Silent Hill: The Artifact
28 Don
Notas iniciais

Acordo com fortes batidas no meu rosto. Vejo coisas embaçadas e aparentemente aleatórias. Minhas últimas lembranças traziam imagens de Mateus, um corpo de uma mulher sem rosto e alguns gritos abafados pedindo por socorro. Minha cabeça doía. Passo mais alguns segundos enquanto ouço uma voz chamar por mim.
–Matthew, acorda! Ah cara, não faz isso comigo, não agora...
Sinto-me vesgo por mais alguns segundos e então as coisas voltam a fazer sentido. Vejo a névoa, o parque, as cinzas caindo e um rosto familiar... Bochechas proeminentes, cabeça arredondada e rosto cheio de espinhas com olhos pouco destacados. Era Don. Me levanto imediatamente com um pulo.
–O quê? O quer faz aqui ainda? Saia daqui!
–Calma cara, espera aí... – ele começa levantando os braços como se estivesse rendendo-se. – Eu estou aqui em paz!
–Em paz?! Como assim em paz? Sabe o que VOCÊ ajudou a fazerem com Anette?
Dou um empurrão fazendo com que ele desequilibre e caia para trás. Sinto uma pontada de dor no braço, o que me faz olhar para ele imediatamente. O corte feito pela mulher sem rosto agora estava com alguma espécie de curativo. Teria sido Don? Ou talvez Mateus? O que me lembra de...
–Onde está Mateus? O que fez com ele?
Don se levanta e olha pra mim como se pouco soubesse.
–Que Mateus? Olha Matt, foi mal tudo o que eu fiz lá com Anette...
–Mal? Foi péssimo! Foi a pior coisa que você poderia fazer... Deveria se arrepender de tudo isso. Anette havia perdido o pai, não tinha mais nada do que lamentar a não ser a própria vida e agora vocês fizeram tudo isso causando mais dor e sofrimento pra ela! Como você pode fazer isso?
–Eu... – ele abaixa a cabeça – Eu só queria o melhor...
–Melhor? – começo a me afastar e indo em direção à arma enquanto ele está com a cabeça abaixada.
–Sim... O melhor pra ela, o melhor pra Silent Hill... O melhor pra mim.
–Melhor pra quem? Quem em sua sã consciência pensaria que isso seria o melhor pra alguém? – seguro a arma em minhas mãos, agora mirando na cabeça de Don.
Ele fica em silêncio. Por cerca de dois minutos, eu fico mirando a arma em silêncio com meus pensamentos. Eu poderia mata-lo agora e me vingar do que ele fez, fazê-lo pagar. Afinal, se Silent Hill era um lugar onde as pessoas pagam por seus erros, nada melhor do que fazer parte desse processo, ainda mais sabendo do que ele fez com ela. Faria isso com Don primeiro, e depois com Chang e Thompson... Ou talvez invertesse a ordem das coisas... Sim, Chang deveria ser a última e mais sofrida morte. Depois de me fazer confiar nele e destruir completamente tal confiança, tudo o que ele merecia agora seria a morte. Silent Hill, o lugar perfeito pra se matar alguém. Quem viria procurar por alguma coisa aqui? Destravo a arma fazendo um barulho de “click”. Ele levanta a cabeça e olha em minha direção.
–Eu pensei que demoraria menos para isso.
–É o que você merece Don!! Veja o que fez!
Ele sorri.
–E eu que achei que as histórias de Silent Hill eram apenas lendas... Ser punido por tudo que fiz... Talvez seja bom que você me mate agora, assim pagarei por tudo e não precisarei mais passar pelo inferno. – Ele olha pra cima – Quem diria que nunca mais eu veria o sol de novo. Talvez se você me matar agora, eu não tenha mais que conviver com esse peso.
–Peso? – Falo apontando a arma – De Anette?
–Se o peso de Anette fosse tão pesado o quanto o fardo que carrego, Matt, talvez eu não tivesse feito isso a ela.
Me aproximo dele mas sem baixar a arma. Toda essa nova reflexão de Don, desfazendo a personalidade dele de “bobão” de certa forma me intriga. Talvez a cidade tivesse feito isso a ele, sim, talvez um presente da cidade. Mas Silent Hill não dava presentes, então de alguma forma, ele enfrentou coisas em seu passado que o mudou completamente. Sei que isso é aceitar as teorias de Chang, mas não vejo outra explicação.
–Don... Que peso é esse então?
–Eu gostaria que você baixasse essa arma...
–Não conte com isso.
–Certo então, eu vou lhe contar. Quem sabe assim, parte desse peso seja aliviado.
Faço uma expressão de quem está esperando. De qualquer forma, sei o que vou fazer no final das contas. Se ele me contar, então apenas estarei adquirindo mais informações sobre esse lugar, talvez consiga me dar melhor. A arma continua apontada para a cabeça dele. Ele agora caminha até o parapeito, próximo a uma das lunetas que facilitam a observação do lago, logo ao lado do corpo da mulher sem rosto. Ele olha para o lago, ou pelo menos para a névoa que o cobre, com um olhar vazio, sem expressão. As cinzas caem sobre o seu cabelo e sobre todo o lugar incessantemente como se fosse um longo dia de neve. Um poste próximo a nós ilumina pouco o lugar deixando o ambiente muito melancólico. Vejo uma lágrima escorrer pelo seu rosto.
–Bem... – ele começa – vamos ao que interessa.
–Estou ouvindo.
–Quando eu tinha quatorze para quinze anos, eu era um adolescente um tanto inconsequente. Eu era idiota, fazia coisas porque as outras pessoas faziam ou pediam que eu fizesse. Eu gostava disso, embora achasse que estava sendo eu mesmo. Eu... eu sempre tentei ser um exemplo para os meus pais, mas seguir os outros por vezes fazia com que eu me metesse em encrencas... Encrencas as quais nunca, ou quase nunca, chegavam ao conhecimento dos meus pais. Foi mais ou menos nesse período que comecei a me drogar e então as coisas desandaram. Desandaram porque eu fiquei viciado e sempre procurava dinheiro pra me sustentar, pra comprar meus bagulhos, sabe? Mas até aí tudo bem... eu parecia feliz com o que tinha, mas no fundo.. no fundo eu era realmente triste sabe? Triste por estar me destruindo, triste por esconder que não era porcaria de exemplo nenhum pra ninguém.
–Esse é o peso que você sente? Nossa, que emocionante!
–Eu ainda não acabei.
–Não importa! Eu vou matar você de qualquer jeito. Você não merece a vida.
–Claro Matthew! E QUEM É VOCÊ PRA JULGAR QUEM MERECE? QUEM? – Várias lágrimas correm pelo seu rosto.
Fecho os olhos e peso minha mão sobre o indicador, na tentativa de puxar o gatilho, mas antes disso, ele retorna a falar.
–Eu tinha saído pra me drogar mais uma vez. Era o meu beco preferido, sabe? Ia com meus colegas do colegial. Estávamos lá, tínhamos comprado bastante e estávamos muito drogados, sabe? Eu fiquei fora de mim cara... Fiquei mesmo. Foi então que ele chegou. Um cara chegou ao beco e me viu e começou a me puxar pra fora, a dizer que eu não deveria estar ali. Eu estava muito drogado, eu tinha me enchido de pó e achei que ele ia me matar, me levar pra polícia ou algo assim. Eu não tinha visto quem era, apenas ouvido a voz, mas não reconheci porque quando a gente tá cheio de pó, nem presta atenção as coisas... Então ele ficou me puxando, meus outros colegas ficaram falando pra eu me livrar dele porque senão ia avisar pra polícia. Então, numa atitude desesperada, eu puxei a arma do bolso e atirei no seu peito. Ele caiu no chão e nesse momento gritou meu nome... Sabe, eu fiquei com muito medo, porque se sabia meu nome, era um conhecido meu. Mas então eu reconheci a voz e fiquei torcendo pra que não posse quem eu pensava que era. Foi aí que passou um carro próximo ao beco com luz bem alta e então eu vi o rosto dele... Era... era... – ele começa a chorar e a soluçar – era... era...
–Fala logo Don...
Entre soluços, ele enxuga os olhos e ri, gritando ao mesmo tempo. Ele parece demonstrar vários sentimentos ao mesmo tempo, chegando a um estágio de desespero louco.
–Era... Meu pai!
Abaixo a arma. Não estava conseguindo acreditar. Ele havia matado o próprio pai, então esse era o enorme peso que ele carregava. Então era por isso que ele tinha vindo à Silent Hill. Talvez não coubesse a eu acabar com a vida dele... Mas estava ainda mais furioso. Como queimar Anette poderia resolver tudo isso? Aponto a arma pra cabeça dele mais uma vez, porém ele pouco parece se importar.
–Então... Eu convivi com esse peso. Ninguém nunca descobriu o verdadeiro assassino dele. Eu continuei convivendo com minha mãe, escondendo dela tudo isso. Se eu falasse, ela certamente teria uma dor pior e se mataria. Eles se amavam muito e o casamento era bem estável... Eu destruí, acabei com minha própria família – ele continua chorando.
–E o que queimar Anette tem a ver com isso?
–Matthew, nos conhecemos antes de ir parar no mesmo dormitório na faculdade. Eu conheci Chang e me aproximei mais dele. Eu contei tudo isso e ele falou que havia uma maneira de me redimir. E essa maneira era encontrar a Mãe Sagrada e trazer pra cá. Ele já havia encontrado, só precisaria da minha ajuda. Se eu ajudasse, ele me falou que certamente deus me perdoaria e me traria misericórdia. A ideia de ter matado meu próprio pai e ter acabado com minha família me persegue, eu faria qualquer coisa pra me livrar disso. Quando Chang falou sobre a existência de deus, eu comecei a acreditar nisso. Mas depois do que vi com Anette, não acredito mais que aquilo é um deus. E se existir algum, certamente não é como aquela coisa a quem eles servem e muito menos que controla todo esse inferno dessa cidade. Então eu dei um jeito de ajudar você, jogando sua mochila e lanterna. Depois, consegui escapar por uma entrada que passa na câmara daquela coisa, aquela que você estava...
Lembro-me do corpo de “deus” e sinto um arrepio pela espinha.
–Então, eu não te encontrei mais e pensei que você tinha fugido. A única coisa além daquele corpo lá era o Selo de Metatron, que eu trouxe porque tinha visto você usar uma vez no hotel. Eu tentei usar, mas não consegui... – ele tira o objeto do bolso e me entrega. Eu o pego e coloco no bolso da minha calça.
–Somente o Protetor Sagrado pode usá-lo. Eu sou o protetor de Anette enquanto “deus” não nascer. Eu usei pra sair de Silent Hill, Don. Mas sair daqui agora está muito além do que eu quero ou não. Eu tenho que salvar Anette e Mateus, além de terminar o que comecei. E agora estou em dúvida se mato ou não você... – continuo com a arma apontada para ele.
–Eu não faço mais questão de viver... Se quiser me matar, pode fazê-lo. Eu já destruí a minha vida e agora a de Anette.
Respiro fundo. Talvez esteja fazendo a coisa errada, mas ele estava certo. Quem sou eu para julgar se alguém deve ou não viver? Se Silent Hill ainda não o matou é porque tem algo mais a ser tratado com ele, então vou deixar que se encarregue disso. Se não acontecer, então eu mesmo o matarei mais tarde. Ele ainda pode ser útil. Abaixo a arma mais uma vez e coloco no bolso da calça. Vejo Don suspirar alto e olhar pra mim com uma expressão de agradecimento.
–Don, tenho uma coisa que pode te redimir melhor do que queimar pessoas...
–O quê?
–Vamos tirar Anette e Mateus daqui... Com vida!
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