Silêncio nas montanhas
9 Capítulo 8: O Código Da Vinci
Chegamos na biblioteca e a funcionária não pareceu muito feliz em nos fornecer os jornais que datavam da época do assassinatos, mesmo com a carta da professora de debate explicando a necessidade. Após muito conversa do Peter com ela e uma caixa de chocolates belgas que ele comprou a caminho da biblioteca, conseguimos o que estávamos procurando.
— Como sabia que ela gosta de chocolates?
— Quem não gosta? Endorfina instantânea. Da próxima vez é você quem vai comprar. – Eu olhei para ele sem entender – Ela tem que gostar de nós dois, ou pode acabar falando demais.
— Na saída eu elogio o cardigã dela. – disse enquanto anotava essa ação na minha lista do que fazer para as pessoas gostarem de mim.
— Você entendeu o recado, bom que aprende rápido.
— Uma hora fala que devemos passar despercebidos e na outra chama atenção pra gente. – Realmente estava confusa
— Tudo depende de quem é e onde estamos. Ela não tem nada a ver com os Thompsons, nunca a vi usando um adesivo deles nas eleições ou nada do tipo. Ela deve tá mais preocupada em evitar que a gente sai se agarrando na biblioteca que, caso você não tenha percebido está vazia. Então, para mantermos nossa bom imagem, vamos pegar as caixas e ficarmos em lugares visíveis. – Ele suspirou enquanto pegava uma das caixas e apontava a outra para mim. – Hoje não temos muito tempo, mas podemos voltar no final de semana quando temos o dia todo para olhar.
— Entendi, então temos que chamar atenção positiva dela, para caso alguém pergunte ela fale que somos alunos muito dedicados? – ele acenou que sim – E deveríamos pesquisar sobre outros temas para que não fique tão na cara. Tipo geopolítica, liberalismos, chegada dos colonos, teoria da evolução, seleção natural, tudo que teoricamente for útil em um debate. Mas sorrateiramente a gente procura mais algumas coisas sobre os Foster, correto?
— Não tinha me atentado para as buscas de outros temas, mas acho uma ótima ideia. Alguém já te disse que você aprende rápido – ele disse sorrindo
— Você há um minuto. – Sorri com o tom de deboche.
Quando abrimos as caixas, tinha toneladas de traças, poeiras e pilhas de jornais bagunçados. Algo me diz que vamos demorar só para colocar isso em ordem.
— Vamos organizar e tiramos fotos sem que ela veja, assim temos mais material para olhar em casa. – disse já pensando até onde ia o campo de visão dela.
Sentamo-nos bem no meio da biblioteca, onde qualquer poderiam nos ver. Erámos apenas dois estudantes focados na história local. Começamos a tirar os jornais da caixa para organizar por ano, pelo menos a princípio.
— Isso pode nos levar muito tempo – Como íamos dar conta daquilo?
— Vamos começar, depois pensamos nisso.
Achei logo na segunda pilha de jornais a foto de uma criança em repetidas edições. Só podia ser o Bem.
— Acho incrivelmente nojento como descreviam os crimes antigamente. E ainda colocavam a foto da cena. – Virei a capa do jornal para desviar daquela atrocidade.
— É porque você ainda não leu como detalharam o crime, foram 64 facadas na mulher e 38 facadas no homem. Qualquer jumento saberia que o Barns não tinha a menor força para isso, olha a foto dele na época.
Ele tinha completa razão, Barns era um sujeito de no máximo 1,70m, magricela, usava óculos e era corcunda. Esfaquear alguém por mais que pareça fácil não é, até porque nossa caixa toráxica é feita para ser resistente e nos proteger.
— Você sabe qual dos Thompson foi acusado na época?
— Por eliminação, eu diria que o mais novo. – Ele disse como se aquilo fosse óbvio
— Segundo a minha mãe, o que Maggie tinha ordem de restrição estudou junto com ela na Faculdade, não faz sentido ser o atual prefeito, ele é muito velho, e o do meio, que eu saiba nunca frequentou uma faculdade – ele respirou fundo – É terraplanista, acredita em qualquer conspiração. Sobra só o Carl Thompson, estudaram na Universidade de Vermont juntos.
— Não consigo achar nenhuma foto dele nem nada falando sobre – que esquisito.
— Eu acharia esquisito se tivesse, não me estranharia se tivessem pagado toda a impressa – disse Peter com uma voz cansada.
Enquanto ele folheava a manchete, eu vi uma pequena menção no canto sobre um jornalista morto.
— Aqui! – apontei para nota de pesar:
É com profunda tristeza que o Maple Hollow Gazette comunica o falecimento de Joseph Callistor, aos 39 anos, ocorrido nesta semana. Jornalista dedicado e incansável, Joseph foi uma voz ativa na nossa comunidade, sempre comprometido com a verdade e a justiça. Durante mais de uma década, suas reportagens trouxeram à tona histórias que moldaram Maple Hollow, informando e desafiando seus leitores a enxergar além das aparências.
Sua morte, coincidentemente na mesma semana da tragédia envolvendo a família Foster, lança uma sombra sobre nossa cidade. Amigos e colegas lamentam a perda de um profissional brilhante e de um homem íntegro, cuja paixão pelo jornalismo era inegável.
Neste momento de luto, estendemos nossas condolências à sua família e a todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Joseph Callistor partiu cedo demais, mas sua voz e seu legado permanecerão vivos nas páginas que escreveu e nos corações que tocou.
Equipe do Maple Hollow Gazette
Nós nos entreolhamos e percebemos que talvez a pilha de cadáver deixada para trás era muito maior do que a gente imaginava.
— Acho melhor a gente começar pelo obituário da semana do assassinato, algo me diz que não deve ter sido só o jornalista que morreu. – Parei para refletir sobre uma coisas – O jornal não disse como ele morreu, se foi de causas naturais, assalto... Não parece estranho para você? Peter, você prestou atenção no que eu falei?
— Prestei, mas ainda estou digerindo a coragem do jornal em colocar “Sua morte, coincidentemente na mesma semana da tragédia envolvendo a família Foster, lança uma sombra sobre nossa cidade” – Nós dois pensamos na mesma coisa, talvez o jornal quisesse diretamente associar os crimes.
— Vou procurar na internet se acho algo sobre o perfil jornalístico dele – comecei a jogar diretamente no Google e foi relativamente fácil encontrar o perfil dele na aba de in memoriam do site do Maple Hollow Gazette. – BINGO!
Joseph Callistor — Jornalista investigativo – In Memoriam
Dedicado, incansável e apaixonado pela verdade, Joseph Callistor foi uma das vozes mais marcantes do Maple Hollow Gazette. Com uma carreira de mais de quinze anos no jornalismo investigativo, ele se destacou por sua coragem ao expor histórias que muitos prefeririam manter ocultas.
Especializado em reportagens sobre corrupção, crimes não resolvidos e segredos enterrados de Maple Hollow, Joseph acreditava que a informação era a ferramenta mais poderosa para a justiça. Sua escrita afiada e sua busca incessante pela verdade fizeram dele um profissional respeitado – e, por vezes, temido.
Fora das redações, era um homem reservado, mas extremamente observador. Colecionava cadernos de anotações e sempre dizia que “cada detalhe esquecido é uma verdade perdida”. Seu compromisso com a investigação e sua integridade moral continuam sendo uma inspiração para todos que lutam por um jornalismo ético e transparente.
Joseph nos deixou cedo demais, mas seu legado permanece vivo nas histórias que contou e nas perguntas que ainda precisam de resposta.
Assim que me ouviu, Peter veio correndo se juntar a mim no computador. Nós nos entreolhamos e Peter então disse:
— Será que ele escreveu algo sobre os Fosters? Alguma chance de a gente achar a última matéria dele na internet? – Ele perguntou com um tom esperançoso, mas sabendo que o próprio jornal deveria ter deletado para evitar represálias.
Enquanto eu procurava na internet, Peter ficou olhando os jornais antigos em busca de algo que pudesse nos dar maiores pistas, sobre qual seria a última reportagem que ele estava trabalhando.
— Achei – ele gritou e logo percebeu que deveria ter falado mais baixo e pediu desculpas a bibliotecária
Nas mãos dele estava um artigo datado três dias após a morte dos Fosters:
Maple Hollow Gazette — Artigo de Joseph Callistor
O Assassinato dos Fosters: A Verdade Ignorada
Por Joseph Callistor
Em um dos casos mais angustiantes da história recente de Maple Hollow, o assassinato de Margaret e James Foster, e o desaparecimento de seu filho Ben, permanece envolto em mistério e desinformação. Desde o início, o caso foi tratado com pressa, apressando conclusões que não se baseiam em fatos sólidos, mas em preconceitos e suposições. A mais infundada das alegações é que William Barns, um homem conhecido pela sua postura séria e quase exemplar na comunidade, seria o responsável por esses crimes.
No entanto, depois de investigar minuciosamente as circunstâncias e os detalhes do assassinato, posso afirmar com convicção que William Barns não é o culpado.
A Composição Corporal de William Barns: Uma Evidência Crucial
A primeira falácia que precisa ser desmantelada é a ideia de que William Barns, com sua constituição física, seria capaz de cometer um assassinato tão brutal. Aqueles que defendem a ideia de sua culpa não consideram a realidade de sua composição corporal. Barns era magricela e alto, o que lhe dava uma estrutura física que, embora adequada para algumas atividades, simplesmente não seria suficiente para cometer um crime tão brutal como o assassinato dos Fosters. Esfaquear alguém repetidamente exige mais do que força bruta – exige agilidade, resistência e precisão, habilidades que Barns não possuía. Olhe as fotos dele da época, e qualquer observador pode perceber que ele não seria capaz de realizar um crime tão intenso.
Além disso, a natureza do crime – com 64 facadas em Margaret e 38 em James – exige uma intensidade e agilidade que Barns, por sua constituição, não possuía. A caixa torácica humana é resistente, e perfurar com essa frequência e precisão não é algo que qualquer pessoa, especialmente alguém com a estrutura física de Barns, conseguiria fazer de forma eficaz.
O Relacionamento de Barns com os Fosters
É fundamental também considerar o histórico de William Barns com os Fosters. Barns tinha um bom relacionamento com eles, e Maggie, em particular, era sua tutora. Eles compartilhavam uma relação de confiança e respeito mútuo, o que torna ainda mais improvável que Barns estivesse envolvido no assassinato. Não há nenhum indício concreto que sugira que ele tivesse qualquer motivo real para prejudicar a família, muito menos para cometer um crime tão brutal.
A verdadeira questão que precisa ser respondida é: quem se beneficiaria com a morte dos Fosters e o desaparecimento de Ben? Quem tem mais a ganhar ao manter as perguntas sem respostas? A resposta pode não ser tão simples como parece, e, por isso, o caso deve ser reaberto e examinado sob uma nova perspectiva.
A Necessidade de uma Investigação Justa
O que sabemos até agora é claro: a narrativa que liga William Barns a este crime não se sustenta diante de uma investigação séria. A cidade de Maple Hollow merece a verdade, e a verdade está mais próxima do que muitos imaginam. A incompetência das autoridades locais não deve servir de desculpa para apressar julgamentos sem fundamento.
Como jornalistas, nosso papel é trazer à tona as informações que, muitas vezes, as pessoas querem esconder. E eu, como jornalista investigativo, continuarei a lutar por essa verdade, por mais desconfortável que ela possa ser para aqueles que têm interesse em manter o passado enterrado. A memória dos Fosters e a integridade de nossa cidade exigem isso.
Enquanto isso, a busca por Ben Foster continua, e espero que, em algum momento, alguém tenha coragem de dar respostas a esse mistério que, por muito tempo, ficou na penumbra.
Joseph Callistor
Jornalista Investigativo
Maple Hollow Gazette
Terminamos de ler e nos sentamos atônitos, ele morreu por estar investigando o caso. Minha mãe morreu por apenas sugerir uma abertura do caso. O que fariam com a gente caso descobrissem?
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