Sigilo
19 Capítulo 18 - Levy

Sigilo
Capítulo 18
Levy
Wendy me guiava pelos corredores mostrando tudo o que era interessante ali no esconderijo deles. O local era quase como uma cidade subterrânea, haviam as enormes cozinhas onde ajudo, um espaço circular e bem avantajado que serve como área de avisos ou reuniões gerais, a enfermaria que Wendy comanda, as alas devidamente separadas para os dormitórios, banheiros com água corrente, uma espécie de arena para ajudar os novatos com suas Magias, e por fim, uma bela biblioteca.
A Maga deixou para me mostrar essa beleza por último, pensando que era o local mais impressionante a mim, afinal já havia lhe contado minha paixão por livros. O recinto era menor que a arena de treinos, os livros estavam dispostos em estantes improvisadas por caixotes e alcovas cavadas na terra que eram as paredes. Obviamente o acervo era menor se comparado ao do Castelo, mas ainda impressionava a quantidade que possiam.
— Livros de Magia – sussurrei, passando a mão por algumas lombadas próximas a mim.
— Sim, – Wendy concordou, sentando-se um banco um tanto empoeirado. – são todos os que conseguimos salvar desde a Lei, ocasionalmente chegam novas aquisições, mas é raro. O pessoal do Rei fez um bom serviço limpando Fiore.
Segurando um livro intitulado de Símbolos e Segredos, virei-me para a azulada com um pouco de esperança.
— Posso lê-los?
— Gray lhe deu permissão ontem, por isso lhe trouxe aqui – respondeu, sorrindo.
Ah, sim. O líder deles estava sempre tentando me seduzir a causa deles. Contando histórias sobre alguns de seus recrutas, frisando o modo como haviam sofrido. Mostrando as maravilhas que a Magia podia trazer. Dando pequenos presentes para expondo que eram boas pessoas. Entretanto, quando o questiono sobre Gajeel ou Lucy, ele encerra o assunto e vai embora com a desculpa de algum dever.
— Gentil da parte dele – comentei.
A Curandeira soltou um suspiro e olhou-me como se me compreendesse.
— Sei que não é fácil aceitar uma causa, mas dê um voto que confiança ao Gray. Ele quer o melhor para nós.
— Disso eu tenho certeza – concordei, sentando-me ao seu lado. – mas, preciso me certificar se as outras pessoas com quem me preocupo ficarão bem – concluí, pensando em Rogue. Eu sabia que ele não gostava a situação atual de seu Reino, mas abolir uma Lei de anos e enfrentar a fúria de pessoas poderosas não era fácil. Não haviam garantias que eles fossem poupar o Rei.
— Sempre podemos fazer acordos. – contou-a, dando tapinhas em minha mão que ainda segurava o livro. – Agora se me der licença preciso dar uma olhada na enfermaria, o pessoal aqui é agitado demais e acabam se machucando. Volto daqui uma hora, tudo bem?
— Uma hora está ótimo!
Agora a sós, pude me dedicar a algo que me fazia falta e deixava-me mais calma.
Ler.
Naqueles momentos difíceis em que passava por conta de Makarov, era nos livros surrados e escondidos da sua ira que encontrava conforto. Sentir o cheiro o papel, tatear as marcas no couro da capa eram pequenas alegrias. Aqueles objetos que por vezes são ignorados pelos outros, foram os meus primeiros amigos.
Sem querer comecei a pensar em como eles estariam, Makarov e Laxus. Meu padrasto deveria estar nos bares do vilarejo bebendo e gastando o dinheiro que seu filho ganhava, já o loiro devia trabalhar para algum nobre e tentando escalar para uma vida melhor. Laxus nunca gostou de ser pobre. Seu sonho, que um dia havia me confidenciado, era ser rico e jamais se preocupar com fome, e claro, ter uma bela esposa.
Será que sentiram minha falta? Ou ao menos tentaram encontrar-me?
— Pare de pensar neles e aproveite essa hora – ordenei a mim mesma com força.
Fiquei agradavelmente surpresa ao perceber que o livro não era uma espécie de dicionário de símbolos, no começo ele explicava uma categoria de Magos que usavam os símbolos com grande frequência devido a natureza de sua Magia.
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Magos Scripts são difíceis de serem encontrados, sua Magia é mais violenta em seu corpo, aumentando as chances da doença aparecer. Os poucos que sobrevivem a esse mal eram cobiçados pelos Inomagos – humanos sem Magia – a fim de satisfazerem suas vontades. A capacidade dos Scripts era basicamente dar vida a sua escrita, ou seja, se ele escrevesse xícara em algum pergaminho ou até mesmo no chão e adicionasse o símbolo correto ao lado, uma xícara real apareceria em cima do papel ou do chão. Vale lembrar-se que só é possível realizar tal manobra de palavra em palavra, escrever frases apenas esgotará mais rápido a Magia do indivíduo.
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De certo modo aquela explicação toda me deixava animada a querer saber mais, instigada a ler tudo o que ali continha. Tinha a vaga sensação de que era um manual ao Mago Script. Dando um sorriso de canto, desejei ter essa habilidade. Seria bem mais útil. Soltei um suspiro e tornei a ler.
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Apesar de os símbolos serem vastamente usados para trazer os objetos a realidade, eles também tinham outras funções, igualmente interessantes. A Categoria Esmeralda é cheia de desenhos próprios para ativação ou desativação de Magias Ocultas em objetos. Tais objetos podem ser ou não frutos da escrita de um Script, pelo fato de que os objetos “criados” por eles não desapareciam, tinham vida útil de qualquer objeto criado pelo ser humano.
O símbolo mais forte para tal função era o Montem, podendo ser usado em praticamente qualquer superfície, porém mais eficiente em coisas sólidas e robustas, como rochas, troncos ou madeira.
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Imediatamente a imagem daquela porta misteriosa me veio a mente. Fitei o símbolo Montem decorando-o, o que não era difícil. O desenho era de uma montanha dentro de um círculo perfeito e uma espécie de linha curvada dentro dessa montanha, simbolizando um rio. Mordi os lábios, pensativa. Uma ideia marota estava se formando em minha mente, mas não tinha garantias de que ela pudesse dar certo.
Eu queria usar tal símbolo naquela porta e descobrir o que ela escondia. Algo dentro de mim dizia que ela ocultava algo e tinha relação com a Magia. Entretanto, só um Mago Script podia usar esse símbolo e fazer ele funcionar. E eu não era.
Merda.
Balancei o livro em minhas mãos, tentando achar uma saída. Só o que consegui pensar foi em ler o livro, então foi o que fiz. Procurei naquelas escritas algo que pudesse me ajudar, mostrar se era possível aprender essa Magia, um meio de utilizar os símbolos. Todavia, era frisado que essa natureza de Mago era rara, pois nascia com esse dom, não se aprendia. Na realidade, todo Mago nasce com a sua Magia e depois passa a desenvolvê-la, sendo assim, eu não poderia realizar tal manobra.
Soltando um bufo em sinal de chateação, fiquei brincando com as páginas daquela obra jogando-as de um lado para o outro. E foi nesse movimento inocente que algo me captou a atenção. Na última folha havia um desenho grosseiro de uma pena, instantaneamente meus lábios tremeram e lágrimas ameaçaram derramar-se pelo rosto.
Gentilmente, passei o dedo pelo desenho, contendo a emoção. Aquela pena lembrava-me muito meu falecido pai. Ele gostava de dizer que aquilo era o nosso código secreto, algo que apenas nós compartilhávamos. Gyren McGarden adorava desenhar a pena em suas mensagens quando partia a trabalho, dizendo o quanto me amava.
Uma lágrima teimosa escapou e pingou próxima ao desenho, manchando a página. Puxei a manga da blusa encardida que usava para o meio da palma com intuito de secar a lágrima, quando algo inesperado ocorreu. Bem no local onde o pingo caiu, palavras começaram a aparecer formando uma frase.
Nossos corações e mentes estarão sempre juntos, não importa qual seja a distância.
Ao ler aquela frase que julguei jamais ver ou escutar, meu coração se aqueceu e eu conseguia sentir a presença dos meus pais junto a mim. Abracei o livro e chorei igual a uma criança. Uma criança que sentia desesperadamente a falta de seus amados pais. Um sentimento estranho se apossou de mim naquele momento, trazendo pequenos choques pelo meu corpo inteiro. Por mais intrigante que pareça, aquilo não me incomodava.
Embalada em todo aquele sentimento, desmaiei.
— Levy, querida, não tenha medo. Papai estará aqui o tempo todo.
Um homem de rosto amável e cabelos azuis estava agachado em frente a uma menina com o cabelo idêntico ao seu. Ele segurava as mãozinhas da menina de apenas quatro anos, transmitindo confiança.
Os dois estavam dentro de um círculo desenhado a giz num chão de madeira. Os símbolos eram desconhecidos para a garota, mas aquele homem e a mulher parada perto da porta sabiam para o que serviam. A mulher torcia uma mecha castanha que escapara de seu coque, visivelmente nervosa. Mas, sorria para que a menina não notasse sua inquietação.
— Depois eu posso brincar com o Tedy? – questionou a garota, inocentemente, referindo-se ao seu ursinho de pelúcia.
— Claro, meu amor – a mulher respondeu.
O homem levantou-se e dirigiu-se para fora do círculo, parando perto da borda e reto em direção a sua filha.
— Jehanne, ascenda as velas – ordenou a sua mulher, calmo.
Jehanne fez o que lhe foi pedido, ainda sorrindo para tranquilizar a menina.
— Tem certeza, Gyren? – questionou ao marido em tom baixo.
— É para o bem dela.
— Isso pode ser útil para ela um dia, podemos ensiná-la a controlar. Igual você.
— Caso algum dia Levy precise, é possível reverter – o homem tocou o rosto de sua amada com ternura – ela é inteligente e encontrará esse modo. Vamos garantir isso. Mas, por enquanto é mais seguro que sua Magia fique trancada. Guarde bem o livro.
Dirigindo mais um sorriso para a pequena, Gyren abriu os braços e começou a entoar um cântico antigo, da velha língua usada pelos Primeiros Magos. A pressão no ambiente aumentou consideravelmente, fazendo com que a menina caísse de joelhos. Os olhos castanhos dela estavam calmos, pois sabia que seu pai jamais lhe faria mal.
— Coniungere. Store. Vinculum. Vertice crinem abstulerat.
E com essa última frase proferida, os símbolos desenhados no círculo brilharam em tom prateado e tal luz direcionou-se para a menina, englobando-a. Os segundos arrastaram-se lentamente até que tudo voltasse ao normal e o círculo se apagasse.
Após o ritual ser encerrado, os pais rapidamente foram para o lado da garota ainda ajoelhada. Gyren segurou-a firmemente contra si, mas deu espaço para que Jehanne pegasse as mãos dela. A garota ergueu a cabeça e os fitou sonolenta, um efeito comum para o que acabaram que realizar, afinal era preciso que dormisse para que essa lembrança fosse guardada também.
— Vocês vão ficar perto de mim? – perguntou a pequena.
— Nossos corações e nossas mentes... – Gyren iniciou a frase deles.
— … sempre estarão juntos, não importa... – Jehanne continuou, passando a mão pelo rosto de sua menina.
— … qual seja a distância – finalizou Levy, adormecendo logo em seguida.
Uma mão balançava-me violentamente, puxando-me daquela lembrança quente. Eu queria continuar sentido o toque deles, mas aquela mão não parava.
— Levy! Acorde!
Abri os olhos assustada com o grito. Demorei alguns segundos para me focar no que acontecia. Estava deitada no chão ao lado do banco e perto de mim estava aquele livro. Wendy estava acima de mim com o rosto apreensivo. Era ela quem me balançava então. Um estrondo forte cortou qualquer resposta que ela pudesse me dar. Surgiram algumas rachaduras no teto e gotas de água começavam a verter delas.
— Precisamos sair daqui agora, Levy! O local está desabando!
Arregalei os olhos para o anúncio e prontamente levantei-me, agarrando o livro rapidamente. Wendy já estava na porta da biblioteca e eu estava me preparando para segui-la, quando no último minuto resolvi levar junto o tinteiro que estava próximo a mim.
— Anda, Levy! – Wendy gritou.
— Sim!
Segurando de modo protetor os dois itens, corri junto da azulada pelos corredores agora apinhados de gente.
— O que aconteceu? – pedi, confusa com tudo aquilo.
Wendy pegou um corredor paralelo, provavelmente se dirigindo a enfermaria.
— Começou uma tempestade lá fora. A chuva forte acabou derrubando uma parte da arena, pois ela fica num nível perto da superfície. E então rebeldes vermelhos começaram a entrar por aquele buraco!
— Rebeldes vermelhos?
— O outro grupo de Magos. Aqueles que invadiram o Baile, lembra? É assim que os chamamos – Wendy explicou, entrando apressada na enfermaria e juntando todos os itens que conseguia.
Outro estrondo se fez presente, causando um pulo de susto em nós duas. Ajudei Wendy colocando alguns fracos em minha roupa, além daquele tinteiro. Apertando os lábios em evidente demonstração de que gostaria de levar mais coisas, ela virou as costas para seu local de trabalho e puxou-me para fora.
— Precisamos chegar a saída de emergência antes que os rebeldes nos achem – anunciou, olhando os corredores agora mais vazios.
— E onde fica essa saída?
— Perto da Ala do Comando, onde Gray fica – respondeu.
Já havíamos nos distanciado um pouco da enfermaria, visando ir para onde Wendy tinha comentado quando fomos surpreendidas pela visão de rebeldes fortemente armados. Nossa sorte foi que os avistamos antes e conseguimos nos esconder atrás de uma pilha de mantimentos.
Mordi os lábios, pesando os prós e contras da ideia que surgia em minha mente. Entretanto, era a única coisa que podia nos ajudar nesse momento. Balancei levemente o ombro da Curandeira, chamando sua atenção. Sem falar para não alertar os rebeldes, indiquei com o dedo o corredor que havíamos percorrido. Ela franziu o cenho confusa, mas seguiu-me sem perguntar nada.
— Por que estamos voltando para a enfermaria? – questionou-me, confusa.
— Esses dias vaguei pelos corredores aqui perto e encontrei algo interessante – comentei em tom baixo, passando reto pela enfermaria.
— Levy, o que nós precisamos agora é contornar aqueles rebeldes e ir para a saída de emergência – contestou-a.
— Eu sei, Wendy. O que estou tentando te dizer é que achei uma porta.
Ela arregalou os olhos, surpreendida.
— Como?
— Uma porta velha, mas ainda sim parece ser uma saída. – anunciei, guiando-me pelo local segundo minha memória, que graças aos Deuses é boa. – Pela sua temperatura na minha palma, e os fios de luz que escapavam pelas frestas deve dar para fora.
Seguimos por um tempo em silêncio, eu preocupada com o caminho e ela com minha descoberta.
— Por que não tentou fugir?
A pergunta pegou-me de surpresa. Parei de caminhar e voltei-me para a pequena Maga que me olhava com curiosidade.
— Dar uma chance a causa – respondi, usando de suas palavras, omitindo um pouco a parte em que gostaria de usar algo a favor dos RedFox antes de sair daquele lugar.
Wendy sorriu e então tornei a minha caça pela porta misteriosa. O que não demorou muito tempo, pois logo na segunda curva do corredor nos deparamos com ela bloqueando a passagem. Ela estava no mesmo modo de quando a encontrei, a diferença era que agora eu tinha uma vaga ideia de como poderia fazê-la abrir.
— Bem, gostaria de pedir desculpas por não ter sido totalmente honesta com vocês, – comecei, abrindo o livro e o tinteiro. – eu também sou Maga – confessei.
Ela soltou um pequeno riso, desconcertando-me.
— Já desconfiava, mas achava que você ainda não tinha notado a sua Magia.
— Está certa – concordei – aquele incidente do Baile despertou parte dela e a outra veio um pouco depois disso – contei, sem querer dar detalhes sobre a lembrança recuperada de quando meus pais trancaram minha Magia para minha segurança.
— A natureza dela tem relação com isso? – questionou, sinalizando o local que estávamos.
— É o que vamos descobrir – sussurrei mais para mim que para ela.
Localizando a página sobre os símbolos de Categoria Esmeralda e achando o que queria, respirei fundo ao mergulhar o indicador direito no tinteiro. Mordendo um pouco os lábios, fui me aproximando na porta. Mas antes que eu usasse o símbolo de Montem, uma frase dita por meu pai durante a lembrança me fez mudar de ideia.
Ela é inteligente, e encontrará esse modo... guarde bem o livro.
Sem medo e com a certeza de que daria certo, escrevi a palavra pena e ao lado desenhei o símbolo conforme descrito no livro, para que ela se tornasse real. Assim que deixei de tocar a madeira, uma luz fraca e prateada emitiu da escrita, vindo em minha direção e enroscando-se pelo meu corpo.
— Aperit. Liberum. Remissionis. Sit float! – exclamei a frase, que de algum modo sabia que seria contrária ao que meu pai havia declamado durante aquele ritual.
O brilho mudou de prateado para dourado e rompeu-se em vários pedacinhos, e então caíram ao chão, sumindo. No mesmo instante senti meu corpo ser preenchido por uma sensação estranha, porém satisfatória. Sabia que era minha Magia correndo por minhas veias novamente. Foi inevitável deixar de sorrir.
Ainda embalada por aquela gostosa sensação, molhei novamente o indicador e sem demora pintei o símbolo Montem naquela madeira morna. O efeito foi imediato, toda a porta ficou dourada e repleta de símbolos. Mais que depressa consultei o livro para descobrir o seu significado, porém nem foi necessário, pois a madeira encolheu-se e começou a cair em nossa direção.
— Cuidado!
Wendy puxou-me para trás com agilidade, livrando-me de ser esmagada pela pesada porta. Mas, tal acontecimento foi esquecido quando notamos a paisagem campestre a nossa frente, mostrando que ela realmente dava para o lado de fora.
— Vamos! – exclamei, alegre, puxando Wendy.
Extasiadas com tudo aquilo, demoramos para perceber que não estávamos sozinhas ali. Foi somente quando aquela voz soou não muito longe de nós que minha felicidade ruiu.
— Tentando fugir, irmãzinha?
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