Silêncio.

2 O começo


Os Hyuga sempre foram uma família tradicional, tão tradicional que ainda faziam arranjos de casamentos entre os seus e outras famílias tão tradicionais como eles eram.

Ainda em meio aos seus tradicionalismos, a modernidade havia chegado e com ela, por exemplo, o casamento entre iguais, algo bastante útil quando o número de meninas nascidas de seu clã diminuiu, principalmente as que serviam para ser usadas como moeda de troca.

A família secundária tinha uma criança de seus dez anos, habilidoso e útil, principalmente útil; já a família parceira, os Uchiha’s tinham uma crianças úteis para troca, um par de irmãos que se tornou há pouco órfãos, o mais novo serviria perfeitamente como sacrifício ao casamento com o jovem Hyuga.

Eram eles sequer gays? Isso importava? Não, para nenhuma das famílias algo semelhante importava, a juridicidade era o que importava, mostrarem publicamente que eram progressistas era o que importava, as crianças em si não importavam, jamais importariam.

Após tudo decidido, acordado e formulado, os pré-adolescentes se conheceram formalmente, por volta de um ano depois do início das negociações entre as famílias.

O menino mais velho já tinha seus onze anos e era cheio de ideias, de autoconsciência e até mesmo de um caráter próprio, o mais novo ainda tinha sua inocência mais latente que a do outro, mas devido à perda dos pais era mais sisudo e até fechado.

-Então é com você que vou casar? — O olhar de Sasuke percorreu todo o corpo do mais novo, aproximando-se em seguida para o olhar nos olhos, como se tentasse o desafiar ou até mesmo intimidar pela presença, algo comum ao seu clã e que, mesmo jovem, já fora ensinado por seu irmão.

-Sim… É o que me disseram… — Falou sem titubear, arqueando o queixo e se aproveitando da altura superior para parecer ainda mais altivo e maior que o outro. Não se diminuiria, mesmo que socialmente ambos estivessem em posição de poder, sem no fundo possuir perdão algum, nem mesmo de escolher com quem dividiram a vida no futuro.

-Então espero que nos demos bem… Eu realmente espero.

Neji assentiu, confirmando com ar um pouco mais leve a opinião do outro, era inacreditável para crianças tão jovens terem aquele tipo de conversa, naquele momento de transição da vida que, de forma alguma, deveriam vivenciar.

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Mais de três anos se passaram e, agora, mais velhos que no início, realmente começaram a se conhecer melhor. Estudavam na mesma escola, tinham recreios e começaram a viver como colegas, e por total surpresa de ambos, havia um certo elo natural, algo que não era obrigação, não foi mandado, apenas aconteceu…

Quando se perceberam já iam a casa um do outro, faziam passeios além muro e juntos descobriram a liberdade da adolescência, o descobrimento e formação de gostos, de prazeres e de caráter.

Neji se descobriu de fato gay, tradicional em sua relação e sentimentos, talvez até assexual em algum nível, em que até via beleza em outros, mas não tinha interesse sexual que não fosse com seu noivo escolhido; já Sasuke tinha uma sexualidade mais fluída, assim como uma forma de se atrair por outros corpos mais aberta que Neji. Devido às imposições da família, quando tinham por volta de seus dezoito anos se viram em um impasse: monogamia ou não-monogamia? Para Neji existia Sasuke, para Sasuke existia o mundo e no meio disso seu namorado, Neji.

-A gente vai fazer isso mesmo? — Questionou um Sasuke imaturo, por tanto inseguro das palavras alheias sobre “abrir o relacionamento”.

-Vamos fazer… Eu tenho 19 anos, você tem 18… Se não for agora, quando será? Se fomos forçados um ao outro, não vamos nos destruir no meio disso…

-Eu sei que eles escolheram por nós… Ninguém pensou em merda nenhuma além deles mesmos… Mas você… Você seria minha escolha em qualquer dia…

-Você também seria minha escolha… Minha única escolha… Mas eu quero entender se posso beijar alguém além da sua boca, de tocar alguém além da sua pele… E sei que para você não é diferente, eu sei que precisa disso… Acho que não tem quem não precise, Sasuke…

-Neji eu vou morrer de ciúmes… Eu sinto o meu peito arder só de pensar nisso…

-Até essa dor vai ser fazer a gente mudar, crescer e evoluir como casal… Ser tortuoso agora vai fazer o nosso futuro ser tranquilo, ameno… Ao menos foi o que me veio a mente e me aconselharam… Se não der certo, a gente volta a ser só um do outro, sem medo de que nos faltará algo… — Sasuke assentiu, debruçou sobre o corpo alheio e selou seus lábios com força, uma promessa selada por ambos por seus corpos e mentes, um elo inquebrável e brilhante que só os jovens poderiam fazer de coração tão aberto e puro, algo que nunca aconteceria para alguém mais velho, que sabiam o quão a vida poderia ser endurecida e endurecedora, formando ou destruindo rochas, dependendo de como cada um fosse feito para ser.

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No último ano de sua faculdade, Neji foi absorto pelas matérias de final de curso, principalmente o TCC, seu tempo livre era praticamente nulo e, mesmo que quisesse acompanhar um pouco mais o seu noivo como antes, o seu tempo era sempre limitado. Sasuke, por ser um ano mais novo, ainda não entrara nesta fase do curso, fato que se via mais livre para viver uma vida mais particular, longe da família, obrigações e até mesmo do noivado.

Este foi seu ponto de virada, ele saia, vivia, sentia tudo que a vida de solteiro poderia lhe oferecer. Era tudo tão novo… Fresco, uma vida que jamais pensou em ter, algo que não lhe era imposição, mas sim escolha. Pela primeira vez na vida Sasuke foi adolescente e descobriu, a partir daí, o verdadeiro Sasuke.

Em um dia livre foi à uma festa, por lá dançou, bebeu, vivenciou e conheceu uma pessoa brilhante, única, ele estava fascinado, inebriado pela beleza e coragem de viver a vida como aquele homem, algo que o enfeitiçou, engoliu por inteiro, naquele momento em diante Sasuke se tornou um com Naruto, até mesmo quando seus corpos se encontraram parecia apenas certo, ideal…

Ao voltar para casa, somente na segunda-feira, o lugar parecia abafado pelo final de semana todo fechado, não iria para a faculdade, estava exausto fisicamente, mas satisfeito.

A luz da manhã invadiu o ambiente fechado e enfim pode se encontrar no ambiente do dormitório. Foi até a tomada e pela primeira vez carregou seu celular desde sexta-feira à noite. O aparelho demorou a ganhar vida após acionar o botão, porém após um pouco de paciência ele acedeu suas luzes, tocaram as suas notificações, desde e-mails institucionais ou promocionais de sua conta de e-mail, até as mensagens recebidas. Algumas, muito poucas, eram de Neji. Simples e direto.

“Entendi…”

“Você já está em casa?”

“Bom dia… Está na faculdade?”

Não sabia o que lhe responder ou até mesmo como o responder. A imagem do homem invadiu sua mente, ele era tão bonito, sua presença era calmante e pacífica, sabia que ao seu lado a paz reinaria, aquela paz de felicidade, não de tédio. Com isso em mente respondeu simples.

“Bom dia. Em casa, vou matar aula hoje.”

E assim, prontamente ao tocar no enter a mensagem constou como lida, mas não recebeu resposta, nem depois de um minuto, nem de cinco e menos ainda depois de dez minutos, aceitando então que ela não viria, desligou o aparelho, deixando-o quieto sobre o criado-mudo ao lado da cama, deixando-se então o corpo cansado do moreno deitar, minutos depois relaxar e por fim adormecer tranquilo.

Ao meio-dia o rapaz foi acordado com o barulho estridente da campainha, o assustando primeiro, depois incomodando e vencido se pôs de pé e seguiu até a porta, abrindo-a e sendo mirado com olhos semelhantes aos seus. Seu irmão mais velho entrou com um ar que sempre o circundou, amável e severo.

-Você passou o final de semana na casa de outro cara? — Falou sem rodeios, sentando-se no sofá para que o pudesse ver. Seu olhar era de incredulidade e julgamento descarado.

-Passei… Veio me dar lição de moral? — Sasuke cruzou os braços, ignorando o sofá oposto ao do irmão e ali permaneceu, forte e impassível, aparentemente apenas, era ainda infantil demais para aceitar a repressão preocupada de seu irmão mais velho. — Não é crime… Também não me preocupo com Neji, nossa relação já aberta faz tempo.

-Eu sei… Mas é um pouco… Desrespeitoso, não? — Sugeriu mais suavizado, evitando o tom professoral que aprendeu ainda com seus dezessete anos, quando se emancipou e tomou para si a guarda do irmão mais novo, ainda criança. — Eu entendo que queira e inclusive acho que deve sair, mas se você escolheu manter esse noivado… Eu não sei se é a melhor forma de demonstrar apreço à alguém…

-Itachi… Eu sei, tá? Eu só… Me deixei levar, foi bom e o cara que eu conheci era tão gato… Eu fui carregado, sabe? E não me sinto mal sobre isso.

-Vai terminar o noivado?

-Nem pensar, o Neji é a minha casa...

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E a conversa seguiu, o dia seguiu, a semana seguiu, o ano seguiu, a vida seguiu.

Agora, de novo, se via frente a frente com o irmão, incomodado com a conversa sobre a briga com Neji. A primeira com gritaria, com xingamentos e todo o caos emocional que os anos de silêncio gerou.


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