Sidle teve uma perda, e essas situações são muito complicadas.
— Perda ? Como assim uma perda ? — Grissom estava confuso com a última frase de Amber.
— Gilbert, quando pacientes chegam desacordados como nas condições da senhorita Sidle, sempre o submetemos a uma exame de sangue antes de enviá-los para uma tomografia ou ressonância. Precisamos ter certeza que não haverá prejuízo se o paciente for exposto a radiação dos aparelhos.
— Gostaria que você fosse mais sucinta. — A interrompeu, já estava irritado com as inúmeras explicações e percebeu a hesitação na voz da médica.
— Acontece que os exames de sangue retornaram e constatamos que Sara estava grávida de aproximadamente 6 semanas. Corremos para realizar uma ultrassom para checarmos a saúde do feto, mas durante o exame foi constatado que o feto não havia sobrevivido ao acidente.
Grissom teve certeza que o seu coração parou de bater quando escutou aquela notícia. Era como se tudo ao seu redor tivesse sumido para se concentrar em tudo o que tinha acontecido: Sara tinha perdido seu bebê.
E ele não conseguia pensar em mais nada além...
A médica viu aquele homem grande desabar sobre o banco. Achou melhor respeitar aquele momento de luto, não era nada fácil dar uma notícia como aquela e durante anos dentro de sua profissão, já havia visto diversas reações.
— O senhor precisa de um tempo ? — Ela parou em sua frente e pôs a mão em seu ombro.
— Ela está acordada ? Eu gostaria de falar com ela. — Grissom limpou as lágrimas com a manga de sua camisa. Levantou-se e tentou se recompor, precisava se manter firme.
— O senhor precisa se acalmar e eu libero para visitá-la. Ela acabou de fazer uma curetagem para retirar o feto e precisa de muito repouso nesse momento. — A médica suspirou vendo a imagem daquele homem. — Me acompanhe por favor.
…
Sara estava sozinha em seu quarto. Uma enfermeira tinha acabado de conectar um soro em seu braço e a orientado caso sentisse alguma coisa, que poderia acionar a campainha que ficava perto de sua cama.
A fala da Dra. Amber ainda ecoava em sua mente. No mesmo dia que ela descobriu que estava grávida, foi informada que o feto não havia resistido à batida. Existiu uma nova vida dentro dela, mas ela não teve tempo para entender todo o processo.
A gravidez era a resposta de muitas de suas perguntas. Desde que havia se mudado para Chicago havia percebido algumas mudanças em seu corpo e em seu comportamento, mas dava a desculpa que estava muito estressada com tudo o que vinha ocorrendo em sua vida.
Instintivamente levou a sua mão até o seu ventre e deslizou o seu polegar sobre o avental branco que usava. Ali era para estar gerando uma nova vida, era para ter uma raiz sua crescendo naquele exato momento. Fechou os olhos e tentou imaginar como seria sua vida
Por um momento Sara sentiu um ligeiro calor no peito. Ela nunca teve raízes, foi arrancada de casa ainda muito cedo. Sua vida se resumia idas e vindas ao orfanato, e depois da sua maioridade, andou em alguns lugares antes de ter um lugar para chamar de lar.
Mas sua vida nunca a permitiu ter algo para chamar de seu. O que ela pensava que era uma família ao lado de Stella e Freddie, havia se desmoronado bem em frente aos seus olhos. Freddie ainda era um irmão para ela, mas o rapaz esperava dela algo que ela jamais poderia dar.
E por algumas semanas ela tinha criado uma raiz. Tinha um bebê. Reconhecia que a vida não seria nada fácil com uma criança ao seu lado. Sua bolsa não daria a permitiria a viver com luxos, mas talvez seriam felizes da mesma forma.
Ela teria uma família, um lar e alguém para chamar de seu ou sua.
Mas assim como já havia acontecido várias vezes antes, as suas raízes eram fracas. E toda aquela ideia foi arrancada antes mesmo que ela tivesse mais tempo para fantasiar. Ela não teve tempo para o susto inicial, o desespero de imaginar sendo uma mãe solo e muito menos sorrir abobalhada na frente no espelho imaginando como seriam os meses dali pra frente.
A ideia de ser mãe nunca havia feito morada em seus pensamentos.
Mas saber que teve essa oportunidade arrancada de uma forma tão brutal a deixou desorientada.
Duas batidas na porta a fizeram abrir os olhos.
Sara viu a silhueta de Grissom adentrar no quarto. Tentou conter novas lágrimas mas foi uma batalha facilmente vencida. Virou o rosto em direção a uma grande janela, tinha uma visão ampla do estacionamento do hospital. Era uma área verde improvisada, e alguns pacientes em recuperação poderiam transitar por ali enquanto médicos e enfermeiros aproveitavam o espaço para descansar.
— Ei, Sara. Como você está ? — Grissom aproximou-se e tocou em sua mão e percebeu quando ela se retraiu ao sentir o toque.
— Viva, eu acho… — Sua voz estava embargada, tentou pressionar os lábios, mas o mínimo contato ardia, devido aos machucados. Ela virou o rosto e só então Grissom pode ver as escoriações em sua pele. — E o Jason ?
— Precisou passar por uma cirurgia. — A voz de Grissom estava cansada. Ele estava começando a despressurizar e entender tudo o que estava acontecendo. — Mas deu tudo certo, e se não fosse por você… — Prendeu a respiração mais uma vez, era difícil externar aquele pensamento. — Provavelmente ele teria sido atingido no peito.
— Ele é forte ! — Sara respirou um pouco mais aliviada, tentou sorrir mas desistiu quando sentiu os ferimentos em seu rosto arderem.
Os dois ficaram em um silêncio constrangedor. Era uma péssima forma de acontecer um reencontro entre eles, mas Grissom estava aliviado em saber que ela estava bem. O seu olhar percorreu o quarto e viu a cadeira de acompanhante vazia. Sara não tinha ninguém para estar ali.
— Sara, eu acho que… — Ele uniu as pontas dos dedos. Queria estar ao lado dela naquele momento, queria ter uma conversa franca com ela sobre a perda do bebê e dar todo o suporte.
— Agora não, Grissom. — Seus olhos se encontraram novamente. O supervisor tinha certeza que não esqueceria tão cedo aquele olhar. Ela o silenciou e coube somente respeitar o pedido. — Você deveria estar com Jason.
— Ele não pode receber visitas, por enquanto… — Grissom caminhou e parou na frente da grande janela. Ficou observando os pedestres ali do alto. Do seu ponto de vista, todos pareciam insignificantes.
— Então deveria estar com a sua esposa. — A voz dela era rude. — Hoje não foi um dia fácil. Ela quem precisa do seu suporte.
— Céus, Sara ! — A sua voz saiu em um grito. Girou sobre os seus tornozelos e virou em direção à maca. Percebeu que Sara encolheu com a sua voz e se arrependeu imediatamente, mas aquele grito desesperado estava a muito tempo preso na garganta. — Será que você não percebe que eu poderia ter te perdido hoje ?
— Mas nós estamos bem… — A voz de Sara saiu baixo, quase em um sussurro. Nunca tinha visto o supervisor daquela forma. Na realidade, foi a primeira vez que tinha prestado atenção nele. Ele estava um pouco mais magro, os cabelos bagunçados e os olhos azuis sem brilho.
— Me desculpa, eu não deveria ter falado dessa forma com você. — Esticou a mão e dessa vez viu que ela não retesou ao seu toque. — Mas eu não consigo a tratar com essa indiferença que você tanto quer.
Sara fechou os olhos por alguns segundos, naquele momento eram muitas emoções para serem administradas ao mesmo tempo. Durante a manhã ela estava em uma reunião com a sua coordenadora, e agora pela a noite, estava em uma maca de hospital ao lado de Grissom e cheia de dores.
— Eu só quero que você saiba que não tem obrigações comigo. — Ergueu uma mão quando percebeu que o supervisor a iria interromper. — O que eu fiz hoje, eu faria por qualquer pessoa. E fico contente em saber que o Jason está se recuperando bem.
— Sara, eu sei sobre a sua...
— Grissom, eu preferia ficar sozinha. — Ela o interrompeu. Encarava no fundo dos seus olhos, precisava manter-se firme. — Espero que você respeite a minha decisão. A sua família precisa de você.
A Dra. Amber abriu a porta e entrou sem pedir licença. Olhou para o casal que pelas expressões corporais pareciam não estar tendo uma conversa amistosa. Interpretou o olhar de sua paciente como um pedido para afastar aquele homem do quarto.
— Sinto muito, mas vou precisar que o senhor se retire.
— Tudo bem. — Grissom meneou a cabeça e abaixou o olhar. — Estimo melhoras, Sara.
A médica observou o homem se arrastar a porta. Escutou o barulho pesado do trinco dar a privacidade para ela e a sua paciente. Ainda ficou em silêncio por alguns segundos, o ar ali dentro estava denso.
…
Grissom saiu extremamente frustrado do quarto de Sara, sua intenção não era estar ali para enfrentá-la, ainda mais em um momento de fragilidade em que ambos estavam passando. Ele decidiu que não tinha mais motivos para estar no hospital, iria aguardar notícias de seu filho no hotel.
Não se importou em dividir um quarto com Maggie, naquele momento não existia nenhum tipo de vaidade. Ele só queria que tudo acabasse e ele pudesse entrar em avião de volta para Las Vegas com a sua família sã e salva.
Tomou uma ducha gelada e se perdeu no tempo dentro do chuveiro. Queria tirar todo aquele sangue do corpo e aliviar um pouco os seus músculos. Secou-se e procurou na sua pequena mala uma roupa confortável. Olhou para a cama convidativa e pensou que seria uma boa ideia alguns minutos deitado em silêncio.
Tentou pensar em todos os acontecimentos daquele dia. Não se lembrava com exatidão o momento em que tudo começou a desmoronar na sua frente. Tinha apenas alguns flashes daquele inferno que tinha vivido..
Mas deitado ali, ele conseguiu respirar um pouco mais aliviado. Jason estava bem, e a qualquer minuto o seu celular iria tocar trazendo boas notícias do seu filho mais velho. Iria fazer de tudo para que o rapaz se recuperasse em casa. E depois tudo entraria nos eixos novamente.
MontBlanc estava morto e não iria mais ameaçar sua família
Jason estaria seguro e em poucos meses estaria na faculdade
Mas nada tirava de sua mente aquela gravidez de Sara. Ela iria privá-lo de conviver com o filho deles ? Ele duvidava que ela fosse fria aquele ponto, mas ela não deu a ele a oportunidade de conversarem sobre o assunto. Tudo o que ele queria era garantir a ela que estaria ali naquele momento, mas tudo o que ela quis foi a sua distância.
Horas mais tarde o seu celular tocou e finalmente era a notícia que ele tanto queria receber. Jason estava acordado e já poderia receber visitas. Ele e Maggie prontamente foram ao encontro do rapaz, que tentou esboçar um sorriso com a presença dos seus pais.
— Você não sabe o medo que sentimos em te perder. — Maggie abraçou o seu filho que dentro de suas limitações retribuiu o afeto.
— Eu sou difícil de ser abatido. — A voz fraca do rapaz fez que os corações de seus pais doessem. Os dois dariam a vida para estar no lugar de Jason.
— O velho cowboy Marvin não se assusta por qualquer coisa. — Grissom ficou saudoso naquele momento. Marvin era o personagem de um desenho animado predileto do rapaz. Um cowboy que sempre salvava a sua cidade dos ataques dos arqui inimigos e sempre ficava com uma bela donzela no final.
— Marvin e Melton, contra tudo e contra todos. — Jason completou com o slogan do desenho. Ele também recebeu um abraço caloroso do seu pai. — Mas eu descobri que eu não sou corajoso com o Marvin, eu tive muito medo de morrer.
— Mas isso já acabou, Jay. E nesse momento é só isso que importa. Daqui a pouco estaremos em casa e tudo isso vai ser só um detalhe. — Maggie acariciou o rosto pálido de seu filho e levou os dedos nos cachos bagunçados do rapaz.
— Como a Sara está ? — A pergunta foi direcionada para o seu pai. Percebeu em como seus pais ficaram tensos com a menção do nome da sua ex-babá.
— Ela está bem.
Jason estranhou a atitude do seu pai, mas não tinha forças para questioná-lo naquele momento. Percebeu que a sua mãe também tinha mudado o comportamento e o quarto ficou em um silêncio sacro.
— Vejo que seguiram o meu conselho e foram para casa descansar. — O Dr. Patrick abriu a cortina que dividia os leitos. O médico animado mudou o ar do ambiente. — Em poucos dias esse rapaz já poderá ir para o quarto e em breve terá alta.
— Que ótimo ! Permanecer no hospital pertence a uma parte da família que eu não faço parte.
O médico fez uma careta e prontamente Maggie explicou que ela e seus pais também eram médicos em Las Vegas. O médico prontamente sorriu e em cortesia, entregou a sua prancheta com as anotações médicas de Jason para sua mãe ler.
Grissom observava tudo um pouco afastado. Estava feliz pela a recuperação do seu filho e provavelmente no dia seguinte ele já estaria longe daquela UTI. Sua mente o levou para um local que ele não queria ir, pegou-se imaginando como seria seu filho com Sara.
Sorriu ao pensar que queria que seu filho tivesse o gênio dela. Seria interessante ver o crescimento de um Sidle-Grissom. Na realidade, queria que o bebê fosse inteiramente como ela, assim ele iria certificar que seria uma criança perfeita.
— Bem, eu acho que os papais já certificaram que o rapaz está bem e agora eu preciso pedir que vocês se retirem. Não queremos cansar o nosso cowboy.
— Amanhã nós retornaremos ! — Maggie deu novamente um abraço em seu filho e o menino sussurrou um muito obrigado para ela.
— Se tudo ocorrer bem, em breve ele estará no quarto e vai poder ter acompanhante.
— Isso é ótimo ! — Grissom alegrou-se, não queria que Jason ficasse sozinho por muito tempo.
— Dr. Patrick. Será que você libera mais alguns minutos para eu poder conversar com o meu pai a sós ? — Maggie e Grissom poderiam jurar que conheciam aquele olhar, era o mesmo olhar que Emma fazia quando queria alguma coisa.
— Libero 5 minutos para os rapazes e nada mais. — O médico encarou os dois homens e ambos assentiram em concordância. Maggie imaginava qual seria o assunto da conversa, mas depois iria interrogar o seu marido para saber o que estava acontecendo.
Depois que o Dr. Patrick e Maggie saíram de perto do leito. Jason fez um sinal para que seu pai pudesse se aproximar de sua cama. O perito auxiliou seu filho para melhor se acomodar.
— Eu quero estar com a Sara. Ela salvou a minha vida. — A voz dele era firme na medida do possível.
— Jay...
— Pai, tudo o que a Sara sempre fez por mim foi me proteger, e eu a tratei de uma forma muito imatura. Tem noção que se o universo não tivesse girado, eu não estaria aqui?! Se ela não estivesse na porta daquele fórum, nesse exato momento eu estaria acomodado em uma sala muito mais fria que essa ?
Grissom fechou os olhos para tentar afastar aquela imagem. Jason tinha razão, se não fosse por Sara ele poderia ter perdido seu filho e Maggie. Provavelmente não estaria ali tendo aquela conversa, e sim em um cartório pegando duas certidões de óbito.
— O meu assunto com Sara não vai ultrapassar nenhum limite que ela não queira. Eu quero apenas me desculpar e agradecer por isso. — Jason levou o indicador até o curativo em seu ombro.
— Vamos dar um jeito para que isso aconteça. — O Dr. Patrick abriu a cortina e indicou o relógio. O tempo havia esgotado. — Se cuida, Marvin ! Amanhã eu e sua mãe estaremos de volta.
Parado no corredor, ele avistou Maggie sentada no banco brincando com uma menina um pouco mais nova que Emma. Provavelmente a médica tentava distrair a criança enquanto algo sério estava acontecendo, Maggie tinha esse dom.
Aproveitou o momento e saiu caminhando na direção oposta. Precisava ficar a sós por alguns minutos, mesmo que estivesse em um ambiente tão carregado como aquele. Com as mãos enterradas no bolso de sua jaqueta, ele entrou no elevador que dava acesso para a cobertura do hospital.
Era uma área comum entre médicos e pacientes autorizados, talvez ali fosse um bom espaço para estar. As portas do elevador abriram e junto com ele, um pequeno grupo saiu em direção a cobertura. No entanto, algo chamou a atenção do supervisor: era o berçário.
Ele parou e ficou observando alguns bebês através do vidro. O ambiente enfeitado com cores claras e alguns personagens infantis trazia uma paz imensa dentro daquele hospital tão agitado.
Lembrou-se de seus filhos quando ainda eram recém-nascidos. Com os dois, ele manteve o mesmo ritual: quando Maggie adormecia, ele ia até o berçário ficar admirando seus filhos. Ele nunca imaginou que um dia teria uma família, mas quando Jason e Emma nasceram, ele teve certeza que era isso que precisava em sua vida.
Viu uma enfermeira sorrir para ele, provavelmente ela acreditou que era algum pai coruja observando o seu bebê. Apenas meneou a cabeça e desviou o olhar para um berço vazio.
— Também está vigiando a sua cria ? — Um homem loiro de feição quadrada aproximou-se de Grissom. Bebia um café quente e pela as marcas em seu rosto, fazia tempo que não tinha uma boa noite de sono. — Prazer, Brad.
— Gilbert. — O perito esticou a mão e recebeu um aperto caloroso.
— A minha filha é aquela do canto esquerdo — Ele apontou através do vidro e deu um ‘tchau’ para o berçário. — Zoe. Sou pai de primeira viagem, então tudo é novo. — O homem estava muito empolgado e Grissom não conseguiu evitar de achar graça. — Desculpe, estou falando demais.
— Não se preocupe, Brad. — Ele suspirou e relaxou um pouco os ombros. — Aproveite esse tempo, eles crescem muito rápido.
Sem pedir licença, ele afastou-se do ‘pai empolgado’ e empurrou a porta pesada que dava acesso ao terraço. Para a sua sorte, o local estava praticamente vazio. Talvez o clima frio e nublado favorecesse a ausência de pessoas.
Acomodou-se no banco de concreto e sentiu uma brisa gelada acariciar sua pele. Apoiou os cotovelos em sua perna e segurou o peso de sua cabeça entre as suas mãos. Não estava sendo nada fácil.
O peso dos dias recaiu sobre ele. Não conseguia organizar os seus pensamentos, mas no fundo sabia que precisava tomar algumas decisões. Teria que assumir alguns sentimentos e estar preparado para as possíveis consequências.
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