Silk Road
1 A rota da laranja
Notas iniciais
Lap é a atual capital do reino de Odria, uma cidade de oportunidades onde muitos mercadores e prestadores de serviços tentam melhorar suas vidas, o centro da cidade é animado com diversas pessoas vendendo, comprando, trocando informações e conhecimentos valiosos.
— Você não está querendo me enganar, certo? – faço uma pausa para observar a lâmina – Isso aqui é mesmo bronze?
— É claro que sim meu amigo, nós só trabalhamos com materiais de qualidade – o homem está com um sorriso estampado em seu rosto.
Bronze é um material de grande valor, ele é um dos melhores condutores de magia que existem podendo armazenar um grande fluxo de mana e também é muito barato, por conta disso muitos aproveitadores modificam metais para que se pareçam com o bronze.
— Certo, certo, vou levar por 16 dous não é um mal negócio.
Dou é o dinheiro usado no reino de Odria, são moedas de 1, 5, 10, 25 e 50, a maioria das transações do dia a dia podem ser feitas com esses valores.
Os olhos do mercador brilham e seu sorriso que já era grande fica maior ainda.
— Não vai se arrepender, essa lâmina de bronze vai lhe ser muito útil!
Me despeço do mercador e continuo minhas andanças, o centro da cidade parece não ter fim, e tem muitas coisas ali que chamam a atenção, lojas e vendedores ambulantes, a arquitetura única do reino, pessoas de todos os lados conversando e comprando coisas, para comerciantes isso é algo incrível de se ver.
Depois de algum tempo finalmente me encontro com meu amigo.
— Liu veja só – mostro minha lâmina de bronze – Um velho vendeu isso por apenas 15 dous, uma pechincha!
Liu tem 19 anos e possui olhos puxados, longo cabelo, nariz triangular e uma pele pálida, tem em média 1,74 de altura.
Ele pega a lâmina de minhas mãos, depois de alguns segundos ele a devolve e fica me olhando com um sorriso no rosto.
— Xeniades isso aqui não é bronze – ele da uma risada.
— Isso é inveja, não vou acreditar no que disse – guardo ela em meu bolso e prossigo andando com Liu.
Ele fecha os olhos e ri mais uma vez.
— Enfim Xeniades, lembra a razão de virmos aqui hoje? Não era gastar nosso dinheiro.
— Sim, sim, vamos oferecer nossos serviços de proteção a alguém.
— Lembra pelo menos quem é?
— Quem você pensa que eu sou, é claro que lembro.
— Então, quem é?
Faço uma pausa enquanto assobio e olho pra cima.
— É o mercador Tulg! — só não me lembro do que ele faz.
— Pelo menos você lembra disso, vamos nos encontrar com ele em breve.
Nós somos os lideres do grupo Aureus um bando de mercenários que atua na proteção de quem puder pagar, é bem fácil de nos identificar por conta do broche em formato de águia que sempre usamos, também vendemos armas e comida pelas cidades que passamos, mas essa não é bem nossa especialidade.
— É aqui.
Finalmente chegamos na loja do mercador, sua especialidade é a venda de joias encrustadas com ouro e prata, logo na entrada podemos ver algumas pessoas e dentro da loja mais pessoas se aglomeram observando os itens a venda, os guardas desaparecem no meio de tantas pessoas, mas parecem estar preparados para a ação.
— É maior do que eu pensei – tento me conformar com o preço das joias.
— Esse tipo de coisa só é possível na capital, em cidades menores esse lugar já teria sido roubado e derrubado.
O lugar tem muitos itens interessantes, todos voltados a nobreza e pessoas com dinheiro.
Um guarda que estava no canto se aproxima de nós.
— Meu senhor está esperando por vocês, me sigam.
Seguimos ao homem sem perguntar nada, estamos acostumados com esse tipo de coisa.
Andamos por um corredor escuro até que uma porta se abre e entramos juntos com o homem que nos guiava.
— Finalmente chegaram, fiquem à vontade! – um homem de meia idade nos recepciona enquanto o outro que nos guiou fica ao seu lado.
É uma sala pequena com 3 cadeiras e algumas velas ao redor, uma mesa ao fundo parece ter vários papeis importantes, deve ser aqui que ele guarda o recibo de vendas.
Nos sentamos nas 2 cadeiras e o homem se senta na restante.
— Você é Tulg? – Perguntou Liu.
— Sim sou eu!
— Eu sou Liu e esse aqui é meu sócio Xeniades – ele olha em minha direção esperando que eu continue a fala.
— Somos os líderes do grupo Aureus, viemos por um pedido da sua filha – posso ver que a expressão do homem mudou.
— Minha filha se preocupa muito comigo, mas eu não preciso de tantas pessoas me protegendo – ele abre um sorriso e prossegue – Nós podemos nos virar sozinhos não vai ser uma longa viagem.
— Eu soube que essa vai ser a sua primeira viagem pela rota da laranja, não é um lugar calmo – Liu está com um rosto sério – Tem certeza de que sabe os perigos dessa rota?
— Eu não tenho medo dessas coisas, meus guardas já são o suficiente – sinto que ele quer evitar o acordo a todo custo.
Ele não quer contratar nossos serviços, talvez seja por causa da filha que nos indicou, mas não podemos perder um acordo depois de vir tão longe, preciso pensar em algo rápido.
— Era só isso que que queria dizer a vocês – ele se levanta.
— Espere – me levanto.
— O que? – o mercador começa a ficar impaciente – Tem mais algo a dizer?
— Que tal isso, vamos testar os seus guardas.
Liu continua sentado dando um pequeno sorriso.
— Testar meus guardas, mas que ideia infantil – ele força uma gargalhada – Eles são os melhores dessa cidade, não, do reino!
— Se todos os seus guardas forem iguais a esse daí sinto que eles não conseguiriam proteger nem um castelo contra uma invasão de cervos – forço uma gargalhada mais alta que a dele.
— Ah é? – o homem começa a ficar vermelho – Eu discordo totalmente!
— Então por que o medo de testar eles? – aponto meu dedo em sua direção – Já sei, está com medo de perder né? – começo a rir alto contagiando até mesmo o guarda que estava quieto ao fundo.
Com o pouco que já observei aqui vejo que ele é uma pessoa muito orgulhosa, esses são os piores tipos de clientes para se fechar acordos, por isso precisamos jogar o jogo dele.
— Que seja! – ele começa a andar com o rosto vermelho e sobrancelhas franzidas – Vamos lá fora, traga 3 dos seus melhores homens e vamos descobrir quem é o melhor.
O mercante sai do local e Liu se levanta.
— Conseguimos – um sorriso continua estampado em seu rosto – Vamos fechar esse acordo.
Saindo da loja dizemos ao mercador que vamos escolher os 3 participantes, as pessoas da loja nem percebem nossa saída.
— Certo, vamos esperar vocês aqui – ele continua nervoso com a situação.
Nós seguimos até a taverna onde deixamos hospedados os outros membros do grupo.
— Já voltou chefe? – diz um homem bêbado.
— Já voltaram, isso foi rápido!
O grupo Aureus tem 17 membros contando comigo e o Liu, todos são mercenários e a maioria está conosco desde o início, evitamos muitos membros por conta dos gastos logísticos.
— Não é nem 15:00, por que já estão bebendo – suspira Liu – Então, quais serão os 3 que vamos chamar?
Todos os membros do nosso grupo são soldados com experiência, mas alguns se superam em duelos.
— Ragnhild, Alois e Valentin devem servir.
— Vamos com a escolha mais óbvia então.
— Sim, sim – olho em volta e vejo os outros membros bêbados caindo no chão – Enfim, temos que encontrar eles agora.
— Bom, ainda é 13:00 temos tempo de sobra – Liu fica com uma expressão séria – Vamos começar a operação Busca Pelos Membros Desaparecidos 10, ou BPMD10.
— Já estamos na décima edição!?
Algumas horas se passam.
— Que horas são? – pergunta o mercador ainda esperando.
— Em torno das 16:00, senhor – responde um dos guardas.
— Acho que desistiram com medo de passar vergonha, bem, era o esperado – Tulg começa a rir.
— Senhor acho que são eles.
Eu e Liu nos aproximamos do mercador.
— Preparado ou ainda precisa de tempo? – falo isso em tom sarcástico.
— Xeniades, vou tirar esse sorriso do seu rosto agora – ele da alguns passos e aponta para 3 homens que estavam ali – Esses são os meus guardas!
São homens altos e aparentam ser bem fortes.
— Ah, é isso? – bocejo de propósito até que Tulg grita.
— E esses são os seus? – ele dá outra gargalhada dessa vez mais forçada ainda – 1 mulher e 2 homens que parecem ter saídos de um bar?
Eles acabaram de sair de um bar...
— Vamos começar o duelo, eu serei o juiz! – Liu sobe em cima de uma caixa.
Depois de ouvirem a palavra duelo algumas pessoas se juntaram em volta, mas mantendo um grande espaço de distância.
— Certo eu escolho a primeira rodada, vá Spartacus!
Ele diz isso como se fosse uma rinha de galo...
— O nome dele é Spartacus? – pergunto ao homem.
— Na verdade o meu nome é Lukas mas me chamam de Spartacus.
Ele parece ser uma pessoa simpática mesmo tendo quase 1,90 de altura.
— Então Xeniades o que acha? – ele aponta para os membros do grupo – Se eu fosse você escolheria o grandão ali, os outros dois não vão conseguir fazer nada contra Spartacus!
O maior membro dos 3 é Alois.
— Pode deixar chefe, eu começo – diz Valentin.
Valentin tem em média 1,70 de altura, cabelo curto e claro, não aparenta ter muita experiência em combate mas serviu 2 anos no exército de Odria, foi banido por ter namorado a filha de um general e quase preso por dormir com a esposa de um colega, é um mulherengo que passa os dias na boemia, foi um dos primeiros membros do grupo e hoje já tem 20 anos.
— Boa sorte então – sinceramente acho que não vai precisar.
— Estou me sentindo com sorte hoje – com um sorriso no rosto ele pega sua lança.
— Spartacus não perca pra esse anão!
— Eu sou maior que você seu mercador de... – faço um sinal para Valentin parar de falar – Certo, vamos lá grandão pegue sua arma.
Os dois se posicionam de frente, Spartacus carrega uma espada media e um escudo.
— Em suas posições – Liu estende as mãos – Podem lutar!
A luta começa com o lanceiro avançando em frente buscando perfurar Spartacus que deflete o golpe usando seu escudo aproveitando a abertura para cortar o ombro de Valentin que por sorte consegue desviar e diminuir o impacto.
— Viu essa Xeniades, o que eu te disse! – diz o mercador.
Eles continuam o combate, os golpes de Valentin não conseguem passar pelo escudo de seu inimigo que aproveita para pressionar com sua espada, a luta não parece estar avançando e a troca de golpes começa a ficar menor conforme eles se cansam.
— Continue Spartacus, derrube ele!
Os golpes então param e Spartacus coloca o escudo na frente de seu corpo para avançar e empurrar Valentin, sem ter oque fazer ele pula para desviar da investida e aproveita para perfurar o braço direito do inimigo com uma estocada de sua lança.
O público em volta parece estar aproveitando o espetáculo.
— Acho que a luta já se estendeu o suficiente – faço um sinal de ok com as mãos.
— Então grandão, ainda consegue lutar? – Valentin percebe meu sinal – Se quiser desistir é só falar.
— Acho que quem vai desistir é você – Spartacus está ficando ansioso e dessa vez busca derrotar o inimigo em um só golpe.
Ele avança com seu escudo e quando se aproxima gira sua espada na direção do adversário que apara o golpe e desvia a espada.
— Se eu mover a lança você morre, acho que venci.
— O que?! – exclama Tulg.
— Como assim venceu?! – pergunta Spartacus.
— Avanço temporal! – a lança de Valentin avança no tempo chegando ao pescoço de Spartacus que não pôde reagir.
— Magia?...
— Não há nada que proíba o uso de magia, então a vitória é de Valentin!
As pessoas acompanhando em volta aplaudem como se estivessem em um circo.
— Você foi bem grandão, se eu não tivesse usado magia ia ser a sua vitória.
Spartacus está cabisbaixo com o resultado, mas prossegue — Esse poder faz parte de você, então não tem nada de errado em usar!
Spartacus e Valentin apertam as mãos e a segunda luta está para começar.
— Então Tulg, gostou da primeira derrota? – falo em tom satírico.
— Se eu soubesse que ele usava magia o resultado ia ser diferente, isso foi golpe baixo – ele começa a ficar vermelho – Mas ainda vamos vencer!
— Escolham os próximos participantes.
Depois de uma pausa decido escolher Ragnhild para a próxima luta.
— Ok... – ela não parece estar muito feliz.
Ragnhild é uma garota bonita que mede em torno de 1,64. Tem cabelos escuros e olhos azuis, é descendente da nobreza de Odria e passou grande parte da sua vida em mansões e castelos, ela entrou para o grupo recentemente, mas já se mostrou muito habilidosa.
— Uma garota, sério? – o mercante pausa por um momento – Tem certeza disso?
— Não se preocupe, ela sabe se virar com uma espada. – diz Valentin ao fundo.
— Então, qual dos dois aceita enfrentar a garota?
— Senhor, eu vou.
Um dos guardas de Tulg vai para frente, é um homem de 1,80 de altura com longos cabelos e um olhar sério em seu rosto.
— Critus não pegue leve com a garota, ela deve usar magia.
— Certo – o homem pega duas espadas.
— Já que decidiram os próximos, vamos começar – Liu estende as mãos – Podem lutar!
A luta começa com o homem avançando lentamente buscando aberturas na defesa de Ragnhild, pra sua surpresa existem várias, ela não estava em posição defensiva e apenas segurava uma cimitarra em sua mão esquerda; se aproveitando disso ele ataca duas vezes a garota esperando por uma reação porém algo estranho acontece, a garota desaparece depois de ser cortada, é como se fosse uma miragem.
— O que foi isso? – pergunta Critus tentando entender a situação – É alguma magia ilusória?
Olhando ao redor ele percebe que uma nuvem de fumaça o cerca, desesperado começa a balançar suas espadas mas nada parece mudar, então uma bola de fumaça avança em sua direção cortando superficialmente sua perna, mais uma vez essa bola aparece fazendo um corte mais profundo em sua outra perna, com isso ele acaba perdendo o equilíbrio e se agacha.
— Lute de verdade pare de se esconder!
Mesmo no chão ele balança novamente suas espadas, mas nada acontece, até que ele finalmente desiste.
A nuvem começa a descer e o lugar volta ao normal, Critus está agachado no chão e Ragnhild está com sua cimitarra apontada para a sua cabeça.
— Eu ganhei – diz a garota.
Enfurecido Critus grita.
— Como assim ganhou, você nem me enfrentou! – o homem tenta se levantar, mas a dor do corte parece ter piorado.
— Eu não entendi o que aconteceu, isso foi magia, mais um usuário de magia?! – diz o mercante.
— Acabou, ela está com espada pronta pra te cortar, desista. – diz Valentin.
— Se não fosse por essa ilusão... – Critus abaixa a voz e espera o resultado.
— Mais uma vez, não há nada que proíba o uso de magia a vitória é de Ragnhild! – Liu aponta
O público dessa vez não compreendeu o resultado do duelo mas mesmo assim aplaudiu.
Algum tempo se passa, o povo que estava assistindo se dispersa e eu me aproximo de Tulg.
— Isso foi só uma amostra do que você vai ver na rota da laranja, magos são muito mais valiosos que guardas comuns, se o Valentin quisesse ele poderia ter vencido seus 3 guardas com facilidade – faço uma pausa e olho para o guarda restante – Ainda quer continuar?
— Não, essas duas vitórias são suficientes você venceu – o mercador aparenta estar decepcionado com a derrota.
— Como Xeniades disse, isso foi só uma amostra – Liu então continua – Vai aceitar nossa oferta agora?
O mercador pausa por um momento pensando no que dizer a seguir.
— Bem, é melhor pagar pra viver mais um dia do que guardar dinheiro e morrer amanhã – Tulg começa a rir – Enfim, vamos conversar sobre os valores!
— Que bom que pudemos terminar isso de maneira
civilizada – ou quase... – Liu deixamos o restante com você.
Liu e Tulg entram na loja para discutir o acordo enquanto eu, Ragnhild, Valentin e Alois voltamos para a taverna.
— Não sei pra que eu vim, não fiz absolutamente nada...
Alois é um homem alto de 1,82 de altura com cabelos e olhos escuros, sua pele é bronzeada e seu corpo é bem forte, filho de escravos foi criado em arenas onde teve que lutar desde pequeno para sobreviver, comprou sua liberdade aos 16 anos e se juntou ao grupo quando tinha 17, hoje já tem 19 anos.
— O importante é que conseguimos fechar acordo com o mercador, agora podem aproveitar o restante do dia.
— Quando nós vamos zarpar? – pergunta Valentin – As garotas aqui já estão começando a me reconhecer, isso está ficando perigoso...
— Espero que alguma delas corte o seu... – diz Ragnhild.
— Nem brinque com isso! – retruca Valentin
Com um sorriso no rosto respondo – Se tudo der certo vamos amanhã, já estamos a muito tempo aqui.
Continuamos nossa conversa indo na direção da taverna, até que finalmente chegamos.
— Esse é nosso local de encontro, aproveitem a cidade até o amanhecer e tentem não ser presos até lá...
— Entendido chefe! – diz Valentin.
— Quer fazer algo Alois?...
— Sinceramente não, acho melhor irmos dormir...
— Vocês precisam aproveitar mais a vida, sabiam? – faço um sinal de joia com as mãos – Bem, vejo vocês amanhã.
Vou para o quarto onde estou hospedado e começo a pensar nas coisas que aconteceram hoje, nosso grupo já existe a algum tempo e conseguimos fazer bastante coisa, talvez o meu sonho não seja tão impossível assim.
— Então o acordo está fechado! — o mercador fala em alto tom.
— Sim, foi bom fazer negócios com você Tulg! — Liu fala mais alto ainda.
Eles apertam as mãos oficializando o acordo, com isso a nossa ida para a rota da laranja estava finalmente oficializada!
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