Silêncio nas montanhas
10 Capítulo 9: Nos Bastidores da Verdade
Estávamos saindo da biblioteca, nitidamente cansados quando vi minha avó no estacionamento já não dava para esconder que estava junto com o Peter. Só olhei para ele e disse:
— Olhe e acene – Ele pelo jeito ainda não havia visto a ela. – Você vai se encrencar com isso?
Só balancei que não.
— Anda, vem comigo – Ele me seguiu sem entender – Sem chance dela não te oferecer uma carona. Relaxa, ela só vai perguntar como foi o estudo e falar que estamos realmente com cara de cansaço – Ele parecia não entender como aquela dinâmica poderia existir.
Como eu havia previsto, minha avó saiu do carro para cumprimentá-lo com um abraço e pergunta se estudamos bastante. E ele pareceu genuinamente, estranhar o tom calmo dela.
— Quer uma carona querido? – Ela olhou para o relógio e contínuo – Está muito tarde, não é bom andar sozinho por ai.
— É que a minha casa é na contramão para a sua, Senhora.
— Joe, pode me chamar de Joe. Já cansei de dizer para Nick que...
-... sou velha e não tenho nada para fazer além de andar de carro pela cidade – completei para ela
— Exatamente. Ande, entre no carro. Vocês parecem bem cansados. – Ela respirou fundo – Ah propósito Peter, sua mãe me ligou. Acho que sua mentira teve perna curta. Mas já disse que estava estudando com minha neta na biblioteca.
— Mas como a senhora...
— Jogo bingo com a bibliotecária, que por sinal achou vocês dois uns amores, super comportados e muito esforçados. E ficou bem satisfeita de não ter dois adolescentes se agarrando entre as prateleiras de livros – Eu comecei a rir e olhei para o banco de trás e Peter estava vermelho feito um tomate.
— Dá próxima vez que vier, me lembre de mandar algo para você entregar para ela, querida. – Quanto menos ela falar, melhor.
— Como assim, vó?
— Acha que eu nasci ontem? Ela me disse que vocês estavam procurando jornais sobre Willian Barns para o “Debate” da próxima semana. Podiam e deveriam ter sido um pouco mais discretos! – Ela olhou pelo retrovisor interno para Peter – Sua mãe não pode nem sonhar que está pesquisando isso, a coitada teria um colapso mental.
— O que disse que estava procurando?
— Estatuto do desarmamento – Conversei com Bells (a bibliotecária) e ela concordou que era melhor assim. O que? Nós somos amigas de longa data e ela gostou de vocês, então mantenham ela feliz e contente. Entenderam?
— Não vai falar para eu parar com o que estou fazendo? – perguntei receoso
— Adiantaria alguma coisa? – Acenei que não – Você é igual a sua mãe, mas se perceber que as coisas estão fechando para você me avisa, que sumiremos num estalar de dedos. – Ela suspirou e olhou novamente pelo retrovisor – Se precisar, você vai com a gente. Seus pais nunca sairiam daqui e acho que vocês estão brincando com fogo
— Porque se importa comigo – ele perguntou bem incrédulo – Eu não faço parte da sua família, nem nada.
— Porque Nora sempre te achou um menino muito bonzinho e não acho que mereça morrer nas mãos daqueles idiotas. Mas eu ficaria bem mais feliz, se fizessem algumas pesquisas lá em casa. Nora deixou toneladas de caixa no meu sótão. – Ela parou no sinal e olhou para nós dois – Que fique bem claro, as caixas e o que estiver dentro ficam lá em casa. Temos um acordo?
Nos dois fizemos que sim.
Minha avó dirigiu por mais uns 4 quilômetros quando parou na porta de uma casa antiga, mas imponente, com uma fachada marcada por um arco. A chaminé já estava saindo fumaça e a luz do que parecia ser a cozinha já estava acesa.
No portão havia uma mulher parada com uma cara que não parecia muito satisfeita.
— Achei ele perdido na biblioteca – disse minha avó tentando quebrar o clima enquanto Peter saia do carro e agradecia a carona. – Nada querido. Até sábado – Peter parecia confuso mas respondeu:
— Até sábado.
— O que tem no sábado, Peter?
— Eles marcaram de estudar lá em casa para o debate da semana que vem. Não se preocupe, estarão sob a minha supervisão. – A mãe dele pareceu mais aliviada.
— Obrigada Joe e lamento não ter conseguido ir ao... funeral.
— Não se preocupe querida, sei que é muito difícil para você sair de casa.
— Não deixa o Peter se enfiar em problemas.
— Claro que não. Preciso manter os dois na linha – e ela me encarou.
— Onde encontrou ele?
— Na biblioteca, liguei para a Bells e ela me confirmou que eles estavam lá desde as 16h. Fiquei no estacionamento esperando, estava mesmo precisando terminar de ler um livro – Ela riu. Era incrível como a minha avó conseguia deixar o clima, mas leve.
— Mas uma vez, muito obrigada Joe.
— Quer que te busque aqui no sábado de manhã querido?
— Eu posso ir a pé...
— Lembra o que conversarmos? Eu sou uma velha...
— ...e não tenho nada para fazer além de andar de carro pela cidade – Ele completou rindo. – Nesse caso aceito a carona então. As 9h?
— Perfeito.
Minha avó buzinou como uma despedida e pegamos o caminho de volta para casa.
— Você tem o telefone dele Nick? – o tom dela parecia de preocupação.
— Não, mas tenho o email. Por quê?
— Porque a mãe dele é um amor, mas o pai é osso duro de roer, só quero ter certeza de que as coisas ficaram bem.
— Me diz a verdade, por que está concordando com isso? – Aquilo não entrava na minha cabeça.
— Porque acredito que sua mãe faria isso se pudesse e você é o legado dela, mas no momento que o circo começar a pegar fogo, nós sumiremos como já havia te falado.
— Mas por que incluiu o Peter nesse plano?
— Porque eu acho que a mãe dele seria incapaz de proteger a ele e não achou que o pai se importe tanto assim com ele. – Ela suspirou novamente e completou – E ele te faz bem, faz tempo que não te vejo envolvida com algo. Sem falar que ganhou pontos comigo, ao me ligar e dizer que queria matar aula para ir à biblioteca. Enquanto for sincera comigo, eu poderei te ajudar e vou te defender com a minha própria vida se preciso for. – Com os olhos marejados ela estacionou o carro na nossa garagem e olhou nos meus olhos – Você é o legado da sua mãe, mas também é tudo que me restou. Tem sido uma luta interna para mim entre deixar você seguir os passos dela e te colocar numa caixa blindada para te proteger de tudo e de todos. Então seja sincera comigo e me obedeça quando disser que é hora de irmos embora.
Entramos em casa e fui direto pegar meu computador para mandar mensagem para ele
— Como ficou a situação com seus pais?
Fiquei esperando um bom tempo até que ele estivesse online no chat da escola.
— Não muito bem. Minha mãe parece ter engolido a história da sua vó, mas o meu pai... digamos que ele não aprova a minha aproximação com a sua família
— Por quê?
— Acho que o problema é que ele não gosta que eu tenha uma vida que inclua outras pessoas... Minha vida tem que ser resumida a minha casa, igreja e escola.
— Não consigo entender isso.
— É porque você cresceu com uma família saudável e funcional. As vezes me pergunto o por quê deles terem me adotado. Claramente minha mãe me ama, mas meu pai me encara como se tivesse sido um erro, uma decisão sem pensar...
- Mas acha que vai conseguir vir ao sábado?
- Meu pai não vai querer criar um atrito com a sua vó. Aparentemente, ele a respeita bastante.
- Enfim... nos vemos amanhã, Nick.
Nem tive tempo de dizer até, ele deslogou logo após a mensagem.
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