Silêncio nas montanhas
19 Capítulo 18: Fahrenheit 451
“Há aqueles que nascem em terras que nunca foram suas, entre muros que sufocam ao invés de proteger. Viver ali é como habitar uma casa construída sobre areia movediça – por mais que tente firmar os pés, o chão se dissolve sob eles. Em Fahrenheit 451, Montag descobre que há prisões invisíveis, não feitas de grades, mas de ideias proibidas, de palavras queimadas, de uma sociedade que ensina a não questionar. Ele foge porque percebe que viver entre aqueles que não enxergam é se tornar cego também.
Nietzsche escreveu que devemos nos tornar quem realmente somos, mas como fazer isso quando tudo ao redor nos empurra para o esquecimento de nós mesmos? Bradbury nos alerta: não há liberdade onde o pensamento é apagado, onde o silêncio substitui o conhecimento. E a fuga, então, não é apenas uma escolha — é uma necessidade. Não porque o mundo ao redor nos rejeita, mas porque, se ficarmos, nos tornaremos parte dele. A gaiola não se torna lar só porque se vive nela tempo suficiente. Fugir é a única forma de sobreviver àquilo que nos apaga.”
Eu imaginei essa fuga tantas vezes e de tantas maneiras, mas nada com tamanho peso e intensidade. Eu ali, escondida ao lado do Peter, que finalmente conseguiu dormir me perguntava, se nós conseguiríamos realmente sair de lá, não só física, mas psicologicamente. Será que uma dia nos recuperaremos disso? Será que a minha avó um dia vai superar o fato de abandonado o lugar onde criou sua família e enterrou seu marido, filha, neto e genro? Será que algum dia toda essa luta vai ter valido a pena? Porque só o que temos, são conjunturas, “se chegarmos ao Canadá”, “se conseguirmos enviar as caixas para alguém que faça algo”, são apenas “se” e mais nada.
Mas agora a única coisa que penso é que “se” sairmos vivos dessa, estaremos no lucro. No lucro de ainda ter algo a fazer, de ter conquistado uma “falsa” liberdade, maior do que a anterior. Mas a que custo?
O que resta de alguém que já foi duas vezes órfão? Que perdeu os pais antes mesmo de saber que os tinha? Peter — ou Benjamin — carrega em si as cinzas de duas vidas que nunca pôde viver por completo. Primeiramente, foi roubado do mundo ao qual pertencia; depois, o mundo ao qual se acostumou revelou-se uma mentira. Agora, qualquer nome que escolha será um eco de tudo que lhe tiraram.
Nietzsche dizia que precisamos nos tornar quem realmente somos, mas como se constrói um 'eu' sobre ruínas? Sartre argumentava que a existência precede a essência — que não somos definidos por um destino traçado, mas pelas escolhas que fazemos. Então, talvez Peter, ou Benjamin, ou qualquer nome que ele decida carregar, não precise recuperar o passado, mas construir um futuro.
Mas o que será dele? Ele, que já foi um fantasma antes mesmo de saber que existia? Talvez ele seja um terceiro nome, uma terceira identidade, que nascerá não do que perdeu, mas do que escolher criar. Porque, no fim, identidade não é apenas um nome ou uma história herdada. É aquilo que, apesar de tudo, decidimos ser.
Percebi que havíamos parado em algum lugar, prendi a respiração porque não era possível que já houvéssemos cruzado a fronteira com o Canadá... ainda estávamos longe pela minha contagem. Aquilo não parecia certo. Tentei ouvir algum som que pudesse vir de fora, mas nada. Continuei a contagem na minha cabeça para tentar me acalmar, mas a todo momento me perdi pensando o porquê de não estarmos andando. Alguém parecia que havia subido na carroceria o que fez com que o Peter acordasse assustado, mas antes que ele pudesse emitir qualquer som, tampei a boca dele e sussurrei no ouvido dele “Fique quieto”. Ele balançou a cabeça e parecia entender
— Nós paramos? – ele perguntou aos sussurros e eu respondi que sim sussurrando também. – Mas por quê?
— Não sei, mas vamos manter a calma
— Onde acha que estamos?
— Pelo tempo que levamos, acho que no posto da polícia na saída da cidade... mas não tenho certeza... Não creio que o Phil tenha corrido acima do limite de velocidade... Ele não daria motivo para ser parado... Julgando pelo tempo e a velocidade, acho que próximo ao posto distrital.
— Tem alguém falando... sua avó está escondida onde no carro?
— Num fundo falso, abaixo do banco de trás. Vamos tentar ouvir...
O som era um ruído parecendo de rádio... “Aproveitaram a estadia”?
Peter quase gritou do meu lado, segurei a boca dele com a maior força possível
— Se acalma e fala, de quem é a voz
— Do prefeito – Eu gelei... será que descobriram o nosso plano.
“Achei que fossem ficar mais tempo... (algo que não entendi) passei lá perto hoje e estavam animados no karaokê
É incrível como ele assumir que estava lá... Não entendia o que o Phil estava respondendo. Mas tinha alguém andando pela carroceria... Se a gente morrer agora, já era toda a chance de um dia eles serem condenados...
Eu só tentava pensar em algo que meu pai me falaria nesse momento:
“Respire fundo. O medo te paralisa, mas a razão te mantém viva. Observe, escute, pense — sempre há uma saída.”
Quando percebi, meu celular estava vibrando até rapidamente, era o phil... apenas escutei a conversa e deixei o microfone do celular desligado.
- ... mas então, quando pretendem voltar? – era a voz do prefeito – sempre bom ter fuzileiros na sua cidade... é bom para enaltecer o patriotismo americano?
— Sínico, filho da puta – sussurrei com um ódio.
- ... nós vamos ficar indo e voltando, agora que Joe está com uma adolescente em casa é bom ter apoio dos amigos. Todos nós sabemos como adolescentes dão trabalho. Tem filhos prefeito?
- Apenas um e está de bom tamanho... Mas me diga, todos foram embora juntos? Achei estranho, ouve alguma desentendimento ou algo?
- Não, alguns ainda ficaram por lá, provavelmente se passar por lá ainda vai ouvir o karaokê bem alta, é que dois carros ficaram no celeiro... Os que chegaram primeiro pegaram as melhores vagas, sabe como é? – Eu tinha que tirar o chapéu para desenvoltura do Phil
— Phil, não fale assim, Joe nos tratou muito bem – Era a voz da Esther, a esposa dele, que parecia tão calma quanto ele – Não temos do que reclamar da nossa estadia. A cidade é linda, não vejo a hora de voltarmos.
- E vocês vão para onde agora?
- Somos eternos mochileiros, prefeito! Vamos pegar a estrada para o sul. Temos amigos por todos os lugares do país. – A calma do Phil era invejável.
— Que lugar do sul?
- Quantico, Virgínia. Temos amigos nos esperando lá... é bom chegarmos no horário planejado, do contrário é capaz deles colocarem a SWAT atrás da gente – Esther riu e eu percebi o que ela queria dizer... Quântico, a cidade conhecida por ser o lar da academia dos Federais.
— Mas não vamos para o norte? – perguntou Peter confuso...
— Eu não sei se é uma mudança de planos ou não. Estou com um dos pares de rádio e outro está com o Phill, na frente, se algo der errado eles vão avisar... agora fica quieto quero ouvir o que eles estão falando.
— ... Acabei pegando a estrada errada
- Eu te disse que estávamos no caminho errado...
- Tá bom meu amor, você tem razão, está feliz? – Eles pareciam genuinamente um casal rabugento brigando.
— Agora vou ter que ligar para Verona avisando que vamos nos atrasar, e não se sabe Deus o que eles vão pensar que aconteceu conosco. Era só ter usado um mapa, homens e sua mania que sabem de tudo. Vocês poderiam nos liberar, temos uma estrada longa?
- Claro, podem ir.
Começamos a andar novamente e Phil ainda com o telefone ligado disse: “fiquem bem quietinhos aí. Mudança de Planos. Jackson me disse que estão revirando todos os carros há uns 5 km a frente com barricadas e tudo. Não temos como passar. Quando estivermos em um lugar seguro conversaremos. Não me liguem. Apenas aguentem”
A ligação foi desligada.
— Se não vamos mais para o Canadá, para onde vamos? – Peter parecia severamente preocupado.
— Não sei – coloquei a mão no rosto dele e liguei a lanterna que estava no meu bolso – mas sei que posso confiar em Phil, ele foi o melhor amigo que meu avó teve e já me visitou algumas vezes na Flórida. Ele sabe o que fazer.
— Mas e se der errado e eles morrerem por nossa causa?
— Minha avó perguntou isso a eles, há alguns dias e a resposta foi:
- Que tipo de amigos nós seríamos se não apoiássemos vocês agora. Se precisar levar um tiro por você, eu levarei. Esther também estava pronta para o que der e vier, por isso me casei com ela. A conhecei num treinamento integrado entre fuzileiros e SWAT.
— Pera, aquela senhora fofinha que está sentada aqui na frente era da Swat?
— Sim, também fiquei chocada. Ela parecia que não mataria nenhuma mosca...
— Mas vai por mim, ela já matou muito terrorista.
— Onde estão as evidências? As caixas – ele me perguntou parecendo preocupado.
— Está vendo essas malas fazendo uma barricada entre a gente e a tampa da carroceria? – ele fez que sim com a cabeça – as caixas estão dentro. O carro do Jackson só tinha caixas vazias com tranqueiras da minha avó... álbuns de vinil, coisas assim... Ele foi na frente por causa disso.
— E se eles resolverem simplesmente metralharem a sua casa?
— Ai alguns deles vão morrer porque deixamos o gás aberto. E dos amigos do Phil trouxe alguns corpos de indigentes em lugares estratégicos da casa. Os corpos estavam no freezer do celeiro... não vão conseguir identificar nada... mas nem acho que vão tentar identificar... Colocamos alguns itens nossos neles. Tem um com o seu boné, que esqueceu lá em casa... e o acrescentamos o casaco que você trouxe hoje.
Ficamos em silêncio por um tempo...
— Eu sei, a ideia dos corpos foi macabra. Mas se não pensarem que morremos, nunca teremos paz na vida.
— Há quanto tempo vocês estão bolando este plano?
— Desde antes deles chegarem. Minha avó ligou primeiro para a Esther para conversar com ela e saber se na opinião dela havia algum jeito de escaparmos de maneira tranquila e a resposta foi um sonoro não. Esther bolou tudo com o Phil e o Jackson. O Collins, o velhinho barbudo e inofensivo, lembra dele? – ele fez que sim – então ele trabalha em um necrotério em Las Vegas, sabe quantos indigentes morrem lá? – ele balançou a cabeça ainda assustado com as variáveis que havia no plano – Muitas, segundo ele. Ele que trouxe o trailer/carro que está no celeiro. Escondemos lá por motivos óbvios.
— Como arrumaram as coisas tão rápido?
— Não arrumamos quando você ligou, só confirmou o que a gente já suspeitava.
— Todos eles andavam pela cidade, mas também seguiam os Thompson, agindo como turistas locais... e a movimentação deles mudou tem uns dois dias... começaram a ficar mais paranoicos e agressivos com alguns dos comerciantes. Acho que desconfiaram que alguém estava procurando algo sobre eles.
— Então decidimos colocar o plano em prática hoje pela manhã... Subimos com os corpos para dentro de casa e ligamos o ar no máximo. Arrumamos as coisas e as roupas. Finalizamos nossas malas, gravamos algumas horas de karaokê para ficar gravando. Antes de sairmos, Phill abriu o encanamento do gás da casa toda e desabilitou o sistema de alarme.
— Eu achando que estava ajudando muito mandando mensagem, mas vocês já tinham tudo pronto.
— Ajudou sim, porque todos íamos dormir na sala, já que os corpos já estavam nos quartos... – eu olhei para ele sabendo que aquilo era muito esquisito – vai por mim, eu sei que é estranho para uma porra... Enfim quando ligou, a gente acelerou o plano que seria posto em prática amanhã à luz do dia, para não corremos esse risco na calada da noite. Mas se tivéssemos esperado, talvez agora eu já seria um cadáver...
— Eles desistiram quando viram a casa cheia...
— Eu acho que eles desistiram quando viram pessoas acordadas... pessoas demais para eles dominarem ao mesmo tempo... alguém podia fugir. Se toda a casa estivesse apagada, acho que eles tentariam sim, e falariam que foi um latrocínio. Simples.
— Mas será que não ficariam com medo dos federais...
— Se ateassem fogo na casa, não ia sobrar muita coisa... na pior das hipóteses poderia só cortar a mangueira do gás e amanhã todos estariam mortos.
Ficamos em silêncio por umas três horas que paramos e o phil avisou para descermos da carroceria.
— Estamos seguros, mas tenho duas notícias ruim para você menino – ele olhou nos olhos do petter – Um dos meus olheiros viu seu pai entrando no celeiro dos Thompson, mas ele não saiu de lá com eles. Acho que já devem tê-lo matado e dado de comida aos porcos...
— E a outra notícia? – A voz do Peter estava trêmula e chorosa...
— A casa dos seus pais pegou fogo.Os bombeiros só apareceram uns 30 minutos depois. Creio que esse tenha sido o jeito de apagarem as provas da morte da sua mãe.
— Sinto muito querido – minha avó parecia realmente triste.
— Tudo bem, eu já havia aceitado o destino do Hank, só não queria que ela ficasse, mas foi escolha dela. Espero que esteja em paz agora. É a única coisa que posso querer no momento. – ele enxugou as lágrimas do rosto.
Enquanto olhei em volta, não conseguia distinguir onde estávamos.
— Que lugar é esse?
— Albany – Peter respondeu mais rápido do que Phil. – Eu lembro dessa vista do banco de trás do carro enquanto nos mudávamos para Maple Hollow.
No horizonte, as primeiras luzes começavam a surgir, quebrando a escuridão da estrada. Albany se revelava aos poucos, um recorte de prédios modernos e históricos contra o céu noturno. Construções de tijolos envelhecidos contrastam com torres de vidro, misturando passado e futuro em uma única paisagem.
— Mais adiante, fica o Empire State Plaza – ele disse apontando para um prédio bem na linha do horizonte.
O prédio se erguia como um monumento de aço e concreto, suas linhas futuristas refletindo a luz dos postes e dos faróis que cortam a cidade. As janelas iluminadas dos arranha-céus piscavam como estrelas artificiais, enquanto sombras alongadas se espalhavam pelas ruas ainda silenciosas.
— Estamos na I-87? – Peter perguntou ao Phil
— Sim, ele é bom em se localizar, não é querida? – Ele virou para Esther. – Quanto tempo viveu aqui?
— Um ano de maneira permanente, mas sempre vim visitar meus avó aqui. – Ele ficou pensativo e se calou rapidamente.
— O que foi? – perguntei preocupada com o silencio repentino.
— Eles nunca vão saber da verdade do meu passado nem o que aconteceu comigo de verdade hoje. Sei que não posso entrar em contato com eles e não seria egoísta de colocá-los em risco. Mas aqui é um bom lugar para pararmos, em uma ou duas horas o trânsito e as pessoas vão tumultuas as ruas, vai ficar fácil, fugirmos para o Canadá ou qualquer outro estado. Qual é o nosso destino afinal?
— Estamos na dúvida e por isso queríamos falar com vocês – começou a falar Esther – pensamos que já que fomos forçados pegarmos para o sul, poderíamos ir direto para Quântico mesmo e já deixar tudo lá, com um colega meu do FBI. Lá eles conseguem identidades melhores e lugares mais seguros para vocês... – ela olhou para minha avó – sei que gosta do frio, vou pedir para tentar mandarem vocês para algum lugar frio longe de Vermont.
— Mas podemos dar a volta e deixarmos você no Canadá como era combinado. – Disse Phil obviamente tentando agradar a minha avó que desgostou bastante de ir para o sul. – Mas, a Virgínia não é tão quente como a Flórida, eles têm uma boa época de inverno. – Nitidamente tentando não contrariar a esposa. – O que me diz Joe?
— Digam, vocês, crianças, o que preferem? – ela virou para nossa direção.
— Sinceramente, Joe, no momento eu não quero decidir nada e se puderem decidir por mim eu ficaria muito grato, meu cérebro está exausto. O que você e a Nick escolherem, eu topo. – eu o abracei porque senti que ele precisava.
Minha avó me olhou, esperando a minha opinião.
— Vamos acabar logo com isso. Vamos para Quântico, por favor. A gente entrega toda essa merda para eles e podemos recomeçar em algum outro lugar. Não vamos ficar lá para sempre. E se quiser, vamos para o Alasca, já que ama tanto frio. Mas primeiro vamos terminar o que começamos. Melhor recomeçar sem esse peso nas costas. Meu pai com certeza falaria:
“Primeiro desovamos os corpos, depois pensamos no amanhecer”
- O Natan sempre falava essas frases esdrúxulas, mas dessa vez tenho que concordar com ele. Vamos nos livrar desses cadáveres.
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