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23 Capítulo 22 - Levy
Notas iniciais

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Capítulo 22
Levy
Apesar de Lucy ter dito que meus assuntos pessoais poderiam ficar para depois, quis contar logo o que estava cutucando-me desde nossa partida. Havia ensaiado mentalmente uma conversa com Gajeel sobre o fato de ter descoberto minha Magia, mas nenhuma ficava boa o suficiente. Então resolvi jogar logo o assunto exatamente como se tira uma farpa de um machucado, de uma vez só.
Não sabia que tipo de reação esperar de todos, então encolhi-me na cadeira com todo aquele silêncio pesado. Lucy me olhava assustada, Rogue tinha o rosto congelado em uma careta com suas sobrancelhas erguidas em sinal de descrença, Natsu parecia apenas curioso, Wendy me dava um pequeno sorriso em sinal de apoio, Kagura havia escurecido a expressão e se seus olhos fossem dardos, eu estaria esburacada.
— Mais alguém aqui é mago? Se for, levante a mão – Natsu brincou, olhando a todos.
Gajeel que estava ao meu lado tinha ficado tenso. Era compreensível, pois tinha descoberto a pouco que poderia desenvolver uma doença mortal e que a pessoa que ele julgava ser normal era uma Maga também. Ele devia pensar que eu menti o tempo todo.
— Tem certeza Levy? — Lucy, a mais razoável de todos, pediu.
— Absoluta – resmunguei, um pouco chateada pelo modo como Kagura me encarava. Parecia olhar para uma cobra.
— Levy estava bloqueada – Wendy explicou o que eu estava tentando por para fora, mas vindo dela parecia ter mais credibilidade – até o acidente do baile, onde ela encontrou em contato físico e mental com dois tipos de Magia, a sua própria estava dormente pelo que parecia ser um feitiço bem forte. Não sabíamos que tipos de consequências ela poderia sofrer, e o resultado foi a libertação de um pequeno pedaço de sua Magia.
— Que tipo de Magia é? — Natsu perguntou, animado, ato que mudou um pouco o clima de tenso e surpreso para algo mais leve.
— Script – respondi – através de palavras posso trazer coisas em sua forma física.
Gajeel olhou-me pelo canto do olho como se tivesse entendido algo, coisa que me deixou um pouco confusa. Ele sabia todos os estilos de Magia existentes e estava avaliando a minha?
— Então você desmaiou e acordou Maga? — ele zombou, ignorando o olhar de censura de Rogue.
Revirei os olhos. Era de se esperar que ele fizesse alguma brincadeira sobre o fato para esconder sua real opinião sobre o assunto. Teria que conversar a sós com ele.
— Não. Como Wendy disse, ela estava trancada. Precisei reverter isso para ter acesso a ela e usá-la.
— Se ela estava trancada, por que não deixou por assim mesmo? — Kagura questionou um tanto áspera.
— Talvez pelo fato de ter vários Magos Rebeldes atrás de mim e de Wendy, e isso ter salvo nossa pele – retruquei em igual tom.
— Kagura, dê um tempo a ela, por favor – o Rei interrompeu, repreendendo-a. Então voltou-se a todos presentes – são várias coisas para pensar. Vou precisar de alguns dias, portanto vou pedir que mantenham o assunto dessa reunião em segredo até que eu convoque outra e dessa vez com os conselheiros. Wendy, peço que entre em contato com seu líder depressa para que ele possa estar aqui na próxima reunião. Agora, se me derem licença quero ter um momento a sós.
Fazendo uma curta reverência, deixei a sala junto de Lucy. Gajeel havia escapado junto de Natsu dizendo apenas um até breve. Quis gritar em frustração, pois aquele homem era confuso demais. Ele tendia a ser atencioso, gentil e compreensivo e então se tornava esquivo, sarcástico e agressivo. Aquele momento embaraçoso em sua tenda ainda estava grudado em minha mente, o modo como tinha me olhado com desejo e então me rejeitado.
— … então peguei uma cenoura, mergulhei ela no chocolate e dei para meu cavalo comer – Lucy disse, olhando-me com graça.
— Não acho que seja saudável esse tipo de alimentação – contestei, arrancando-lhe risos.
— Estou falando contigo a uns bons minutos, mas você parecia infinitamente distante.
Soltei um suspiro.
— Digamos que ele consegue me confundir como ninguém faz – comentei, indicando o Príncipe que estava andando apressado longe de nós.
— Como assim?
Lucy deveria estar confusa, pois para ela Gajeel e eu eramos um casal. Depois de tudo o que aconteceu, percebi que não precisava mais sustentar a mentira para Lucy. Ela era uma pessoa confiável e acima de tudo, minha melhor amiga.
— Tenho algo para te contar – sussurrei, pegando seu pulso – vamos achar um local mais calmo e sem curiosos por perto – completei.
Após ajudarmos Wendy a encontrar um aposento para descansar e possivelmente planejar como entrar em contato com Gray, Lucy e eu fomos a biblioteca. De longe era o local menos visitado e seu tamanho permitia que nos refugiássemos em um canto, livres de incômodos.
— Certo. Pode me contar agora – a Princesa anunciou em tom de voz baixo, todo cuidado era pouco mesmo que julgássemos estarmos sozinhas.
Fixei meus olhos na barra de meu vestido, um pouco envergonhada pela mentira que alimentei com ela. Sentia que tinha quebrado um pouco da cumplicidade com ela.
— Gajeel e eu nunca nos conhecemos quando crianças – comecei optando pelo início da farsa – a primeira vez que nos vimos foi um tanto conturbada. Eu estava praticamente sendo abusada por um Mago rebelde, pois aparentemente não servia como fonte, seja lá o que fosse isso. Então, ele apareceu e matou o homem. Gajeel estava em minha vila por causa das investigações pelas mortes que ocorriam no reino e por sorte pressentiu o uso de Magia ali por perto. Ele não podia me matar ou ter a certeza de que eu não contaria seu segredo para todos, então me trouxe para cá. Devo dizer que era contra minha vontade – soltei um pequeno riso, imaginando como nem queria mais voltar para a antiga vida.
Lucy olhava-me com o rosto neutro, atenta a tudo o que dizia.
— A primeira coisa que Gajeel fez quando chegamos foi procurar Rogue – continuei, agora olhando a estante de livros que escondia-nos – e foi ele quem sugeriu a farsa do relacionamento, para que ninguém desconfiasse. Logo após tudo isso vocês chegaram e nós mal tivemos tempo de criar uma história que fosse convincente, mas conseguimos. Porém, durante essa mentira, comecei a acreditar que algo pudesse estar de fato acontecendo conosco. No dia em que fui encontrada, Gajeel quase me beijou, Lucy – finalmente criei coragem e olhei para ela – e depois ele fingiu que nada tinha acontecido e depois voltou a me tratar como fazia no começo.
A Princesa permaneceu alguns segundos em silêncio e então puxou-me para um forte abraço. Uma onda de alívio me lavou, pois não tinha perdido uma das pessoas com quem podia contar. Pequenas lágrimas teimosas escaparam, borrando um pouco a visão. Timidamente as enxuguei com as costas das mãos quando Lucy soltou-me. Seu braço direito ainda me sustentava, mostrando que me apoiava.
— É por isso que estava tão angustiada durante a volta para cá? — Lucy perguntou suavemente como se finalmente tivesse me entendido.
— Em parte era – respondi, lembrando-me de Laxus – mas, não era apenas isso.
Lucy permaneceu em silêncio, mas seu rosto demonstrava que estava aberta para o que quer que eu falasse.
— Você ouviu o relato da Wendy sobre como escapamos do ataque. Digamos que ela deixou uma coisa fora em consideração a mim – iniciei, dessa vez sem a vergonha em olhá-la – tivemos ajuda, ou não conseguiríamos escapar a tempo da bomba que os rebeldes armaram no local.
A loira ergueu uma sobrancelha, porém não interrompeu-me.
— Tenho um irmão que se chama Laxus, e atualmente ele está junto dos Magos Rebeldes – confidenciei.
— Oh, Levy! — ela exclamou – Deve ter sido um tremendo choque! Nem sabia que você tinha irmãos – finalizou em voz mais baixa.
— Minha família é um pouco confusa, Lucy. Laxus e eu somos irmãos por consideração e não de sangue, como seu caso e de Sting – expliquei, sorrindo um pouco – o caso é que Laxus juntou-se aos Rebeldes para receber notícias minhas depois que desapareci da minha vila. Foi ele quem encontramos ao sairmos no esconderijo do outro grupo.
— Você estava bem machucada quando te reencontramos – Lucy comentou, franzindo de leve as sobrancelhas.
— Digamos que Laxus queria me testar e ver se eu conseguiria me defender sozinha, ele nunca realmente me atacou. Acabei desmaiando pelo excesso de uso de Magia, não sou acostumada a isso ainda e resultou num esgotamento físico e mental.
— Seu irmão tem um jeito estranho de se preocupar – ela brincou, já mais tranquila – não se preocupe, vou manter tudo isso em segredo – prometeu, apertando minha mão.
Internamente soltei um suspiro de alívio e gratidão, ela estava sendo uma pessoa incrível em minha vida. Lucy assumiu um ar mais triste após um tempo em silêncio, parecia pesar ideias em sua mente. Permaneci quieta sem querer interrompê-la.
— Sabe Levy, você não foi a única que sustentou mentiras aqui – ela disse em tom baixo, perto do meu ouvido como se temesse que alguém escutasse – eu também fiz isso. Te considero minha melhor amiga e não quero mais esconder isso de você. Acho que devo isso a ti, pelo fato de ter confiado em mim para falar tudo o que ocorreu.
Segurei sua mão livre, dando-lhe forças.
— Pegue só o essencial – repeti suas palavras, quando havia me aconselhado no quarto.
Lucy sorriu, iluminando seu rosto.
— Sim. Mas, eu quero ser forte como você e repartir esse fardo.
Fiquei sinceramente surpresa por ela me achar forte. Afinal, essa qualidade não era uma das coisas que estava me sentimento no momento.
— Seja lá o que for, estarei do seu lado – confortei.
— Fico feliz em ouvir isso – respondeu, apertando minha mão.
Em meio a sussurros, Lucy confidenciou que também era uma Maga. E era por conta do estilo de sua Magia que Erza a queria. Ela havia conseguido libertar sua Magia e foi assim que conseguiu escapar do cativeiro, ajudando Natsu a fugir também.
— Mas, não é apenas isso – ela continuou – o motivo de eu ter vindo para cá tão cedo é por causa dessa doença. Apesar de não usar Magia por anos, os sintomas iniciais começaram a aparecer em mim, e lá em Ghaléia não existiam tantos registros quanto aqui para que encontrássemos uma cura. Assim, Sting e eu usamos a desculpa do noivado para termos acesso a essa biblioteca. Deve imaginar o quão frustrada fiquei ao saber que os livros sobre Magia tinham sido queimados, e com isso minha chance sumiu.
— Lucy! — exclamei com o coração doendo por ela.
Saber da doença já havia sido terrível, mas descobrir que uma pessoa importante para mim estava com ela era ainda pior.
— Já estou conformada, Levy – Lucy sorriu um pouco triste – vou tentar viver de modo mais fugaz que conseguir. Farei valer cada segundo da minha vida. Não vou deixar essa sombra escurecer-me e nem quero que isso te afete também.
Havia um fogo em seus olhos demonstrando o quão firme ela estava nisso. Não, eu não demonstraria pena ou dó dela, Lucy já era forte, muito mais que todos neste Castelo.
— Pode parecer um pouco egoísta da minha parte, mas fico aliviada que você também seja uma Maga – ela baixou a voz com a tal palavra – assim posso sempre contar contigo para esse tipo de assunto.
Lucy era uma pessoa maravilhosa, era tudo o que conseguia pensar sobre ela.
— As coisas começaram a ficar loucas por aqui, não é mesmo? Mas, eu nunca me senti tão completa. Sinto que me encontrei, sei quem é Levy McGarden. Não consigo me sentir culpada ou com raiva de ter Magia, não quando posso ajudar aqueles com quem me importo – confessei.
Aproveitamos o precioso tempo sossegado que nos foi dado e contamos uma a outra tudo o que ocorreu nesse tempo que ficamos separadas, sem deixar nenhum detalhe de fora. Especulamos como seria tal arma que Erza tinha criado e como ela agiria. Criamos teorias de quem mais era membro do Grupo Bom, apelido que demos ao grupo de Wendy e Gray, por conta do papel duplo de Gildarts dentro da corte. E falamos sobre garotos, mesmo que eu estivesse um pouco desanimada com o último tópico.
— E por isso vamos criar um maravilhoso plano para você conquistar o Príncipe! — Lucy sentenciou, determinada a nos juntar. Para ela, Gajeel e eu eramos predestinados e faria de tudo para que a bendita farsa se tornasse realidade.
— Combinado – entrei no clima, sorrindo. Não havia como ir contra seu entusiamo.
(…)
Após a tarde animada junto de Lucy, decidi caminhar um pouco pelos corredores do Castelo. A conversa com a Princesa mostrou-me que por vezes desperdiçamos nossa vida com chateações e fatos inúteis e perdemos o precioso tempo que poderíamos ocupar de uma maneira melhor. Decidi que não esquentaria minha mente com a relação confusa com Gajeel e aprenderia novas coisas.
Estudarei mais Magia, melhorarei minha culinária, darei mais tempo para mim, serei mais paciente, aprenderei a me defender, e quem sabe tentar tocar algum instrumento. Fiz uma careta com a última ideia, de tão absurda que parecia. Minhas mãos não eram tão habilidosas para tal coisa. Envolvida com os pensamentos, mal percebi que tinha adentrado numa região desconhecida do Castelo. Um fraco som musical cortava o silêncio dali, incitando-me a seguir a melodia, e foi o que fiz.
A origem do som vinha de uma sala ao final daquele corredor. Abri a porta com cuidado, temendo que ao menor sinal de barulho o som cessasse. Graças ao meu corpo pequeno consegui entrar através da pequena abertura que fiz. O local era uma sala de música, deduzi pela quantia de instrumentos guardados ali.
Minhas sobrancelhas praticamente foram parar na raiz dos cabelos quando notei o que estava acontecendo. Gajeel estava tocando um belíssimo piano de costas para a porta, sem perceber minha presença. Permaneci em silêncio ouvindo a música. Ele sabia tocar incrivelmente bem e sua melodia embalava de modo encantador. Meu coração se esquentou, meus pensamentos se aquietaram. Fechei os olhos, assim só havia nós e o som naquele momento.
Deixei minhas proteções caírem um pouco, e admirei em pensamento aquele homem. Por mais bruto e agressivo que fosse, eu sabia que existia um bom coração por debaixo daquele ferro todo. Queria poder alcançar esse coração, ver ele por trás da máscara, sem qualquer impedimento. Desejava conhecê-lo de todas as maneiras possíveis e impossíveis, aplacar seus temores, ser seu apoio quando necessitasse. Entendi que meu coração era dele de um modo irremediável, ele o tinha arrebatado aos poucos e nem sequer sabia. Eu desejava-o tanto que chegava doer.
— Normalmente não gosto que me ouçam tocar, principalmente sem minha autorização – abri os olhos e suprimi um grito de susto ao notar o quão perto Gajeel estava de mim. Não havia reparado que a música tinha acabado.
— Não planejei fazer isso – respondi, tentando raciocinar enquanto ele passava as costas da mão esquerda em meu rosto.
— Imaginei – ele sorriu com um certo ar malicioso – e apenas por isso vou te perdoar essa vez.
Senti meus batimentos acelerarem, o sangue corria rápido pelas veias. Pela proximidade nossa, percebi o amadeirado cheiro de seu perfume, as notas de sândalo enviavam pequenos choques em mim.
— Escapei de um castigo então – sussurrei.
— Eu não disse que não a castigaria – O Príncipe murmurou, sua mão prendendo-se em meu cabelo – você ainda me deve algo desde o Baile.
Tentei assimilar o que aquela frase representaria, mas seu olhos estavam insondáveis, como dois poços rubros de magma. Minhas palmas se coçaram para tocar seu cabelo que caía nas laterias de seu rosto, emoldurando-o.
— Então faça – desafiei, sem saber de onde havia tirado essa coragem.
Sua boca esmagou a minha com vontade. Seus lábios eram quentes contra os meus, impetuosos e exigindo o comando. Fogo incendiou minhas veias, dando-me coragem para retribuir em igual fervor. Agarrei seu cabelo com as duas mãos, afundando os dedos nos enormes fios negros, sentindo sua textura macia.
Senti sendo elevada e logo estava apoiada em uma das mesas do local, uma de suas mãos apertava minha cintura, mantendo-me enlouquecidamente perto de seu corpo. Gajeel preenchia todos meus sentidos e eu me afogava nisso. Sua boca desceu pelo meu pescoço, fazendo-me arfar e ter sensações eletrizantes.
Ah como eu queria aquilo, queria ele.
E então como tudo começou, acabou. Ele pulou para longe, largando-me esbaforida, corada e desconcertada. O seu peito subia e descia rápido, os olhos arregalados como se não acreditasse no ocorrido.
— Não devíamos… isso não podia ter acontecido – ele finalmente falou.
— E por que não? — pedi, um tanto irritada com suas evasivas.
Com uma última olhada em mim, ele correu para fora da sala.
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