Sigilo

20 Capítulo 19 - Levy


Notas iniciais
Olha só quem voltou depois de meses! Desculpem a demora... mas, como já expliquei a minha faculdade está agitada por ser o último ano! E é double Levy sim, por que preciso continuar com sua narrativa, mas prometo que o próximo é do nosso amigo Gajeel e então seguiremos a linha de capítulos normalmente. Quero agradecer a todos que comentaram! Amo vocês! Desejo-lhes uma boa leitura. Beijos.

Sigilo

Capítulo 19

Levy

Tentando fugir, irmãzinha?

Se o sangue pudesse ser congelado em nossas veias apenas com palavras, o meu tinha feito isso ao ouvir aquela voz. Cenas de meu passado passaram de modo rápido em minha mente, obrigando-me a recordar daquela pessoa.

— Olá, Laxus – respondi, virando-me com calma e tentando fazer com que a voz saísse neutra, apesar de desconfiar que ele havia percebido o tremor nela.

Já fazia um bom tempo desde que nos vimos. Pareciam que anos passaram desde aquele fatídico dia naquela Vila quando fui atacada por um Mago, e ironicamente salva por outro. Desde então nunca mais vi ou tive notícias de meu irmão.

Tecnicamente não somos parentes de sangue, mas os anos de convivência e amor de minha mãe por nós dois permitiu que ignorássemos tal fato. Até o dia em que ele decidiu cortar os laços e fingir que eu era apenas uma garota que vivia sobre o mesmo teto que o dele.

Observei-o com atenção, ato que nem pensaria em fazer se ainda vivesse a vida de empregada e enteada de Makarov. Laxus estava mais forte e adquirira uma cicatriz em forma de raio no rosto. Sua presença era marcante no local, havia a sensação de que devíamos temê-lo, mesmo que fossemos duas Magas e ele um Inomago.

— Levy, quero que corra o mais rápido que puder – Wendy falou em tom baixo para mim, enquanto se posicionava a minha frente.

— E te deixar sozinha com ele? Jamais – respondi, levemente irritada.

As pessoas sempre tendiam a me julgar como fraca, no sentido de luta. Sim, meu corpo era pequeno e não dava muita margem para força bruta, mas eu era mais rápida que outras meninas da Vila. Posso ter aprendido minha Magia a pouco tempo e ainda não sei o meu limite e a dela, porém eu não ficaria de braços cruzados enquanto outra pessoa se arriscava por mim.

— Levy…

— Não vamos ter uma discussão dessas, Wendy – cortei-a, deixando-a um pouco assustada com o tom da minha voz – posso muito bem te auxiliar nisso. Mesmo que seja contra meu irmão que vamos lutar.

Laxus que até então permaneceu calado soltou um riso de escárnio, claramente opinando sobre o meu auxílio.

— O passarinho descobriu que tem garras, então.

Olhando-nos maliciosamente, veio em nossa direção desembainhando a longa espada presa nas costas. Wendy iniciou uma série de gestos acompanhados de palavras sussurradas que eram incompreensíveis a mim, mas Laxus parecia entender o que o ocorria e foi direto para ela.

Antes dele chegar suficientemente perto para causar algum dano, a Maga soltou um grito e jogou as mãos em direção ao loiro. Uma rajada estupidamente forte bateu nele, arremessando-o ao chão e por pouco não tirou a espada de sua mão.

Aproveitei o momento e escrevi com a tinta, que por um milagre ainda carregava intacta, no chão. Gavinhas, pensei com vontade, imaginando que o chão se enrolasse em torno de Laxus. Senti um puxão na região do umbigo, mas continuei concentrada. Fui saldada com um palavrão dito por ele, e então vi que gavinhas haviam crescido em torno dele e estavam enroscando-se por seus pés e quadris, prendendo-o.

Minha felicidade durou pouco, pois suas mãos estavam livres e portanto conseguiu cortar as gavinhas, soltando-se. Seus movimentos eram precisos e rápidos, e em pouco tempo já estava em cima de nós. Wendy não havia ficado parada nesse período, ela estava posicionada em modo de luta e segurava uma espécie de chicote feito de ar.

Arregalei os olhos com aquilo. Jamais imaginaria que o ar pudesse ser manipulado de tal forma, transformando-se em objetos. Ainda mais armas. E Wendy agia como se aquilo fosse completamente normal, manejando com destreza o chicote em direção ao adversário.

— Sua peste! — Laxus vociferou quando o chicote cortou-lhe na altura do peitoral, rasgando a parca proteção lhe foi dada pelos rebeldes. Sua ira aumentou de tal modo que conseguiu furar a guarda da Maga, ferindo-a com um golpe de espada nos ombros.

— Não!

O grito saiu de mim sem eu perceber, olhava horrorizada como Laxus estava ganhando vantagem sobre Wendy, ferindo-a em vários lugares, enquanto ela tentava alcançá-lo com o chicote, entretanto sua arma era pouco eficiente dentro do curto espaço que lutavam.

Precisava ajudá-la a qualquer custo.

Estava tão aflita com isso que tardiamente percebi que segurei o frasco de tinta contra o chão com força demais, quebrando-o em consequência. Uma ardência em minha palma indicou que um caco havia perfurado a mão, fazendo-a sangrar.

Olhando o sangue escorrendo pelo punho, por ter erguido a mão a minha frente, uma ideia louca passou pela mente. Tentando ignorar os sons da luta próxima, focalizei o pedaço de terra limpo próximo aos meus joelhos.

Prenda-o.

Escrevi com voracidade a palavra, usando meu sangue. Transmiti naquela escrita toda minha raiva pelo abandono dele como irmão, o fato de Laxus ficar quieto quando Makarov me agredia, a não compreensão do motivo de ele ter me rejeitado, a saudade do laço que tínhamos, e a vontade de ajudar Wendy.

— Mas, o que…

A muito custo, levantei meu olhar na palavra sangrenta e foquei nos dois perto de mim. Wendy estava parada, seu chicote de ar havia sumido, e olhava assustada para sua frente. Acompanhando seu olhar, enxerguei Laxus.

Suas panturrilhas foram perfuradas por fortes galhos que terminavam enrolando-se em suas coxas. Seus pés foram engolidos pela terra, seus braços foram presos por um elevado monte de pedras, que vinha do chão até seus ombros. Gavinhas enroscavam-se por seu tronco e apertavam seu pescoço.

Preso.

Como eu havia pedido.

Laxus olhou para mim, notando quem havia feito-lhe tudo aquilo. Esperava ver raiva e desgosto em seu olhar, mas jamais orgulho. Era o mesmo olhar que ele me direcionava quando criança. Aquilo quebrou algo dentro de mim, tirando toda a ferocidade que tinha puxado quando realizava a magia, e consequentemente quebrando a prisão em torno dele.

Ele caiu desajeitadamente, longe de sua espada, item que Wendy prontamente pegou e jogou em direção as árvores atrás de nós. Levantei e fui para perto dele, ignorando o aviso de Wendy. Nada no que Laxus transmitia ali dizia que ele iria me machucar. Era o meu irmão que estava vendo.

— Você me venceu pela primeira vez, passarinho.

O apelido de criança trouxe lágrimas aos meus olhos, mas a impedi que caíssem. Não seria mais a garotinha chorona de antes.

— Tive ajuda, não conta – respondi.

Quando pequenos tínhamos uma competição de lutas simuladas, sem jamais machucarmos um ao outro. Laxus sempre saía ganhando, tanto pelo tamanho quanto pela habilidade.

— O que foi isso? — pedi, tentando entender o orgulho em seu rosto.

— Você finalmente soube se defender sozinha – falou como se aquilo explicasse tudo.

— Além de rebelde ficou louco – murmurei, arrancando um fraco riso dele, ato que quase me levou a loucura também – estou pedindo o que foi isso, depois de anos me rejeitando como irmã, Laxus.

— Há coisas que você não sabe – argumentou ele.

Bufei, cansada de evasivas.

— Então explique.

Laxus fitou-me por um bom tempo, como se ponderasse o que falaria.

— Naquela época estava com raiva. Meu pai havia me dito que por sua culpa minha mãe havia sido morta por aqueles cavalos – ele ergueu a mão, silenciando-me quando tentei protestar – e eu acreditei nele. Por que mentiria sobre isso? Depois entendi que ele queria que eu cortasse laços com qualquer coisa que lhe lembrasse Gyren, seu pai. Só recentemente descobri que havia sido outra criança que sem querer soltou os cavalos e que por consequência ocorreu o acidente. Uma criança de capuz azul, e não de cabelo azul.

“Então percebi que havia sido injusto contigo por anos. Queria me desculpar, tentar consertar nosso laço. Fui até a Vila, mas não te encontrei, você simplesmente sumiu sem deixar rastros. Um tempo depois Rebeldes foram até a Vila e a atacaram para roubar alimentos, e ouvi uma fofoca entre eles sobre uma garota de cabelos azuis que era próxima do Príncipe que queriam raptar. Dei um jeito de entrar no grupo deles, e busquei saber sua localização. Soube de última hora sobre o ataque aqui hoje, e fiz de tudo para estar junto, para te ajudar”.

— E ajudar ela inclui nos matar no processo? — Wendy questionou, cética.

— Eu não sabia se você era aliado dela ou inimigo, no primeiro momento. Depois precisava saber se saberiam se defender por conta própria. E acredite que se eu te quisesse morta, você já estaria – seu tom não dava brechas para dúvidas.

Um forte som ribombou pelo ar, assustando a nós três. Wendy franziu as sobrancelhas tentando entender, mas Laxus soltou um praguejamento e tentou ficar de pé.

— Pare! — exclamei, contendo-o no chão. Do jeito que suas pernas estavam, jamais conseguiria me manter em pé.

Ele segurou minha mão que lhe apoiava com firmeza, trazendo minha atenção ao rosto dele.

— Saiam daqui agora, entendeu? Vão o mais depressa possível – ordenou, falando tanto para mim quanto para Wendy.

— O que foi isso? — a Maga pediu, agachando-se ao meu lado.

— Um aviso para os Rebeldes saírem de lá – indicou com a cabeça a porta que usamos de saída – vão explodir o local em poucos minutos.

Arregalei os olhos, surpresa demais para falar. Wendy perdeu a pouca cor que lhe restava, olhando fixamente para a porta.

— Se voltar vai apenas morrer com os outros – Laxus informou, entendendo o que ela estava pensando.

Ela fechou os olhos, indecisa sobre a situação.

— Você está certo – ela concordou após um tempo, e deu para perceber o quanto aquilo lhe custou – me ajude a arrastá-lo, Levy – concluiu, pegando um dos braços de Laxus.

— Qual a parte do depressa vocês não entenderam? Sou um peso morto com essas pernas!

Uma onda de culpa se abateu em mim, afinal era culpa minha o seu estado.

— Que seja – respondeu ela, ignorando os protestos dele.

Juntas arrastamos ele para dentro da floresta, e aos poucos o abrigo foi se distanciado. Não sabíamos o quando afastados estávamos, portanto nem cogitamos a hipótese de parar. Um estrondo se fez presente pouco tempo depois de perdemos a vista do local da luta. A terra abaixo de nós tremeu, quebrando o equilíbrio de Wendy e meu, derrubando Laxus. O loiro prontamente rastejou até a árvore mais próxima e se escorou ali. Seu rosto demonstrava que não sairia dali tão cedo.

— Vão as duas apenas de agora em diante – ordenou.

— Mas… — tentei convencê-lo.

— Não vou morrer, Levy – cortou-me, apesar de dar um pequeno sorriso – apenas vou continuar fingindo por um tempo, posso ajudar mais vocês com eles, do que sendo arrastado e lhes atrasando.

Sufoquei um palavrão e acabei assentindo, trazendo alívio para o rosto dele.

— Quero uma carta sempre que possível sobre como você está, entendeu? — exigi, abraçando-o de modo desajeitado. Uma parte minha ficou feliz ao sentir uma mão sua em minhas costas.

— Como desejar. Agora vá.

Virei-lhe as costas e apressei o passo para longe dele. Não olharia para trás, tinha de confiar que voltaríamos a nos ver. Wendy se juntou a mim pouco tempo depois, com um olhar tão determinado que transmitia esperança.

Essa confusão de Magos e grupos enchia minha cabeça, mas no momento só foquei em uma coisa.

Achar Gajeel.

(…)

Então… o que aconteceu com você e seu irmão no passado? Confesso que fiquei um pouco confusa.

Wendy estava a beira de um córrego, enchendo frascos que havíamos resgatado do abrigo e que milagrosamente estavam inteiros. Paramos para abastecer e tentar nos guiar pela floresta de modo que não acabássemos dando voltas sem realmente ir a algum lugar. Aproximei-me dela e lavei meu corte com calma, repassando a nossa história complicada de irmãos.

— Laxus e eu não somos parentes sanguíneos, meus pais se chamam Gyren e Jehanne. Dizem que puxei a parte do meu pai em aparência. Laxus é filho de Makarov e Eleyna. Anos depois de meu pai ter falecido, mamãe decidiu que eu precisava de uma figura paterna em casa e casou-se com Makarov, que também tinha ficado viúvo a alguns anos. No começo eramos uma boa família, mas isso mudou quando mamãe morreu também. Makarov ficou agressivo e me tratava como empregada, Laxus estava morando sozinho e quando aparecia fingia não me ver. Um dia pedi o que tinha lhe feito de mal, e ele apenas respondeu “destruiu minha vida”. E agora fiquei sabendo junto de você, Wendy, que Makarov havia mentido para ele que eu havia causado a morte de Eleyna.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, apenas observando o movimento das águas seguindo a correnteza.

— Como Eleyna morreu?

Estava tão concentrada no córrego que levei um pequeno susto com a voz da curandeira.

— Pisoteada por cavalos – sussurrei, estremecendo pela morte trágica que a mulher tinha levado – a ironia está no fato de eu não gostar de cavalos – comentei mais para mim que para minha companheira de fuga.

— Esse Makarov deve odiar vocês. Então por que se casou com sua mãe? — Wendy questionou, começando a guardar os frascos agora cheios.

— Boa pergunta – respondi.

Caminhamos em silêncio por horas, concentradas em achar uma saída da floresta. Segundo a Maga havia uma pequena vila por perto, para casos emergências. O que de fato era nossa situação. Nossas roupas estavam sujas e as de Wendy possuíam vários rasgos decorrentes de sua luta com Laxus. Os ferimentos que havia sofrido já tinham sido curados, mas o sangue ainda estava no tecido aumentando a visão de maltrato.

Era angustiante não saber como os demais estavam. Apesar de estar com eles a pouco tempo e de jeito tão inesperado, acabei me afeiçoando a determinadas pessoas. Gray, Jet, Wendy, a cozinheira, entre outros. Wendy dizia que se Gray estivesse morto todos saberiam, eu não sabia dizer se aquilo era algo em que ela se agarrava para negar a morte de seu líder, ou se de fato havia um meio de confirmar isso.

Já estava anoitecendo quando finalmente avistamos sinais de campos. A floresta estava ficando mais espaçada e as árvores mais baixas. Tal fato deveria ter me deixado animada e com mais força de vontade em prosseguir, mas meus músculos exigiam descanso e sossego. Ignorando o cansaço, pus um pé em seguida do outro, impedindo-me de parar.

— Levy, você está bem? — a voz preocupada da Maga soou distante, o que era engraçado já que estava a poucos centímetros de mim.

Abri a boca para dizer que sim, e o que saiu um grasnado incompreensível. O mundo deu uma inclinada, tonteando-me e desorientando-me. A voz de Wendy ficou ainda mais distante, ao mesmo tempo que senti a aproximação da terra.

Dor de espalhou por todo meu corpo, senti alguns lugares rasgarem, mas não entendi como aquilo poderia ocorrer. Não sabia mais se estava de pé ou deitada, tudo o que via era uma mistura de verde e azul-escuro. Estava cedendo ao pedido de sossego do meu corpo e fechando os olhos, quando uma imagem dançou em frente a mim. Um rapaz de cabelos negros e olhos rubros preenchia toda minha visão. Mas, não conseguia lembrar-me dele. Então a escuridão me abraçou, lavando todas minhas preocupações.

Notas finais
Mais revelações para vocês!! O que acharam do capítulo? Vou dar um docinho a todos: o tão pedido reencontro vai acontecer em breve!! Quero agradecer de novo a todos que comentam, favoritam e acompanham. Fico muito feliz que estejam gostando de Sigilo. Um enorme beijo e todos!