Silent Hearts

7 Porque Eu Acredito


Notas iniciais
Desculpem a demora e o capítulo não tão bom quanto o normal...
De qualquer forma, já saiu (e com muitas revelações)! Boa leitura. :)

A criança de cabelos negros chorava descontroladamente. Não podia ser verdade. Aquela coisa horrível que lhe haviam contado não podia, de forma alguma, ser a verdade sobre a sua vida.

Naquele momento, ele não queria continuar com as outras crianças, por isso fugira. Fugira para a cidade, onde nenhum deles o podia alcançar. Era possível que acabasse se perdendo, mas isso também não seria um problema para o garoto.

Corria pelas ruas abastadas de gente caminhando apressadamente de um lado para o outro, sem nenhum destino em especial. Para onde as suas pernas o levassem, ele iria. Fosse um parque, um rio, uma loja… Qualquer coisa servia, desde que o distraísse. Perdido em pensamentos, acabou dando um encontrão numa pessoa. Tropeçou, caindo de bunda no chão de concreto.

“A-Ai…” Gemeu, sentindo uma dor aguda no coxis que não o deixava se levantar. Em vez disso, olhou para cima, encontrando uma jovem adulta que o fixava de uma forma atenta.

“Ohh! Que distraída. Você está bem, garoto?” Perguntou ela, ficando de cócaras na frente da criança para ficar da sua altura “Quer ajuda a se… Hey. O que se passa?”

Ela deve ter notado que o mais não estava muito bem, por ventura por causa da cara ainda húmida e os olhos ainda vermelhos do seu choro mais recente. Em resposta, ela deu a mão ao menino de, na altura, sete anos e ajudou-o a se levantar.

“E qual seria o seu nome?” Perguntou ela com uma voz doce.

“Chad… Drott…”

“Oh! Prazer em conhecê-lo, então. O meu nome é…” Ela se baixou e sussurrou o seu nome no ouvido do mais pequeno, com um sorriso brilhante no rosto. “Não o diga muito alto. Ele é conhecido, mas prefiro que as pessoas não me reconheçam. Então, tenho de te compensar! Que tal nos juntarmos por um pouco? Podemos comer um gelado, talvez…”

Parou, analisando o mais novo com um suspiro. Ele não parecia estar muito entusiasmado, contrariamente à garota de cabelos negros com quem ele falava. Na verdade, a pobre criança nem sequer olhava para cima, preferindo antes encarar as pontas dos seus pés.

“Oh! Está decidido! Você vem comigo!” Comentou a mulher, pegando na mão de Chad e o encaminhando pela rua.

Ele nem queria ir com ela. Ele não queria falar com ninguém, queria ficar sozinho. Mas ela insistia, insistia em acompanhá-lo, ajudá-lo, animá-lo. No final do dia, ele até que já não se sentia tão ressentido quanto antes.

A garota era, na verdade, bem simpática. Ela levara Chad ao zoo, onde eles viram um show com focas. Nunca tendo ido ao jardim zoológico na vida, aquela fora de facto uma experiência diferente para a criança. Ainda comeram um gelado (como a jovem bem insistia em fazer), e andaram pelo bondinho que permitia uma vista detalhada do parque por cima. No final do dia, estavam à beira-rio.

“…Porque é que você me está ajudando?” Perguntou. Recebeu uma risada em resposta.

“Por nenhuma razão em especial.” Respondeu a jovem adulta. Esticou as mãos para o alto, bocejando um pouco e depois se jogou para trás, ficando deitada na grama. “Acho que eu simplesmente me preocupei demais. Você estava chorando antes de me ver, não é verdade? Além disso…”

Parou para suspirar. Chad apenas a ficou fitando com os seus olhos azul-claros, esperando que esta continuasse.

“Bom, você é bem novo. Que idade tem? Cinco, seis anos? Eu me preocupei ao te ver andando sozinho pela cidade” Comentou. “Eu me sentiria mal se te acontecesse alguma coisa.”

Com um movimento rápido, ela puxou o seu corpo para cima, ficando sentada de novo. Aproximou-se de Chad com um sorriso.

“Eu acabei de dar um fora no meu namorado por sua causa.” Disse, levando o dedo indicador aos lábios e piscando o olho, pedindo secretismo “Por isso você tem de aproveitar e não reclamar!”

Observou a mais velha com surpresa, que por sua vez se levantou, apoiando-se sobre um pé. Ela esticou a mão para o garoto, sorrindo-lhe.

“Então, tenho de te levar para c—“ Ela parou, inclinando a cabeça para o lado numa expressão confusa “Oh?”

Foi esse singelo gesto que fez Chad compreender que ele agora chorava. Não sabia bem o porquê. As lágrimas simplesmente saíam, deslizando pela sua face até tocar no chão. Muitas lágrimas, na verdade. Em poucos segundos, a cara dele estava completamente molhada. Soluçando desesperadamente, sentiu-se ser envolvido por algo quente. Cheirava bem.

“Não se preocupe, Chad…” Murmurou a mais velha docemente. “Eu vou garantir que você nunca mais ficará sozinho. Nunca, nunca mais.”

Nunca mais. Nunca, nunca mais.

Nunca mais. Nunca, nunca mais.

Nunca mais. Nunca, nunca mais.

Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais. Nunca mais. Nunca, nunca mais.

Nunca mais.

–x-

E contudo, ali estava ela, caída no chão da sala, a os olhos ainda mostrando um vestígio do que fora a última emoção que transparecera na sua face: Choque. Não, não era choque. Era desespero.

Sombra sentia um nó na garganta, um nó tal que o impedia de falar ou gritar. Mais uma vez, as lágrimas começaram a cair da sua face sem aviso prévio. Era a única coisa que ele conseguia fazer. Tentou andar, tentou falar, tentou alcançar a sua amiga, mas o seu corpo se recusava a responder. Em vez disso, ficou ali fitando o corpo sem vida de Bela, uma poça de sangue insípido ainda aumentando lentamente de tamanho em baixo deste.

Seria aquele outro feito de Mark? Não, não era assim que Sombra deveria falar dele. O nome do homem naquela altura era Fera. Ele já não era mais aquela pessoa que Sombra conhecia tanto e gostava. Ele virara um assassino.

– Sombra. – Disse um sussurro atrás da criança, que de alguma forma o puxou para fora do seu transe e levou-o a virar-se para trás, a fim de ver a sua origem. – O que se passa aqui…?

Era Frágil. Ela estava na porta, piscando os olhos várias vezes ao ver a expressão de choque na cara do outro. Dirigindo-se lentamente para o lado deste, a garota finalmente viu o corpo, levando a mão à boca. Em vez de gritar, soltou um longo suspiro, como se lhe faltasse o ar. Dando uns passos para trás, eventualmente derrubou um candeeiro que caiu com um barulho seco mas alto.

Pouco a pouco, o número de pessoas na sala aumentou, algumas alertadas pelo barulho, outras simplesmente seguindo as outras. Todos estavam ali, com a exceção de, é claro, Fera.

– O quê!? – Exclamou Ira, a cor abandonando-lhe a face ao encontrar o corpo – Mas como? COMO!?

– N-Não… Não posso mais com isso! – Gemeu Mãe, roendo as unhas como se dependesse disso para viver – E-Ele matou de novo…? Não era suposto isso estar acontecendo!

Como sempre, o que aparentava mais calmo era Voz. Não podendo falar, ele limitava-se a observar a cena com pesar, dirigindo-se ao corpo e verificando, inutilmente, o corpo da jovem. Ao contrário dos outros corpos, contudo, ele notou qualquer coisa. Pareceu impressionado com o que encontrara, se afastando e fazendo sinal para que o resto se aproxime e perceba o que estava ali.

Entre as mãos da mulher estava um papel amarrotado, aparentemente retirado do bolso na pressa. Ela, de alguma forma, queria que os outros o vissem.

Voz retirou o papel do bolso e começou a ler, o resto do grupo se posicionando atrás dele para o mesmo fim.

Eu serei a próxima a morrer. Eu sei disso. Só não sei quando.

O quarto trancado, ele tem uma lista. Uma lista de nomes. Suponho que sejam os nossos, eu vi o meu lá. Alguns estavam riscados a vermelho.


Eu percebi que havia uma ordem para as mortes, e o assassino está a segui-las. Contudo, a morte de Sorriso veio antes do previsto. Com isso, só posso inferir que quem o matou não foi o assassino.


Aquele quarto está cheio de informações. Não pude lê-las a todas, Mirno expulsou-me assim que se apercebeu que eu arranjara um jeito de lá entrar. Mas cuidado, porque depois de mim, a próxima pessoa a ser assassinada é…

– Ohh, que pena! – Disse uma voz por trás do grupo. Quando se viraram, a loira estranha estava ali, recostada no sofá com o seu sorriso sádico no rosto, como sempre. – Parece que alguém rasgou o resto do papel, não é verdade?

– Foi… Você…

– Mas que hóspedes tão rudes. Culpando uma pessoa que nem faz parte do jogo pela porcaria que eles fazem, e depois jogando a culpa em alguém entre eles por algo que essa pessoa fez.

Ela deu um risinho, caminhando até Voz e arrancando-lhe o papel das mãos. Colocando-o no bolso, dirigiu-se à porta, onde parou.

– Antes que perguntem, “Mirno” é o meu nome. – Disse ela, não se virando para falar com o grupo. A sua voz parecia um pouco mais grave que antes. – E também fui eu quem tomou conta de Sorriso. Ele quebrou as regras.

Saiu do quarto, deixando os outros no silêncio. A mente de Sombra andava mil à hora, um rodopio novo de informações tomando conta do seu cérebro, demasiadas de uma só vez para ele conseguir decifrar o seu significado. Ele não percebia mais nada, ele não queria perceber mais nada. Aquilo significava que Fera não era o culpado? Que ele podia ser inocente, como havia dito?

O garoto queria acreditar nisso, a todo o custo. Fosse por onde fosse, ele queria acreditar que Fera não era um assassino. Porque ele era seu amigo. Ele confiava nele.

Sem conseguir fazer mais nada, ele correu para fora da sala, ignorando os chamamentos dos outros de que era perigoso. Ele tinha de verificar. Ele tinha de verificar o que Bela tinha deixado para eles.

Estava no segundo andar. Alcançou a porta que tinha no seu nome “Escritório”. Apesar de não ter a certeza de que quarto a mulher mencionara nas suas últimas palavras, logo supôs que aquele era o tal – que lugar melhor para guardar documentos e informações que um escritório?

Segurou a maçaneta e tentou abrir a porta desesperadamente. Como previsto, estava trancada. Não podendo abri-la, logo prosseguiu a tentar fazê-lo à força.

Se lançou contra esta, sentindo uma pontada de dor quando o seu ombro a atingiu. Ouviu alguém chamar pelo seu nome, mas ignorou. Ele queria abrir aquela porta, ele TINHA de abrir aquela porta. Estava tão obcecado que não se importava com mais nada, com o que as pessoas diziam.

Se lançou contra o obstáculo de madeira novamente, o barulho ecoando pelo corredor. Mais uma vez, ouviu uma voz. Preparou-se para uma terceira tentativa, quando…

– SOMBRA! PARE! – A voz de Fera fez-se ouvir e a criança fora envolvida por braços fortes antes de poder fazer alguma coisa, os seus movimentos sendo restringidos. – Pare, pare moço! Não faça isso!

– E-Eu preciso de ver! – Reclamou o garotinho de cabelos negros – Eu preciso de ver o que a Bela falou! Ela disse que havia uma lista…

– Não interessa, as regras foram atualizadas! – Exclamou Fera – Se você entrar ali, morre! Os quartos trancados agora estão fora dos limites, e não há nada que possamos fazer quanto a isso!

Sombra sentiu uma raiva enorme tomando conta de si. Aquela era mais uma jogada da loira – Mirno, para garantir que eles não iriam descobrir as verdades escondidas para além daquele quarto.

E com essa simples adição de uma regra, eles voltaram à estaca zero.