Silent Hearts
9 De Mãos Dadas, Caminhemos
Notas iniciais
Poxa, quanto tempo é que será que vai durar?
Mergulhei a mão no meu bolso das calças e agarrei no meu telemóvel com destreza, levando-o à frente dos olhos e vendo as horas. Não, ainda faltava algum tempo para que eu pudesse sair da aula. Peguei no lápis e comecei a rabiscar distraidamente no meu caderno, ignorando as divagações sem sentido do meu professor de história. Cheguei a ouvi-lo mencionar algo sobre a sua filha ter decidido desistir da faculdade e como a nova geração estava perdida, até que o som da campainha fez o velho finalmente calar a boca.
Levantei-me apressadamente da minha cadeira, despedindo-me dos meus colegas o mais rápido possível e saí quase a correr pela porta. Quando cheguei à entrada da escola, logo encontrei a mulher de cabelos negros esperando na frente do seu chiquérrimo Porsche branco. Sorri-lhe com gentileza, alcançando-a em poucos segundos.
– Estava te esperando já faz algum tempo. Caramba, não tinhas dito que as aulas acabavam às quatro? – Perguntou, elevando a sobrancelha numa expressão incomodada.
– Eu disse isso? Desculpa, queria dizer quatro e meia. – Encolhi os ombros e dei um sorriso sem graça ao vê-la suspirando de uma forma incomodada.
– Tudo bem. Entra, temos muito que fazer. – E, dito isto, ela abre-me a porta do lugar do passageiro do seu carro e rapidamente vai para o lado do condutor.
Aquela mulher, cerca de seis anos mais velha que eu, era a mulher que anos mais tarde eu trataria por “A Bela”. Ela, por outro lado, me trataria por “O Joker”. Conheci-a através do meu irmão mais velho, que fora o seu namorado há alguns anos atrás. Apesar de já terem terminado e deixado de falar um com o outro, eu continuei o contato com ela. Ela era uma boa amiga. E uma melhor pessoa que o meu irmão.
Naquele dia em especial, ela vinha ajudar-me com um assunto importante. Imensamente importante. Escandalosamente importante. Importantíssimo. Tão importante que me fazia tremer de nervosismo. Tal pormenor não escapou ao olhar atento de Bela, que apesar de conduzir, conseguia ainda de alguma forma captar todos os meus mais ínfimos movimentos. Era uma capacidade, confesso, um tanto assustadora.
– Oh infeliz. – Repreendeu-me, revirando os olhos – Eu não entendo. Não dizias que esta não era a primeira vez que irias ter um encontro com uma garota? Já esperava que tu fosses um mega expert nestes pormenores, não um…
Fez uma pausa. Fiquei na dúvida se ela ia dizer alguma coisa e acabou por se arrepender, deixando a frase por acabar, ou se estava procurando a palavra ideal para me descrever. Aparentemente, a segunda hipótese era a correta.
– …um nerd antissocial cujo único contato com um ser humano do sexo oposto foi a própria mãe e que precisa de pedir ajuda à ex-namorada do irmão mais velho para se preparar para um encontro.
Encarei a mulher de olhos verdes de uma forma irritada em resposta.
– Se não quer me ajudar, então eu posso ir embora. – Resmunguei, desviando o olhar para a rua e bufando. Ela, por outro lado, apenas riu.
– Ohh, pobrezinho. A criancinha ficou amuada, é? – Brincou, levando a mão direita ao meu ombro e dando um pequeno empurrão enquanto mantinha a esquerda no volante – Pronto, pronto. É que eu não entendo esse seu drama. Quero dizer, olha para ti.
– O que tem eu?
– Você surfa. Você é musculado. Só faltava ser loiro e britânico para satisfazer o estereótipo de “imigrante gato que faz com que todas as fêmeas caiam a seus pés”. – Explicou Bela como se fosse uma coisa óbvia que eu já deveria saber há muito tempo. Senti as bochechas quentes com o que ela estava falando, devia estar corando. – Então, por favor. Suas inseguranças são simplesmente ridículas.
– Como eu disse, se não quer ajudar, posso tentar me virar sozinho e completamente falhar. – Repeti.
– Que teimoso… Chegámos. – À nossa frente estava a casa de Bela. Era uma habitação de tamanho médio, que demonstrava o elevado poder económico da dona e particularmente bem decorada. Entrámos na garagem e logo eu saí do Porsche. Bela ficara algum tempo a se observar ao espelho e a retocar o batom antes de sair do seu nada modesto carro. Eu já conhecia a casa ao ponto de saber me orientar bem lá dentro, então nem fiquei muito tempo à espera. Dirigi-me à sala, pousando o meu casaco em cima do sofá e me sentando lá enquanto esperava pela mais velha. Quando esta chegou, cruzou os braços como se estivesse incomodada.
– Não é hora para descansar. Temos muito a fazer. – Disse, irritada.
– O seu namorado está em casa? – Perguntei, ignorando as reclamações.
– Oh, não. Ele só deve chegar à noite, mas… Se estás a pensar que vais poder te atirar a mim, então podes esquecer. – Ela piscou-me o olho – Sou uma moça comprometida e não sou do tipo de trair ninguém.
Dei uma risada de leve e levantei-me. Não era como se eu tivesse muitos problemas com o namorado dela, ele era uma pessoa simpática em geral. Segundo sei, Bela conhecera-o quando fora visitar um orfanato. Não sei o que é que Bela podia possivelmente estar fazendo num orfanato, mas não é como se me interessasse. Orfanatos em geral me davam um sério desconforto por razões pessoais, então quanto menos eu pensasse nisso melhor.
Fomos para o quarto de Bela, que era de longe o menos organizado da casa. Era impressionante como, apesar das aparências, a mulher era bastante desleixada quanto à organização. Assim que entrei, senti-me noutro lugar. Roupas jogadas de forma apressada sobre uma cadeira, revistas empilhadas ao acaso em cima da escrivaninha, uma cama por arrumar, tudo ali parecia contradizer o aspeto requintado e arrumado da morena. Ignorando completamente os sapatos jogados aleatoriamente pelo chão, ela sentou-se numa cadeira livre e encarou-me com uma expressão pensativa.
– Hmmm… Certo, o que é que vamos fazer mesmo?
– O quê? Pensava que sabias! – Resmunguei, irritado – Era suposto eu receber ajuda sobre como estar no encontro, gostava que receber explicações do que fazer e do que não fazer, o que vou vestir, o que vamos comer, o que posso dizer, tópicos de conversa, como se respira…
Recebi uma gargalhada alta em resposta. É, talvez eu estivesse sendo um pouco exagerado especialmente com a parte do respirar. Mas era o quão nervoso eu estava para tudo aquilo.
– Quem é ela, afinal? Tudo o que me foi dito é que ela é uma garota que tu gostas. Nunca sequer me disseste o nome.
Corei ao ser obrigado a falar dela. Cocei a cabeça, entrelaçando os cabelos entre os meus dedos e inspirei fundo.
– O nome dela é Emma…
– Emma? – Interrompeu Bela no exato segundo. Pensei que ela ia dizer mais qualquer coisa, mas esta limitou-se a sorrir, divertida. Após alguns segundos de silêncio, prossegui.
– S-Sim. Ela está na mesma escola que eu, só que só a vejo durante a hora do almoço. Os nossos horários… Não são muito compatíveis. – Era uma pena, mas não me deixei abalar tanto por isso. Às vezes eu tinha vontade de faltar às aulas para ficar com ela, mas nunca fui corajoso o suficiente para fazer isso. Caso os meus avós descobrissem, o que é que eles diriam? A ideia do meu avô me castigando assustava-me. Muito. – Conheci-a quando fomos ao cinema no aniversário de um amigo que temos em comum. Fiquei ao lado dela, o filme era horrível, então passamos a sessão toda a conversar. Depois, bem… Como nos demos muito bem, eu pedi o número dela e continuamos a nos contactar.
Eu não tinha noção do quão vermelha estava a minha face, mas pelo sorriso de orelha a orelha de Bela, não era pouco.
– Oh, isso é adorável. E como é que ela é?
– Oh, ela é ruiva, e tem olhos verdes… É muito pálida e tem sardas, mas não fica feio! Ela tem um sorriso adorável e... Espera aí. O que é que isso interessa para agora?
– Nada. – Confirmou a mais velha – Eu só estava me divertindo vendo como ficas bobinho quando falas dela.
– E-EU…!
– Oh, por favor. Não vale a pena negar. – E acenou negativamente com a cabeça – Garotos... Vocês ficam tão sem graça com as coisas mais simples. Certo, mas eu ajudo, calma.
E passei a tarde com Bela, que ficou dando-me as dicas mais variadas do que fazer naquele encontro. Escusado será dizer que ela também fez o favor de rir da minha cara sempre que eu cometia uma gafe.
Quando me senti mais preparado, ela levou-me a casa. No dia seguinte de manhã, um sábado, eu tinha o encontro para o qual tanto me preparei.
–x–
Cheguei ao nosso ponto de encontro – um bar ao lado do oceanário que iríamos visitar – cerca de meia hora mais cedo. Porque é que eu chegara a essa hora? Na verdade, nem eu sabia. Limitei-me a arranjar um lugar na esplanada, pedir um refrigerante e jogar um jogo aleatório no meu telemóvel. Pensava que ia esperar muito tempo, mas a verdade é que apenas 10 minutos depois, ela já chegara.
– E-Emma! – Droga. Eu gaguejei. Calma, não é necessário ficar nervoso, murmurei para mim mesmo continuas vezes. Acenei para a ruiva, sorrindo-lhe brevemente. – Aqui!
– Oh. Afinal não cheguei cedo demais? – Disse a garota enquanto se sentava na cadeira à minha frente – Eu já estava desesperando achando que ia ficar 20 minutos aqui parada sem nada para fazer.
Ri-me de leve, compreendendo-a na perfeição. Afinal, eu estivera na mesma situação. Conversámos um pouco, mas não perdemos muito tempo no bar. Assim que acabei de beber o refrigerante, fomos para o oceanário.
Provavelmente, a parte em que ficámos lá dentro foi a única parte que correu como planeado. Emma demonstrara um enorme entusiasmo com todas as variedades de animais marinhos, os olhos brilhando na frente do enorme tanque principal com os peixes coloridos que rodopiavam pela água, fazendo um enorme espetáculo de cores. Era impressionante, de facto. Um par de tartarugas passaram à nossa frente, parando para aparentemente nos observar. Ficámos a fazer caretas para as mesmas, até que elas se cansaram da nossa estupidez e foram embora.
Quando mais avançávamos, mais diversidade encontrávamos. Tubarões, polvos, medusas, mais peixes, orcas, cavalos-marinhos, lontras, pinguins, e outros animais que nem o nome sabíamos. Após gastar a manhã inteira lá dentro, decidimos sair para almoçar num restaurante na praia que não ficava muito longe dali. Como é óbvio, estava demasiado frio para ir de facto à praia (afinal, ainda estávamos no Canadá e não era propriamente Verão), mas sempre podíamos aproveitar a vista.
E foi aí que as coisas começaram a correr não tão bem. Enquanto comíamos, eu desastradamente deixei cair o copo com o sumo que bebíamos, entornando-o completamente em cima da saia de Emma. Pior ainda, num ato instintivo, eu rapidamente peguei num guardanapo e tentei limpá-lo, coisa que não a deixou muito feliz.
– E-Eu… Desculpe, oh, bem, devíamos… Talvez… – Murmurei, completamente sem graça, soltando um riso agudo que denunciou completamente o quão nervoso eu estava – Desculpe, eu não queria…
Emma, que até então estivera demasiado atordoada para falar, acenou negativamente.
– Não, tudo bem. – Respondeu, com um suspiro – Vou ao banheiro tentar limpar. Já volto.
É. Eu estraguei tudo. Enterrei o rosto nas minhas mãos, num ato que admitia derrota, até que subitamente ouvi uma voz ao meu lado.
– Sério mesmo? O que foi aquilo? Estava tudo indo tão bem, vocês estavam fazendo um par tão fofo!
Reprimi o susto que apanhei ao ver o rosto da mulher de cabelos negros a cerca de 5 centímetros de distância do meu, me encarando com uma careta de quem estava muito, muito desiludida.
– O que é que… Você faz aqui…? – Perguntei, piscando os olhos repetidamente como que para verificar se não estava delirando.
– Você acha mesmo que, depois da DESGRAÇA que você foi nas lições de ontem, eu te deixaria ir a um encontro sem supervisão? – Bela, como sempre, foi um amor de pessoa para comigo, a sua sinceridade me atingindo na cara como um soco. Não era momento para ficar ofendido, contudo, pelo que limitei-me a lançar um olhar de desagrado (que foi, obviamente, ignorado). – Não, eu nunca permitiria que tal acontecesse. Então vos segui o tempo todo.
Ela deu um sorriso, unindo o polegar ao indicador para fazer um sinal de “Ok”. Eu realmente não sei como que eu não tinha previsto isso antes.
– …Certo. E o que é que devo fazer agora? Eu acabei de estragar tudo! Ela nem deve querer voltar a falar comigo.
– Que drama! Foi só um acidente. Não deixe que esse acidente estrague tudo. – Ela enterrou o dedo na minha testa, como se me estivesse dando uma ordem – Você tem de compensar o que fez com uma coisa ainda melhor.
– Mas o quê…?
– Sei lá! Não sou eu que está num encontro. – Ela encolheu os ombros – Oh, ela está voltando. Boa sorte, e não se sinta nervoso, eu só irei rir do seu fracasso para toda a sua eternidade se você falhar!
Acenou-me ligeiramente e foi para uma mesa onde eu supus que ela estivesse também almoçando aquele tempo todo. Às vezes, Bela conseguia ser tão irritante. Pouco tempo depois, Emma voltava, com uma mancha na saia que eu acredito que ela não tenha conseguido limpar na totalidade. Contudo, ela parecia não ligar, como Bela me dissera. Senti-me um pouco mais à vontade por isso.
Decidi que devíamos dar um passeio. O sol estava lá no alto, o que permitiu que déssemos um passeio pela praia – embora um mergulho na água ainda fosse puro suicídio – sem ter muitos problemas. Estava sendo calmo e relaxante, pelo que ficámos assim quase a tarde inteira. Lá no final, encontrámos um gatinho bebé miando de um canto. Emma ficou um tanto preocupada, e assim eu fui ter com ele, achando que o pobre animal estava perdido.
Eu realmente não esperava que, quando eu fosse pegar nele, encontrasse uma mãe nada alegre para me atacar. Nada alegre por ver sua cria sendo tocada por estranhos, a gata não hesitou em pular para as minhas pernas, fazendo-me perder o equilíbrio. O gatinho foi ao chão, fugindo para algum lugar desconhecido, mas a gata não foi atrás dele. Pelo contrário, só continuou a investir contra mim, agora mirando as minhas mãos como se elas fossem um poste de arranhar. Lágrimas me vieram aos olhos quando Emma, de alguma forma, conseguiu repelir a gata para longe de mim. Parecia extremamente preocupada.
– Oh! Estás bem? – Ela encarou os meus cortes com uma expressão de puro horror. Abrindo a sua mala, sacou um lenço e uma garrafa de água. Humedecendo-o, ela pegou no meu braço e pediu para eu ficar quieto.
Não resultou muito, porque assim que o lenço frio tocou num dos meus cortes, uma dor aguda percorreu o meu corpo, fazendo-me soltar um berro um pouco exagerado demais.
– C-Calma! Eu preciso de limpar isso antes que infete, então por favor tenta cooperar comigo! – Repreendeu Emma, os seus olhos verdes me encarando de uma forma assustada. Mordi o lábio inferior discretamente, concordando com um aceno. A garota inspirou fundo, continuando a limpar todos os meus arranhões com cuidado, parando sempre que eu contraía os músculos para verificar se estava sendo brusca demais.
– Pronto. Isso deve ajudar. Acho que foram cortes superficiais, por isso não estás sangrando muito. – Sorriu-me com doçura – Moral da história: Sempre desconfiar quando encontramos gatinhos abandonados por aí.
Ri-me brevemente, massajando o braço com o lado são da minha mão direita, e deixei-nos ficar no silêncio enquanto observava o mar junto dela.
Assim ficámos durante uns bons quinze minutos. Foi estranho, mas ao mesmo tempo agradável. A presença de Emma era reconfortante. O som das ondas na praia, lá à frente, dava-me uma certa sonolência. A certa altura, a ruiva quebrou o silêncio.
– O sol está se pondo. – Comentou. – É tão lindo.
Apesar de tudo, a minha mente naquela altura estava completamente absorta do que os meus olhos observavam, pelo que só notei do quão belo era o cenário à nossa frente quando Emma comentou. O céu, tingido de um laranja vivo na sua maioria, apresentava pequenas nuvens que formavam manchas mais escuras aqui e ali. Em algumas partes, mais afastadas do sol, o céu apresentava cores diferentes – como um amarelo, um verde-claro, até chegar ao azul-escuro que denunciava a chegada da noite. O mar, refletindo a mesma cor que o céu, estava calmo, com apenas pequenas ondas surgindo de vez em quando, ondas essas que aumentavam gradualmente de tamanho até chegarem á costa e caírem sobre a areia. Mas nada superava a presença de Emma, que naquele momento decidira encostar a cabeça no meu ombro. O meu coração parecia querer saltar do peito enquanto eu disfarçadamente envolvia-a com o braço. Não houve nenhuma reação indesejável. Certo, estava tudo bem.
– Está ficando tarde. – Comentei contra a minha própria vontade.
– Sim. – Concordou ela – Devíamos ir andando. Está ficando escuro…
– É, vamos indo.
– Mas podemos repetir isso mais vezes, não?
Não consegui evitar sorrir feito um bobo quando ela me fez aquela pergunta.
– Claro. Quantas vezes você quiser.
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