Silent Hearts
6 Um Conto Infantil
Notas iniciais
Eu vou explicar. Recentemente, eu fui viajar. É, quando eu voltasse, eu iria postar. Contudo, depois de voltar, descobri que não tinha sido aceite na faculdade. Aí entrei numa depressão e perdi a capacidade de escrever, simplesmente. Eu não conseguia fazer nada, vocês nem imaginam. Foi um sufoco para escrever esse capítulo, mas lá o fiz.
Espero que gostem! No final, eu até gostei de como ele saiu.
- ASSASSINO!
A voz de Ira ecoava de uma forma bizarra no corredor, a palavra se repetindo consecutivamente, os sons se interpolando de uma forma que dava a Mark dores de cabeça. À sua volta, os restantes hóspedes, excetuando Sombra, o cercavam.
-Assa… Assassino…? – Gemeu Frágil, a sua voz ténue falhando de vez em quando. Dessa vez, ela não chorava. A sua expressão continha um misto de choque, medo e raiva. Os olhos, muito abertos, pareciam já ter esgotado a sua reserva de lágrimas.
- O que raios está acontecendo? – Berrou Desistente. A confusão juntamente com a raiva espelhava-se no seu rosto.
Após a morte de Sorriso, o grito de Mark alertara o resto dos hóspedes, sendo ouvido através da porta que a loira deixara convenientemente aberta. Mãe e Ira foram as primeiras a chegar, e assim que viram a cena, resolveram fechar a porta e evitar que mais alguém ali entrasse. Assim sendo, apenas Mark, Mãe e Ira observaram o corpo sem vida de Sorriso.
- O-O S-Sorriso, ele… Ele está morto! – Berrou Mãe, soltando a mensagem como quem deixa cair uma bomba. – No quarto do Fera! Sangue, em todo o lado… Ele… ELE FOI MORTO POR ESSE MONSTRO!
Mãe pareceu entrar em loucura. Correu para a frente de Fera, agitando o braço e lhe dando uma tapa forte na cara. Se não fosse pelo som das pulseiras de prata da mulher tilintando, o corredor teria ficado em pleno silêncio. Seria de se pensar que Mãe teria acabado por aí, mas ela logo prosseguiu para dar uma outra tapa, e outra, e outra. Eventualmente, ela fechava os punhos e tentava socar o homem.
Como é claro, foi impedida pelo mesmo. Embora Mark tivesse sustentado as estaladas – que, na sua opinião, eram merecidas – ele não permitiria que a mulher fosse socá-lo daquela forma. Agarrando os braços desta com as mãos, travou o seu movimento.
- Seu… Fedelho…
Os grunhidos de Mãe tornavam-se palavrões incompreensíveis. Os outros limitavam-se a ficar olhando.
- Me deixem explicar! Ele morreu, na minha frente, NÃO FUI EU QUEM FEZ ISSO!
- Então quem seria o assassino de Sorriso? – Perguntou Bela. A morena olhava para a cena de lado, como se desprezasse o que presenciava.
- Aquela loira! A mulher que nos abriu a porta no primeiro dia!
Fez-se silêncio. Por momentos, ninguém falou, até que eventualmente Ira se fez ouvir.
- Ohh, que conveniente. – Comentou, irritada – A mulher apareceu exatamente na sua frente, matou Sorriso e desapareceu antes que alguém a visse! Deveras perfeito. Embora eu suspeite daquela mulher ao extremo, ela sempre alegou que não fazia parte desse… jogo doentio.
- Ela não o matou por causa do jogo! Ela matou-o porque… – Ele engoliu em seco – Porque ele parou de sorrir!
- Ah, como se alguém fosse acreditar nessa porra! – Grunhiu Desistente
- É verdade, era o objetivo del…
- Apenas CALE A BOCA! – Gritou Mãe, as lágrimas lhe caindo da face constantemente – Você não passa de um MENTIROSO! Seu… Seu monstro…
- E-Ele não merecia! – Suspirou Frágil – Ele não merecia morrer!
- P-POR FAVOR, ACREDITEM EM MIM! EU REALMENTE…
- As provas são claras. – Declarou Ira – Até uma criança pode compreender isso. Ele foi encontrado morto no seu quarto. Você o segurava.
Não valia a pena. Estavam todos convencidos de que ele era o assassino. Todos eles, inclusive…
- Você… Matou Sorriso? – Perguntou uma voz atrás do grupo. No fundo do corredor, próximo às escadas, estava Sombra. Ele olhava para o homem de uma forma pesada, a pele perdendo cor como se tivesse encontrado um fantasma. – Mas… Você me disse…
- Sombra…
- Eu pensei que… Que podia confiar em você… – Murmurou a criança – Mas você o matou! Você o matou! Você o matou!
A criança de cabelos negros começou a chorar e correu pelas escadas a baixo. Chamando por ele, Bela seguiu-o, lançando um olhar cortante para Mark antes de descer para o andar inferior. Pouco a pouco, todos foram saindo, cada um dirigindo um olhar reprovador para Fera antes de descer.
-x-
“Querida Mãe,
Não é fascinante? Já fazem dois anos desde que eu fui adotado. Agora já tenho 12 anos. Mãe, eu tenho saudades tuas. Dois anos desde que você sumiu. Eu tenho saudades de ser Louis Nord…
Houveram umas confusões aqui em casa, agora que o senhor Hilbert morreu. Eu não compreendi muito bem, mas tem algo a ver com a herança, coisas complicadas. Acho que a Beatrice não gostou muito disso porque o papai apenas lhe deixou uma loja de testamento e deu maior parte das suas riquezas para a mana Martha. Por falar nisso, a mana Martha está grávida! Eu vou ser titio! Não é legal?
Você deve se estar perguntando o que aconteceu com a senhora Nicole. Pois bem, ela só ficou com a casa. Tecnicamente, quando ela morrer, a casa vai para a Martha também. Eu tenho pena da Beatrice. Ela não tem nada, e está super irritada por causa disso.
Mãe, mãe! Tem uma coisa que eu esqueci de te contar! Eu arranjei – adivinha só – uma namorada! Ela se chama Emma, e poxa, você não imagina o quão linda ela é. E ela fala que eu sou lindo também, mas eu me sinto envergonhado ao pensar nisso.
Estou te esperando, mãe. Com amor, Louis.”
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“Querida Mãe,
As coisas não estão muito bem por aqui.
Estou irritado com a minha família. Mãe, volte logo. Eu não quero ter de estar no meio deles.
A Beatrice ontem estava muito irritada, eu sei que é por causa da herança. Eu também não fiquei com nada, mas a mim isso não me interessa. Já para ela, por alguma razão, a herança era muito importante. Então eu fui tentar ajudá-la, só que ela me chamou de inútil e me bateu. Depois, ela me mandou desaparecer da vida dela.
E aqueles dias em que eu brinquei com ela? Será que eram todos mentira? Ela nunca gostou de mim?
E depois tem a Martha. Eu ouvi ela falando com a senhora Nicole. Sabe o que ela dizia, mãe? Ela dizia que tinha de dar o filho para adoção, que não podia ficar com ele.
Mãe, eu não quero que mais ninguém tenha de passar por isso. Pela adoção. Pelo desespero de não ter os pais por perto. Você não pôde escolher, mas ela pode! Ela está escolhendo abandonar o filho! Eu não sabia que ela era tão ruim assim. Mãe, o que faço? Estou perdido.
As minhas irmãs são horríveis e más. Ao menos ainda tenho você e a Emma.
Volte logo. Com amor, Louis.”
Quando acabou de os ler, Bela colocou os dois papéis no bolso. Não sabia como se sentir quanto ao que acabara de ver, por isso optou por ficar simplesmente confusa. Ficou ainda mais pensativa pelo facto de os ter encontrado no quarto de música, dentro do piano.
O piano sempre fora uma coisa que a confortara. Aprendera a tocá-lo particularmente rápido na sua infância, em parte pelo ótimo professor, mas a verdadeira razão para tal era a sua extrema perseverança. O som do instrumento de cordas sempre a atraíra. Mais tarde, ela tocava-o sozinha em casa, durante os dias de chuva ou quando ela se sentia em baixo. Era uma forma dela escapar da realidade.
Aquela situação não era diferente. Sentando-se na frente do piano após arranjar o problema com o som (o papel estava impedindo duas notas de soarem como deviam), começou a tocar. O som saía com naturalidade, ela sentia já saudades de fazer aquilo. Assim o fizera após a morte de Combatente, assim o fazia pela morte de Sorriso também. E dessa vez, ela tinha coisas a pensar.
Ela não queria acreditar que Fera fora o assassino. Por muito que ela tentasse, ela não conseguia, não podia ver como que ele fosse capaz de fazer isso. Além de que todas as circunstâncias eram suspeitas. Porque haveria Fera de matar o garoto precisamente no seu quarto? Isso só por si elevaria obviamente imensas perguntas e suspeitas, qualquer pessoa que pensasse um pouco nos acontecimentos perceberia que apenas um burro faria isso.
E no final, ela acreditava nele. Acreditava que ele era uma pessoa de bem, fosse por onde fosse. Mesmo que, no final de contas, o assassino não o faz simplesmente porque quer – é o seu “objetivo”, o que tem de obedecer pela sua vida. Isso faz com que qualquer pessoa possa ser o assassino, até mesmo as crianças. Arrepiou-se com tal pensamento.
Terminando de tocar, Bela levantou-se, agitando de leve a sua saia para libertar o pó – não que houvesse algum nela, apenas por um hábito. Observou o instrumento musical novamente. Um dia, ela tocaria para uma grande plateia. Esse era o seu sonho.
Desceu para a cozinha, desejando petiscar alguma coisa. Esperava não encontrar ninguém no caminho, esse era o seu último desejo naquele momento.
Já era noite, por tanto era provável que houvesse gente já dormindo. Quando ela alcançou a porta, notou que esta estava entreaberta. Ouviu vozes lá dentro.
- E-Eu procurei por ela – A voz de Mãe fez-se ouvir – Ela não parece estar no seu quarto… Se está, não me abriu a porta.
- Deveríamos encontrá-la – Dessa vez, foi o habitual sussurro ténue de Frágil que soou por trás da porta. Bela se encostou à porta, sem a abrir. Estavam falando dela? – Antes de prosseguirmos…
- Não há tempo. – Grunhiu Ira – Temos de começar.
- V-Vale mesmo a pena? – Perguntou Joker – Eu não tenho bem a certeza… Acha mesmo que ele não vai parar se…?
- Não, é claro que ele não vai! – A voz de Desistente foi acompanhada com o som de algo bater numa mesa, possivelmente um murro dado pelo próprio – Foi o que nos disseram no primeiro dia. Só dá para impedir as mortes se matarmos o assassino!
Bela parou de ouvir o que estavam dizendo naquele momento, dando um passo para trás. Estavam pretendendo… Matar o Fera?
- Certo, está tudo decidido? – Ira perguntou. Como sempre, ela era praticamente a “chefe” dali. – Então vamos lá.
Todos os presentes na cozinha lançaram uma espécie de grito de guerra que fez Bela recuar uns dois passos. Não, ela não podia permitir que aquilo acontecesse.
Começou a correr, e logo viu o resto do grupo sair na porta onde ela estava escutando segundos antes. Dando graças por não ter sido vista, logo subiu até ao terceiro andar, batendo furiosamente na porta de Fera. Sem resposta. Estaria ele noutro lugar? O seu coração batia descompassadamente. Lembrou-se que, atrás daquela porta, estaria a cena do crime de Sorriso. Obviamente, Fera não dormiria ali. Demorou dois segundos a pensar em que outro lugar ele estaria, e rapidamente foi até ao único quarto que nunca fora ocupado no terceiro andar: O quarto de Anfitrião. Bateu à porta com força.
Quando a porta foi aberta, ela olhou de relance pelas escadas. Não havia tempo. Como suspeitara, Fera escolhera ficar no quarto de Anfitrião, porque os outros quartos provavelmente lhe traziam más recordações.
- Oiça bem, temos pouco tempo. Os outros estão te procurando, eles vão te matar, EM SITUAÇÃO ALGUMA lhes abra a porta. Eu vou tentar distraí-los – Bela disparava as frases, em pânico – E você vai se esconder. Não interessa o que faça, NÃO FALE COM NINGUÉM.
Começou a ouvir as pessoas subirem as escadas. A sorte de Bela era que eles demoraram algum tempo. Antes de Fera sequer responder, ela empurrou-o de volta para o quarto e fechou a porta, tentando fazer isso o mais silenciosamente possível. Precisava de os distrair, de alguma forma…
Dirigiu-se às escadas, encontrando o grupo. Eles seguravam facões de cozinha e tachos. Tentou agir naturalmente, fazendo uma expressão confusa.
- O que é que vocês estão…? – Perguntou. Não esperou que lhes respondessem – Não interessa, saiam da frente! Eu estou procurando o Fera!
- Você viu-o? – Perguntou Sombra nervosamente – Onde ele está?
- Eu não sei se o vi. Estive vendo no quarto dele e nada. Depois vi um vulto descendo as escadas, mas não liguei. Continuei procurando-o aqui em cima mas não o vi em lado nenhum, suponho que ele esteja em baixo. – Mentia descaradamente, mas esperava que isso fosse suficiente. O grupo fez silêncio por um tempo.
- Vamos nos separar e procurá-lo nos andares de baixo. – Sugeriu Mãe, que balançava um enorme facão em suas mãos. Aquilo não parecia muito seguro – Talvez assim…
- Boa ideia. – Concordou Desistente, que para grande surpresa geral não estava reclamando como sempre – Mas temos de ser rápidos! Se ele ainda não descobriu, o filho da puta vai perceber que nós o estamos procurando.
Desceram as escadas, deixando uma Bela bastante aliviada por lhe terem acreditado. Olhou de relance para a porta atrás de si. A sua mentira não iria perdurar muito tempo, Fera teria de mudar de esconderijo em breve.
-x-
A noite estava cansativa. A mulher corria, corria de um lado para o outro, tentando salvar Fera. Será que eles não desistiam? Felizmente, Fera não era completamente burro, também se escondendo pela mansão quando o quarto de Anfitrião não era mais seguro. Como era noite, ele estava proibido de sair, mas assim que o dia nascesse, ele poderia fugir para o jardim. Nessa altura, nunca mais o encontrariam.
Não era tarefa fácil. Uma vez, Sombra quase que o ia encontrando. Para despistá-lo, Bela foi obrigada a partir um vaso e gritar, fingindo tê-lo visto correndo na direção oposta. Noutra, ela apagou “acidentalmente” as luzes para que ele escapasse em segurança quando Ira procurava na sala de estar.
Ela estava cansada, não descansava há algum tempo. Sabotar a procura dos hóspedes era exaustivo, ao ponto de, a certa altura, ela ter de parar por um momento. Encostou-se a uma parede, massageando as têmporas. Ahh, como toda aquela situação não era irónica. Ali estava ela, de cognome Bela, protegendo aquele a que todos apelidavam de Fera. Tal como a princesa dos contos infantis protegeu o monstro dos aldeões enfurecidos, ela também estava com a missão de salvar o seu próprio monstro. Ela riu com esse pensamento. Ela não era nenhuma princesa, tampouco doce e amável como a da história.
Voltou a andar. Estando no rés-do-chão, ela esperava encontrar outras pessoas. Mas não viu ninguém. Entrou na sala de estar, apenas para ver alguém às escuras.
- …Fera? – Perguntou. As luzes não estavam acesas, por isso deduziu logicamente que seria o homem tentando se esconder ali. Não recebeu resposta, o que lhe deixou um pouco confusa – É você?
Dirigiu a mão ao interruptor, mas aí viu a pessoa indo na sua direção.
E com um movimento rápido, a pessoa cortou-lhe o pescoço.
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