Sim, Senhor.
49 Capítulo 49
Notas iniciais
Finalmente Jason já estava se recuperando no quarto. O seu médico não quis prolongar a sua estadia na UTI, sendo que ele poderia perfeitamente se recuperar no quarto e em breve ter alta. Seus pais revezavam para ele não estar desacompanhado em nenhum momento, e ele já percebia o esgotamento nos dois.
— Ei, Mercy. — Jason abriu um belo sorriso, muito parecido com o de sua mãe. — Será que você poderia me conseguir um pedaço de papel e uma caneta ?
— Que pedido inusitado. — A experiente enfermeira riu — Não me diga que é um rapaz romântico que gosta de enviar cartas.
— Eu até gosto de escrever cartas para a minha namorada — Sorriu — Mas não é esse o motivo.
— Pegue ! Mais tarde você me devolve. — Retirou do bolso do seu jaleco uma caneta e um bloco de notas, deixou na mesa ao lado da cama e saiu logo em seguida.
Jason iria aproveitar a ausência de sua mãe, que estava no refeitório se alimentando, para ir até o quarto de Sara. Soube que ela teria alta a qualquer momento naquele dia e seria a sua última e perfeita oportunidade de conversar com a sua ex-babá.
Sabia que a sua mãe não iria aprovar a sua atitude por motivos de saúde e também por não querer a sua aproximação com a morena, mas ele iria fazer aquilo. Optou por escrever um bilhete para Maggie para não deixá-la preocupada.
Fui resolver um pequeno problema
Retorno em 15 minutos. Não acione as autoridades.
Eu estou bem :)
Jay/Marvin
Pegou a jaqueta que seu pai havia deixado na poltrona e jogou sobre os seus ombros, fazia um pouco de frio e ele não queria transitar pelos corredores apenas com as roupas hospitalares, sabia que poderia ser advertido e obrigado a retornar para o seu quarto.
No entanto, não sabia qual era o andar e o quarto que Sara se encontrava. Com sorte ele encontrou com o seu médico caminhando em sua direção e pelo olhar reprovador do Dr. Patrick, sabia que precisaria ser persuasivo.
— Não me lembro de ter recomendado caminhadas e muito menos ter autorizado que você andasse livremente. — A voz do jovem médico era carregada de ironia.
— Realmente não autorizou, mas eu preciso encontrar com uma amiga e gostaria de sua ajuda.
— Que interessante ! Você quebra as regras hospitalares e ainda requer a minha ajuda. — Patrick cruzou os braços. — Agora você tem a minha atenção. Em que posso ser útil ?
— Eu preciso saber em qual quarto está uma paciente chamada Sara Sidle. — Jason estava calmo. Se não fosse com a ajuda do seu médico, iria encontrá-la sozinho. — Ela é uma pessoa muito importante e eu tenho uma dívida eterna com ela.
O médico ficou em silêncio. Ele havia ficado sabendo da história através dos paramédicos que fizeram os primeiros socorros e também soube do ocorrido conversando com Grissom. Resolveu não questionar mais nada, apenas indicou o elevador e o acompanhou até o segundo andar.
— Quarto 205, mas lembre-se... — Ele segurou em seu ombro o fazendo encarar. — Não demore. Hospital não é lugar para reconciliação. Não quero perder todo o progresso que eu já fiz com você.
— Eu prometo que serei breve. Não vou trair a sua confiança.
— Passo em seu quarto daqui 20 minutos e espero encontrar você deitado. — Patrick piscou para Jason e viu o menino anuir.
Jason encontrou rapidamente o quarto de Sara, torcia para que ela estivesse a sós, e que principalmente que estivesse disposta a ouvi-lo. Bateu na porta e aguardou a autorização, quando ouviu sua voz baixa, respirou fundo antes de entrar.
— Podendo receber visita ? — Ainda com a porta aberta, ele a viu deitada na cama. O braço de Sara estava preso por uma tipóia ortopédica. Com o avental aberto, ele viu as faixas que protegiam as escoriações em seu tronco.
— Jason ?! — Ela realmente estava surpresa com a presença do rapaz, talvez ele fosse uma das últimas pessoas que imaginaria que pudesse estar naquele quarto.
— Podemos conversar ?
— Entre. — Sara fechou os olhos e apoiou a cabeça no travesseiro macio. Sentia dores e não estava disposta a iniciar um novo embate. — Não esperava receber nenhuma visita. Não estou vestindo as minhas melhores roupas. — Ironizou apontando para o avental aberto.
— Não se preocupe. Estamos vestidos com o mesmo outfit — Ele abriu a jaqueta preta e mostrou que também usava uma tipóia no braço e o avental hospitalar. Seu sorriso sumiu em seus lábios quando percebeu que Sara não o acompanhou. — Espera ! — Só então deu-se conta que ela não tinha companhia — Meu pai não está vindo te visitar ?
— Qual o motivo da sua visita ? — Ignorou a pergunta. Mas havia visto Grissom apenas no dia do acidente, depois disso as suas únicas visitas eram das enfermeiras e sua médica.
Sara ficou tensa, ela estava com medo da resposta do rapaz. Não tinha dimensão sobre o que ele sabia sobre o seu acidente. Não queria tocar em um assunto em específico e tinha medo que Grissom pudesse ter revelado sobre a perda do bebê.
— Eu preciso te pedir desculpa pelos últimos acontecimentos. — A voz dele saiu fraca. Estava envergonhado. — Não dimensionei todos os meus atos e acabei machucando quem estava ao meu redor.
— Isso não é necessário. — Para ela aquilo era realidade. Toda aquela confusão só provava que ela estava certa em se manter longe deles.
— Se você acha que não é preciso que eu te peça desculpas, pelo menos me escute e me deixe tirar esse peso das minhas costas. — A voz dele estava embargada, respirou fundo e sentiu um pequeno incômodo em sua cabeça. Talvez tivesse sido um erro estar ali. — Você se importaria ?
Sara meneou a cabeça em negativo. Observou o rapaz se arrastar com dificuldade até a poltrona que ficava próxima a janela. Parou em silêncio alguns instantes observando as gotas de chuva deslizarem lentamente no vidro limpo.
— Foi muito difícil ver que o meu pai tinha conseguido seguir a vida depois da partida da minha mãe. Talvez no fundo, quando eu vi ele ao seu lado, eu tenha sentido um pouco de inveja. Por mais que eu tentasse transparecer algo diferente, eu sempre estive preso ao dia que ele me contou que a minha mãe não voltaria para casa.
Ele virou em direção a Sara e percebeu que ela tinha os olhos fixos nele. Apontou para a poltrona vazia e sentou-se quando ela autorizou. Tinha ensaiado todo um discurso, mas quando abriu a porta daquele quarto, todas as palavras haviam evaporado.
— Eu sempre ouvia algumas indiretas dos meus avós e isso sempre me incomodava, mas eu preferia sempre dar um voto de confiança para vocês. — Deu uma risada sarcástica e percebeu que Sara apertou os lábios. — Acho que no fundo, eles só estavam querendo alimentar os meus pensamentos para que eu tivesse aquela reação bem antes do esperado.
— Eles só queriam apagar o fogo com gasolina. — A voz de Sara estava carregada de ironia. Ela já não precisava ser polida.
— Não duvido que seja isso. — Balançou a cabeça lentamente, como quisesse afastar a memória dos seus avós. Eles seriam assunto para outro momento. — Quando eu vi você e o meu pai se beijando naquele pub, eu me senti traído de diversas formas.
— Eu não entendo, Jason. — Ela finalmente aceitou fazer parte daquela conversa. — Eu não consigo entender a sua reação.
— Eu ainda era o mesmo Jason que tinha sido abandonado pela mãe, lembra ?! — Ensaiou um sorriso mas estava agitado demais para isso. — Estava vendo o meu pai trair a minha mãe com uma pessoa que eu confiava. — Ergueu o olhar e Sara desviou o seu para a porta. — Sara, eu reconheço que fui imaturo.
— Eu te imaginava mais maduro. Mas depois de tudo o que eu ouvi da sua boca, eu realmente percebi que eu havia me confundido.
— Aceito o seu comentário, mas eu gostaria que você se colocasse no meu lugar por alguns segundos. — O seu tom de voz era calmo.
Sara ficou calada. Jason estava ali de peito aberto tentando uma aproximação, e conhecia o rapaz o suficiente para saber que era orgulhoso como o seu pai. Do ponto de vista dele, não era nada fácil.
— Quando eu vi todas as cicatrizes da minha mãe e ouvi todo o relato dela, eu fiquei descontrolado. — Sentiu um nó se formar em sua garganta, sabia que precisava liberar tudo o que estava sentido. — Eu via aquelas marcas, mas todas as vezes que eu fechava os meus olhos eu só via vocês dois se beijando.
— Eu nunca quis que isso acontecesse.
— Mas aconteceu, e eu não tinha o direito de agir daquela forma. Talvez eu esteja aqui tentando justificar tudo o que fiz, mas eu preciso enfatizar que eu não me orgulho de nada. Mas eu nunca consegui realmente odiar a minha mãe pela ausência dela. E quando ela volta tão ferida e com aquela bagagem emocional, eu não tive outra alternativa.
— Só vamos esquecer isso. — Sara estava cansada. Não queria fazer que o rapaz precisasse revirar tantas memórias.
— Não ! Sua voz saiu alta — Sara, você sempre quis o nosso bem ! A forma como você cuidava de mim e da minha irmã era sincera. Eu não sei como surgiu algo entre você e o meu pai, mas só depois que você foi embora, foi que eu também percebi como você também fazia bem para ele.
— Você está aqui por quem ? Por você ?
— Somente por mim ! — Ele sustentou o olhar pesado de Sara. — Mas isso não significa que o meu pedido de desculpas não vai respingar em outras pessoas. Eu estou te pedindo desculpas, mas eu também quero que o meu pai seja feliz.
— Eu aceito as suas desculpas. — Ela queria encerrar aquele assunto, se era o seu perdão que Jason precisava, ele o teria, mas nada além disso. Precisava de paz e com toda aquela história orbitando ao seu redor seria impossível.
Jason levou uma mão até o seu rosto e não conseguiu mais controlar as suas lágrimas. O choro que era suave como uma brisa, tornou-se violento e o seu corpo sacudia. Ele sentia o seu corpo doer, mas ele precisava desabar daquela forma. Aquele não era um choro de um dia, era um desespero preso de anos.
— Ei Jason ! — Sara sentiu uma dor muito forte enquanto tentava sentar na cama para alcançar o rapaz. Fechou os olhos e em um impulso conseguiu erguer-se para sentar. Segurou um gemido agudo de dor na garganta, sabia que aquela peripécia iria custar caro. — Jay ! Olhe pra mim !
O rapaz negou-se a erguer a cabeça e desviou a cabeça para o outro lado. O seu peito ainda contraia, parece que o seu corpo estava trabalhando freneticamente para livrá-lo de toda aquela angústia reprimida.
— Jay ! O que está acontecendo ? — Ela tocou em seu ombro e só então Jason ergueu a cabeça. Nunca tinha o visto naquela situação.
— Sara nós dois poderíamos ter morrido ! Você já parou para pensar nisso ?
Ela então entendeu. A mente do rapaz devia ser um turbilhão de pensamentos.
— Mas isso não aconteceu. Estamos com alguns arranhões, mas estamos vivos ! — Ela sorriu, provavelmente a primeira vez desde que entrou naquele hospital. — Aquele maluco não vai poder mais chegar perto da sua família.
— Sara, eu não sei como te agradecer por tudo o que você fez por mim. — Com a mão livre, enxugou as suas lágrimas e tentou se recompor. — Eu talvez leve uma vida para te pedir perdão por tudo o que eu ocasionei em sua vida, mas eu entendo se você não fizer isso.
— Jay ! Olhe para mim. — A dor dela estava ficando cada vez mais intensa. Estava fazendo muito esforço para estar ali de pé. — É claro que eu vou te perdoar, na realidade, eu também preciso te pedir desculpas por tudo o que aconteceu.
Jason reparou que Sara estava com a respiração ofegante. Com a mão apoiada em suas costelas, ela tentava buscar a cama novamente, mas a altura da maca a estava impedindo de retornar para a posição inicial.
— Sente-se aqui, Sara. — Ele rapidamente levantou-se e deu lugar para a morena. Quando o corpo de Sara encostou na poltrona macia, soltou um breve gemido. Aquelas dores ocasionadas por esforço era apenas um breve aperitivo que ela sentiria nos próximos dias. — Paciência nunca foi o seu forte, né ?!
— Eu preciso me adaptar, na minha casa eu não tenho enfermeira para me auxiliar. — Ela ensaiou um sorriso mas o cansaço foi maior.
— Me desculpe por tudo isso. Eu não raciocinei direito para lidar com a sua situação com o meu pai. — Balançou a cabeça, sacudindo os cachos bagunçados. — E tudo isso fez que a Stella se afastasse de você, e eu sei que vocês duas sentem falta uma da outra.
— Você não faz ideia ! — Foi a vez de Sara observar a chuva através da janela. A frieza em que Stella havia decidido tratar todo aquele assunto a machucava muito. Em uma breve conversa, a governanta foi sucinta em pedir um tempo para digerir tudo.
— Eu também estou disposto a resolver a situação entre vocês.
— Não é necessário, Jay. — Sara instintivamente levou a mão até o seu ventre. Imaginou que se seu filho ainda estivesse ali, queria que ele tivesse a bondade de Jason, talvez que fosse um pouco menos explosivo. — Stella precisa do tempo dela.
— Ela vai te enxergar da mesma forma depois que souber que você foi a minha heroína. — O rapaz abriu o seu belo sorriso e piscou. Estava se sentindo um pouco mais tranquilo desde o início daquela conversa.
— Vamos deixar o tempo agir, Jay ! — Ela sorriu e o rapaz a acompanhou. — Gostaria de me desculpar por ter traído a sua confiança. Não agi da melhor forma.
— Só vamos esquecer sobre tudo isso. Solve et Coagula *
— Solve et Coagula. — Ela concordou com o provérbio. Não tinha noção de como seria a relação entre os dois dali pra frente. Talvez a distância os tornassem novamente como dois estranhos, mas se estivesse virando aquela página, estava feliz por fazer isso em paz.
Jason aproximou-se novamente de Sara, esticou o braço livre e tentou abraçá-la. Era uma cena engraçada, ele não deixou a morena ficar de pé novamente, não queria gerar um esforço desnecessário. Sara apoiou a cabeça no ombro do rapaz e ouviu ele sussurrar um “muito obrigado”.
— Patrick ! Achei o seu paciente fujão ! — Dr. Amber abriu a porta e sorriu com a cena da dupla. — Pode suspender as buscas.
— Jason ! Sua mãe está bem irritada te aguardando no quarto. Eu acho melhor deixar a troca de afeto para quando os dois estiverem 100% recuperados.
Sara e Jason se encararam incrédulos, os médicos estavam suspeitando que eles eram um casal de namorados. O rapaz riu sem graça e Sara riu do embaraço, mas logo precisou parar por conta de uma dor aguda em sua costela.
— Ok ! Ok ! Rapaz para o seu quarto que eu preciso examinar a minha paciente. — A médica balançou as mãos indicando a saída do quarto.
— Obrigado por tudo, Sidle !
…
Sara estava aliviada com a notícia que tinha acabado de receber. Depois de alguns dias, finalmente iria receber alta e poderia terminar a sua recuperação em casa. Finalmente iria abandonar aquele ambiente hospitalar que tanto tinha repulsa.
— Fico feliz que você vá para casa. — A enfermeira Mercy havia se afeiçoado a Sara. Durante o seu turno, em momentos que ela tinha um tempo extra, ia até o seu quarto para conversarem. Sentia-se incomodada pelo fato da jovem estar sozinha e não receber visitas. — Mas quando quiser marcar um café, vou deixar o meu número.
— É claro que eu quero, Mercy. — Sara sorriu enquanto a experiente enfermeira retirava os aparelhos de seu corpo. — Vai ser muito bom ter uma amizade aqui em Chicago.
— E se não for ousadia, eu também quero visitá-la e acompanhar o seu progresso. Nos corredores o seu apelido é “sorte ou milagre”. Pelo o seu acidente, você sair daqui com em tão pouco tempo só pode ser uma dessas opções.
— Sua visita será bem vinda, Mercy. — Sara sorriu. Só queria sair logo dali. Observou que a sua nova amiga estava com uma sacola de roupas de uma loja de departamento. Todas as peças pareciam servir perfeitamente para ela. Uma blusa de botões, uma conjunto de moletom com zíper e roupas íntimas. Todos na cor preta. — Minhas roupas foram destruídas ?
— Rasgadas e incineradas. Estavam sujas de sangue e os socorristas não tiveram pena em cortá-la para os primeiros socorros. — Mercy a auxiliava a se vestir. A cada movimento, Sara sentia uma pontada diferente. Seria bem difícil lidar sozinha.
— Obrigada pelas roupas.
— Não somos autorizados a trazer roupas para os nossos pacientes. — Mercy terminou de fechar os botões da blusa. Ergueu o olhar e percebeu que a sua nova amiga ainda tentava assimilar. — Foi o pai do paciente do leito 407.
Grissom.
— Ah sim ! — Sara ficou surpresa com a movimentação do perito. — Como ele sabia que eu teria alta hoje ?
— Todos os dias ele encontra com a Dra. Amber nos corredores e ela passa um boletim a seu respeito. Hoje depois que eu verifiquei o rapaz, ele me entregou essa sacola e me disse que você sabia sobre o que se tratava. — A enfermeira suspirou fundo quando percebeu que havia sido enganada. — Mas me parece que você estava no escuro a respeito disso.
— Sem problemas. — Ela abriu um sorriso tímido. — Se puder agradecê-lo…
A enfermeira apenas balançou a cabeça, não sabia nada sobre os dois, mas imaginava que existia alguma coisa acontecendo entre eles. Com dois toques em seu joelho, Mercy indicou que ela estava livre. A mulher abriu a porta e puxou uma cadeira de rodas prateada e sorriu quando viu a paciente contorcer o nariz.
— Regras do hospital. — Deu de ombros. — Venha, eu vou te dar uma carona até a porta. Os balões decorativos estão te aguardando do lado de fora.
Ela indicou a cadeira e viu estampado no rosto de Sara a resistência. Sabia que a jovem não estava confortável em desfilar pelo o corredor daquela forma, mas ela ainda não estava totalmente recuperada para longas caminhadas. Na recepção ela viu o pai do paciente 407 encarando o chão.
— Acho que você vai poder agradecer as roupas presencialmente. — Inclinou-se o suficiente para sussurrar em seus ouvidos.
Sara percebeu a aproximação de Grissom, e torceu para que Mercy não a deixasse sozinha naquele momento. O perito e a enfermeira trocaram um cumprimento cordial, e a mulher empurrou a cadeira até a entrada do hospital. Caia uma chuva fina e Sara agradeceu por estar com roupas quentes.
— Me ligue em caso de qualquer emergência. — Mercy retirou do seu bolso um pequeno pedaço de papel com o seu telefone e entregou para Sara.
— Obrigada por tudo. — Sara suspirou aliviada por estar ali sozinha, mesmo precisando se desdobrar para conseguir um táxi naquelas condições. Enquanto estudava a melhor forma para levantar da cadeira, percebeu uma sombra masculina passar ao seu lado e ir até o meio da pista.
Cerrou os olhos e percebeu que era Grissom que tentava conseguir um táxi debaixo de chuva. Um carro prontamente reduziu a velocidade e ele indicou a calçada próxima a Sara.
— Me deixe te ajudar a entrar no carro. — Ele percebeu a dificuldade que a morena tinha para movimentar. Envolveu o braço em sua cintura e a ajudou a ergueu-se da cadeira. Com passos lentos e calculados, a conduziu até o banco macio do estofado. Deu a volta no táxi e entrou pela a outra porta do carro. — Qual o endereço, Sara ?
Ela engoliu a seco quando percebeu que teria companhia até a sua nova casa. Sem forças para relutar, informou o endereço para o motorista. Durante todo o trajeto, não trocaram uma palavra ou olhar. Sara percebia que ele estava afastado e sua mente parecia estar distante dali.
O táxi parou diante da nova casa de Sara, ele em silêncio a auxiliou a sair do carro. A chuva havia aumentado e nenhum dos dois estava munido com um guarda-chuva. Grissom improvisou a sua jaqueta sobre suas cabeças, mas era um gesto quase inútil, a intensidade era muito forte.
Quando eles pararam na porta, só então que Sara percebeu que Grissom carregava a sua mochila, eram os únicos pertences que haviam restado depois do acidente. Indicou que a chave estava no pequeno bolso externo. Com as chaves em mãos, abriu a porta e sentiram o calor da casa abraçar os seus corpos.
— Onde fica o seu quarto ? — A voz rouca de Grissom foi o único som a cortar o ambiente.
— Final do corredor.
Ele apenas assentiu e a conduziu até o cômodo. Com cuidado e delicadeza, a colocou sentada em uma poltrona próximo a sua cama. Retirou a mochila de suas costas e deixou próximo ao criado mudo. Sara reparou que ele continuava a não encarar e aquilo estava deixando irritada.
Ela suspirou fundo enquanto observava o supervisor arrumar a sua cama. Havia alguns livros espalhados e os lençóis estavam bagunçados. Grissom abriu a porta de seu quarto e saiu do cômodo.
Sentia que estava sendo ignorada dentro da sua própria casa.
Resolveu tratá-lo da mesma forma.
Ela estava encharcada e precisava tomar um banho quente para evitar o pior. Sentia falta de estar em sua intimidade, mas sabia que teria dificuldades para se adaptar com tantos machucados e ferimentos.
Empurrando um tênis no outro, conseguiu se livrar dos sapatos. Com a mão livre, começou a tarefa de desabotoar sua blusa preta. Pacientemente, reconheceu que uma tarefa simples como aquela iria demandar tempo. Abriu o fecho de sua tipóia e sentiu um alívio imediato em seu pescoço.
Com o dorso totalmente exposto, ela sentiu o ar encostar em sua pele gelada. Olhou para os lados imaginando como poderia levantar. A sua peripécia de levantar da cama para conversar olho a olho com Jason havia custado caro, ela poderia jurar que tinha quebrado outra costela só com aquele movimento.
Grissom retornou para o quarto com uma banqueta em mãos. Ignorou a movimentação inquieta de Sara na poltrona e acertou quando imaginou que aquela porta era um banheiro. Colocou a banqueta no box e abriu o chuveiro, queria certificar que a água estava em uma temperatura ideal.
Retornou para o quarto e encontrou Sara sem sua camisa. Olhou para o tecido preto e molhado amontoado no chão e ergueu o olhar para finalmente encara-la. Ela ignorava a presença dele e tentava sair da poltrona. Aproximou-se e colocou a mão em sua cintura, era uma proximidade perigosa.
— Você não precisa fazer isso.
— Mas eu quero. — Sara encolheu-se. Pelo o tom de voz e a forma de encarar, ela reconheceu o antigo Grissom ali. O mesmo homem que havia sido frio e distante quando se conheceram.
Ela não tinha como negar o seu auxílio. Grissom a ergueu novamente e a conduziu até o banheiro. Com cuidado terminou de despi-la. Sua pele estava gelada e ela se retraía a cada toque.
Quando ela sentiu a água quente cair sobre o seu corpo, ela fechou os olhos em agradecimento. Estar em casa depois de tudo o que tinha acontecido responderia a pergunta feita pelos médicos: Ela era sorte.
Se fosse milagre, não teria perdido aquela criança.
A cada toque de Grissom em sua pele, ela sentia que ali era o seu pequeno inferno. Era torturante tê-lo ali daquela forma. Sabia que ele estava fazendo tudo aquilo porque sentia-se culpado pelos últimos acontecimentos.
Suas lágrimas misturavam-se à água quente do chuveiro. Seu peito doía e tinha vontade de gritar com ele, não queria a sua gratidão. Não se contentava apenas com aquilo, ela era diferente de Maggie.
— Gostaria de ficar sozinha. — Percebeu que o seu pedido não surtiu nenhum efeito. — Eu consigo me virar. Saia, por favor ! — A sua voz era imperativa. Quando ele ergueu o olhar, percebeu que ele tinha entendido.
Grissom limitou-se a dar um passo para trás. Não estava disposto a exceder nenhum limite, ainda mais naquelas condições. Puxou a cortina branca e deu a Sara a privacidade que ele tinha invadido. Encarou-se no espelho embaçado e não conseguiu se reconhecer, estava completamente exausto. Antes de sair do pequeno banheiro, teve o cuidado de deixar a toalha no gancho próximo ao chuveiro.
Sara ouviu a porta do quarto sendo fechada, e só então ela conseguiu estar em paz. Liberou todo o ar dos seus pulmões e cada vez que ela inspirava, o seu corpo fazia questão de lembrá-la de cada ferimento. Com muita dificuldade e dor, ela fez o melhor que podia debaixo daquele chuveiro.
No quarto, colocou um conjunto confortável e quente para aquele dia. Seu corpo latejava de dor e ela estava perto de entrar em desespero, não aguentaria passar por tudo aquilo sozinha. Não era apenas a dor física, mas a sua mente estava totalmente descalibrada. Estava com medo, e toda vez que os seus pensamentos a levavam até o incidente, ficava paralisada.
Deitou na cama e fechou os olhos. Os ferimentos em sua pele estavam ardendo e a sua costela latejava, sabia que o efeito dos medicamentos já estavam terminando. Fez uma breve lista mental das tarefas que precisava realizar, mas estava fraca demais para levantar daquela cama.
Ouviu a porta do seu quarto ser aberta e a figura de um Grissom completamente irreconhecível adentrar no cômodo. Ele estava encharcado, com os cabelos bagunçados e um olhar sem brilho algum. Sua respiração pesada transparecia o seu nervosismo.
— Podemos conversar ?
— Eu acho que nenhum dos dois está em condições de manter uma conversa frutífera nesse momento. Eu gostaria de…
_ Você sabia ? — O supervisor a interrompeu. A voz dele era um sussurro. Precisou de coragem para fazer aquela pergunta
Sara apenas desviou o olhar. Novamente o assunto que ela não queria tocar estava orbitando ao seu redor. Não queria falar daquela criança, queria apenas focar na sua recuperação e agir como se nada houvesse acontecido.
— Não ! — A resposta uníssona veio carregada de rancor. Percebeu que o rosto do perito contorceu em dúvida, ele não estava acreditando em sua palavra. Em um ato de raiva, levantou-se, esquecendo das dores e caminhou até o banheiro. Abriu o compartimento do espelho e retirou uma caixa rosa. — Agora você acredita em mim ?
Jogou o teste de gravidez lacrado sobre o peito do supervisor e não se importou com a reação assustada dele. Grissom pegou a caixa e pôs sobre a cama. Naquele momento apenas o seu silêncio iria bastar.
— Porque você não me respeita quando eu te peço para se afastar de mim ?
— Porque eu não consigo, Sara ! — Sua voz saiu alta. — Será que você não consegue ver isso ?
— Faça um esforço para conseguir. Porque eu realmente tentei fazer tudo isso de uma forma amigável, mas você tem sérias dificuldades para ouvir um não. Será que você não percebe que isso nunca vai dar certo ? — Ela apontou para os dois. — Destruímos a sua família, eu destruí o meu relacionamento com a Stella, que é a pessoa que eu mais amo. — Ela sentiu um nó se formar em sua garganta, iria desabar, tinha certeza. — Destruiu a chance de ter uma família, de ter uma raiz…
Grissom apenas observou a Sara desabar sobre a cama, ele mesmo não tinha forças para estar ao lado dela naquele momento. Ficou inerte vendo a morena sacolejar o corpo a cada nova onda de choro.
— Eu preciso ficar sozinha.
Ele apenas assentiu. Ele também precisava estar sozinho naquele momento.
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