Sim, Senhor.
25 Capítulo 25
Notas iniciais
Os resquícios de inverno já havia dado lugar para o calor tórrido de Las Vegas, as roupas invernais já estavam dispostas no fundo dos guarda-roupas e gavetas. Os dias eram mais cansativos que o normal, naquele ano as fortes ondas calor não daria trégua.
Grissom estava na cozinha, encheu um copo e depositou algumas pedras de gelo. Era tão satisfatório que se permitiu fechar os olhos enquanto a sensação gelada deslizava por sua garganta. Colocou o copo na pia e ainda permaneceu com as mãos apoiadas no mármore frio do balcão, fechou os olhos mais uma vez e suspirou fundo.
— Dormindo em pé, Gil? — Beth apareceu e serviu-se de um generoso copo de suco. Parou ao lado de Grissom e ficou fitando a sala vazia.
— Apenas descansando um pouco. — Ele cruzou os braços. — As crianças vão sentir a sua falta, tenha certeza.
— Eu também vou sentir a falta de vocês. Foi muito bom esses dias que eu estive com vocês, mas a vida continua.
— D.Beth continua desapegada de sentimentos. — Sorriu de lado, sua mãe apoiou a cabeça em seu ombro e aquele cheiro que emanava da cabeça dela era o mesmo da infância.
— Eu só me faço de durona. Assim como você. — Deu duas batidinhas de leve em seu braço e foi em direção a sala. Suas malas já estavam preparadas ao lado do aparador. — Eu estou pronta, Gil.
Grissom pegou sua carteira e seu óculos escuro, agradeceu internamente por seu carro ter ar condicionado, aquele dia estava realmente quente e aquilo estava o tirando do sério. Beth escolheu sair em um horário que não precisaria se despedir de ninguém, ela não gostava. Na abraçou apertado cada um deles e Emma como sempre chorou implorando que ficasse um pouco mais.
— Você está mais despojado que o normal. — Fitou seu filho dos pés a cabeça, a verdade era que sempre o via com roupas sociais ou roupas folgadas dentro de casa. Reconhecia que seu filho era um homem muito bonito mas as vezes relapso com seu vestuário.
— Hoje é a minha folga e como iria te levar ao aeroporto, não poderia sair de casa usando regata e uma bermuda desbotada. — Ele esticou a mão esquerda e segurou a mão dela, a verdade era que quem mais sentia a falta de Beth era ele. Mesmo depois de adulto ela continuava sendo o seu porto, apesar de toda a maturidade e responsabilidade que ele tinha também sentia falta dos conselhos e carinho maternal.
— Estou indo embora mas muito feliz em ver a progressão que aconteceu em sua casa, não parecem os mesmo que eu vi da última vez.
— Tenho que reconhecer que uma boa parcela disso foi de Stella e Sara, eu fui mais o coadjuvante nessa história.
— Então está na hora de fazer a sua parte. Uma hora você não poderá contar com as duas para resolver algum problema. Lembre-se : Você é o pai.
Beth tinha razão, embora tivesse progredido junto aos seus filhos ainda sentia que negligenciava em alguns assuntos. Ele estava aprendendo a crescer ao lado de Emma e Jason.
O aeroporto não estava muito cheio, com facilidade ele achou uma vaga no estacionamento e prontamente foi ajudá-la a retirar as suas bagagens. Já dentro do saguão, Beth foi até o guichê fazer o check in enquanto isso ele chegou o seu celular, aparentemente a sua folga seria tranquila naquele dia.
— Preciso ir, tenho minhas responsabilidades em Santa Mônica e além disso deixei o Hanni com a minha sócia, ele deve estar sentindo a minha falta.
— Mãe, Hanni é um gato, provavelmente deve estar se distraindo com algum brinquedo de plástico.
— Para um biólogo formado você está bem desinformado. Agora venha cá me dá um abraço antes que eu comece uma discussão com você.
Beth era menor que Grissom e ela cabia perfeitamente no abraço dele, naquele momento era ele quem protegia sua mãe com os braços. Um abraço que diversas vezes tinham diversos significados, abraços que acalentam de algum medo, abraço que compartilhava alguma vitória ou até mesmo um abraço que o remontava de alguma forma.
— Fique bem, Gil. Pense em tudo que conversamos esses últimos dias e cuide-se.
— Pode deixar. Quando menos esperar eu te faço uma visita.
— Não seja mentiroso, Grissom. — Ela desfez o abraço e segurou o rosto dele entre as suas mãos, puxou para mais perto e depositou um beijo em sua bochecha. — E lembre-se: viva a sua vida.
— Vou me lembrar disso daqui em diante.
— Mas faça isso com prudência e sem ferir as pessoas ao seu redor.
Pelo o olhar de Beth ele conseguiu ler as entrelinhas, ela desconfiava de alguma coisa. Apesar de ser um dos peritos mais respeitados dos Estados Unidos ele não conseguia decifrar o que sua mãe estava pensando. Trocaram mais um rápido abraço e ela seguiu em direção a seu avião, Grissom permaneceu ali mais alguns minutos e retornou para o seu carro.
…
De volta para a sua casa ele pensou em como os últimos meses havia passado em uma marcha acelerada, já estava recuperando do incidente e não demandava mais de cuidados extremos; apenas as brincadeiras com Emma ainda estava limitada.
Já em casa, ele encontrou Sara e Stella sentadas próximas a área da piscina, a governanta usava um chapéu branco para se proteger do sol, o dia pedia roupas leves e Sara usava uma regata vermelha e uma calça de viscose bege.
— Bom dia. — Grissom apareceu na porta divisória entre a cozinha e a parte externa. As duas se assustaram e tomaram compostura, como tivesse sido pegas no flagra fazendo alguma coisa de errado. — Não quis assustar vocês.
— Bom dia, Grissom. Não estamos enrolando o serviço aqui fora. — Stella levantou a viseira do chapéu para falar com seu patrão.
— Eu confio em vocês, não se preocupem. — Ele pegou uma cadeira e sentou-se ao lado de Stella, tirou seu óculos de sol e colocou sobre a mesa. Sara reparou como olho dele destacava no sol e principalmente em contraste a blusa cinza. — Hoje o dia está insuportavelmente quente.
— Concordo com você. — A senhora suspirou e usou as mãos para abanar-se. — Beth não perde a mania de sair sem despedir.
— Não...
— Emma e Jason vão ficar desolados sem a sua mãe aqui. — Sara interveio.
— Eles são muito apegados, desde crianças eles são grudados com a minha mãe. Vamos ter um trabalho e tanto com eles essa semana.
A brisa fresca da manhã já dava lugar ao mormaço quente, os três levantaram-se e retornaram para dentro da casa. O ar condicionado central daria conta de aliviar o calor, a temperatura interna estava agradável como um fim de tarde. A casa naquele dia estava movimentada, Wanessa que era encarregada pela faxina havia chegado e já tinha iniciado o serviço. Geralmente naqueles dias todos eram colocados para fora de casa assim como alguns móveis.
— O aniversário de Emma está chegando. Pensa em fazer alguma coisa esse ano, Gil? — Stella segurava o cesto de roupas limpas quando Sara prontamente retirou-o de sua mão antes que ela subisse as escadas. — Obrigada, querida. — Sussurrou.
— Ela merece, não vejo motivos para não fazer uma pequena festa aqui em casa. Aliás — Grissom encostou na parede e cruzou os braços, Wanessa passou ao seu lado empunhando o aspirador de pó. Fez uma careta desgostosa e retomou o pensamento. — De quem foi a ideia de fazer uma festa de aniversário na piscina?
Stella e Sara trocaram um olhar comparsa, a idéia inicial era de Beth e foi apoiada por Sara. Emma merecia a melhor festa que ela poderia ter e com a proximidade das ondas de calor as duas propuseram essa ideia para Emma que amou assim que escutou.
— Tentei convencer Emma a desistir dessa ideia de ter várias crianças na piscina aqui de casa mas ela foi irredutível. Me disse com todas as letras que do contrário não precisaria de uma festa.
— Ela está crescendo rápido demais. — Stella concluiu. — Então você já planejou alguma coisa?
— Para ser sincero eu não pensei em nada além do óbvio. Gostaria que você me ajudasse.
— Sara e sua mãe pensaram em algumas coisas, converse com ela. Tenho certeza que ela não se importaria em te ajudar.
Seria um pouco difícil para os dois conversarem sobre qualquer assunto, por uma iniciativa de Sara, mantinha a conversa apenas a um restrito diálogo profissional. Beth e Stella tinham reparado no comportamento da moça mas decidiram não questionar.
Na realidade ela tinha ensaiado um discurso para pedir demissão mas gostava muito da companhia de todos e achou melhor então tomar uma decisão menos radical.
— Eu vou conversar com ela. — Ainda encostado na parede, pegou o seu celular que vibrava no bolso de sua bermuda, no visor do aparelho o número da escola de seus filhos pulsava, atendeu no segundo toque.
— Esse é o celular do Sr. Grissom?
— Sou eu.
— Olá, Sr. Grissom eu sou a diretora Nuria e estou ligando para comunicar que tivemos um pequeno incidente com a Emma. Você poderia vir até a escola para conversarmos?
— O que aconteceu ? — Grissom saiu em busca a chave do seu carro, nunca havia recebido uma ligação da escola a respeito de seus filhos.
— Emma se envolveu em uma discussão com um colega de turma e acabou machucando a boca do Daniel.
— Estou indo para aí. Mas me diga os dois estão bem?
— Daniel teve um pequeno corte na boca mas nada de alarmante e Emma está sentada aqui ao meu lado.
— Chego aí em alguns minutos.
Click.
Lembrou-se que a chave de seu carro estava em seu quarto, passou a mão em sua face sem acreditar no que tinha acabado de escutar. Ele era um pai muito observador e não tinha notado nenhuma mudança no comportamento de sua filha, toda aquela história estava estranha.
Sara que saia do quarto de Jason com o cesto vazio levou um susto com o surgimento repentino de Grissom. O homem ia descendo as escadas quando estagnou e virou para trás.
— Você notou algum comportamento estranho de Emma nesses últimos tempos?
— Não, continua a mesma menina meiga. Aconteceu alguma coisa ? — Sara identificou o cenho preocupado dele e desceu para acompanhar o raciocínio de Grissom que se encaminhava para garagem.
— Me ligaram da escola dizendo que Emma agrediu um menino chamado Daniel. Minha filha nunca foi agressiva com ninguém.
— Daniel? — Ela engoliu a seco e arregalou os olhos, o que fez o olhar perito de Grissom ficar atento. O homem endireitou a postura, assim como fazia quando ia para um interrogatório, penetrou o seu olhar em Sara esperando dela uma continuação do assunto.
— Você o conhece ?
— Daniel é o sobrinho de Hank.
— Isso me explica muita coisa. — Grissom ainda encarou Sara por alguns longos segundos antes de ir definitivamente em direção a garagem. Stella perguntou qual o motivo da saída repentina mas ele não deu-se o trabalho de responder, sabia que a governanta perguntaria a morena em seguida.
Saber que o paramédico podia ter alguma influência naquela confusão com a sua filha o fez parar e respirar fundo antes de ligar o carro. Segurava o volante com tanta força que sentia seus braços tremerem, precisava se controlar.
Na entrada da escola, foi informada pela secretária que a diretora Nuria estava o aguardando. Para o seu espanto, Emma não estava na diretoria. Uma rápida vasculhada visual e parou o olhar sobre a jovem Nuria.
— Acalme-se, Sr. Grissom. Emma está junto com uma das nossas ajudantes de classe, ela está bem mas preferi ter essa conversa com o senhor primeiro. — Nuria era uma mulher jovem, seu currículo era invejável e desejado por diversas escolas de Las Vegas. Inglesa, havia se mudado para os Estados Unidos alguns anos para acompanhar seu marido que era cientista. Morena, ostentava um belo par de olhos cor de amêndoas e sua baixa estatura trazia para ela um ar de delicadeza.
— Apenas Grissom, por favor. — Ele acomodou-se na cadeira a frente de sua mesa. — O que aconteceu de fato.
— Grissom. — Ela sorriu e meneou a cabeça, iria abandonar a formalidade como ele havia pedido. — A professora de Emma me relatou que ela estava fazendo uma atividade em sala de aula quando Daniel e Emma começaram uma pequena discussão. Segundo a versão de sua filha, o menino referindo-se a você como um mentiroso e afirmando que você mantinha relações extraconjugais, claro que não com essas palavras.
Ele sentiu o chão cair, sua respiração ficou descompassada e ele precisou fechar os olhos para absorver todas aquelas informações, a turma de Emma era composta de crianças entre 6 e 7 anos; tinha convicção que aquilo tinha fortes influências de adulto na fala de Daniel.
— Nós sabemos o que aconteceu na sua família, mantemos um relato atualizado de cada aluno. Eu sei que atitude de sua filha foi para proteger tanto você quanto a mãe dela, crianças reagem de formas diferentes quando são confrontadas dessa maneira mas o que eu não posso admitir é uma agressão dessa forma.
— Eu concordo com você mas eu não consigo acreditar que uma criança na idade desse menino possa falar isso sem uma influência de um adulto.
— Reconheço isso e vou conversar com os responsáveis do Daniel assim que eles chegarem. As crianças tendem a repetir o que escutam dos adultos. — A diretora aproximou-se da mesa e apoiou os cotovelos na mesa, sua mão estava unida como estivesse fazendo uma prece.- Emma é uma menina adorável e sempre escutei elogios sobre ela mas você precisa convir que essa atitude não pode ser aceita dentro do ambiente escolar.
— Nuria, eu reconheço o erro da minha filha e tenha certeza que ela vai ser penalizada
— Eu também tenho uma filha, ela é um pouco mais velha que Emma. — Nuria pegou o porta retrato e entregou para Grissom. — Ela tem 11 anos e chama-se Bea, ela nasceu enquanto ainda morávamos em Barcelona, por isso um nome tão diferente. A minha filha é o bem mais precioso que eu tenho assim como acredito que Emma seja para você. Como mãe eu quero protegê-la de qualquer mal ou dificuldade que ela possa ter, não quero que ela sofra ou fique triste por algum motivo mas, nós somos humanos e humanos precisam de cair para aprender a levantar.
_ Eu entendo o que você quis dizer. — Ele suspirou e acomodou-se finalmente na cadeira. — Existe alguma possibilidade de outras crianças terem escutado o que o garoto falou?
— A professora me relatou que os dois estavam realizando uma atividade em dupla e as outras crianças só se deram conta quando Emma acertou a boca do Daniel.
Respirou um pouco mais aliviado, não saberia qual seria a reação se aquela inverdade fosse espalhada para os colegas de classe de sua filha. Ele sabia quem era o autor das mentiras e estava disposto a fazer um acerto de conta mas aquilo seria depois.
— Grissom eu quero que você saia daqui sabendo que eu não acredito nas palavras de Daniel, conheço a sua índole apesar de não conhecê-lo intimamente. Não estou aqui para apontar dedos e julgar.
— Eu agradeço. Será que agora eu poderia de ver a minha filha ?
— Claro, eu vou pedir para que auxiliar traga ela até aqui e eu vou dispensá-la da aula de hoje. Amanhã quando todos os ânimos estiverem mais tranquilos, terei o prazer de receber essa menina meiga novamente.
— Será que existe a possibilidade de conversar com os pais do Daniel? Gostaria de primeiramente me desculpar pelo o comportamento de Emma e me prontificar em auxiliar caso seja necessário algum gasto médico.
— Eu costumo conversar separadamente com os pais quando existe algum conflito entre alunos mas se essa for a sua vontade posso permitir que vocês conversem aqui.
Nuria ligou para a recepção e indagou aos pais de Daniel se poderiam conversar com Grissom, o casal aceitou e foi autorizada a entrada dos dois. Sem dúvidas a mulher era a irmã do Hank, loira e alta assim como o paramédico ela parecia ser mais nova que o irmão e seu marido era alto e dono de uma vasta cabeleira grisalha.
— Por favor, sentem-se. Sr. e Sra. Fortuny esse é Gilbert Grissom, pai de Emma.
Um rápido aperto de mão e Nuria conseguiu identificar os olhares orgulhosos e presunçosos dos três, por isso não era adepta a esses tipos de reuniões.
— Pedi para a Sra. Nuria para conversamos para me disponibilizar em arcar com qualquer custo médico caso seja necessário e enfatizar que não concordo com a atitude de minha filha e ela será penalizada por isso.
— Nós agradecemos, Sr. Grissom e ficamos mais confortáveis em saber que você irá aparar as arestas de sua filha.
Grissom não gostou nenhum pouco do tom de voz que o homem grisalho usou para referir-se a sua filha. Emma não era nenhum pouco arredia para precisar ser controlada daquela forma.
— Sr. Fortuny, eu peço que manere na forma de referir a Emma. Estamos aqui para resolver um conflito e não criar mais um.
— Me desculpe, Sr. Grissom. Meu marido às vezes tem um jeito muito inconveniente de falar- Lançou um olhar furioso para o seu marido- Gostaríamos de pedir desculpas também pelo o comportamento de nosso filho, não sabemos onde ele escutou isso e não vamos permitir que ele continue reproduzindo isso. Nós conhecemos a sua família e sabemos que isso não é verdade.
— Por favor, não quero que inverdades a meu respeito e a respeito de minha família sejam espalhadas.
Nuria observava o comportamento dos três, achou melhor encerrar aquele encontro ali mesmo. Lisa Fortunary parecia manter o bom senso mas seu esposo August parecia não estar disposto a manter um diálogo amigável. Informou que Emma já estava o aguardando na recepção.
Saiu da sala da diretora e encontrou sua filha sentada junto com sua mochila cabisbaixa. Sentiu seu coração se fragmentar em milhares de pedaços, a moça que fazia companhia para Emma parecia entender um pouco de sua dor, ofereceu ao supervisor um sorriso reconfortante que ele aceitou de prontidão. Agachou-se em frente as pernas de Emma e empurrou o seu queixo para cima.
— Vamos embora? Acho que temos muito o que conversar. — Ele acarinhou as pernas dela com o polegar e tentou fazer que ela o encara-se mas foi em vão. A menina pegou a sua mochila e desceu da cadeira, andou em direção saída ainda cabisbaixa. Grissom fez um rápido agradecimento a senhora que fazia companhia para ela.
O caminho de volta para casa havia sido feito em um silêncio sacro. Já na garagem ela desceu sozinha e dirigiu-se para casa, Grissom estava atrás dela assim como uma sombra.
— O que aconteceu? — Stella e Sara aproximaram-se de Grissom enquanto a menina subia as escadas em direção ao seu quarto.
— Ela deu um soco na boca de um garota na sala dela. Ele estava falando que eu era mentiroso e traidor.
— Que coisa horrorosa para se dizer para uma criança. — Stella levou a mão a boca e Sara sentiu o seu estômago revirar, sentia-se culpada pelo o que tinha acontecido. — Como esse menino chegou a essa conclusão ?
— Eu ainda não sei mas eu tenho as minhas suspeitas. — Ele encarou Sara que desviou o olhar no mesmo momento. — Agora eu vou subir para conversar com ela.
Ao chegar no quarto, Grissom deparou-se com Emma deitada e encolhida na cama. Fechou a porta atrás de si e sentou-se ao lado dela e afagaou seus cabelos dourados, sorriu quando viu que a menina o encarava.
— Você está bem? — Ele rapidamente limpou uma lágrima que começava a escorrer no rosto dela.
— O Daniel falou coisas feias sobre você e a mamãe.
— Venha cá. — Grissom deitou-se ao lado de Emma e abriu os braços para que ela pudesse deitar em seu peito. Beijou-lhe o topo da cabeça e acarinhou o seu braço fino. — Por que você deu um soco nele? Quem te ensinou isso?
— Por que ele falou que você era mentiroso e a mamãe foi embora porque você namorava outras mulheres.
Ele sentiu como um soco no estômago o atingisse, de todas as mentiras inventadas aquela era a que ele evitou ao máximo que chegasse ao ouvido de sua caçula.
— Meu amor isso é mentira, não sei o motivo que esse garoto falou isso para você. Não acredite nisso. Eu não sou mentiroso e não fiz nada disso contra a sua mãe, eu sempre a amei.
— Ele me contou que o tio dele falava isso para todo mundo. — Era a resposta que ele precisava
— Emma, quando essas coisas acontecerem você precisa contar para a professora e para mim, a sua atitude de agredir o Daniel foi errado.
— Mas ele estava falando mentiras sobre você e a minha mãe. — A tonalidade de voz dela tinha perdido a manha para um tom de revolta. — Eu não ia deixar.
— Continua errado o fato de você ter agredido ele, não te ensinei a fazer isso com ninguém.
— Eu só quis te defender. — Ela levantou a cabeça do peito de Grissom e o encarou de uma forma intimidadora.
— Eu sei, Emma. Mas eu não posso permitir que você agrIda ninguém e como forma de castigo esse fim de semana você não vai poder ir viajar com os seus avós.
— Isso não é certo, pai.
— O que eu sei que não é certo é agredir alguém, meu amor.
Ele saiu do quarto de Emma incomodado com a situação, era totalmente avesso a impor alguma punibilidade para os seus filhos mas reconhecia que era necessário em determinados momentos.
…
Emma passou boa parte da tarde no seu quarto com Sara, no fundo a babá se sentia um pouco culpado pelo o que tinha acontecido. A menina sempre tentava se justificar mas a morena achou melhor por encerrar a conversa, era um assunto muito delicado para uma menina de seis anos.
Quando finalmente Emma pegou no sono, Sara deixou o quarto dela. Naquele dia ela não queria conversar com mais ninguém, estava envergonhada e triste pelo o que tinha acontecido. Com a porta fechada ela encostou o corpo contra a parede, estava realmente cansada, os últimos dias não estavam fáceis : a morte de sua mãe que ainda a assolava, a faculdade que a cada dia ficava mais difícil de conciliar com tudo, a ideia de pedir demissão da casa dos Grissom’s e agora com Hank tentando atingir ela de alguma forma.
As vezes ela queria sumir e não precisar encarar a realidade.
A casa toda já estava em silêncio e apenas as luzes do jardim iluminavam a casa. Ainda com os olhos fechados escutou Grissom chamar o seu nome duas vezes mas mesmo assim permaneceu com os olhos fechados, somente da terceira vez ela reagiu.
— Podemos conversar? Sei que o horário não é o mais apropriado mas gostaria de resolver algumas pendências.
Olhou para o fim do corredor e lá estava Grissom parado na porta de seu escritório, os cabelos penteados para trás indicava que ele tinha recém saído do banho, invejou o seu patrão por já está preparado para ir dormir ou descansar, ao contrário dela ainda precisava adiantar muita para faculdade no dia seguinte.
Parado e encostado com o braços cruzado na mesa, ele pediu para que ela fechasse a porta. Sara estagnou próximo a saída e encarou o seu patrão.
— Stella me contou que você queria pedir demissão. Você tem certeza disso?
— Bem, não vou negar que eu pensei sobre isso várias vezes.
— E o motivo seria?
— Os problemas que eu estou causando aqui. Hank está tentando me atingir infernizando a sua vida, eu sei que Virginia não aprova que eu esteja convivendo sob o mesmo teto que a sua família e eu acho que estamos confundindo algumas coisas ultimamente.
Ele calou-se por alguns instantes, de onde ele estava ainda encarava Sara. Não poderia abrir mão tão facilmente da presença dela ali, ela representava o equilíbrio naquela casa que era um caos até o dia que ela chegou.
— Sara, o Hank não é mais um problema seu. A partir do momento que ele veio até a porta da minha residência ameaçar você, ele tornou-se o meu problema e te garanto que eu estou muito próximo de resolver isso.
— Eu não quero que você arrume confusão com ele. — A fala dela era séria, em momento algum ela desviou o olhar dos olhos desafiadores de Grissom.
— O Hank é um problema meu e hoje ele ultrapassou todos os limites possíveis.
Grissom levantou-se em um impulso e aproximou-se de Sara. Ele tentava racionalizar o motivo pelo qual sentia tanta necessidade de protegê-la, não era algo fraternal.
— A respeito de Virgínia, eu não posso ceder aos caprichos dela. Ela é manipuladora e não vou deixar ela ditar as regras da minha casa. Ela se recusa a ver em como Emma e Jason estão mais tranquilos depois que você veio trabalhar aqui.
— Eu não vou querer ser o motivo de você se separar da família da sua esposa.
— Sara, eu sei que você é muito inteligente mas será que ainda não reparou que nós vivemos de fachada? Eu sobrevivo ao lado de Virginia e Robert por amor aos meus filhos e pelo o fato que eu não quero que eles vivam em uma família dividida. Tem muita coisa a nosso respeito que é melhor você não saber.
Ela deu um passo para trás com a última frase. Ela sempre desconfiou que Grissom fosse mais profundo que ela imaginava, existiam alguns assuntos proibidos dentro da casa dele e toda vez que ela conversava com Stella sobre isso ela advertia pedido para a babá esquecer aqueles assuntos.
Desconfiava que Robert e Grissom não mantinham um bom relacionamento e suspeitava que a peça chave fosse Heather, a ruiva que apareceu algumas semanas anteriores.
Existia também uma história de traição que assombrava o local, no dia da confusão com Heather, Virginia deixou a história subentendida.
Além de todo o mistério da partida de Maggie.
— Eu não estou aqui para julgar ninguém e muito menos entrar em assuntos pessoais.
— Não quero que você se sinta somente como mais alguém aqui mas eu não posso te deixar envolver com todas essas mentiras. — Ele suspirou fundo e passou a mão no rosto.
Sara envolveu o rosto dele em suas mãos, aquele homem com quem ela falava naquele momento mostrava um pouco de quem realmente era Grissom : Forte porém cheio de feridas abertas.
Ela reagiu ao toque, isso o deixava energizado.
Dessa vez sem alguma desculpa ou deslize aproximaram seus rostos e Sara tomou a iniciativa de beijar Grissom. Ele envolveu as mãos na cintura dela e puxou de uma forma delicada para cima de seu corpo. O beijo revelava-se uma calma em meio a tempestade de problemas e dificuldades que os dois enfrentavam.
Os corpos ansiavam por mais, sentiam que tinham algo a mais para ser explorado mas a racionalidade dos dois o impediram. Sara beijou e mordiscou o queixo de Grissom que o fez soltar um gemido rouco e logo em seguida ele voltou a capturar os lábios dela. Foi ela quem tomou a iniciativa de separarem-se, tinha receio de ambos perderam o controle.
— A única coisa que eu posso pedir é para você ficar. — Ele desviou o olhar, ficou fitando a janela que deva para as montanhas. As luzes de Vegas ficam distantes de sua casa e naquele momento ele sentia-se tão escuro quanto o breu que era do lado de fora.
Naquele momento ela deu-se conta que a pessoa que mais necessitava de ajuda era ele. Emma e Jason sofriam com toda a história mas ele sofria três vezes mais, era ele quem implorava por socorro.
Os olhos tristes e deprimidos pairaram sobre ela novamente, ele sentia nela um lampejo de luz, talvez por isso a necessidade de protege-la a todo custo. Com o dedo indicador ela desenhou as curvas do rosto de Grissom, com os olhos fechados o supervisor sentia o delicado toque.
— Eu não vou a lugar nenhum.
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