Silêncio nas montanhas
7 Capítulo 6: Segredos à Beira da Janela
— Posso pegar o ônibus se quiser, não precisa me levar todos os dias – disse isso não porque não quisesse a companhia dela, mas porque não queria dar mais trabalho.
— Você não quer que eu te leve ou achar que isso seria uma trabalho desnecessário?
— Segunda opção. – Respondi como quem não queria assumir, mas sabia que era um fardo para ela.
— Querida, sou idosa, acordo cedo e não tenho nada para fazer além de dar voltas por uma cidade minúsculas, ir ao mercado e na floricultura todos os dias. Levar minha neta à escola não seria trabalho algum, é bom mudar um pouco o trajeto. Daqui a pouco aquela caminhonete já iria sozinha para o centro e voltaria pra casa – Nós duas rimos apesar da piada não ser tão boa assim.
— Mas porque vai todo dia ao mercado e a floricultura? Não pode comprar tudo que precisa por alguns dias e não precisar sair tanto?
— E por que eu faria uma burrice dessa? Como saberia das fofocas sem ir no mercado e na floricultura... Ah, isso me lembra que marquei salão para gente na sexta-feira – Oh, eu odiava salão, barulho de secador, o falatório todo – Nem adianta vir com essa carinha. Seu cabelo tá poroso demais e suas unhas estão uma calamidade. Nunca que minha filha ia deixar você sair assim. Além do mais achei que fosse um bom momento para passarmos um tempo juntas e te apresentar para o resto da cidade.
— Por que eu gostaria de conhecer o resto da cidade? – eu não queria interagir com mais ninguém, as duas tentativas já estavam de bom tamanho.
— Porque quem não é visto não é lembrado. – Ela disse de maneira bem séria – Quanto mais gente te conhecer, mais pessoas podem te ajudar caso esteja em apuros. Sobrevivência, minha querida.
— Mas isso também chama mais atenção do que eu gostaria, não? – achei que permanecer anônima era o melhor que eu poderia fazer.
— Os Thompsons não têm mulheres na família, preciso que as outras famílias te conheçam. Então, seja amigável
— Acha que eles têm algo a ver com... o acidente? – minha voz foi ficando mais fraca a medida que ia terminando de falar.
— Não acho nada, porque algumas vezes achar ou pensar sobre algo é perigoso.
— Se acha que é tão ruim assim, por que não se muda?
— Eu ia, mas agora sua mãe, seu pai e seu irmão estão enterrados aqui. É difícil ir embora assim. Mas se for preciso, eu irei. E sei que eles entenderão. – Ela suspirou bem fundo com os olhos fechados – Pronto, já deu dessa conversa triste. Estamos combinadas então?
— Sim. – disse dando de ombros porque sabia que dizer não era uma batalha perdida. Eu entendia os motivos dela, mas queria acreditar que eram exagerados.
Tinham que ser exagerados, não? Como uma família podia deter tanto poder numa cidade e ninguém nunca ter conseguido enfrentar eles? Não podia ser só sobre empregos na fazenda. Algo tinha por trás disso, mas o que era? Algo em mim, me pedia para investigar mais a fundo, mas o bom senso me mandava recuar.
Mas talvez uma adolescente não chamaria muito atenção, afinal minha mãe ser uma queima de arquivo fazia sentido por ela ser detetive. Mas eu não era nada, podia fingir ser só alguém curiosa por fofocas.
Quando desci do carro e me despedi da minha avó, vi Peter descendo do ônibus e resolvi ir falar com ele, quem sabe descubra mais alguma coisa.
— Bom dia Sullivan. – disse de maneira formal.
— Nossa, descobriu meu sobrenome rápido heim. Mas por que o tom formal, Holloway?
— Achei que era o mais apropriado já que não nos conhecemos tão bem assim e eu sou forasteira. – Mentira, queria ver a reação dele quando o chamasse pelo sobrenome. Ao que me parece estranhou um pouco, mas nada que me desse alguma informação relevante.
— Vai fazer o que no almoço? – ele tava me chamando para almoçar com ele.
— Almoçar, eu acho – Não pude resistir, mas pelo menos acho que ele levou numa boa a resposta – Está me convidando para almoçar com você?
— Aham. – Ele disse ainda rindo e me encarando
- E por que eu aceitaria? – Aquela conversa tava parecendo mais um flerte do qualquer outra coisa, mas eu queria saber até onde iria
- Bem, creio que não queira que o Max vá te importunar mais vez, correto? – Acenei com a cabeça – Ele nunca vai aonde eu vou.
Caramba, ele é mais espero do que eu imaginava, criou toda essa desculpa agora ou já era algo pensado.
- Quer dizer que é um bom samaritano? – Sei, algo nele me dizia que não era esse o motivo real, mas deixei rolar, quem sabe no almoço eu descubro – Só quer resgatar a princesa?
- Resgatar não, porque você nem de longe age como uma princesa e nem acho que precise de ajuda. Mas aprecio a sua companhia, apesar dos nossas opiniões contraditórias, gosto da maneira com as defende. É intensa, mas sem ser pessoal. É bem fundamentada. – Achei que ele cairia no truque da princesa, mas não caiu. Obviamente não quero ser resgatada de nada e nunca ficaria a espera de um principe encantado.
- Ok, nos vemos no almoço.
- Quem chagar primeiro pega uma mesa na janela, ok?
Fiz que sim com a cabeça, era o único lugar “calmo” o suficiente para sentar-se, longe das máquinas de salgadinhos e bebidas, perto da saladas. Na Flórida as mesas próximos às janelas eram sempre vazias, ninguém queria ser o primeiro alvo de algum aluno com problemas psicológicos e acesso a armas. Lá, eu sempre me sentava perto o suficiente de uma das saídas, mas longe o suficiente para não ser notada assim que algum atirador entrasse. Incrível que isso nunca me passou na cabeça desde que cheguei.
Ir a uma escola na Flórida era sempre estar atento, mas parecer estar tranquilo. Inúmeras medidas foram tomadas ao longo dos anos, mas sinceramente nunca me sentir segura completamente. Eu não sei em que momento as pessoas começaram a normalizar isso, alguns alunos riam e faziam piadas sobre.
Sempre enxerguei as pessoas do meu país como extremamente burras e alienáveis. Que preferem aceitar blindarem salas de aula do que debater sobre o acesso à armas. Oferecerem suporte psicológicos aos que sobreviveram, mas não aos que são marginalizados nas escolas e transformados em páreas. A política americana se resume como o meu pai sempre falou: “Só trocamos a maçaneta quando a casa já foi invadida”. Era sempre sobre remediar e nunca sobre tratar o mal em si.
Aqui não parecia ser tão diferente. As situações eram distintas, mas os fins era os mesmos. Fingir que não viam o perigo que os Thompson representavam e aceitar qualquer bode expiatório, para não lidar com a verdade. A verdade de que eles são o câncer dessa cidade. Seria irônico se não fosse macabro pensar que troquei uma cidade armamentista sem controle por uma onde a corrupção está sem controle.
Será que em todos os outros 48 estados são assim? Acho que o mal do americano – e me incluo nisso – é acreditar que não há meio termo para nada.
As aulas passaram relativamente rápido: história sobre os colonos que vieram “civilizar” os nativos, a geografia dos EUA — a única que importava — e sociologia, com uma professora que não conseguia detalhar nada mais complexo do que uma colher de chá. Quando o sinal do intervalo tocou, fiquei feliz por finalmente sair daquela sala e parar de ouvir aquela mulher falar com sua voz fina sobre como a sociologia criava vítimas para o sistema social. Ela podia falar isso?
Saí tão rápido da sala que, quando cheguei ao refeitório, ele ainda estava relativamente vazio, e ainda havia mesas próximas às janelas. Sentei-me com a minha salada de frutas e os waffles que minha avó havia feito para mim.
— Como chegou aqui tão rápido? — perguntou Peter, depois de me esperar por quase dez minutos.
— Aula de sociologia. Uma droga — disse, enquanto mastigava um pedaço do waffle.
— A aula ou a professora, que é apaixonada pelo Adam Smith e seu capitalismo liberal? — Ele riu, já sabendo qual seria a resposta.
— Como a equipe de debates ganha campeonatos tendo aulas como essa de sociologia? — Essa era uma dúvida que eu não conseguia sanar de jeito nenhum.
— Simples: estudamos por fora. E, na prova, dizemos o que ela quer como resposta. É fácil, basta pensar: “Qual a resposta que eu nunca daria nessa questão?”, e pronto, é exatamente essa que você coloca.
Fiquei atônita com a explicação dele.
— Mas por que ela é a professora se, nitidamente, não sabe sociologia?
— Em que país você vive, mocinha? Desde quando os EUA querem que seus alunos pensem sobre os problemas sociais causados pelo liberalismo do nosso querido Adam Smith?
Ele riu, parecendo nitidamente envergonhado com o nosso sistema educacional.
— Como era na Flórida?
— Algo sobre a liberdade do cidadão de se defender — e à sua família — com um fuzil — respondi, querendo soar irônica, mas sabendo que não era. — A boa política do "atira primeiro, pergunta depois".
— Nunca vou entender o fetiche que o pessoal da Flórida, Texas e Califórnia tem por armas. Se o Estado fosse eficiente, isso não seria necessário.
— Mas, para o Estado ser eficiente, a polícia teria que deixar de ser racista.
— É, estamos mesmo esperando um milagre. No dia em que o sul dos EUA deixar de ser racista, os quatro cavaleiros do apocalipse estarão batendo em nossas portas — disse ele, com um sorriso de canto. Crítica social com uma pitada de religião. Gostei do senso de humor dele. — O que você acha?
— Acredito mais em invasão alienígena do que nos quatro cavaleiros do apocalipse. Para ser sincera, acho que eles já estão por aí, causando guerras, fome e morte pelo mundo inteiro... E, para falar a verdade, acredito que o Cavaleiro da Conquista é o nosso próprio país, que sai tomando tudo de outros em nome de uma falsa paz e democratização.
— Nunca tinha parado para pensar nisso, mas não poderia concordar mais com algo como concordo com o que você acabou de dizer.
Não consegui decifrar exatamente o que o olhar dele significava, mas também não fui capaz de sustentar o contato visual por muito tempo.
— Seus pais trabalhavam com o quê? Só curiosidade, para entender como sua família pode ter impactado seu modo de pensar. Mas entendo se não quiser responder.
— Meu pai era psicólogo, especializado em transtorno de depressão maior e transtornos de identidade. Minha mãe era detetive em Sarasota — aproveitei o gancho perfeito. — E os seus?
— Minha mãe era artista até me adotarem. Depois, disse que ser mãe era a melhor profissão que poderia ter. Meu pai é terapeuta ocupacional em um lar de idosos.
Parecia uma família simples e recatada.
— Tem irmãos?
— Não. Minha mãe nunca conseguiu manter uma gravidez por muito tempo, por isso me adotaram.
— Se lembra da sua antiga família? — Estava chegando aonde queria, mas senti que ele recuou. — Se não quiser falar, tudo bem.
— Tenho alguns pesadelos, com gritos, alguém me batendo, mas nada além disso. A assistente social disse que tive sorte por conseguir uma família tão amável.
Então a adoção dele foi regular... Não tinha como ele ser o Ben. Envolver assistentes sociais geralmente gerava uma burocracia enorme. Talvez Ben tenha morrido mesmo, e eu só estivesse ficando paranoica.
— Você tem irmãos?
— Tinha. Ele morreu junto com meus pais. Quando acordei, todos já estavam mortos.
Minha voz falhou, e parei de falar.
— Sinto muito. Podemos mudar de assunto, se quiser.
— O que acha dos Thompsons? Parece que todo mundo aqui os trata como Aquele-que-não-pode-ser-nomeado.
Ele esboçou um sorriso com a alusão a Harry Potter, mas logo seu rosto ficou tenso. Parecia pensar na melhor resposta para me dar naquele momento. O jeito despojado de antes havia desaparecido.
É... agora eu começava a enxergar que a preocupação da minha avó talvez não fosse tão exagerada. Ele também parecia tenso.
— O que quer saber de verdade? — A pergunta direta me pegou desprevenida. Achei que ele fosse tentar se esquivar de verdade. Fiquei alguns segundos sem reação. — Você não me parece o tipo de pessoa que faz perguntas ao acaso ou só por curiosidade. Estou errado?
Balancei a cabeça negativamente.
— Cuidado com quem você pergunta. Eu não sou um problema, odeio eles mais do que a maioria da população local e realmente desejo que se explodam — ele disse em um tom raivoso, mas bem mais baixo do que o nosso tom casual. — Mas muitos aqui adorariam informá-los sobre o que uma forasteira pensa ou deixa de pensar.
Eu entendi bem o que ele queria dizer. Afinal, como se mantém um reinado sem pagar bem para serem informados de tudo?
— Por que os odeia? Além do Max ser um idiota.
— Porque sempre se saem impunes de tudo e estão acima de qualquer suspeita.
— Por isso acredita em céu e inferno? Porque precisa acreditar que, de algum jeito, eles vão pagar pelo que fizeram a todos?
Ele me olhou intrigado, como se aquilo nunca tivesse passado por sua mente.
— Seu pai era psicólogo, não?
Acenei com a cabeça, sem saber onde ele queria chegar.
— Você também deveria ser. Em pouco tempo comigo, já conseguiu revirar minha cabeça mais do que a minha terapeuta. Diga o que realmente acha de mim.
— Acho que você é extremamente competitivo porque precisa ocupar os pensamentos intrusivos que, volta e meia, devem aparecer na sua cabeça. Acho que não confia nas pessoas porque já deve ter sofrido muito, provavelmente na infância, antes de ser adotado. E acho que se apega à sua religião porque precisa acreditar que, em algum momento, todos os filhos da puta que cruzaram seu caminho vão merecer a justiça divina, já que sabe que a justiça humana é falha.
Ele manteve o olhar fixo em mim, processando cada palavra.
— E, por fim, acho que se aproximou de mim porque, um dia, você já foi o forasteiro nesta cidade.
— O meu pai sempre defendia uma teoria. "Teoria dos semelhantes". Já ouviu falar?
— Não, mas adoraria que me explicasse — disse ele, virando-se diretamente para mim e ignorando a vista da janela.
— Segundo ele, o cérebro humano é programado para reconhecer padrões e identificar traços familiares nos outros, o que influencia a percepção de afinidade. Como consequência disso, observa-se que os indivíduos formam grupos com base em experiências e interesses comuns, reforçando a ideia de que semelhantes naturalmente se aproximam. Interessante, não?
— E qual seria a nossa semelhança? — Ele perguntou, inclinando-se mais para perto.
— Nós dois gostamos de justiça. E nós dois queremos ver os idiotas pagando pelo que fizeram, correto?
— Correto — ele sorriu, percebendo que tínhamos mais em comum do que imaginava. — Mas por onde começamos?
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