Silent Hearts
8 Crianças Perfeitas
Notas iniciais
Ela sempre fora uma menininha perfeita.
Boas notas na escola, boa amiga, boa para com os animais. Além de bastante bonita, como é claro: de cabelos loiros e cacheados, olhos azuis brilhantes, chegava a ser invejada por muitos – mesmo não passando de uma pequena criança.
A sua mãe construíra expectativas excelentes para a sua vida. Desde os seus 7 anos que lhe era esperado que fosse a melhor em tudo, que nunca baixasse as notas. Com o pulso de ferro que a mãe exigia sobre a pobre criança, ela não tinha muito tempo para si mesma. Preocupada com as aparências, com a forma como se desempenhava na vida, foi mergulhada num stress contínuo que a fez esquecer de ser uma criança.
Pouco sabia ela da bomba-relógio escondida dentro de si.
À medida que continuava com a sua vida, a sua saúde foi lentamente degradando. Possivelmente derivado do esforço contínuo, ou por ventura devido aos maus hábitos do pai que, lentamente, foram afetando também a criança, a garota começou a apresentar problemas respiratórios. Nas aulas de educação física começava a ter problemas em manter uma corrida, às vezes tinha tosses irregulares durante o dia e momentaneamente dores ao nível do peito surgiam. Contudo, não foi ao médico. A sua mãe, mulher ocupada e exigente, não acreditava que os sintomas da mais pequena fossem relevantes o suficiente para ir ao médico, que ela tinha o dever de melhorar. Provavelmente também devido a terceiros, a doença foi ignorada no seu estádio inicial.
Algum tempo se passou. A condição da garotinha, como seria de se esperar por qualquer pessoa devidamente atenta, não melhorou. As tosses, cada vez mais frequentes, começavam a trazer consigo pequenas quantidades de sangue que, talvez por vergonha, a criança esforçava-se por ocultar. A dificuldade em respirar piorava a cada segundo, com a menina incapaz de continuar a participar em qualquer tipo de desporto. Quando finalmente foi ao médico, foi diagnosticada com uma fase já avançada de cancro do pulmão.
A fase de possível cura já havia há muito passado, principalmente por se tratar de uma criança, e por isso ela ficara desde então rotulada como alguém que morreria em breve. Os poucos procedimentos que existiam para ajudá-la apenas prolongariam a sua vida em alguns meses, possivelmente um ano ou dois, se tivesse sorte. A sua vida estava arruinada. O futuro promissor que parecia óbvio para qualquer um que a visse anos mais cedo estava agora perdido, impossível de recuperar.
A mãe nunca foi capaz de contar a verdade à filha. Permitiu que ela vivesse numa mentira, de que um dia melhoraria. De que um dia, ela voltaria a ser como antes. Que ainda havia esperança.
E esta é a verdade para Frágil até ao dia presente.
Agarrada ao seu normal coelhinho de pelúcia, ficava simplesmente observando o ponteiro dos segundos com o seu movimento rítmico no relógio do seu quarto. Parecia bastante interessada – como quem vê um filme particularmente interessante. O horário de noite chegaria em breve. Alguém bateu à porta.
Levantou-se em passos ligeiros para abri-la. Sentiu as pernas fraquejarem, a fadiga derivada da sua condição médica parecendo mais grave desde que chegara à mansão. Talvez o stress não ajudasse, ponderou. Abriu a porta de madeira silenciosamente, para encontrar o homem de meia-idade à sua frente. Voz acenou momentaneamente com a cabeça e fez sinal de quem queria entrar. A mais nova não se interpôs: simplesmente deslizou para o lado para dar espaço a Voz. Ele entrou, fazendo menção de se sentar mas estacando a meio do caminho. Olhou para Frágil, o olhar interrogatório permitindo que ela de certa forma lesse os seus pensamentos.
– Não há… — Fez uma pausa, tossindo – problema. Pode sentar.
Assim fez o mordomo. Depois, ficou olhando para a pequena criança.
– Obrigada… Por vir, Voz. – Começou a loira, sentando-se ela também na cama, ao lado do mais velho – Eu te chamei porque… Não sei se aguento mais isso.
Incapacitado de falar, o outro simplesmente ergueu o sobrolho. Era por isso que Frágil gostava de falar com ele. Ele não a interrompia, a escutava. Era agradável de falar com ele. Sentia-se apoiada. Com um gesto de mão, foi incitada a continuar pelo outro.
– Todas… Essas pessoas, elas… – Tossiu, sendo inclusive obrigada a levar um pano à boca para cobrir a expetoração escarlate – Tinham uma vida… Eu… Não aguento mais… Ver mortes…
Lágrimas começaram a aparecer no canto do rosto da mesma. Deslizavam silenciosamente e lentamente, finas, frágeis – tal como a sua origem.
– Eu quero… Sair daqui… – Disse, entre ténues soluços – O meu objetivo… É difícil… Não quero… Cumpri-lo…
Abanou a cabeça negativamente, levando as mãos aos ouvidos como se estivesse num lugar particularmente barulhento e estivesse sofrendo de uma impetuosa enxaqueca.
– Eu acho… Que se mais alguém morrer, eu… Vou ficar louca… Eu… Não quero… Que isso continue…
E parou de falar, apenas chorou. Voz envolveu-a nos seus braços, acariciando os seus cabelos com gentileza para reconfortá-la, como um pai que ajuda a sua filha num momento difícil.
–x-
“Querida Mãe,
Faz tempo que eu não te escrevo, Mãe. Quanto tempo foi? Dois anos? Três? Acho que foram quatro, na verdade. É, ontem foi o meu aniversário. Eu dediquei o meu desejo de 16 anos a você.
As coisas melhoraram de um lado e pioraram de outro. Bom, para começar, Martha não deu o filho para adoção. Ele agora tem três anos, é um menino muito feliz e simpático. Estou feliz que ela não o tenha jogado num orfanato para o abandonamento, mas sinto que… tem algo que está faltando. Sabe, parece que tem alguma coisa de errado aqui. Algo que eu desconheço.
Entretanto, a Martha já teve mais um filho. Na verdade, uma filha. Ela ainda não sabe falar, mas ela é super fofa.
Agora as coisas não tão boas.
Eu fui expulso de uma escola no ano passado. Sabe, a senhora Nicole me deixou no mesmo colégio que o Seth. Infelizmente, apesar das minhas notas brilhantes (eu até estou 2 anos adiantado nos meus estudos! Sério, já estou na universidade, não é fascinante? Acho que me chamaram de “sobredotado” ou assim), eu me envolvi numa briga com ele. Na altura, eu tinha… 15 anos? É, acho que é algo assim. De qualquer forma, ele falou que os pais dele lhe tinham explicado que você, mãe, nos tinha abandonado. Eu fiquei furioso. Então peguei numa faca e atingi-o na barriga.
Ele foi para o hospital e eu tive de ir para outro colégio. Fiquei de castigo, inclusive. Ohh, mãe. Isto é tudo tão complicado…
Eu preciso de você. Com amor, Louis.”
–---
“Querida Mãe,
Apenas 2 dias se passaram, mas eu achei que era pertinente falar com você de novo. Hoje eu vou ver a Emma! Sabe, ela está estudando no estrangeiro por causa da sua profissão, então eu não posso falar com ela muitas vezes.
Ahh, que saudades que eu tenho da Emma. Sei que no próximo Verão ela volta definitivamente para o país, mas é tão difícil de esperar… Já agora, sabe o assunto da última entrada? Ela não sabe de nada disso. Ela já tinha partido nessa altura, e desejo manter isso assim.
Ela é a única que me compreende. Aquela que me respeita. Ela não me odeia. Todos os outros me odeiam. Beatrice, Seth, Martha inclusive. Eu odeio-os a todos, também.
Você também me odeia? Com amor, Louis.”
Analisou os papéis que encontrara debaixo do colchão do quarto de Anfitrião com cautela. Várias perguntas lhe surgiam à mente. Estariam as outras páginas escondidas nos quartos de outros? Só encontrara aqueles papéis ali por coincidência, pois decidira sair do seu permanentemente. Além disso, porque é que eles estavam sempre agrupados aos pares? E porque é que ele os encontrava sempre na ordem certa? Era como se pretendessem que ele os encontrasse, que tivesse o seu objetivo cumprido o quanto antes. Não que Mark quisesse reclamar desse pormenor, na verdade, ele até gostava que assim fosse, mas não podia deixar de achar tudo isso minimamente estranho.
Sentou-se na cama e pegou no comando para ligar a televisão. Esta mostrou, em ponto grande, o seu nome. Na primeira vez que o fizera, esperava encontrar o nome verdadeiro de Anfitrião, mas aparentemente não lhe deixariam descobrir isso assim tão facilmente, então era como se aquele fosse o seu quarto, com as suas informações – desde o seu objetivo às suas regras particulares – disponíveis no ecrã plasma. Deslizou os dedos para premir os botões que lhe levariam ao canal de investigação. Já tinha passado por aquele canal várias vezes, mas sempre desistira de prestar atenção ao ver as imagens dos falecidos. Imagens grotescas que pareciam ter sido tiradas antes de sequer serem encontradas.
Tentou resumir um pouco na sua mente os acontecimentos recentes. Até ao momento, quatro mortes haviam ocorrido, mas apenas duas delas haviam sido cometidas pelo suposto assassino presente na mansão.
A primeira havia sido o suicídio de Anfitrião, que, louco, espetara uma faca no próprio coração. Nunca chegara sequer a conhecer esse homem, mas era certo que ele não era o assassino. A segunda fora a de Combatente. A senhora de idade fora lançada da janela do terceiro andar a meio da noite, morrendo com o impacto no chão. Mark teve de supor que ela fora apanhada de surpresa enquanto entrava no seu quarto – que se situava exatamente ao lado da dita janela – pelo que o ficheiro na televisão admitia que não havia ocorrido qualquer tipo de luta antes de Combatente ser empurrada. De qualquer das formas, supôs também que o assassino não seria uma criança. Combatente, apesar de ser uma velhinha, não era propriamente leve, então o atacante precisaria de alguma força para poder empurrá-la: Isto é, se a sua suposição estava correta.
A terceira morte fora a de Sorriso. A criancinha que aparentava ter simplesmente algum distúrbio mental e devido ao seu terrível objetivo foi assassinada bem à frente dos olhos de Mark por Mirno. Como Mirno aparentemente não era a assassina, então a morte do garotinho era também irrelevante para o caso.
Finalmente, a morte de Bela. Ao contrário da de Combatente, que ocorrera enquanto todos dormiam pacificamente no seu quarto, esta ocorrera bem em baixo do nariz de todos. Passando-se na sala de estar do rés-do-chão, o seu pescoço fora cortado com uma faca da cozinha – descobrira isso ao notar que faltava uma no dia seguinte à morte de Bela. Seguidamente, fora transportada para uma parede em vez de ser simplesmente deixada à porta, pelo que fora indicado por um rastro de sangue que era visível na sala. Era de se esperar que o assassino ficasse manchado com o sangue com tal ato, só que ninguém aparentava estar sujo. Teriam arranjado um modo de o transportar sem se sujarem? Não, era impossível. O sangue era imenso. Mesmo após ter sido arrastada pela sala, uma poça de sangue ainda tinha sido gerada debaixo da jovem. Até o próprio Voz, ao vasculhar nela, ficara com as mãos sujas – o que deixara Fera extremamente assustado ao vê-lo se não fosse pela explicação de Sombra.
– Digamos que o assassino não conseguiu evitar o sangue manchar as suas roupas. – Disse Fera para si mesmo – Como conseguiu ele, então, limpá-lo antes de ir ter com os outros?
Segundo o canal de investigação, a duração desde a morte de Bela até a ser encontrada pelos hóspedes era de cerca de 6 minutos.
Que espécie de assassino profissional era aquele?
–x-
Estava com dificuldades em dormir. Era uma coisa normal para ela, dormir sempre fora algo complicado com os problemas respiratórios que tinha. Frágil descia as escadas para a cozinha, pensando em, talvez, pegar um copo de água. Talvez isso ajudasse. Além disso, sair do seu quarto sempre a ajudou lá em casa. Uma pequena mudança de ares. Apesar de ter um pouco de receio de andar a meio da noite por ali, certificou-se que ligava as luzes e verificava três vezes se não estava ninguém ali perto.
Uma sensação estranha assombrava-a. Uma dor no estômago, não proveniente da sua doença, mas de uma simples má disposição de origens duvidosas. Sentia que algo não estava bem, e não sabia bem se queria descobrir o que era.
Chegando à cozinha, pegou numa cadeira e arrastou-a lentamente para um armário, subindo para cima dela com cuidado para alcançar as prateleiras superiores e dali retirar um copo. Ao descer, decidiu puxar novamente a cadeira, só que em vez disso fê-la cair no chão com um estrondo. Deu um salto, assustada. Depois, inspirou fundo e pousou o copo no balcão para por a cadeira de novo em pé.
Mas o que ouviu fê-la deixar caí-la de novo.
– Está aí alguém? – Perguntou uma voz. Frágil não sabia de onde ela vinha. Era uma voz masculina, e ela reconhecia-a perfeitamente como um dos vários hóspedes que naquele lugar se encontravam presos. – Quem está aí?
– F-Frágil… – Murmurou a garotinha, tremendo. O que é que ele queria? Não podia ser algo de mal, pois não?
– Frágil! Graças a deus! Por favor, me ajude! Eu preciso de sair daqui! Estou preso, não consigo abrir a porta, mas se eu não sair antes que o período noturno comece…
Frágil finalmente compreendeu de onde vinha a voz de Sombra: Do armazém de comida, lugar este que era completamente fora dos limites durante o período noturno. Notou que, de facto, o outro estava preso e não de forma acidental: uma cadeira da sala de jantar estava prendendo a saída. A mente de Frágil deu reviravoltas enormes com as associações que surgiram após contemplar este facto.
Sombra fora preso. Intencionalmente. Num lugar onde não se podia estar durante a noite sem quebrar as regras. Quebrar as regras levava à morte, como acontecera com Sorriso. E o pior de tudo, era que o período noturno…
…já havia começado há 2 horas.
Frágil começou a hiperventilar, em pânico, correndo para a cadeira que prendia a porta e a empurrando com o máximo de força que ela tinha. Ela não podia deixá-lo morrer. Ela não queria mais mortes. Não, ela tinha de salvá-lo. Tinha de haver alguma forma de o ajudar. Tentou abrir a porta assim que conseguiu afastar a cadeira. Contudo, para seu terror, a porta estava trancada – provavelmente tal acontecia todas as noites para evitar que alguém não cumprisse as regras.
– S-Sombra… Sombra… – Soluçou Frágil, as mãos tremendo em pânico – N-não… O período… Not… Noturno… Já… Começou…
Ela caiu no chão.
– O quê!? Mas… Mas eu… Eu não posso estar aqui! Frágil, por favor, me tira daqui!
Todos os quartos da mansão eram perfeitamente à prova de som. Porque é que aquele não era assim também? Era como se tudo estivesse sendo feito propositadamente para fazer Frágil sofrer. Como se fosse planeado.
– FRÁGIL! POR FAVOR, ME AJUDA! FRÁGIL, TEM UMA FUMAÇA ESTRANHA SAINDO DA VENTILAÇÃO… FRÁGIL! FRÁGIL!
A loira tapou os ouvidos e caiu no chão, chorando. Ela não queria ouvir mais. Não queria ouvir os pedidos de socorro de Sombra. Os pedidos que ela não podia realizar. O garoto gritava pelo seu nome em desespero, batendo na porta. A certa altura, o som de Sombra a tossir pode-se ouvir.
– I-Isso é… V-Veneno – Murmurou Sombra – F-Frágil…
Uma última batida na porta. E depois, os pedidos de ajuda de Sombra estacaram.
– D-Desculpe… Desculpe… Desculpe… — Gemeu Frágil, se encolhendo num canto e abraçando os joelhos. Nem o seu coelhinho estava ali perto para abraçar. Então, ela ficou ali, chorando, o resto da noite, murmurando repetidas vezes a mesma palavra:
– Desculpe…
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