Silêncio.

1 O meio


Notas iniciais
Postando porque isso já está engavetado a anos, principalmente por ser péssima com coisas capitulares, então resolvi aplicar alguns cortes e postar como um conto único.

Um moreno adentrava o quarto de tonalidade totalmente branca, qual seu irmão mais velho ocupava a alguns meses. O adoentado era um homem jovem, porém fora arrebatado por uma doença que o debilitara muito, a leucemia, e mesmo com o transplante de medula que fizera, graças a seu irmão ser um doador compatível, o rapaz ainda se mantinha no hospital para fazer a quimioterapia. Quando os olhos dos irmãos ao se cruzaram ambos demonstraram o sentimento de acolhimento e imenso amor fraternal que a dupla nutria, o máximo que seres introvertidos como eles conseguiriam demonstrar.

Sasuke era impetuoso, no entanto desde que seu irmão entrou para cirurgia tomou uma postura mais ponderada, caminhando a passos lentos em direção ao leito do irmão mais velho, tomando sua mão entre as próprias e fitando o rosto claro do mais velho em um estado ainda mais pálido que o habitual, claramente debilitado.

—Oi, meu irmão...

—Sasuke... Por que dessa cara de velório se eu ainda nem morri? -Gracejou o mais velho, recebendo um olhar duro e irritadiço do Uchiha mais novo que em resposta soltou um muxoxo característico seu de quando agia com indiferença ou se irritava com algo, neste caso a segunda opção era a mais valida. –Desculpe, irmãozinho, o que está lhe deixando tão apreensivo, hm?

O mais novo se remexeu desconfortável sobre a cadeira, com a facilidade que o irmão tinha para ler seus sentimentos, após alguns minutos de silêncio e reflexão, relaxou o corpo, desistindo de lutar contra si mesmo, pois precisava compartilhar com seu irmão o que lhe afligia, sabendo que fora os envolvidos no problema seria o único que o ouviria e aconselharia visando seu bem estar.

— Itachi... Você sabe que estou com o Neji a quase doze anos, hm? — O mais velho assentiu e fez um sinal com a mão indicando que Sasuke poderia continuar com seu desabafo. – Certo... E sabe o quanto eu odeio aquela mansão e as lembranças que ela traz de nossos pais?

— Seja direto, Sasuke. O que lhe incomoda?

—Não me apressa porra! — O mais velho suspirou baixo, tentando manter a paciência ao máximo, o que fez o mais jovem se desculpar mudamente e prosseguir – Continuando... Ele a um certo tempo insiste para que moremos juntos e agora que você não está em casa estou pensando seriamente em aceitar. Sair do nosso mausoléu particular. -Riu baixo, junto ao mais velho e continuou. — Mas tem um porém...

—Seu outro “namoradinho” não aprova?

—Ele não sabe... Sei que se morar com Neji significa desistir do Naruto. É o mais sensato a fazer, mas... Eu não sei se consigo, sabe?... Neji é e sempre será uma pessoa intimista, fechada e por mais que eu o conheça, às vezes sinto que não o conheço nem um pouco... Ou talvez eu deveria morar com Naruto, mas neste caso eu também teria de dar um fim ao meu relacionamento com Neji e isso... Eu não me vejo, não mesmo... Não sei nem se sei andar sozinho mais sem o Neji comigo...

— Seus olhos estão tão perdidos, irmão... – Bagunçou os fios do mais novo em afago suave e continuou – Nos sabíamos que um dia como esse chegaria, o dia em teria de escolher por um deles ou por você, nada te impede de ser um homem solteiro...

Mesmo que durante curta a conversa, tratar sobre este assunto deixava o mais novo sem forças, por isso naquele momento se permitiu exigir um pouco de mimo do irmão, assim projetou seu corpo para frente deitando o rosto de lado sobre o peitoral do irmão, que manteve um leve caricia sobre seus fios arrepiados por um longo tempo, tempo incontável, mas que passou como num piscar de olhos para os envolvidos que se mantiveram em silêncio.

No rosto de Sasuke havia um evidente vinco em sua testa, assim como seus lábios finos estavam encrespados, sem duvida o moreno menor se mantinha pensativo.

—Tente se acalmar, a resposta que tanto busca virá no momento certo... Por hora o melhor é ir dormir.

—Eu vou, mas preciso ir ao apartamento de Neji antes.

—Você e seus amores...

—Cala a boca! Cadê o Shisui para fechar essa sua boca?

—Logo ele chega... – O mais velho sorriu e empurrou com os dedos indicador e médio a testa do irmão, Sasuke retribuiu o carinho com um beijo suave sobre a mão magra do mais velho, afastando-se e seguindo para fora daquele local. – Esse meu irmãozinho tolo... – Itachi sussurrou, observando a silhueta de seu irmão sumindo porta a fora.

Ao fitar o relógio de parede da sala de espera se assustou, definitivamente não percebia a passagem das horas quando passava um tempo com o único irmão e familiar direto que ainda possuía. Seguiu a passos apressados até o elevador, e assim que o tomou apertou o botão que levava ao estacionamento. Assim que saiu da caixa de metal, tateou o bolso da calça social que utilizava para retirar o celular, tirando dali o seu moderno smartphone, e assim que os sistemas estavam devidamente inicializados discou para o número tão bem conhecido e em seguida posicionava o celular em seu ouvido, utilizando de sua mão livre para abrir a porta de seu veículo e porfim o adentrando. Irritadiço pela demora no atendimento, mas logo ouviu a voz de tom polido do mais velho, que possuía olhos de um azul tão claro que beiravam o branco.

Sim?

—Vou me atrasar.

Certo... Milagre se atrasar...

— Estou a caminho, até!

~~x~~

Antes do mais velho responder, ouviu o som característico de que a ligação havia se encerrado, Sasuke havia desligado na sua cara, bem característico do rapaz assim como o seu, já que quando estava impaciente ou atrasado faria o mesmo, neste quesito ele e seu companheiro tinham muito em comum.

Neji apreciava de um saboroso vinho que só agora ele notou ser uma garrafa que o próprio Sasuke havia lhe presenteado após enfim conseguir o que tanto uma promoção na empresa que trabalha. O mais novo sempre foi difícil de se expressar em palavras, por isso Neji se tornou especialista em saber o que o mesmo sentia e queria através de seus gestos, como esta pequena demonstração de atenção e carinho, porém a leve euforia romântica que o tomava de sentimentos pelo parceiro foi substituída por outra anda mais intensa e constante: ciúmes. Hyuuga amava Sasuke com paixão desenfreada e mesmo com o acordo de relação aberta sempre se manteve fiel a ele, sabendo de todos os seus aferes e casos durante seus anos juntos, porém Naruto poderia ser considerada a pedra do seu sapato, fazia uns 5 anos que seu namorado iniciara um caso com este rapaz e desde então não teve mais paz, pois o loiro aos poucos se tornara a terceira pessoa na relação dos dois o que o ele tentava engolir e manter seu orgulho intacto, mas a cada dia se tornava mais difícil ter aquele intruso entre eles. O rapaz havia mergulhado tão fundo em seus pensamentos ressentidos que sequer notou a presença do recém chegado que pouco se atentou a seu estado atual e agiu com total naturalidade e conforto que lhe eram habituais.

Uchiha jogou seu blazer sobre o sofá oposto a qual o anfitrião ocupava, aproximando-se do mais velho que mantinha seus belos olhos fitando o chão, sem o erguer em direção ao visitante, o que era algo incomum, pois o moreno de longas madeixas castanhas nunca abaixava a cabeça, nem mesmo quando humilhado ou diminuído por alguma situação, o que causou estranhamento Uchiha que optou por tentar ignorar o seu instinto de autoproteção e se sentando sobre a mesa de centro feita de madeira maciça do namorado.

—Vai invadir até quando minha casa deste jeito, Uchiha?

—Você quem me deu a chave, Hyuuga, não vem com essa...

—Hm... – Neji enfim ergueu seus os olhos analíticos para a figura de cabelos cor de petróleo que acabara de chegar, analisando cada canto de seu rosto como se fosse a primeira vez que o visse e quisesse decorar cada uma das linhas que o compunha. – Me beija...

Sasuke de início se assustou com aquele olhar, assim como com aquele tom atípico que o mais velho utilizara, principalmente porque Neji nunca lhe pedia nada, absolutamente nada, mas por mais que estivesse confuso, seu corpo agiu sozinho, depositando um beijo simples porém molhado nos lábios do parceiro, segurando em sua nuca e pressionando os dígitos sobre os fios ralos da região, apreciando as pequenas cócegas que os fios macios causavam na ponta de seus dedos e na sequencia partiu o contato sem o aprofundar, demorando alguns instantes para reabir seus olhos e fitar novamente a figura do namorado.

— Isso foi raro...

— Eu sempre tive uma grande ambição, Sasuke, sempre me esforcei ao máximo para dar o meu melhor nas coisas que queria...– Fez uma pausa, calculando o efeito de suas palavras enquanto observa o olhar de estranhamento que retornou ao rosto bonito do Uchiha, respirou fundo, com uma leve sensação de falta de ar, devido ao seu coração estar acelerado e estar levemente ansioso em dizer aquilo para o moreno apesar da dificuldade, continuou da mesma forma. – Eu estou dizendo isso, para contextualizar a minha real intenção em chamá-lo aqui, nesta noite... Bem, agora que minha situação é estável financeiramente... Posso correr atrás de algo que eu negligenciei por anos, posso correr atrás de nós dois e... – O moreno de fios revoltos estreitou os olhos desconfiado do rumo que aquela conversa estava tomando, porém antes que Hyuuga prosseguir com sua fala, seu telefone começou a tocar estridente, quebrando todo o clima de silencio do cômodo, pausando somente quando seu dono o tomou nas mãos e o atendeu, prontamente se afastando do outro que lhe direcionou um olhar nem um pouco amigável, irritado por ter sido interrompido, irritação que só aumentou ao ouvir dos lábios alheios um nome proibido em sua casa: Naruto.

— Saí-da-minha-casa – Neji sibilou entre dentes em um ataque repentino de furia, no entanto Sasuke estava tão aturdido com as palavras não ditas pelo rapaz e a ligação repentina que não compreendeu exatamente o que o rapaz havia dito virando-se em seguida de frente para o mesmo, fazendo um sinal de que não havia compreendido o que apenas aumentou a irritabilidade do rapaz a sua frente, que se ergueu em um movimento rápido, aproximando-se dele com passos pesados e por fim arrancou de sua mão o celular, o desligando na cara do louro do outro lado da linha, em seguida o celular fora batido contra o peito do Uchiha e uma voz feroz soou tão marcante a ponto de parecer que o cômodo estremeceu. – SAI DA MINHA CASA, A-GO-RA!

— QUE PORRA É ESSA?

— SAI DAQUI AGORA! PORRA! – Neji berrava, totalmente fora de si, esta atitude surpreendeu muito Sasuke, era raro o mais velho sair de sua postura estoica, por tanto, não conseguiu acompanhar a mudança tão repentina da atitude do companheiro. Todo seu corpo transmitia revolta e ira, o que fora totalmente incompreensível para si.

—O... O que é tudo isso? – Suspirou derrotado ao perceber que não conseguiria deduzir a atitude do rapaz transtornado a sua frente. Pensou primeiramente em se aproximar dele ao notar a falta de resposta, mas notou que os punhos do jovem estavam cerrados, ou seja, certamente seria golpeado por ele caso se aproximasse, devido à falta de opções permaneceu parado, suavizando sua expressão ao máximo e antes que seu aparelho celular voltasse a tocar, o desligou, notando que aos poucos o moreno saía da posição defensiva, mesmo sem de fato alterar as expressões faciais.

— Você é um merda...

— Não venha me ofender sem motivo, você quem está agindo como um completo louco!

— Você está certo... Eu sou um louco... – Riu de si mesmo, percebendo o quanto sua atitude estava sendo patética. Sempre se colocou em posição de namorado liberal, como agora poderia querer se impor com uma postura tão possessiva com Uchiha? Era irreal, além de ridículo, ao menos era a única coisa que pairava a mente do rapaz de olhos claríssimos. – Eu... Permiti tudo isso... Você tem culpa de me usar, mas eu me permiti... – Afirmou o anfitrião, e por mais que sua voz fosse firme, o corpo levemente tremulo o denunciava.

—Deixa... Me deixa te ajudar. – Sasuke estava tão vacilante quanto o maior, mas mesmo assim a iniciativa de aproximação veio dele, a passos lentos se dirigia até o corpo imóvel, segurado com firmeza em seu ombro, deslizando lentamente a mesma mão em direção à sua cintura, abraçando o corpo mais alto e o puxando para si, dedicando-lhe o conforto que precisava naquele momento, porém o contato não durou muito, só o suficiente para os ânimos se estabilizarem.

—Certo, eu estou bem... – Afastou-se do rapaz, recostando as costas sobre a parede mais próxima a si. – Eu vou dormir, vá cuidar do seu Naruto, depois conversamos. – E antes que o rapaz pudesse questionar, o mais velho simplesmente havia virado as costas e seguido para seus aposentos, deixando-o ali, sozinho e confuso.

Hyuuga adentrou seu quarto com olhos vidrados, caminhou a passos rápidos e pesados em direção à pequena sacada de seu apartamento. O local -visto os padrões daqueles pequenos cubículos- era espaçoso o suficiente para caber algumas cadeiras e uma mesa na qual o anfitrião ostentava um caro uísque e um par de copos. Neste ambiente costumava refletir e se embebedar durante a madrugada, a escuridão sempre fora sua companheira quando se punha a pensar, assim como acalentava seu interior muitas vezes aturdido por algum mal feito do dia-à-dia, “identidade pura” costumava sussurrar antes de sorver um generoso gole da bebida pura que queimava sua garganta segundos depois.

Neste momento o jovem se serviu nervosamente, deixando parte do precioso líquido esvair do copo ao preenchê-lo além de sua limitação e o sorveu em goles vigorosos, bebendo todo o conteúdo em poucos segundos, ignorando a queimação e náusea que o ato lhe causou, sentia-se um tolo adolescente, “como ainda conseguia sustentar aquilo?”, perguntava-se mentalmente e nenhuma resposta palpável a seu instinto realista lhe era suficiente. Num vislumbre seus olhos miraram um veículo do mesmo modelo e cor do de Sasuke abandonando o condomínio, o que se juntou a bebida e o rapaz não se conteve, esbravejou num urro gutural.

— Filho de uma puta!

Com força segurou o copo em suas mãos, derrubando o líquido restante no processo, para jogar o objeto de cristal contra o veículo, mas ao notar a impossibilidade de tocar o automóvel com o mesmo, contentou-se em arremessá-lo contra o chão, com isso estilhaçando a peça cara com certo prazer masoquista, sensação que descrevia perfeitamente sua relação com o mais novo dos famosos irmãos Uchiha’s. O prazer na autoflagelação.

Imerso em pensamentos de autodepreciação a luz lunar, como se respondesse a seu anseio fez cintilar a frente de seus olhos claríssimos os estilhaços de cristal no chão da varanda, como um chamado que levou Neji lentamente abaixo o corpo no intuito de perfurar sua pele com aqueles fios finos que lhe fariam sangrar e talvez com isso afastar a dor interior.

Neji envolto naquele lampejo se deixou levar e se ajoelhou, mas não sobre o vidro, ele apenas dislumbrou o brilho dos estilhaços ao luar, suspirando exausto sobre seus sentimentos e sua própria fraqueza. O poder do silêncio, da solidão mesmo tendo alguém era sufocante.

~~x~~

Ao terminar de contar os ocorridos da noite anterior o mais velho dos irmãos Uchiha, um pouco mais corado graças aos passeios frequentes na parte externa do hospital, parecia estarrecido demais para se pronunciar depois de tudo que ouviu da boca de seu caçula, que pela primeira vez desde a infância mostrou um brilho de lágrimas em seus olhos, demonstrando uma dor real e aguda em cada palavra.

– Eu... Realmente não sei o que dizer, Sasuke... Como o Neji está?

– Ele não atendeu as minhas ligações... Eu não sei o que aconteceu, do nada...

– Ah... Você não sabe? — riu divertido, negando brevemente — Ele está... Apaixonado, Sasuke... O amor nos confunde, ainda mais quando jovens... Pensei que fosse você quem mais poderia o entender... Alguém com dois namorados deveria entender que os sentimentos se confundem, se misturam e se transformam com o tempo...

Sasuke, em total silêncio permaneceu olhando para o rosto do irmão a sua frente, mas também através dele, era um lugar longe que sua mente ocupava, longe do irmão e até de si mesmo.

Notas finais
:*