Sideways
8 VIII - Tô Voltando
Notas iniciais
VIII
Tô voltando
Aldebaran seguia sentado em frente a televisão velha do aeroporto grego enquanto esperava seu voo, assistindo a mais um seriado 'enlatado' na televisão. Vindo diretamente dos Estados Unidos, com dublagem porca. Detestava a programação da tevê, mas não era como se ele pudesse fazer alguma coisa a respeito.
Suspirou um tanto, lembrando da sanha que tinha de televisão quando vivia com o velho pai pescador que o criou depois da morte da mãe, que morreu em seu parto por conta das complicações de parir, numa vilazinha no meio do litoral maranhense, um menino grande como ele.
Desde pequeno que ele era grande.
Ele ia para a pracinha da cidade pequena, uma vila de pescadores mas que tinha uma televisão na praça onde todos se reuniam para ver as novelas e o noticiário da Globo, o único canal que pegava por aquelas bandas, e a muito custo. E o pai lhe vinha buscar, pelas orelhas se preciso fosse, porque já era tarde, e ele tinha que acordar cedo no outro dia para ajudar o velho na lida.
Era um velho bronco, mas muito severo, seu pai. Várias vezes o bateu de cinta, e mesmo de vara de marmelo por conta das diabruras que fazia de pequenininho. Ou menos grande, vá lá. Mas o homem tinha um coração de ouro, e a despeito de todas as necessidades de uma vida de pescador, seu pai lhe deu tudo o que ele precisava, mesmo com a falta da mãe.
E ele o adorava.
Não deixou de adorá-lo nem quando ele o encaminhou para o treinamento para aspirar ao posto de Cavaleiro, apesar de seus protestos. Mas o velho lhe disse que ele devia ir, que não era para ele o destino de pescador, que ele podia mais. Talvez sua única raiva disso foi estar longe, treinando, quando seu velho morreu do coração.
Essa era uma memória que apertava seu peito.
Ao contrário da maioria dos cavaleiros, ele tinha memórias dos pais e tinha família, parentes no Maranhão que vez ou outra ele ia visitar. Aí, ele deixava de ser o Cavaleiro de Ouro Aldebaran de Touro para se tornar o Francisco Adoniran Barbosa da Silva, sendo que o nome do meio era por conta do cantor.
Adorava essas visitas, apesar da simplicidade da vila onde nasceu mesmo depois de tanto tempo. Gostava de voltar a falar português, de se desvestir por algum tempo da bagagem pesada de ser um Cavaleiro de Atena para tentar voltar a ser um menino simples, muito apesar do seu atual gosto por conforto, refinamento e cultura que seu soldo atualmente lhe permitiam acesso. Ainda assim, ele não se esquecia de onde veio.
E era justamente para onde estava indo agora.
Imaginava o rebuliço ao chegar na casa dos parentes com a caixa de Pandora dourada, exatamente o mesmo da primeira vez.
Nem adiantava explicar que não era ouro comum, era ouro e pó de estrelas, que na cabeça da velha tia aquilo era só uma estátua com muito mais ouro que ela já viu em toda sua vida. "É ouro muito", ela dizia, "daria pra comprar quantas sacas de feijão?" E ele ria, que depois viria a bronca de que "era muito perigoso andar com esse tantão de ouro assim", como se ele não fosse a elite dos Cavaleiros de Atena e não soubesse defender sua própria armadura. E depois ela resmungaria que não entendia "pra mó de quê tanto ouro" enquanto ele continuava rindo.
Depois ele iria para o mar, bem mais quente do que o mar da Europa, e ele ia nadar e nadar até que o sal da água lhe desse sede. Aí, ele abriria uma cerveja e sentaria para ver a praia defronte ao lugar onde ficava a casa do pai que já não estava mais lá, e depois ele andaria os recifes que formavam piscinas na maré baixa, onde ele gostava de ir catar lagostins quando era pequeno.
Daí ele iria voltar, ver os homens sentados no bar da pracinha, falando de futebol que ele já não tinha como acompanhar, discutindo e quase brigando por conta dos times do Rio de Janeiro ou de São Paulo que eles só conheciam através do rádio que escutavam religiosamente a cada jogo. E eles o veriam, o saudariam e o chamariam para sentar e conversar, e daí a conversa descambaria para os tempos de criança, quando ele usava seu tamanho para ajudar os outros moleques a pular o muro das terras do Coronel Belarmino Dutra para roubar pitombas e goiabas. Vez ou outra aparecia o capataz do sítio, que os corria de lá com ameaças de mandar chumbo no meio de suas bundas, e eles corriam com o espólio do furto nas mãos, no meio da algazarra.
Então a tia vinha chamá-lo, já brava porque o almoço estava na mesa e estavam todos esperando por ele, e ela ralharia com ele exatamente como ela ralhava antes do pai morrer, e antes dele ir embora para treinar. A única diferença é que agora ela já não podia mais trazê-lo pelas orelhas, mas mesmo a memória dos puxões o divertia.
E aí ele chegaria pro almoço, com peixe frito, pirão, arroz branco e macaxeira frita, e ele comeria até se fartar, e olhem que ele comia muito. Mas tinha muita comida também, que o pessoal de sua família sempre foi de comer muito, mesmo. Ainda mais com a 'visita importante' que ele era, então a mesa tinha que ser farta. Depois, ele descansaria numa rede amarrada nos coqueiros da frente da casa, fortes o suficiente para aguentarem seu peso, sentindo a brisa do mar no seu rosto.
E, antes de dormir, pensaria no pai.
A voz no alto-falante anunciando a partida de seu voo interrompeu seus pensamentos, e ele foi até o portão de embarque com a alma já leve.
Sim, era tudo a mesma coisa, mas era disso que ele gostava. Era disso que ele precisava, de tempos em tempos.
Era nessas horas que ele gostava de pensar que, se por um acaso pudesse se aposentar do ofício de Cavaleiro, gostaria muito de comprar o terreno onde ficava a casa do pai e erguer de novo uma outra casa. Até guardava um certo dinheirinho para isso, todo mês.
É certo que, já tendo morrido uma vez, ele achava bem improvável que ele sobrevivesse ao seu trabalho. Trabalho insalubre, ele mesmo admitia, mas sonhar não custava nada...
E foi pensando nisso que ele embarcou no seu voo para mais uma curta temporada no Brasil.
OOO
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