Após minha conversa com Peter, fiquei refletindo sobre uma frase que meu pai sempre usava nas palestras:

"O que sabemos sobre os outros é, em grande parte, o que sabemos sobre nós mesmos." — Carl Jung

Peter realmente queria justiça, ou eu apenas enxergava isso nele porque também ansiava por ela? Justiça por tudo: pela minha família, pelos Fosters, pelo pequeno Ben, por esta cidade? O medo de estar sendo movida pelo meu próprio ego me consumia. Queria vingança ou justiça? Meu pai sempre dizia que, apesar de parecerem opostas, ambas nasciam da mesma raiz.

Na época, não entendi direito, mas uma conversa na mesa da cozinha nunca saiu da minha mente:

"Justiça e vingança são diferentes manifestações de uma mesma dor. Quando a justiça falha, a vingança se torna a única resposta possível—uma tentativa desesperada de restaurar a ordem onde o sistema falhou. Ambas nascem da necessidade de reparação. Mas a vingança, sem limites, transforma a dor em um ciclo eterno de retribuição."

Acho que eu era muito nova para compreender o peso dessas palavras, mas agora elas reverberavam dentro de mim. O que eu queria, afinal? Era possível buscar justiça quando os criminosos ditavam as regras? E se a única forma de justiça fosse cruzar a linha e me tornar aquilo que mais desprezava?

E Peter, o que ele realmente procurava? Será que, ao nos unirmos, estaríamos alimentando o pior de nós mesmos?

Meu pai, com sua calma característica, me diria para esperar. O tempo, ele dizia, se encarregaria de suavizar a revolta e nos ajudaria a aceitar o inaceitável. Ele sempre foi a personificação da paz, com um humor peculiar e uma sabedoria serena. Minha mãe, por outro lado, estava incansavelmente em busca de justiça e, às vezes, de vingança, como ela mesma admitia.

Ela lidava com o caso do desaparecimento de uma menina da minha idade. Em menos de dez horas, encontraram o corpo da criança, já sem vida. Quando capturaram o criminoso, minha mãe, firme, deu a voz de prisão, mas ele enfiou a mão no bolso. E, naquele instante, ela disparou, certeira, no peito dele.

Para o chefe e a corregedoria, ela disse que achava que ele ia sacar uma arma. Mas, para o meu pai – e para mim, que escutava da escada – ela foi mais honesta:

"Eu sabia que ele não estava armado. Não achava justo que ele continuasse vivo depois de tirar a vida de uma criança inocente."

Lembro da resposta do meu pai, com sua tranquilidade imbatível:

"Nada do que você fizer agora vai mudar o que já foi feito. A vingança é natural. Com uma menininha da mesma idade em casa, é impossível não tornar tudo pessoal. Ele provavelmente queria morrer. Com a acusação que carregava, a vida dele na cadeia seria um inferno. Ele escolheu colocar a mão no bolso. Você fez o que podia, dadas as circunstâncias. Dizer que atirou mirando no peito dele para a corregedoria não muda o fato de que ele provavelmente estava tentando induzir um suicídio por policial. Acalma o teu coração."

É dessa calma que eu sentia falta. Meu pai sabia como ser o centro da festa e, ao mesmo tempo, a rocha em meio à tempestade. Minha mãe e eu sempre o admiramos por essa capacidade de se moldar ao momento, ao espaço e às pessoas ao seu redor.

Levantei-me da cama após não pregar o sono pensando sobre os meus pais, sobre o que eu queria era vingança ou justiça, isso foi ruminando na minha mente até encontrar com Peter na porta da escola. Ela parecia estar me esperando:

— Há quanto tempo está parado aqui?

— Uns quinze minutos, queria ter certeza que chegaria antes de você – ele apontou para uns dos bancos no jardim da escola – vamos sentar ali rapidinho, precisamos conversar.

Precisamos conversar? Essa frase nunca é acompanhada de algo bom.

— Ok – respondi receosa, mas o segui até o banco – Então, o que quer conversar?

— Eu vivo nessa cidade há quase 9 anos, já vi os Thompsons saírem impunes de várias merdas, tenho os meus motivos para achar que eles são desprezíveis, mas ontem me peguei pensando, quais são os seus motivos? Você mal chegou e já quer ferrar com eles? Não pode ter sido só a atitude do Max. Ele é um merda, mas não é o motivo principal, é?

Ele era mais observador do que eu imaginava. Eu já havia pensado quando ele me perguntaria isso, mas achei que tivéssemos passado dessa fase, sem grandes perrengues.

— Você não acha que eu vou entrar nessa com uma pessoa que conheci há quinze dias e que não sei quais são os motivos por trás das ações? – ele continuou – Não sou do tipo que entra numa guerra por motivos fúteis.

— Lamento informar, mas todas as guerras, são fúteis. Mas acho sua pergunta válida. Te respondo no refeitório. O sinal já vai tocar.

E no momento perfeito, o sinal toca.

— Salva pelo gongo – disse ele rindo – Te vejo no refeitório na janela.

Ótimo agora eu tinha 4 tempos para pensar até que ponto ele poderia saber das minha motivações.

Passei a aula de biologia inteira pensando e fazendo um lista de coisas que poderiam convencê-los, mas nada parecia bom:

Para a justiça ser feita “Sério Nicole?? Qual é, você consegue bolar uma história bem menos clichê do que essa.”Quero poder fazer algo pela cidade já que não pude fazer nada para ajudar meus pais “Para de ser melodramática, não combina com você, nem você acredita nisso. Desde quando se importa com essa cidade?”Meu pai sempre me disse para seguir minha intuição... “Cafona, brega... não, você não vai se atrever a usar isso. Meu pai ressuscitaria só para me matar se eu fizesse isso. Se estou fazendo por alguém, esse alguém sou eu mesma”Minha mãe ia reabrir o caso dos Fosters mas não conseguiu a tempo, queria fazer por ela. “É isso podia funcionar, era parte da verdade, mas não ela toda”


Justo na hora que havia me decidido, ouvi a voz da professora Collins parecendo que era direcionada a mim:

— Então Nicole, não vai responder minha pergunta – Mas que merda de pergunta ela me fez???? Olhei para o quadro desesperada tentando descobrir do que se tratava a aula... Procurei por palavras chaves: ATP, Glicose, Oxigênio. Okay, só podia ser algo a ver com o ciclo de Krebs

— Pode repetir a pergunta professora, estava anotando o que havia dito e acabei me perdendo – espero que ela engula essa.

— Qual é a principal função do Ciclo de Krebs no metabolismo celular?

Ufa, essa eu acho que sei

— Geração de energia por meio da oxidação da glicose e com formação de gás carbônico? – respondi, mas parecendo que estava perguntando, sabia que não era exatamente isso, mas não estava tão longe do que deveria ser a resposta.

— Não está completamente correta, mas é uma resposta boa o suficiente. Talvez se parar de fazer “anotações” e prestar toda atenção a aula, saberia responder corretamente.

— Desculpe professora, vou prestar atenção. – Guardei o caderno e fiquei olhando para o quadro a aula toda. Ela parecia ser aquele tipo de professora carente de olhares, tudo bem que eu não estava anotando nada sobre a aula, mas cada um funciona de um jeito. Gosto de anotar as coisas, mas já vi que essa é mais uma matéria para estudar em casa com uma pilha de livros.

Vou começar apelidar esse professores malucos... Comecei a escrever na última página do caderno, enquanto esperava Peter na mesa da janela.

Srª Minerva mais parecia com a Srta. Trunchbull de Matilda, será que ela arremessava as crianças também? Só de lembrar do nosso primeiro encontro já me deu arrepio. Srª Collins podia muito bem ser a Regina George, o centro da atenção do mundoA professora de sociologia que eu não quis nem guardar o nome acho que posso nomeá-la como Homer Simpsons.

— Gostei dos apelidos – Dei um grito quando percebi que ele estava lendo por cima dos meus ombros e rindo – Me desculpe, foi mais forte do que eu, você estava tão concentrada que não resistir em dar uma olhada

— Então vejo que amou a aula de Biologia, não? Eu apelidaria ela de Medusa, já que você tem que ficar petrificado encarando cada suspiro que ela dá e admirando a beleza dela. Só não a apelidei de Narcisa porque ela chegou à idade adulta sem morrer afogada enquanto se admirava uma poça d’água.

Por essa eu não esperava, cuspi meu suco e tossi até minhas costelas doerem.

— De fato, os semelhantes se reconhecem, você é tão perturbado quanto eu.

Ele riu enquanto me dava um guardanapo para me limpar.

— Estava pensando nisso desde que me falou dessa teoria... Mas tinha esperança de você ser um pouco menos maluca do que eu...

— Lamento desapontá-lo – disse fingindo sentir pena enquanto terminava de me limpar.

— Então? O que me diz? – Ele se sentou de frente para a janela e cruzou as pernas, mas virou o rosto pra mim.

— Sobre o que? — Eu sabia que era burrice tentar ganhar tempo, mas não pude me conter. Ainda estava analisando se realmente deveria contar parte da verdade para ele.

Ele me olhou incrédulo, levantou-se da cadeira e abaixou para pegar a mochila, até que decidi falar de uma vez:

— Okay, te conto o meu motivo. – Ele colocou a mochila suavemente na cadeira e voltou a se sentar virado para mim dessa vez

— Sou todo ouvidos!

Suspirei por um segundo pensando na melhor maneira de explicar.

— Minha mãe tinha decidido tentar reabrir o caso dos Fosters, quando ela ouviu sobre um suposto exame de DNA que poderia inocentar o Barns. Nossa viagem para cá era para isso, mas infelizmente o carro deslizou na pista e ela se foi – respirei fundo para não entregar mais nada além do necessário – Esse é o meu motivo, terminar o que ela começou.

Ele pareceu bem pensativo enquanto encarava a mesa e mexi com uma caneta entre os dedos. Ficamos um tempo em silêncio, até que ele resolveu quebrar falando algo que precisei processar duas vezes antes de entender.

Sabe quando você escuta algo, mas não entende logo de primeira, e depois processa a informação e ai parece que seu cérebro conseguiu traduzir o que era?

— Só para te manter avisada a escola inteira acha que estamos juntos. – Ele completou fazendo um gesto de negação com os braços enquanto falava – E eu não tenho nada a ver com isso.

— Quanto tempo será que você deve passar com uma pessoa para considerarem que estão juntos? – perguntei meio que despretensiosamente.

— Aparentemente os 45min de intervalo por 3 dias seguidos. – Ele respondeu rindo

— Pouco tempo, não acha?

— Pouquíssimo.

— Se não se opor, não me oponho a rebater os boatos, isso mantém o Max longe de mim – a menos que esteja interessado em outra garota.

— Se eu estivesse interessado em outra garota, já estaria namorando com ela, não acha? Nada muda nessa cidade há pelo menos setenta anos.

— As vezes, você me dar a entender que odeia a cidade.

— Não odeio, só não me sinto bem vivendo aqui, como se aqui não fosse o lugar que eu deveria estar.

— E qual seria? – perguntei por que genuinamente me sentia do mesmo jeito. Como se precisasse sair daqui, mas sem saber para onde.

— Não faço a menor ideia. – Ele ficou pensativo por um tempo e completou – sair daqui me parece renunciar à família que me acolheu quando eu não tinha nada, mas ao mesmo tempo essa cidade me sufoca. É como se eu não deveria existir aqui.

— Nunca quis buscar seus pais biológicos? – talvez isso te ajudasse a ter um rumo.

— Peter encarou a xícara de café entre as mãos, a mandíbula tensa. Eu o esperei para dar tempo para organizar os pensamentos.

— A assistente social me disse que meus pais biológicos eram... problemáticos – ele começou, a voz hesitante. – Bebiam demais. Não conseguiam cuidar de mim. Fui levado para um abrigo antes de completar cinco anos.

Ele desviou o olhar, como se as palavras pesassem mais do que gostaria de admitir. Eu percebi que aquilo não era apenas um relato, mas uma ferida mal cicatrizada.

-Meus pais adotivos nunca esconderam isso de mim, mas... não sei, acho que nunca quis pensar muito sobre o assunto. – Parecia que ele estava assumindo isso para si mesmo do que falando para mim.

— Meu pai sempre falava que o cérebro humano consegue bloquear memórias dolorosas para nos poupar. Fiquei sem o paladar por semanas depois que minha família morreu, segundo meu médico é só o estresse, não tem nenhum defeito com as minhas papilas gustativas. Só meu cérebro que não interpreta mais os estímulos.

— Tem razão somos dois fodidos mesmo, concordo com a teoria dos semelhantes – nós rimos de nervoso por alguns minutos.

— Acredita nos meus motivos? – perguntei por fim

— Acredito porque sua mãe ligou para a minha antes de vir para cá dizendo que talvez conseguisse reabrir o caso. – Oi??? Como assim??

- Quando ia me contar? – meu tom já estava com uma pontada de raiva.

— Quando eu decidisse que poderia confiar em você. Só descobri que era a sua mãe quando liguei os pontos entre o acidente e a minha mãe chorando dizendo que tinha perdido uma grande amiga. Ela me mostrou a foto e alguém precisa te falar isso, você é beeemmm parecida com a sua mãe.

— O que conseguiu ouvir da conversa?

— Que ela estava vindo para conversar com o Detetive daqui e minha mãe queria convencê-la a ficar na Flórida, longe de problemas. Alertou sobre mexer com gente perigosa. Por fim, acho que ela aceitou que sua mãe não iria desistir e a convidou para tomar café no dia seguinte que ela chegasse aqui.

— Você sabe por que a sua mãe não quer mexer nisso?

Ele deu de ombros e disse:

— Meu pai sempre me disse que ela ficou desesperada por um crime como aquele acontecer na casa vizinha e que aquilo podia ter sido com eles. Ela entrou em depressão e ficou com fobia social. Por isso saíram daqui e alguns meses depois me adotaram.

— De onde você veio?

— Nova York – meu pai tem família lá. Ficaram por lá até minha mãe se estabilizar e foi lá que receberam a ligação da assistente social falando sobre mim. – Ele respirou fundo e me encarou – agora que já sabemos mais sobre nós, podemos começar as investigações?

— Você tem alguma ideia de por onde começar? Eu pensei em falar com o detetive do caso do Foster...

Ele me interrompeu antes mesmo de terminar.

— Você acha que foi coincidência sua mãe marcar uma reunião com ele e morrer alguns dias antes? Ele é o mais corrupto dessa cidade... Sabe aquela fazenda que mais parece um palacete cafona bem na entrada da cidade? – Fiz que sim com a cabeça – pertence a ele. Agora o ponto é: como um detetive consegue ganhar tanto a ponto de sustentar aquele estilo cafona, mas rico de vida?

— Então por onde começamos? – Aquela notícia realmente jogou um balde de água fria em mim.

— Pela biblioteca central, olhar as reportagens da época... Não deve ter nada digitalizado, mas os jornais são armazenados lá, até completar 50 anos. Depois são descartados.

— Não vão achar esquisito procurarmos por isso?

— Não com a carta de autorização que eu tenho da professora de Debate – disse enquanto puxava o papel da mochila. – Afinal a gente tem um debate para continuar na próxima aula.

— Quando podemos ir? – Ele estava se provando ser mais útil do que eu imaginava,

— Hoje tenho treino de Hockey no último horário, consigo fingir uma câimbra terrível na perna e ser liberado mais cedo e você?

— Consigo ligar para minha avó me liberar da aula de educação sexual para eu ir à biblioteca.

— E vai falar o que para ela? – Ele pareceu genuinamente confuso.

— Que preciso pesquisar dados para o debate em jornais antigos. – Não estaria mentindo – Só não direi que estarei acompanhada. Então você se vira para chegar até lá, porque ela provavelmente vai querer vir me buscar.

— Estou impressionado como parece fácil para você.

— Meus pais me criaram com uma única regra, não minta. Então sempre falava de maneira franca com eles. Com a minha avó é a mesma coisa.

— Invejo essa simplicidade no relacionamento. Tudo com meus pais deve ser pensado cautelosamente, eles sempre querem me proteger de algo que não faço a menos ideia.

— Não vão comunicar aos seus pais que você faltou?

— Vão, só que o número que eu registrei é de um amigo que sempre finge que é meu pai. – Pela minha cara de choque ele entendeu qual pergunta eu faria – Isso não é infalível, mas se descobrirem que faltei o hockey para ir à biblioteca, não vai ter problema. Eles sabem muito bem que odeio esse esporte. – Combinado então?

— Sim.