Silent Hill: The Artifact
27 A Mulher Sem Rosto
Notas iniciais

A queda não é tão demorada assim, levando cerca de dois segundos. Meus pés batem no chão e caio desastrosamente de costas para trás. A dor que sinto de imediato nas pernas me faz delirar. Continuo ali deitado, na esperança de que as criaturas não caiam buraco adentro. Para a minha sorte, minutos depois não consigo ouvir mais nenhum sinal das coisas lá em cima, nenhum grito, nenhum barulho. Levanto. O chão parece um pouco gosmento e sinto um cheiro terrível invadir meu nariz. É um odor diferente, odor de esgoto. Ligo a lanterna, desligada sem querer por mim no momento do pulo. O lugar aparece agora em meio a luz fraca do objeto: é realmente um esgoto. Os esgotos de Silent Hill. Mas era um pouco estranho ver isso embaixo de um cemitério, o que me faz pensar se os corpos enterrados nessa cidade ficam realmente enterrados aqui. Penso em subir de volta, talvez as criaturas tenham sumido. Olho pra cima, o buraco parece um pouco alto demais pra alcançar e não vejo nenhuma escada próxima. Talvez o jeito fosse seguir por aqueles túneis e encontrar uma subida o mais rápido possível.
–Matt... Aqui!
Viro minha lanterna na direção da voz. Era o jovem Mateus, chamando com a mão em direção a ele. Se ele me guiou pela primeira vez na cidade, porque não me deixar me guiar por ele? Afinal, foi ele que me trouxe aqui e, no mínimo, com ele estarei prolongando a minha morte o máximo que puder.
–Mateus... Espera, vou com você.
O garoto começou a correr, entrando mais ainda por dentro dos túneis. Eu faço o mesmo, tentando alcança-lo. Ele parece muito rápido. Começo a ficar ofegante, mas não consigo parar de correr. De repente, o garoto para no meio do túnel e passo por ele, evitando bater por alguns metros. Viro em direção a ele, que sorri e some como se fosse névoa.
–AAHH! De novo não! Droga Mateus!
De repente, ouço um zunido. Viro-me pra trás, perdido em meio aqueles tuneis de esgoto, sem saber para onde ir. O zunido vai aumentando e de repente todo o lugar é iluminado por uma forte luz vermelha, que agora forma o mesmo vórtice que havia encontrado no parque, da primeira vez que tinha vindo. O vórtice que sugava todas as coisas para dentro de si, inclusive minha pele.
–Não... Pode... Ser!!!
Começo a correr desesperadamente no sentido oposto, mas a coisa já começa a sugar tudo. O zunido que emite é ensurdecedor, e a forte sucção me faz ficar mais lento. Continuo correndo desesperadamente e o túnel começa a se alongar, como se ficasse mais distante a cada passo que eu desse, mas eu já conhecia aquilo e tudo que deveria fazer era correr e me manter vivo até que tudo aquilo acabasse. Estou ofegante. O túnel para de se projetar para frente e chego a uma bifurcação. Fico sem saber para onde ir, enquanto isso a coisa se aproxima de mim e começo a sentir a sensação de minha pele começar a ser sugada para dentro, causando dor em praticamente todo o corpo.
–AAAAIIIII!
Vejo o pequeno garoto correr pela direita. Sigo-o, mas some. Continuo correndo, agora tomando certa vantagem da coisa. Vejo algumas grades à frente, delimitando o fim do túnel. Mateus me trouxe pra morte. Continuo correndo, até que as grades se aproximam e vejo que dá para passar. Com muito esforço, me coloco entre duas barras e consigo atravessar, continuando correndo pelo túnel. Ainda me sinto sendo sugado para trás, mas agora com menos intensidade. Olho pra trás e vejo o vórtice ainda distante, sugando e iluminando as coisas com sua luz vermelha. Talvez eu consiga escapar. Ouço um barulho de metal retorcido vindo de trás e ao olhar, vejo as pesadas grades de metal desaparecendo por dentro do vórtice. Começo a ficar com medo. Meus pés continuam correndo e olho pra frente, vendo mais uma bifurcação. Tenho que esperar Mateus aparecer e dizer por onde é o caminho. O garoto aparece, correndo pela esquerda. Eu o sigo, correndo o mais rápido que posso.
–Matt, porque corre de mim?
Olho para trás, em direção à voz. Não vejo nada, absolutamente nada. Mas conheço perfeitamente essa voz, é a voz do meu pai, Tyler Liward. Como poderia estar falando dali de dentro?
–Pai...
Não consigo parar. Mesmo que seja ele, com certeza aquilo iria me sugar para dentro de me destruir. Eu não posso morrer agora, não quero... Tenho que continuar, tenho que descobrir o porquê disso tudo, tenho que encontrar Anette e descobrir sobre Mateus...
–Matt... Não fuja de mim, senhor!
–Pai... O senhor está morto!
O corredor se projeta mais ainda pra frente, dando a aparência de que o túnel é maior do que parece. O vórtice se aproxima, começando a puxar pedaços da minha pele. Vejo meu sangue pingar sobre o chão e uma porta mais a frente. Aumento a velocidade e me jogo contra a porta com toda a minha força. Ela se abre e caio no chão. O zunido então some e tudo volta a ficar escuro, me obrigando a usar a lanterna. Meus braços queimam em brasa e os vejo, agora que a camisa está completamente rasgada nas mangas. Eles estão como se eu os estivesse colocado em brasas ardentes. A dor toma conta de todo o meu ser, mas pelo menos consegui me livrar do vórtice. Ilumino uma caixa com a lanterna e encontro 24 balas para a minha pistola. Tento sorrir, mas a dor é tão forte que não consigo. Pego a caixa com um pouco de esforço e a coloco dentro da mochila, esperando não ter que usá-la tão cedo. Então, todo o lugar começa a tremer e o túnel começa a ficar um pouco mais claro. Uma tampa de bueiro cai para dentro e ilumina o lugar, mostrando uma escada que leva para cima. Vou até ela e subo, com um pouco de esforço.
Saio dos esgotos e ao me deparar com a paisagem fora, começo a rir. Rio de loucura, de medo, de desespero. Minha risada tem a finalidade de amenizar o fato de ver novamente a enevoada cidade. Para meu desgosto completo, estou oficialmente em Silent Hill. O lugar está exatamente idêntico ao que deixei. As ruas completamente cobertas de névoa, o lugar totalmente deserto e igual, a não ser por uma coisa: as ruas parecem cheias de cinzas que cai estranhamente do céu. Começo a pensar se aquilo era realmente névoa ou fumaça. Passo a mão no cabelo cacheado, e volto com ela cheia de cinzas também. O lugar está completamente coberto por elas. Talvez tenha alguma coisa a ver com o fato de terem queimado Anette, não sei... Olho então para a direita e vejo uma placa muito familiar. Aproximo-me e leio: Rosewater Park. É o lugar onde encontrei Mateus da última vez. Desço as familiares escadas e chego ao mirante, de frente para o lago Toluca. É então que vejo uma mulher, ela segura firme nas mãos de Mateus.
–EEII!!
Ambos viram para trás e olham em direção a mim. Vejo Mateus, com cara de choro tentando se livrar da mão dela. Não consigo ver o rosto dela, pois parece deformado, vazio... Era como se fosse um manequim ser rosto.
–Solte ele!
Rapidamente puxo a arma da mochila e carrego o pente. A coisa parece estar realmente esperando que eu me prepare, o que é muito estranho. Aponto a arma para a mulher, que agora agarra o menino com as duas mãos como se o estivesse usando como escudo.
–SOLTE ELE!
Ela continua olhando para mim, se é que realmente estava, uma vez que não tinha rosto e tão pouco olhos. Não consigo mais me conter e corro até ela. Ela joga o menino de lado e parte para cima de mim como se quisesse me matar. Ela agora segura uma faca.
–Droga!
Aponto a arma para a cabeça e dou o primeiro tiro que acerta em cheio. Mas a mulher continua correndo em minha direção como se nada tivesse acontecido. Não consigo entender o porquê, eu tinha acertado o tiro. Miro de novo, mas erro dessa vez. A mulher continua correndo e chega até mim, me dando um chute e me levando ao chão. Ela pula em cima de mim segurando a faca e tentando me matar, mas giro pra esquerda fazendo-a cair no chão. Acerto outro tiro na cabeça. A mulher dá mais uma investida. A névoa impede que veja muito e a mulher sem rosto sangra muito pela cabeça, mas pouco parece ligar. Ela continua dando investidas contra mim com a faca.
–Mas que droga... Mateus, como eu mato ela?
O garoto permanece em silêncio apenas assistindo tudo. Ela consegue me segurar pelo braço e me joga com força no parapeito, me fazendo bater contra uma das lunetas ali. Sinto uma forte dor nas costas. Miro novamente para a mulher, mas ela é mais rápida e se abaixa, me dando uma rasteira e me fazendo cair no chão. Minha arma cai e desliza para longe.
–Droga!
A mulher acerta um golpe coma em cheio no meu braço me fazendo gritar de dor. A faca permanece fincada, eu a tiro e consigo acertar na barriga da coisa, que finalmente parece sentir alguma dor. Meu braço sangra, mas tenho que sobreviver, por mim, por Anette, por Mateus! Abro a mochila nas minhas costas e puxo a chave inglesa, jogando a mochila em seguida para o menino. Seguro a chave com todas as forças que ainda me restam, ignorando a dor lancinante e perda de sangue no meu braço. Ela ainda tenta tirar a faca da barriga quando eu a acerto em cheio com a chave na cabeça. A mulher cai no chão e eu começo a espanca-la com todas as minhas forças no chão, jorrando sangue para todos os lados. A mulher finalmente dá um último grito, de um lugar que não pode ser sua inexistente boca e para de se contorcer.
–Matt... Você... A matou!
Olho pra Mateus. Estou tonto devido à perda de sangue, preciso me recuperar. Vou caminhando até ele, uma lágrima rola pelo meu rosto. Jogo a chave pra qualquer lado, tudo que eu preciso agora é um abraço do garoto, o garoto que eu pensei ter deixado morrer, mas que agora está vivo e diante de mim. Eu preciso ter certeza, eu preciso dele, eu o amo como se fosse eu mesmo. Sento-me ao lado dele, do pequeno Mateus de 12 anos. Ele sorri pra mim como se agora estivesse seguro. Sem pensar, apenas sorrio e ali no chão dou o abraço mais forte que poderia conseguir.
–Você está vivo Mateus!
–Obrigado por vir me buscar, Matthew!
Tento sorrir, mas ainda estou perdendo muito sangue pelo braço. O corpo da mulher, agora morta, começa a cheirar mal. Mas pouco importa, pois eu o encontrei e ele é real, eu consigo senti-lo. Ele está vivo. Vou me sentindo cada vez mais tonto até começar a perder a consciência nos braços do garoto. Ainda escuto alguns gritos abafados dele pedindo por ajuda, mas sei que são em vão. Desmaio.
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