Silêncio

10 Capítulo 9 - Trabalhos Sujos


No dia seguinte, Francine acorda renovada e sem um grande sentimento de culpa nas costas. Finalmente acabou. Ela ainda não tinha superado totalmente a morte de Tasha e Evan, mas ao menos as vingou. Ela vira para o outro lado da cama e vê, de longe, a caixa com as fitas encostadas na parede, então se levanta e desce as escadas, com a caixa nas mãos. O que será que tem aqui? Ela vai até a garagem onde pega um vídeo cassete velho e conecta na TV da sala, colocando uma das fitas logo depois.


A fita começa a ser rodada, mas tudo o que aparece é uma tela preta. O que porra é isso? De repente tudo muda e uma mulher aparece na tela, é uma mulher loira e bonita, parecia ter uns vinte e cinco anos, ao lado dela, um homem que ela reconhece na hora. Matthew Hichbury. Ela engole em seco. Aquela era a mulher que seu pai, sem intenção, assassinou. A mãe de Jensen. A esposa do homem que matou toda a família de Francine. Por um momento, vendo aquele vídeo feliz onde a mulher se divertia na piscina com Jensen e o outro filho, Francine sente-se um pouco culpada, todas as mortes giram em torno dela, as mortes dos seus amigos, da sua família, e a morte dessa mulher. Mas quem era ela? Francine desejava saber mais sobre ela, então vê todas as fitas, todos os bons momentos que Matthew registrou da família, mas quando chega à última, percebe algo embaixo dela, estava escondido no final da caixa de fitas de vídeos. Um livro. Mas ao abri-lo, ela percebe, não é um livro e sim um diário. Rapidamente ela começa a ler as primeiras páginas.


Francine nasceu. Eu pude vê-la hoje, de longe é claro, Lauren nunca deixaria eu chegar perto dela infelizmente, mas apesar de tudo estou feliz, feliz por ter visto minha filha e feliz por saber que agora ela está sendo bem cuidada. Sei que foi um erro me envolver com Lauren, e não me orgulho disso, mas eu não posso voltar atrás.


Eram palavras de Matthew, falando sobre Francine e sua mãe. Ele se arrependeu e aceitou o que aconteceu, mas o pai de Francine não. Ela continua a ler.


Pude vê-la novamente hoje, estava tão linda, queria que Phillip e Daniel pudessem vê-la também, ficariam tão animados para brincar com ela, mas isso infelizmente é impossível.


Daniel. Esse era o nome do outro, o nome do outro assassino, o nome do outro irmão de Francine, o nome do homem que ela matara explodindo aquela casa. As palavras dele ainda martelam sua mente. Você é igual a mim. Você é igual a mim. No fundo ela sabia que aquilo era mentira, ela não era igual a eles, não era uma assassina como eles, e nunca seria. Ela volta a ler o diário e o resto dos registros se resumem na felicidade de Matthew ao ver a filha, mas não o último, que é justamente o contrário do restante.


O marido da Lauren descobriu sobre o caso que tivemos há algum tempo, ele me ameaçou, estou tão arrependido, e não sei o que vou fazer. Estou com medo do que ele possa tentar!


Depois disso, não há mais nada, apenas folhas em branco, aquele foi último registro, e Francine sabia o que aconteceu depois. Meu pai matou a esposa dele, e ele matou a minha família. Ela joga tudo de volta na caixa, inclusive o diário e coloca na garagem, indo tomar um remédio para dor de cabeça logo depois. Pelo menos acabou, agora tudo está em paz novamente. Neste momento, o telefone toca e Francine vai até a sala atender.


– Alô?

– Senhorita Francine? – A voz masculina do outro lado pergunta e ela reconhece. Delegado Perkins.

– Oi delegado

– Eu não consegui falar com você ontem então revolvi ligar para o telefone da sua casa.

– Ah, sim, é que eu perdi um dos meus celulares ontem, mas o que aconteceu?

– Bem, você me deu o endereço da casa onde o assassino estaria morto certo?

– Sim, na explosão da casa.

– Pois bem, eu sinto muitíssimo em informar, mas não havia nada lá.


Francine estremece e seu coração começa a bater mais rápido.


– Francine?

– Estou aqui – Ela diz – Mas como assim não havia nada?

– Nenhum corpo e nenhum carro estava lá.

– Oh meu deus – Ela diz – Ele ainda está vivo. Eu tenho certeza que ele estava lá quando a casa explodiu, então se você não achou nada, significa que ele ainda está vivo e agora, mais furioso ainda.

– Então eu vou contatar os policiais daqui e fazer uma busca, mas preciso de alguma informação sobre ele, você viu o rosto?

– Não, mas eu sei a placa do carro.

– Diga-me então, vamos acha-lo bem rápido.


Após dar todas as informações, e pedir para que alguém ficasse de olho em Freddie, ela desliga o telefone e tranca todas as portas e fechas as cortinas. Vou ligar para Frank e Layla agora mesmo. Ela pega o outro celular e quando se prepara para discar o número de Layla, o telefone vibra. Uma mensagem do número desconhecido. Ele tem esse número também, droga! O assassino não só está vivo, como também voltou a agir. Com medo, Francine abre a mensagem e se desespera ao ver o nome nela escrito. Brenda.


Ela sai correndo, pega a chave do carro e vai embora, em direção à casa de Brenda. No caminho, ela liga para Vanessa.


Alô? – Ela pergunta, sonolenta.

– Brenda é a próxima! – Francine diz desesperada.

– O que? Como assim?

– Eu recebi uma mensagem do assassino com o nome dela, e eu tinha recebido mensagens com o nome do Evan e da Tasha e logo depois eles morreram.

– Oh meu deus! Onde você está agora? – Vanessa pergunta.

– Estou indo pra casa da Brenda.

– Ela não está em casa!

– O que?

– Ela me disse que iria acordar bem cedo para resolver algumas coisas na Spring, ela deve estar lá agora.

– E ela está sozinha?

– Sim.

– Droga!

– Chame a policia! Eu te encontro lá!


Brenda já terminou tudo o que tinha pra fazer. Finalmente, ela pensa. Verifica se está tudo fechado e então desce para o estacionamento. Está totalmente vazio, apenas seu carro estacionado no meio. Ela caminha até ele, o som do seu salto fino ecoa pelo local que está mergulhado em um silêncio perturbador. Ao chegar na metade do caminho, percebe algo escondido na parte esquerda do estacionamento. Outro carro. Um carro grande e preto. Ela fica preocupada. Tem mais alguém aqui? Mas não liga e então continua andando, ao chegar ao carro ela se prepara para entrar quando percebe algo. O pneu de seu carro está furado, na verdade, os quatro estão.


– Droga! – Ela grita – Quem fez isso?!


Ela olha ao redor, não há ninguém, apenas aquele carro sinistro parado em um lugar longe dali. Ela olha desconfiada, com uma certeza imensa de que o responsável por aquilo foi o dono daquele carro. Do nada, o portão principal do estacionamento começa a fechar.


– Mas o que droga é isso? – Ela pergunta e vai andando até o portão. – Ei! – Ela grita para o homem que está fechando – Quem é você?


Quando o sujeito se vira, revelando a máscara assustadora de pano e um machado ensanguentado, Brenda percebe que ele não é nada amigável e começa a correr, olhando para trás por um segundo, percebe que o homem também está andando em direção a ela. Ao chegar no elevador ela aperta o botão rapidamente e quando ele se abre, ela entra e por entre a brecha que fica antes da porta se fechar, ela percebe. Ele não está mais lá. Droga, deve ter ido por outro local, pelas escadas.


Quando a porta se abre, não há ninguém no andar de cima, então ela sai e olha pros lados, se deparando com o homem saindo da porta das escadas logo em seguida, então ela entra no elevador de volta e desce para o estacionamento novamente.


Ao chegar lá embaixo, começa a correr para o portão e percebe, pelo barulho da porta se fechando atrás dela, que ele também está. Ao chegar lá, ela aperta o botão e ele lentamente começa a subir. Ela olha para trás, não vai dar tempo de esperar, então se esforça para passar por baixo do portão, mas quando está quase lá, o assassino segura seus pés e puxa, ela começa a gritar, mas ele pega pelo seu pescoço aperta até faltar ar suficiente para que ela não grite mais, depois disso, ela vê ele levantando o machado no lado contrário e acertando em cheio na cabeça dela. Depois disso, ela não vê mais nada. Não sente mais nada.


Francine e Vanessa chegam quase simultaneamente na frente do prédio da Spring. As duas descem do carro e vão até a porta principal, que está trancada.


– Será que ela já foi? – Francine pergunta.

– Não sei – Vanessa responde – Mas se ela já foi, nós não vamos conseguir salvá-la.

– Que merda!

– Brenda! – Vanessa começa a gritar.

– Ela não vai ouvir.

– Já sei, vamos pelo estacionamento.


Ao chegar no portão do estacionamento, pelos buracos do portão, de longe, elas veem Brenda, amarrada em uma grande pilastra de concreto. Está se acordando.


– Brenda! – Vanessa grita – Nós vamos te salvar!


Ela olha para as duas e tenta gritar algo, mas sua boca está tapada por uma fita isolante.


– Como nós vamos entrar? – Francine pergunta.

– Eu não sei – Vanessa responde.


Neste momento, o farol de um carro é ligado, apontando para Brenda naquela pilastra de concreto, a moça começa a gritar, as lágrimas se misturam com a poeira na sua cara.


– O que é aquilo? – Francine pergunta e então reconhece. É o carro dele.


O assassino abaixa o vidro do carro, coloca o cinto de segurança e acena para Francine.


– Não!!! – Ela grita, mas isso não impede o assassino.


Os pneus do carro fazem um ruído agudo e soltam um pouco de fumaça, quando o homem sai a toda velocidade, chocando o carro contra a pilastra onde Brenda estava. Francine e Vanessa soltam um grito forte e desesperador.


– Brenda!!!


As duas correm até a porta principal, feita de vidro, e quebram-na com uma lata de lixo que havia por perto, então correm até o elevador e descem até o estacionamento. Quando as portas se abrem, Francine está com a arma em punho, mas não há ninguém, então elas correm até o local do assassinato. Quando chegam, encontram o carro preto destruído e na sua frente, pedaços de concretos ensanguentados, no meio deles, encontram o corpo de Brenda, todo ensanguentado e em uma posição anatomicamente impossível (Uma de suas pernas, girada em quase 360 graus), a batida foi muito violenta, o impacto do para choque contra o abdome dela, o deixou totalmente dilacerado. As Francine e Vanessa soltam outro grito e saem de perto da cena, para não ver mais aquilo.


Francine liga pra policia, que chega em quinze minutos, encontrando as duas sentadas no chão. Vanessa está com a cabeça no ombro da amiga, com os olhos vermelhos de tanto chorar, não conseguia ficar calma diante daquela situação, enquanto Francine, também chorava, mas já havia parado, agora, estava com os olhos focados naquele carro destruído, naquela cena triste e deplorável, enquanto alguns homens levavam o corpo de Brenda deitado, envolto em um plástico preto. Ela já não aguentava mais ver essas pessoas inocentes morrerem, Daniel estava certo, para todos os lugares que Francine vá, pessoas próximas a ela vão morrer, a não ser que ela acabasse com esse homem de uma vez por todas.


– Senhoritas – Ela ouviu a voz do policial que Francine conhecia as chamarem.

– Oi – Francine diz.

– Vocês estão bem?

– Não muito.

– Eu lamento pela amiga de vocês.


Francine desvia o olhar e então volta a lacrimejar, quando seu celular vibra. Ela estremece, tinha quase certeza de que era ele, mas então ele vibra denovo, e denovo, e denovo. Não é uma mensagem, é uma ligação. Ela puxa o celular do bolso e vê o nome de Todd piscando na tela.


– Todd?

– Oi amor, onde você está?

– Eu precisei sair.

– Pra onde?

– Eu estou aqui na Spring, resolvendo algumas coisas.

– Então tá, volta logo.

– Tá bom querido, tome cuidado. Beijos – Ela força uma voz animada.

– Tchau.

– Eu preciso ir pra casa – Francine diz, enxugando as lágrimas – Você vai ficar bem?


Vanessa tenta dizer sim, mas ao ver aquele carro preto e o sangue nas paredes denovo, volta a chorar e só consegue responder balançando a cabeça.


– Cuide dela, por favor – Francine diz para o jovem policia.

– Eu vou, mas e você? Tem certeza de que está bem?

– Sim, eu estou, não se preocupe, se precisarem de mim, já sabem o meu outro número.

– Tá bom. E mais uma vez, eu sinto muito pela sua amiga, sinto muito de verdade.

– Obrigada – Ela fala e então vai embora cuidar de sua família, vai embora falar a verdade para Todd, mas vai embora com a certeza de que o assassino não vai parar até conseguir o que quer, o prêmio por todo esse desastre que ele está causando, a vida de Francine em suas mãos, é isso que ele tanto deseja e ela pensa seriamente em se entregar, só assim acabaria de uma vez com o sofrimento de todos ao seu redor.