Silêncio nas montanhas
20 Capítulo 19: Baby Driver
Trocamos de carro com um amigo do Phil para que a gente não precisasse ficar tão presos no fundo falso da camionete. A ironia da vida... mal saímos de Vermont e já não precisamos ficar presos no escuro. Passamos a noite em motel na estrada porque todos nós precisávamos dormir, comer e tomar um bom banho. Eu e Peter ficamos no deitados no tapete do chão já que não havia quartos suficientes, mas era mais confortável do que dormir na camionete.
Phill tinha saído para buscar comida, eu estava deitada no chão contando as ripas de madeiras no teto, eu precisava de algum controle e isso era minha única alternativa no momento. Vovó e Esther jogavam baralho na mesa e Peter tomava banho. Aquele era o momento mais tranquilo da nossa fuga.
O combinado com o Phill é que ele daria três toques na porta e esperaria depois bateria mais duas vezes. As cortinas estavam fechadas e a luz era só na mesa de centro, o resto do quarto estava apagado. Alguém bateu na porta:
— TOC, TOC, TOC – esperamos pela segunda rodada de batidas, mas não vieram. Olhamos todos para Esther a procura do que fazer e ela só fez um gesto para irmos para o canto. Nessa hora, Peter saía do banheiro e ia dizer algo, mas Esther olhou sério para ele que pareceu entender na hora. Se agachou e ficou quieto, vindo engatinhando até mim.
— O que houve? – sussurrou
— Phil combinou três batidas seguidas de uma pausa e depois mais duas..., mas só baterem três vezes...
— Ele pode ter esquecido? – olhei com uma cara para ele indicando que a pergunta era idiota. – Tá, tá, pergunta idiota. Esquece que eu falei.
Fiz que sim com a cabeça.
— Não é o Phill, ele ainda está há 4 km daqui. Fiquem agachados, vou tentar ver pelo olho mágico... – disse Esther aos sussurros.
— Espera, mas se derem um tiro pelo olho mágico – perguntei a ela.
— Ai vocês saem pelo banheiro e encontrem o Phill a 4km leste daqui, numa loja de Tacos.
Ela foi se arrastando lentamente até a porta e observou pelo olho mágico. Agachou novamente e voltou para perto da gente.
— Acho que vi uma sombra se escondendo fora do campo de visão do olho mágico. – Phil ligou e falou com ela por uns minutos, tendo somente um ok como resposta. – Ele disse que a recepcionista disse que dois rapazes vieram aqui procurando um tal de Peter, mostraram a sua foto para ela. Um dos garotos era o Max, disse a atendente que você havia roubado ele. A recepcionista disse que fomos procurar outro hotel porque esse está cheio e que o próximo ficava a 5km oeste.
— Por que ela mentiria pela gente? – Peter fez a pergunta que estava na minha cabeça.
— Porque eu e Phil dissemos que somos do programa de Anjos da Polícia e estávamos protegendo você três de um marido/pai abusivo. Pessoas têm medo de cartel, mas têm empatia por uma família fugindo de um lar abusivo. – Realmente fazia sentido – Temos distintivos falsos da Polícia, o que nos ajuda.
— Phil está lá fora dando uma olhada no circuito interno para ver quem bateu.
Em seguida voltaram a bater na porta
— TOC, TOC, TOC – alguns segundos depois – TOC, TOC. – Era ele.
— Liguei para um policial amigo meu e estão procurando o Max e um amigo alto dele. Se acharem vão os prender por vadiagem e nos teremos a noite para escapar. – Ele colocou a comida sobre a mesa – Coma o máximo que aguentarem porque não sabemos se vamos dormir ou não.
— Como nos acharam aqui? – perguntei realmente frustrada com a situação. Albany era gigantesca, como nos acharam...
— Devem ter pegado a estrada principal e foram parando de motel em motel até acharem... pelo tempo que estamos aqui, isso faz sentido. Fora que o Max dirige um Lexus com motor bem potente. A recepcionista acha que eles engoliram a história?
— Ela não tem certeza. Mas eu reparei pelas câmeras que eles bateram em todos as portas dos quartos e três deles não abriram... Então eles têm pelos menos mais dois quartos para suspeitarem.
Comemos rápido e tensos, a energia no quarto havia mudado com uma simples batida na porta.
— Se o Max disse que você o roubou, será que ele descobriu da arma e do diário? – perguntei preocupada.
— Eu acho que temos duas opções – Peter começou a falar enquanto mastigava — a) ele não descobriu nada e inventou isso para tentar me encontrar porque o pai dele deve ter pedido; b) Ele descobriu e está tentando resolver sem muito alarde porque até ele mesmo morre de medo do Carl. – Ele terminou de engolir a comida – E acredito que qualquer uma delas é boa para a gente. – Ele deu mais uma mordida no taco e continuou – Ele não vai assumir tão cedo para o Carl que colocou um “amigo” para dentro do escritório e que deixou esse amigo tempo o suficiente para roubar uma arma do crime e um caderno de confissão. De todas as burrices do Max, para mim, essa foi a pior de longe.
Ele começou a rir do nada
— Ele está desesperado e quem podia ajudar, ele não pode chamar. – Continuou rindo – Se duvidar o Carl o mata logo que descobrir essa merda. Um Thompson a menos no mundo. Desculpa gente, mas estou rindo de nervoso e choque de como a arrogância pode foder com uma pessoa.
— Acho que o Peter tem razão, se o qualquer um dos outros Thompson estivessem sabendo, eles não seriam tão delicados quanto bater numa porta. O menino deve estar agindo por conta própria. – Phil olhou para o Peter e seguiu – Como você descreveria o Max?
— Agressivo, com algum transtorno mental, eu chutaria Borderline. Ele muda muito rápido de humor e gosta de perceber que tem o poder/controle de tudo e de todos e sem dúvidas não aceita um não como resposta. Mas em termos cognitivos, ele é uma mula de tão burro. Não é bom com traquejo social, apenas sabe convencer na base da ameaça, compra ou chantagem. Em termos de força, já vi ele bater num moleque que era o dobro do tamanho dele num surto de raiva. O garoto ficou na UTI por umas semanas e voltou irreconhecível para a escola. Os pais se mudaram da cidade seis meses depois. – Peter parecia se lembrar bem do ocorrido, como se fosse uma pintura gravada no seu cérebro. – Mas alguma informação?
— E o restante da família? – Esther questionou enquanto passava mais um embrulho de tacos para mim e a minha avó, enquanto Phil parecia prestar atenção na conversa, mas também na movimentação da fora, pela fresta da parte de baixo da porta.
— O prefeito, ele mais ameaça que qualquer coisa, mas quem executa são os irmãos. O Huge é um idiota, mas como o Max tem uma força descomunal quando está com raiva e o Carl... bem que diria que ele é um perfeito psicopata.
— Você disse que acha que deram o Hank aos porcos, por que disse isso?
— Porque teve um boato que um funcionário que tentou juntar mais gente para formar um sindicato, foi dado aos porcos pois nunca foi encontrado nenhum vestígio dele. Na verdade pode ser uma mentira, porque a polícia não se daria ao trabalho de procurar...
— Mas todos lá são corruptos – perguntou Esther enquanto juntava o lixo que estava na mesa.
— Os que são honestos ou se omitem, ou morrem ou se mudam.
— É difícil mudar um sistema assim de dentro para fora – Phill parecia também frustrado – Mas acho que discordo em uma coisa sobre o que disse dos Thompson, Carl pode ser um psicopata, mas o Prefeito Alex também é. Arquitetar um plano tão detalhado e sem falhas desse jeito é para uma mente doentia. O Alex pode não colocar a mão na massa, porque tem os outros dois irmãos para fazer, mas eu arriscaria dizer que ele é tão frio quanto o Carl.
— Enquanto eles não souberem, temos uma chance. – disse a minha avó deitada na cama exausta. – Minha coluna está me matando.
— Trocamos de carro novamente ou arriscamos ir com esse? – Esther perguntou ao Phil
— Vamos manter esse. É resistente, espaçoso e está com o tanque cheio. – respondeu ele bem pensativo
— O que foi amor? – Esther parece também perceber que ele estava com a cabeça longe.
— Estou pensando até onde vai a influência deles... onde é seguro parar. – Que outros lugares você frequentou com seus pais? – perguntou para o Peter
— Só o centro de Albany e os arredores quando morei com o casal de alcoólatras em um trailer. Por quê? Se tiver cansado, posso dirigir
— Não é isso e você não é treinado em direção defensiva. Estou preocupado de eles terem usado o Hank para comprar alguns policiais por aqui também... Será que eles conseguiam trazer a droga para cá?
— Isso importa? – Peter perguntou terminando de beber seu refrigerante.
-Sim, porque preciso saber o raio de alcance deles para a gente saber até onde fugir.
— Será que conseguimos fugir pelo ar? – Vovó otimista com a ideia – Eles não podem nos matar no meio de um aeroporto em plena Nova York, nem derrubar um avião. Chamaria muito atenção – A ideia não me parecia ruim, mas o problema é como sair daqui e chegar ao aeroporto.
— Mas como que a gente vai transportar as provas até quântico, Joe? – Perguntou a Esther já sabendo qual seria a resposta.
Eu também havia esquecido da faca... merda!
— O jeito é ir de estrada mesmo... – Disse Phil também frustrado, mas aceitando que não havia alternativas – Sabe-se o Max teria acesso a armas? – Virou diretamente para o Peter.
— A casa dele é mausoléu de armas antigas, agora se ele sabe usar aí são outros quinhentos. Ele não é do tipo que gosta de armas, prefere socar e bater para extravasar a raiva. Mas talvez o pai dele tenha dado uma arma para ele, se o mandou vir aqui me procurar...
— Se ele só estiver armado com uma faca ou algo do tipo, conseguimos desarmá-lo e o colega também, mas se tiver mais gente a situação fica complicada. Temos que decidir se vamos agora sem descansar ou esperamos até amanhecer...
— Posso falar? – Peter pareceu meio intimidado, mas todos fizemos que sim com a cabeça. – Vamos agora. Eu posso dirigir – deixa eu terminar Phil, por favor, — ou a Nick dirige. A gente ganha tempo e distância até que o Max conte a merda que fez. Se esperarmos até amanhã, talvez ele surte e conte logo tudo e ai a gente vai ter que fugir de gente demais. Vocês estão cansados, ficam dormindo no banco de trás, eu dirijo e Nick fica vigiando se não estão nos perseguindo. Seguimos para o Sul. Quando mais cedo sairmos de NY melhor.
— Acho que o Peter tá certo. Eu e ele damos conta de seguirmos com o carro, se ele cansar eu assumo a direção. Vamos sair de NY e depois pensamos no que fazer. Vamos agora, que já comemos, tomamos banho e estamos com o tanque cheio. Eles já vieram aqui, ainda faltam alguns motéis para eles visitarem nessa estrada.
— Os meninos estão certos Phil. – Esther olhou para ele – Precisamos dormir e isso inclui a Joe também. Juntem todo o lixo que temos e descemos com ele. Meninos, limpem os lugares que possam ter digitais, maçanetas, mesas e torneiras. Eu e Phill vamos descer com as coisas e ver como está a situação lá fora. Vamos ligar para vocês pelo telefone do hotel e vai tocar 5 vezes, Entenderam? 5 vezes. – Joe, só olhe para ver se deixamos algo para atrás enquanto eles eliminam boa parte das provas.
Eu e Peter começamos a passar o álcool, que Phil trouxe junto com a comida, em tudo. Minha avó sacudiu as camas e nós limpamos o máximo que conseguimos. Provavelmente havia ainda DNA e fios de cabelo, mas essas análises demoravam mais do que as digitais, então teríamos algum tempo.
O telefone tocou e chamou cinco vezes e desligou, essa era a nossa deixa. Peter saiu com um boné tampando o rosto. Minha avó estava com um echarpe tampando parte do rosto e eu segurava o saco de lixo próximo ao rosto, com um óculos de sol e um chapéu velho. Joguei o lixo fora rasgando o saco para misturar com o lixo que estava na caçamba... vão ter que procurar no lixo alguma resposta.
Alcancei o restante que já estava no carro.
— Boa ideia de rasgar o saco – Peter disse assim que entrei. Joguei a luva num saco de lixo que estava no carro e ele me passou o álcool.
— Sabe para onde ir, criança – perguntou Phil
— Sei, para o sul, vou seguir na US. Rote 9, menos pedágio e câmeras de segurança, não é direto para a Virgínia, mas acho menos arriscado. Depois pego a I-84 e I-81 no sul da Pensilvânia.
— Não é que o menino sabe o que está fazendo. Decorou um mapa... – Esther e todos no carro pareciam chocados com o senso de direção do Peter.
— Quando era criança ficava imaginando como fugiria de Maple Hollow, fui decorando todas as rotas com o tempo. Conheço o mapa dos Estados Unidos como nenhum americano conhece.
— Não precisa ser muito inteligente para conhecer o mapa dos EUA, criança. Os americanos não conhecem nem os mapas das próprias cidades. Do que dirá de um país. – A ignorância estadunidense é a nossa benção.
— Esther, a senhora não é nascida aqui, não é? – Peter perguntou
— Não. Como descobriu?
— Americano em média é burro demais para saber o que estadunidense significa. – Todos rimos.
— De onde você é?
— Israel. Você é bem perspicaz igual a Nick, vejo o porquê de se tornaram “amigos” – O enfoque dado em amigos estava bem claro que eles já entendiam que nós não éramos amigos apenas.
Peter me olhou e sorriu.
— Podem dormir, tá tudo sob controle.
Em menos de 20 minutos os três pegaram no sono.
— Eles pareciam cansados mesmos. São durões na queda. Preciso conversar ou vou dormir – Essa rodovia reta e sem trânsito não ajuda muito.
— Sobre o que quer conversar?
— Sei lá, qualquer coisa. – Ele parou e pensou – Já sei. Qual é o seu livro favorito?
— Crime e Castigo e o seu?
— Então estava relendo depois da nossa “conversa” na floresta? – Ele me deu uma leve olhada de canto de olho e voltou os olhos para a estrada.
— Na verdade estava tentando não ficar olhando para você, por isso abri meu livro de estimação. Você não me disse qual é o seu ainda
— Fahrenheit 451, mas também gosto de Crime e Castigo e o Inferno de Dante. Acho que serão os primeiros livros que eu vou comprar quando tiver uma casa de novo.
— Já pensou em um novo nome?
— Por que a pergunta?
— Porque eu preciso me acostumar com ele para não sair confundindo e te chamando de Ben ou Peter.
— Ou Benjamin? – ele sorriu com uma cara de que queria lembrar daquele momento. – Ainda não pensei, mas acho que a gente não escolhe, eles escolhem por nós. Você escolheria qual?
— Provavelmente não posso escolher nenhum nome que remetesse a minha família, mas sempre gostei de Natalie e para você, sabe qual eu acho que combina bem com vc?
— Qual?
— Noah.
— Gostei, simples, fácil de decorar. Se me deixarem escolher, falo Noah então.
— Não precisa escolher esse por causa de mim.
— Não seja tão egocêntrica, eu não tinha nenhum em mente e Noah parece ser um nome que trás certa tranquilidade e facilidade. Peter, eu sempre tinha que falar que era com um T só. Uma merda. Nunca entendi o porquê dos meus pais não terem colocado Petter. Facilitaria minha vida. Noah, não tem como errar.
— Eu sempre quis te perguntar, por que só um T...
— O dia que você souber a resposta, eu vou adorar ouvir. – rimos baixinho.
Até que percebi dois carros com farol alto nos seguindo.
— Peter – eu comecei a falar...
— É, já vi. Troquei de pista 3 vezes e eles me seguiram. Acho que hora de acorda o povo.
— Phil – Eu o cutuquei – Temos companhia.
— Diga.
— Três Land Rover pretas seguindo a gente há uns 5 km, já trocamos de pista e eles seguiram. – fui passando as informações para o Phil
— Reconhece o carro, Peter?
— Agora noite fica difícil. Mas sei que o Alex tem algumas Land Rover na fazenda.
— Esther, amor, acorde – Phil a sacodiu.
— Oi, estamos sendo seguidos??? – ela acordou no susto, mas já pronta para o que der e vier.
— Acho que vão tentar nos fechar – Peter começou dizendo enquanto pisava mais forte no acelerador – Tem um carro me cortando pela esquerda e outro parecendo que vai para a direita. – Ele olhou em volta por alguns segundos – Todos com cinto? – Todos respondemos que sim – Então se segurem. Peter pisou fundo no freio. . Peter engatou a ré, puxou o freio de mão e virou na contramão para pegar a saída pelo túnel lateral, indo para dentro da cidade.
O carro girou violentamente, o cheiro de borracha queimada encheu o interior. O baque dos dois veículos se chocando atrás foi a confirmação de que tinham conseguido uma pequena vantagem
— Você fazia racha? – perguntei sem acreditar, logo ele que sempre pareceu tão certinho.
— Cresci no meio do mato, o que mais eu poderia fazer Nicole.
— Gente ótimo despertador Peter – minha avó acordou reclamando
— Desculpa Joe, mas foi necessário.
– Você não tinha como escolher um namorado normal né Nick? – Minha avó realmente tinha acordado rabugenta.
— Desculpa vó, é de família. A gente sempre escolhe homens questionáveis. – Peter estava rindo apesar de olhar atentamente para frente enquanto desacelerava o carro.
— O que está procurando, menino? Acelerei – perguntou Phil com raiva
— Carros parecidos com o nosso para despistar. Fico entre eles e vai dificultar na hora de escolher qual seguir. Vou tentar pegar o contorno e voltar para a pista central. Pronto, três SUVS pretas e viva a falta de estilo próprio dos americanos. Ótimo, vou seguir a que vai pegar a pista de retorno.
O carro ficou em um silêncio sepulcral.
— Por que não me disse que dirigia assim?
— Porque tecnicamente é ilegal. Em Maple Hollow não tinha nada para fazer, então quando vinha para NY eu arrumei um grupo de racha, queria um pouco de emoção e talvez morrer no processo – ele riu da piada de péssimo gosto – relaxa gente, sem pensamentos suicidas por hoje. Na verdade, acho que nunca me senti tão vivo assim!
Fale com o autor