Silent Hill: The Artifact
26 O Túmulo Vazio
Notas iniciais

Ele está diante de mim, aquela coisa com uma pirâmide de metal no lugar da cabeça. Sinto que é o meu fim e que sou digno dele, que mereço morrer de uma vez do pior modo possível, não merecendo qualquer misericórdia. Abaixo minha cabeça, mas ao invés de sentir a gigantesca espada transpassando o meu pescoço, ouço uma risada eufórica, porém tranquila. Depois disso, ergo a minha cabeça abrindo os olhos e vejo uma coisa diferente do homem com a pirâmide e a espada, vejo um garoto, um garoto de casaco verde. Ele sorri a me ver: Mateus.
–Matt... Você voltou! Voltou por mim!
Acordo. Ao que parece, a chuva passou e o sol nasceu pelo menos aqui onde estou. Vejo o lago Toluca à minha frente, relembrando o momento em que cheguei aqui pela primeira vez e tirei uma foto. Estou faminto, não comi absolutamente nada. Abro o porta-luvas e vasculho desesperadamente na tentativa de encontrar alguma coisa, pois sempre deixava comida dentro dali para alguma necessidade. Encontro uma barra de cereal, que devoro em um minuto. Esfrego os olhos e começo a planejar mentalmente o que fazer quando chegar a Silent Hill, quando entrar de fato na cidade, quando estiver naquela trilha. Começo a ouvir então o barulho de um carro se aproximando. Talvez seja uma esperança, pois ao que me parece, ninguém em sua sã consciência se aproximaria daqui na vida. O carro aparece na estrada e reduz a velocidade, estacionando a alguns metros do meu. Não consigo ver quem está dentro, apenas vejo um carro.
De repente, correndo como se viesse da trilha, surge uma mulher com um longo vestido azul, já com idade mais avançada. Não consigo enxergar quem é, mas o vestido é um tanto familiar para mim, como se remetesse a alguma memória que já tive. Penso se não seria alguma peça que a cidade estaria pregando em mim, o que não fazia sentido, já que teoricamente eu estou em um lugar normal. A mulher se aproxima do carro e a porta é aberta por alguém que eu conheço muito bem: Mateus. O garoto lança um olhar em direção ao meu carro, como se soubesse que estou ali. Em seguida, ele segura a mão da mulher, sendo puxado por ela em direção a trilha. Ele ainda me observa até que os dois descem a pequena escadaria. Sem pensar, arranco o cinto de segurança e a abro a porta do carro, pouco me importando se irão roubá-lo ou fazer outra coisa. Eu apenas pego a minha mochila corro em direção aos dois.
–Mateus!
Sinto-me impulsionado a segui-los, a encontrar o garotinho que sempre aparece me pedindo ajuda, aquele mesmo que eu deixei morrer no parque... Talvez se eu o impedir de entrar na cidade, ele tenha alguma chance... Isso! Devo arrastá-lo até meu carro e leva-lo para um lugar seguro! Continuo correndo até a pequena escadaria de pedra e sem querer desço três degraus de uma vez, o que resulta em uma queda feia. Meus braços ralam por alguns degraus e fico dois segundos no chão até lembrar que preciso impedir que ele entre na cidade.
–MATEUS!
Levanto e saio correndo, pouco me importando com os cortes e arranhões que estão nos meus braços. Eu corro, desesperadamente atrás dos dois. Talvez ainda seja possível voltar, talvez se eu tiver voltado no tempo... Continuo correndo, pulando por algumas pedras. A névoa começa tomar conta do lugar, o que é uma coisa ruim, o que quer dizer que a parte “louca” de Silent Hill já está presente. A cada passo que dou, a névoa vai ficando mais densa e os dois se distanciam mais de mim. Meus pés não param de correr, mesmo sabendo que me levarão à cidade de novo, mesmo sabendo que não tenho a mínima preparação ou armamento paras sobreviver. Tudo que eu mais quero é salva-lo. De repente, surge um objeto a minha frente em meio à névoa e é tarde de mais pra parar, o que ocasiona meu choque contra aquilo, me derrubando no chão.
–Aaahhh... Dro... gaa!
Levanto um pouco desorientado, observando o que seria aquele objeto, o que estaria fazendo ali que não estava antes. Era uma maca de hospital, agora caída no chão pelo impacto com duas de suas rodas girando. Mas o que uma maca de hospital estaria fazendo ali em meio a uma trilhazinha? Respiro fundo. Não consigo enxergar mais Mateus e a mulher e agora tenho certeza de que os perdi. Ouço um barulho de rangido de ferro, como se um portão acabasse de ser aberto. Então me lembro do cemitério que há no meio da trilha. Talvez ainda os alcance, não está tão longe. Começo a correr novamente em meio a névoa. O portão começa a se materializar à minha frente e vejo que está aberto. Passo correndo em meio a ele, dando de cara com o lugar onde encontrei Angela, agora vazio. Outra que eu poderia ter feito alguma coisa para impedir sua morte, seu suicídio... Eu não fiz absolutamente nada. Ela se matou depois de enfrentar seu pai, ou pelo menos as memórias que lhe restavam dele. Chang então estava certo sobre isso? Ela havia se encontrado com seus medos e pecados, purificada antes de morrer, dando um fim para o seu sofrimento. Fico andando em meio aos túmulos, agora temendo pelo que encontraria pela frente, temendo sobre o que mais encontraria para que enfrentasse meus temores e sofrimentos mais sombrios. Meus ouvidos começam a zunir e então começo a ouvir o som inconfundível da porcaria da sirene. A cidade vai mudar. Meu coração acelera e sinto como se tudo estivesse perdido.
–Não... Por favor, de novo não... MATEEEEEUUUUSSS PAAARAA COM ISSO!
Tudo começa a ficar escuro e a minha visão a se distorcer. Sinto-me mal e com vontade de vomitar. Então caio no chão e apago.
...
Abro os olhos, incomodado por uma forte luz no meu rosto. Levanto, me sentindo ainda mal. Tudo está escuro, e há um cheiro de sangue e enxofre, tão forte como antes. Ainda estou nauseado e o cheiro de podridão não ajuda muito. Olho em direção à luz, e então percebo que é uma lanterna. Caminho calmamente até ela e a seguro firme em minhas mãos. O silêncio predomina, a não ser pelos meus passos, que agora estou dando aleatoriamente. A lanterna então ilumina um enorme e profundo buraco de frente para uma placa de túmulo. É como se fosse um túmulo aberto e vazio, esperando apenas por um corpo que fosse jogado ali dentro. Aos dois lados dele, há mais dois túmulos fechados, cada um com a sua respectiva placa. Foco a luz na placa do túmulo à esquerda e, ao ler o nome e epitáfio, dou um pulo para trás com o susto. Era algo tão familiar, tão específico... Começo a sentir como se eu mesmo estivesse entalhado aquela frase. Começo a me sentir desesperado, sem saber o que fazer. Meu olho derrama uma lágrima.
“TYLER LIWARD, O GRANDE ESPANCADOR ALCOOLATRA”.
Como isso seria possível? Por acaso meu pai foi enterrado aqui? Ou é a minha mente que está pregando peças e influenciando na porcaria dessa cidade como Chang disse? Magneticamente, minha mão direciona o foco para o túmulo mais à direita e quase dou outro pulo ao ler o epitáfio:
“SARAH LIWARD, A POBRE COITADA DOENTE QUE NÃO SOUBE DEFENDER O FILHO”.
–Tudo parece relacionado a mim...
Tremendo, repouso a lanterna no túmulo do meio, com o enorme buraco vazio. A luz foca na placa e sinto um enorme desespero, já sabendo o que provavelmente encontraria. Solto a lanterna no chão quando termino de ler a frase:
“MATTHEW LIWARD, O IDIOTA SUICIDA”.
Era o meu túmulo, aberto e esperando por mim. Pego a lanterna no chão e ilumino o buraco que parece sem fim.
–Mas... mas... eu...
De repente, começo a ouvir vozes. Vozes vindas de dentro daquele buraco. São gemidos desesperados, gritos masculinos, femininos, infantis... Gritos de sofrimento. O meu túmulo é a porta do inferno. Em meio a todas aquelas vozes e gemidos, uma começa a se destacar. Era a de Mateus.
–Venha Matt... Pule!
Não. É o que eu jamais devo fazer. Pular naquele buraco? O meu túmulo que diz que sou um suicida? De forma alguma. A voz se torna mais insistente.
–Vamos lá Matthew! Pule!
–Não... Eu não vou!
Corro até o portão pelo qual entrei, mas poucos segundos antes de chegar nele, o portão se fecha bruscamente, como que movido por alguma força sobrenatural. Corro até o outro, mas está completamente trancado. Tento então subir, desesperadamente, o muro. Mas é muito alto e escorregadio, tornando minhas tentativas inúteis.
–Matt, eu estou perdendo a paciência. Pule!
Os gemidos, as vozes... Estão se tornando mais intensas, mais altas, me deixando confuso e desesperado. Não deveria pular ali, de forma alguma. Mesmo que Mateus estivesse insistindo e tenha me ajudado a andar pela cidade na outra vez que vim aqui... O tom de voz dele parecia diferente, ele não parecia mais o doce Mateus que encontrei, agora ele parecia... Um monstro. Era como se ele estivesse controlando tudo o que acontecesse na cidade e quisesse me fazer trilhar um caminho custe o que custar... Ele insistiu para que eu voltasse, ele me guiou até aqui e agora quer que eu me mate pulando naquela droga de buraco e até parecia me ameaçar dizendo que estava perdendo a paciência...
–MATEUS, O QUE VOCÊ É AFINAL?
–Matthew, pule nesse buraco!
–NÃO! EU NÃO VOU!
Tento escalar o muro mais uma vez, mas é em vão. Então escuto um gemido, mas é um gemido diferente, é metálico, é até meio robótico e não demonstra medo ou sofrimento, na verdade, não demonstra sentimento algum. Eu me viro para trás e então o vejo, o cara com uma enorme espada e uma pirâmide. Olho ao meu redor e me vejo sendo cercado por um monte de manequins, aquelas coisas asquerosas que me matam de medo. Eles não possuem rostos, é como se seus rostos estivessem sido derretidos por fogo. Eu não tenho munição, não tenho nada a não ser uma chave inglesa que com certeza não vai ser páreo para meia dúzia daquelas coisas e tão pouco para o cara com a cabeça de pirâmide com sua enorme espada. Se Mateus estivesse fazendo isso... Mas com que poder? O cerco de manequins começa a se fechar ao meu redor e sinto que não tenho mais para onde ir. O Cabeça de Pirâmide se aproxima, arrastando a pesada espada. É o meu fim.
–Não, não, não, não, NÃÃÃÃÃÃAÃOOOOO!!!
Agora vejo a minha ideia ridícula de vir aqui sem nada, sem preparo, sem munição, sem nem saber o que fazer direito. Vim para morrer, somente. As coisas fecham ainda mais o cerco, agora me dando pouco espaço para fugir. Mateus continua insistindo.
–Matt... Pule aqui!
Pular em um buraco de onde saem vários gemidos e que é o meu túmulo não faz o menor sentido, ainda mais com o epitáfio de “suicida”. Porque eu faria isso? Mas se ficasse, morreria aqui. Qual seria a melhor opção? Me enterrar ou lutar até a morte? Lutar? Eu seria morto sem nem ter como lutar com essas coisas. Meu destino parece traçado.
–MATTHEW LIWARD, PULE AQUI!
Sem pensar muito, corro em direção a um dos manequins que fecham o cerco e atiro a minha mochila contra ele o deixando atordoado. Pego-a de volta rapidamente e consigo sair do cerco, passando a poucos metros com o cara da pirâmide que ergue a espada, mas pelo peso o faz lentamente. Quase bato em algumas placas de pedra dos túmulos e paro diante do enorme buraco, do meu túmulo. As vozes e gemidos se intensificam ainda mais e vejo as coisas vindo em minha direção. Se eu não pular, vou acabar sendo jogado para dentro ou morto de qualquer jeito. Olho para o buraco e respiro fundo. Então, espero um pouco mais, pensando nas consequências daquilo. Não tinha mais nenhuma opção. Então, dou um grito bem forte em meio aos gemidos e pulo.
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