Notas iniciais
Não tenho muito a dizer aqui. Peço desculpas para uma pessoa porque eu falei que ia postar ontem esse capítulo mas, como fiquei sem internet, só pude postar hoje. Espero que gostem. c:

Correndo pela floresta densa, eu tentava arranjar uma forma de escapar. Escondendo as lágrimas que se recusavam a cessar, desejo receber o perdão pelo qual tanto supliquei. Mas ele nunca faria isso.

Pelo o que eu ouvira, existiam lobos por ali. As minhas pernas cansadas pareciam querer ceder a qualquer momento, mas mesmo assim eu forçava-as a continuar a correr, pouco me importando se eu estava ultrapassando o seu limite. Se o meu fim estava já predestinado, eu preferia que fossem os lobos mo trazer e não ele.

Eu entendia, de certa forma, os seus sentimentos. O quanto é que eu destruí a sua vida? Um pequeno génio que teria sido capaz de fazer milagres estava agora fazendo o exato oposto, e tudo por minha causa. Se, ao menos, eu o tivesse protegido melhor, talvez nada disso tivesse acontecido.

Ele era fruto de um caso de uma noite. Uma coisa simples, após uma noitada divertida com uns amigos (e amigos dos amigos), acabei por fazer algo que não devia. O tormento começou quando a gravidez foi descoberta. Incapaz de contactar o pai, eu cuidaria da criança sozinha se não fosse pelo facto de outro homem ter aparecido na minha vida e me ajudado. A criança não sabia que ele não era, de facto, o seu pai biológico. Não havia necessidade de o saber. E logo outro surgiu. Louis, o mais velho e Seth, o mais novo. Ambas crianças amáveis, de bom coração. Mas tudo o que eu fiz foi destruir esse bom caráter deles.

Eventualmente o pai de Louis descobriu onde que vivíamos e veio ter comigo. O que ele queria era a criança. Ele vinha “coletar” os frutos que colhera naquela noite para poder usá-los para uma investigação de uma companhia do qual ele participava. Ao ver-me recusar, ele afirmou que ia tirá-lo de mim à força e, caso não o conseguisse, levaria o meio-irmão dele.

Eu não queria nenhum deles, Seth ou Louis, virando cobaias para experimentos desconhecidos. Mas, por muito que eu tentasse, Bernard continuava a perseguir-me. Contactar a polícia foi inútil. Mudar de cidade foi inútil. Mudar de nome foi inútil. Até que um dia, eu e o meu marido decidimos que ele só conseguia encontrar as crianças porque sabia que eles estavam onde EU estava. Por isso, para protegê-los, ambos abandonámo-los um dia num centro comercial. Uma reação desesperada, tudo o que eu queria era que eles tivessem ao menos uma chance de prosseguir com as suas vidas. Longe daquele monstro.

Após alguns anos, vim a saber que, através do próprio Bernard, que Louis tinha se juntado à organização e estava trabalhando no mesmo projeto que ele. De alguma forma, ele o tinha achado e o levado a se juntar ao projeto, tal como desejara. A carta que eu recebera era a sua forma de assinalar a minha derrota. Mas eu não podia permitir isso. Eu tinha de salvá-lo. Eu tinha de salvar o meu filho Louis.

Demorei algum tempo a descobrir que eles viviam numa mansão no meio de uma floresta, um lugar bastante remoto e de difícil acesso. Quando lá cheguei, encontrei apenas o meu filho. Lágrimas vieram-me aos olhos quando vi o quanto ele tinha crescido, mas não me deixei levar pelos sentimentos, eu tinha explicações importantíssimas a dar.

Só que agora eu entendo. Agora eu entendo que isso não passava de mais uma armadilha daquele homem. Louis não é mais a criança que eu conhecia. Ele tinha sido corrompido por tudo o que eu o fiz passar. A sua personalidade agora distorcida e louca era incapaz de aceitar o que eu lhe dissera, e agora eu fugia dele como se de uma fera se tratasse. Não havia mais motivo para se perguntar porquê. Todas as perguntas que pudessem surgir na minha cabeça eram inúteis e apenas me distrairiam. A minha garganta ardia devido à respiração ofegante e ao ar frio ao qual eu estava sujeita, de tal forma que eu não consegui gritar quando quis.

Ali estava ela, a mansão. Erguendo-se à minha frente, como que para troçar de mim. Eu estivera correndo às voltas durante aquele tempo todo. Desse jeito eu não conseguiria fugir de Louis. E, quando dei por mim, estava completamente encurralada.

Correndo para onde podia, eu sabia que era inútil. A única direção possível para mim era para dentro da mansão. Onde estariam os outros residentes daquele lugar, eu me perguntava, e percebia que com certeza eles teriam sido todos afastados daquele lugar temporariamente, para que apenas Louis me recebesse. E que ele tivesse a liberdade de retirar a minha vida sem nenhuma testemunha.

Se tentar proteger o próprio filho é um crime, então eu sou obrigada a aceitar qualquer punição. Tudo o que eu queria era salvá-lo, mas o próprio era incapaz de me perdoar. Chegando à cozinha, pensei em pegar numa das facas que estariam provavelmente nas gavetas, mas estas recusavam-se a abrir. Atrás de mim chegava Louis, o enorme e pesado machado riscando o chão atrás de si. Quando o encarei, ele tinha um sorriso que não se estendia aos olhos sem emoção. “Te achei”, murmurou ele. E tudo o que eu consegui fazer foi me agarrar ao balcão, um nó forte na garganta me impedindo de falar e até dificultando a tarefa de respirar.

Ele ergue o machado ao alto, quase tocando no teto. A visão da grandiosa arma se impondo sobre mim me fez tremer à medida que ela descia num movimento conciso, cortando o ar à sua passagem. A forte sensação de dor foi imediatamente seguida de uma dormência gigantesca em todo o meu crânio, pelo que nem fui capaz de ouvir o som dos meus ossos se fraturando ao serem perfurados pela superfície metálica e cortante da arma. Como uma boneca de trapos, todos os meus membros deixaram de responder ao mesmo tempo, fazendo-me cair no chão de uma forma desconfortável e inatural. O meu campo de visão ia lentamente sumindo, os meus arredores escurecendo à medida que a consciência abandonava o meu corpo. Estariam as minhas roupas manchadas de vermelho? Estaria uma poça escarlate se formando à minha volta à medida que eu morria? Eu não sabia, não sabia porque tudo o que os meus olhos captavam não era mais processado pelo cérebro.

A última coisa que eu senti, o último sentimento que veio à minha fragmentada mente foi desespero. A tristeza de ter falhado na vida me assolou nos meus últimos milissegundos e finalmente o meu coração, pulmões, cérebro e todos os órgãos pararam de funcionar.

Mas não seria para sempre. Pelo menos, não para alguns deles. Alguns deles iam ser “reutilizados” para uma nova mulher. Não, mulher não era o nome certo dela. A palavra correta para descrevê-la não era nada que pudesse indicar humanidade da sua parte.

Mirno, derivado de Miriam Nord. Seria essa a “coisa” que se formaria através de partes do meu corpo. O “monstro” de Louis.

–x-

As risadas da mulher ecoavam na sala à medida que ela via a menina se encolhendo perante a arma que lhe era apontada. Mark queria impedi-la, mas a mão de Desistente agarrava-o com uma força descomunal, impedindo-o de andar em frente. O jovem tentou se libertar, mas o idoso recusava-se a largar. O olhar no seu rosto dava tudo a entender. Ele queria ver o sangue de Frágil sendo jorrado. Ele queria ver a sua mulher vingada. O ar faltou a Mark quando percebeu que todos os seus esforços estavam sendo inúteis e que, novamente, mais uma pessoa ia morrer…

Tudo ocorreu em um mero instante. As luzes se desligaram, Frágil soltou um gemido assustado. Confuso com a falta de iluminação súbita, Desistente soltou Mark que caiu para a frente, derrubando umas cadeiras. O som de um corpo caindo no chão fez-se ouvir logo depois e a sala caiu no pleno silêncio. Algum tempo se passou enquanto os olhos do homem se acostumavam à parcial escuridão. A ténue luz vinda das duas portas entreabertas, possivelmente das janelas dos quartos circundantes, permitiu-o eventualmente entender o que estava acontecendo.

Caída no meio do chão, como se dormisse, estava Mirno. A sua roupa estava agora manchada com o sangue de Ira, sobre o qual ela caíra. Frágil estava perto dela, tendo recuado um pouco da sua posição original, paralisada com medo. O revólver havia caído no meio do chão, longe das mãos da loira de chapéu.

– Hey! Estão todos bem? – Perguntou a voz do adolescente atrás deles, arquejando desesperadamente. Ele encostou-se à porta, cansado, e deu uma olhada pela sala, soltando um suspiro de alívio. – Poxa… Achei que não ia conseguir fazer isso a tempo…

– …Fazer o quê? – Inquiriu Desistente, que envergava uma expressão tão confusa quanto os outros dois presentes.

– Desligá-la! – Joker explicou, apontando para Mirno – Bom… Na verdade, eu tive de cortar a eletricidade da mansão inteira e não cheguei a realmente perceber como desligar APENAS ela, mas… Resultou, eu acho.

Ao perceber que nenhum dos presentes pareceu entender o que ele falara, ele dirigiu-se calmamente até ao corpo de Mirno e tirou-lhe o chapéu. Frágil deu um pulo de susto ao ver o rosto parcialmente metálico, com um dos olhos parecendo a objetiva de uma câmera e o outro sendo um olho normal azul, os cabelos saindo da parte da cabeça que tinha pele. Parecia uma junção bizarra entre uma pessoa e um robô.

– Muito louco, não é? – Comentou Joker casualmente – Aparentemente, essa vadia nem era humana para começar. Ou pelo menos… Não foi SEMPRE humana, entendem?

– Espera, espera. Como que você fez isso? E como que você sabe disso? – Perguntou Mark de forma atónita enquanto encarava “coisa” que era Mirno.

– Ah, isso. Isso foi com a ajuda do avô. – Explicou Joker – Você sabe aquele quarto que estava trancado? A sala de jogos, isto é. Bom, eu descobri que a chave que o avô me deu era para lá dentro. Quando entrei, bem… Aquilo não é exatamente uma sala de jogos.

– JOKER! Porque é que está me chamand… – A raiva de Desistente foi rapidamente interrompida pelo aparente neto com destreza.

– Ora, avô! A casa está toda desligada, literalmente. A Mirno não pode sequer nos ouvir, quanto mais nos punir por quebrarmos as regras! – Ele levou as mãos à cintura, como se repreendesse o mais velho – De qualquer forma, estou feliz que estejam… Quase todos bem. Ainda bem que consegui evitar que ela premisse o gatilho.

Dito isto, ele virou-se para a criança e esticou-lhe a mão.

– Você está bem, querida? Me diga, qual o seu nome? – Perguntou num tom doce, sorrindo-lhe enquanto a garotinha aceitava a medo a ajuda para se levantar.

– E-Emilly… Mc… Flower… – Murmurou a garota, soluçando.

– Prazer em te conhecer, Emilly. O meu nome é Seth Pauper.

– Você não… Me odeia? – Perguntou a menina, agarrando a borda do vestido manchado de sangue nervosamente – Eu sou… Um monstro…

– Você? Nah. – Ele deu uma risada e afagou a cabeça da criança. Apesar de parecer feliz, Mark conseguia notar uma pitada de tristeza na sua voz – O monstro não era você. O monstro é quem te obrigou fazer isso. Mas não se preocupe, ok? Eu vou te proteger… Do monstro que destruiu a sua família.

– Pr-Promete? – Os olhos marejados da criança encararam o adolescente com um pequeno raio de esperança, uma luz finalmente surgindo na sua expressão após muito tempo.

– Prometo.

Os dois se abraçaram, como se de irmãos se tratassem. Mark deu uma olhada para Desistente, sustendo a respiração ao ver que ele segurava agora o revólver fortemente. Contudo, ao contrário do que pensava que ia acontecer, o velho soltou a arma. “Desculpe, Amber. Eu não posso te vingar”, murmurou ele sofregamente.

Após algum tempo, Joker – ou Seth, como era o seu suposto nome – levantou-se e deu a mão a Emilly.

– Ainda temos de descobrir uma forma de sair desse lugar. – Comentou – Eu não olhei direito na “sala de jogos”, mas acho que podíamos ir lá ter.

– Espera! Eu tenho duas perguntas. – Disse Mark para o adolescente automaticamente – Como que… Seu avô te deu essa chave? Não entendi nada disso!

– Era o meu “objetivo” dado pela por essa vagabunda androide do sei lá o quê. – Explicou Desistente – “Descobrir o uso para a chave da liberdade”… Algo assim. No início, sinceramente, eu não liguei. Literalmente não queria saber dessa merda, achei que era tudo um monte de treta para nos fazer perder tempo antes de morrermos. Quando eu decidi que talvez devesse tentar fazer alguma coisa, surgiu aquela regra de “não poder abrir portas trancadas”.

– Então o avô me deu a chave, já que nenhuma das regras do “jogo” se aplica a mim. – Explicou Seth – Eu sou literalmente o “Joker” de tudo isso. É claro, descumprir as regras não me traria nenhum problema, mas poderia acabar por estragar a vida de um de vocês, então…

Ele encolheu os ombros, suspirando.

– E uma outra coisa. – Continuou Mark antes que mudassem de assunto – Você é realmente… Seth? O irmão do… Louis?

O adolescente encarou-o com uma certa surpresa, como se não entendesse o que ele estava falando.

– Mas é claro, Mark! – Exclamou, coçando a cabeça – Achei que você já soubesse disso. A Emma nunca te contou?

– Emma…? Como assim, Emma? E como que você sabe o meu nome? – Não dava para entender quem estava mais confuso: Mark, Joker, ou Desistente e Frágil. Todos eles trocavam olhares interrogativamente, não parecendo entender o que estava acontecendo. Eventualmente, a criança decidiu falar.

– E-Emma é o nome da Bela… – Sussurrou, tão baixo que Mark tivera dificuldades para ouvi-la – Eu lembro porque ela estava na lista de… Vítimas…

Ela se agarrou com mais força ao braço de Seth, que por sua vez afagou-a até que a criança se acalmasse. Mark por sua vez se preocupou mais com outro pormenor.

– A Bela era a namorada do Louis!? – Perguntou, recuando um passo ao realizar as crescentes conexões entre as pessoas – Mas…

– Er, no tempo presente ela era na verdade SUA namorada e não dele… Você realmente não se lembra, Mark? – A preocupação no rosto de Joker só aumentou o desespero do mais velho. Enquanto isso, o idoso batia com o pé no chão, impaciente.

– Tá bom, que fascinante, mas que tal acabarmos com isso logo e tentarmos descobrir um jeito de escapar dessa mansão? Sabem, algo que realmente nos leve de volta à civilização, porque não sei se vocês se lembram, mas os carros estão todos sem combustível e o caminho pelo qual chegámos sumiu sem explicação, como se isso fosse sequer possível.

Fez-se uma pausa enquanto cada um dos presentes raciocinava sobre tudo o que estava acontecendo. A certa altura, Joker chegou a uma conclusão.

– Acho que se visitarmos os quartos que estavam trancados talvez consigamos mais pistas.

Os outros três acenaram afirmativamente, aceitando a proposta. Mark, contudo, ainda estava um pouco mergulhado nos seus próprios pensamentos.

Segundo Mirno, a sua presença na mansão era “fazê-lo lembrar”. Aparentemente, ele já conhecia alguns dos outros membros da mansão, só que tal nunca lhe viera à memória. Seria mesmo o objetivo da androide fazê-lo lembrar dessas pessoas? Ou seria outra coisa completamente diferente?

Uma sensação estranha na barriga parecia ter vindo a se acumular ao longo do dia. Como se ele estivesse tendo um mau presságio, e a hora da verdade se aproximasse a cada segundo, piorando o seu estado.

Engolindo em seco, Mark viu Seth abrindo a porta para o escritório.

Notas finais
TAN TAN TAAAAAN. Espero que eu não esteja revelando demasiadas coisas ao mesmo tempo e que isso não acabe ficando chato/confuso. Enfim, isso deve ter esclarecido algumas perguntas que vocês tiveram, heheh. Até ao próximo!