Sideways
9 IX - One
Notas iniciais
IX
One
"Somos um, mas não somos o mesmo"
Saga recebeu do mestre uma roupa e a notícia de que hoje não haveria treinos para ele.
Ele sabia o que isso significava.
Vestiu a roupa civil, amarrou os cabelos do jeito que mestre mandou. "Espere aqui", disse o mestre, "e não saia até eu voltar."
O mestre voltou, também vestido como civil, e agora ele mais parecia um homem de meia idade maltratado pela vida dura de trabalhos braçais. Ele o levou para fora do Santuário, usando das técnicas que ensinava a Saga para se ocultarem dos olhos dos outros. Pegaram um táxi e foram até a balsa que os levaria até a ilha de Patroklou, nas proximidades do Cabo Sunion, onde iriam buscá-lo.
Saga ia calado, porque sabia que sempre que eles tinham que ir ao encontro de Kanon dessa maneira, era por uma razão: Ele estava dando problemas.
De novo.
O mais velho dos irmãos ia pensando, no caminho até a ilha, que talvez seu gêmeo devesse adotar 'encrenca' como seu sobrenome. Desde que eram muito pequenos, ainda no orfanato de Corinto onde foram levados ainda bebês pela morte prematura da mãe e pela falta de notícias do pai, ou de qualquer outro parente, Kanon era perito em se meter em encrenca. E Saga sinceramente não entendia porque o irmão não podia ser uma pessoa cooperativa, cordata e obediente, um pouquinho só que fosse.
E o pior de tudo é que caberia a ele, como sempre, a tarefa de tentar colocar o irmão nos eixos.
Suspirou, já desconsolado.
Desembarcaram no porto da pequena ilha, e foram direto para um alojamento do Santuário onde Kanon ficava. A saber, um conjunto de poucas casinhas simples e meio largadas, posto que aquele lugar era pouco requisitado pela Ordem, mas que foi para onde Shion mandou o irmão para ficar instalado durante seus treinamentos. O mestre treinava a ambos, fazendo uso dos portais dimensionais para praticamente estar em dois lugares ao mesmo tempo, embora nunca fizesse uso desses portais para transportá-lo até a ilha junto consigo, dizendo que isso era perigoso, por enquanto.
Ele, seu mestre e o professor de lutas aposentado que vivia ali no refúgio eram os únicos que sabiam que Kanon era um aspirante a Gêmeos como ele, e não um aprendiz qualquer encaminhado para lá por não ter onde ficar. Porque para o resto da ilha pouco populosa, Kanon era só mais um órfão aprendiz de soldado raso, que vivia por ali 'de favor' por conta de um irmão aspirante a cavaleiro, e não a segunda face de Gêmeos e suplente da armadura para o caso de qualquer eventualidade.
Já chegou preparado para mais um sermão do mestre, que ouvia sem muitos protestos, e para uma posterior dura conversa com o irmão para que ele se comportasse melhor, pela enésima vez.
Todos ali esperavam que ele tivesse alguma autoridade sobre Kanon por ser o mais velho, mas o problema começava pelo fato de que seu irmão jamais o vira assim. Era, aliás, mais fácil que ele risse da sua cara do começo ao fim de uma conversa como essa do que qualquer outra coisa.
Mas, ao invés de encontrar seu irmão sentado lhe esperando de volta, com o habitual sorriso irônico no rosto, encontrou o velho professor de artes marciais (com quem Saga não ia com a cara porque o velho na verdade era, na sua humilde opinião, um pinguço de marca maior que podia ser uma má influência ao já problemático irmão; mas também não era como se ele tivesse vez, ou voz, para reclamar...), que por vezes acabava fazendo o papel de adulto 'responsável' por Kanon.
— O que aconteceu dessa vez? — A voz do mestre soou cansada, e Saga continuou tão calado quanto antes.
— O menino está com uma daquelas crises. — O velho ladeou a cabeça. — Tá tossindo feito cachorro louco, já já é capaz do peito começar a chiar.
— E não fez a inalação?
— Fez, não melhorou muita coisa... E também tem que eu vou precisar viajar, e achei melhor não deixar ele sozinho aqui desse jeito.
— Vai ficar quanto tempo fora? — O mestre apoiou o polegar e o nó do dedo indicador entre os olhos, no começo do dorso do nariz.
— Amanhã de tarde já estou de volta. — Respondeu o velho, enquanto Saga revirava os olhos, pensando que ele cumpriria esse prazo se, e somente se, não enchesse tanto a cara.
— Muito bem... — Saga sentiu o mestre lhe puxar pelo braço até o quarto do irmão. Mas, ao entrar nele, não deixou de reparar em algumas coisas que não deveriam estar ali; como um par de tênis novinho em folha, caro a ponto de que seguramente o irmão não teria, por si só, dinheiro para comprar.
Mas sua atenção logo se voltou para o som de uma tosse seca e insistente, que ele também conhecia por pegá-lo de jeito também, vez ou outra.
Era a maldita alergia respiratória que ambos compartilhavam, e que algumas vezes piorava a ponto de virar uma crise. Elas foram bem mais comuns na sua infância, e especialmente comuns no orfanato empoeirado, mas melhoraram significativamente a medida em que os meninos aprenderam a usar o cosmo e desenvolver seus corpos para as batalhas.
Saga se lembrava de ter ouvido, há muito tempo atrás, que esse tipo de problema respiratório era bem comum em crianças que não foram amamentadas pelas mães, como devia ser o caso deles dois.
Nunca conheceram nada de suas vidas antes do orfanato. Não tinham sequer memórias de antes de serem mandados para lá. Só sabiam o nome da mãe por conta da certidão de nascimento, e constava nela apenas e somente o nome dela, que foi de quem herdou o sobrenome que tinham. O nome do pai estava em branco, e isso era uma coisa que Saga jamais revelou a ninguém no Santuário, e fez o irmão jurar que também faria o mesmo, porque sempre fizeram questão que eles soubessem, ainda no orfanato, o que aquilo significava.
Pai desconhecido.
— O que ele veio fazer aqui? — A voz levemente rouca do irmão não escondia o descontentamento de vê-lo ali.
— Eu vou precisar viajar, moleque, e teu irmão veio pra cá especialmente pra ficar contigo.
Kanon teria rido às gargalhadas se não tivesse outra crise de tosse ao tentar fazê-lo.
— Eu não preciso de babá. — O mais novo resmungou ao acabar de tossir. — Até porque, sinceramente, vocês vão deixar o Saga pra tomar de conta de mim? Sério?
— Kanon... — O mestre suspirou. — Reclame o quanto quiser, mas ele vai ficar aqui com você. E os dois estão proibidos de sair de casa. Ouviram bem?
— Sim, senhor. — Finalmente a voz de Saga se fez ouvir.
— Bom resto de dia para vocês. E Kanon...
— Diga.
— Comporte-se. — A voz do mestre ganhou um tom afilado que não admitia réplicas.
E enquanto saíam o mestre e o velho professor de lutas, Kanon lhes fazia um muxoxo enquanto imitava, em tom de sorna, o que o irmão acabara de falar.
OOO
— Pois muito bem, Saga. Seja bem vindo à minha humilde moradia.
— Nem tão humilde, Kanon. — Saga ignorou a nota de ironia na voz do irmão, voltando sua atenção ao par de tênis em que reparou ao entrar no quarto. — Aliás, podia me explicar de onde saiu esses tênis aqui?
— Ah... — O mais novo seguia sendo encarando o irmão enquanto tateava uma resposta. — Bom, eu ganhei.
— Você ganhou? — O mais velho não parecia estar propenso a acreditar no que ouvia. Até porque sabia que garotos como eles não costumavam sequer ter coisas assim, quanto mais ganhá-las. — Deixa de mentira. Aonde você arrumou isso?
— Já disse, eu ganhei. — Kanon insistiu, e Saga bufou um tanto enraivecido.
— Deixa de conversa mole pra cima de mim. E por que iam te dar um tênis desse?
— Vai ver, por causa do meu charme...
— Você comprou. Com que dinheiro?
— Eu ganhei. De uma admiradora secreta. — Kanon fez questão de frisar bem a últimas palavras. — E vamos deixar esse assunto de lado porque 'cê veio aqui pra -ah, ah- cuidar de mim, e não pra me deixar puto.
Saga apertou os olhos, e resolveu deixar a história daquele par de tênis para outra ocasião. Momentaneamente.
— Aliás, Kanon... Nós não podemos ter admiradoras secretas.
— Beleza. — O outro deu de ombros e seguiu-se um momento de silêncio. — Mas... Quer dizer então que a gente pode só admirar as meninas, né, Saga? Especialmente se elas não forem pro nosso bico, como certas filhs de certos donos de quitandas de Rodório(1)...
— Eu não... — Saga já ia se defender, mas parou quando o irmão, que começou a falar também para tentar cortar sua frase, acabou com outro acesso de tosse.
— ...Olha aí, tá vendo? Eu já estou tossindo por sua causa.
Saga soltou um bufido discreto, tentando aplacar a culpa que seu irmão sabia, e sempre soube, implantar habilmente dentro de si. Decidiu sair até a sala, intuindo que, se continuarem uma conversa nesse momento, ela fatalmente degeneraria para uma briga indesejada. Foi até a estante da pequena sala para procurar um livro, ou uma revista em quadrinhos, o que pudesse ajudá-lo a passar o tempo sem se empenhar em contendas verbais com seu irmão.
Acabou dando de cara com algumas revistas de conteúdo claramente impróprio para menores, mas ao invés de se queixar, pegou uma delas e discretamente colocou dentro da surrada mochila de pano que trazia nos ombros. Viu que o irmão se aproximava, e tentou habilmente desviar o foco de atenção das revistas, mas ainda assim o outro, ladino como era, logo intuiu o que ele andava olhando por ali.
— Ei, tira a mão daí!
— Revista de mulher pelada, Kanon? Tenha dó...
— Não são minhas, o velho que deixou aí quando 'teve aqui da última vez!
— Pff... É impressionante como 'cê tem resposta pra tudo...
— É mais impressionante ainda como 'cê tem pergunta pra tudo.
— Hunf. — E enquanto Saga pensava consigo próprio que seu irmão andava merecendo muitos puxões de orelhas mais, uma parte de si não pôde evitar a satisfação de ter escolhido uma revista mais novinha, e não uma daquelas mais velhas e amassadas. Afinal de contas, elas aparentavam estar bem usadas já, e... Bom, vai saber o que já andou acontecendo com essas revistas. Ou, pior ainda, o que andou espirrando em cima delas. — Mas de todo jeito, você bem sabe que não é pra você ficar aqui vendo essas coisas, né não?
— Verdade. Fazer deve ser muito melhor do que ficar só vendo...
— Kanon! Você vai ser um cavaleiro de Atena!
— E daí? Uma coisa atrapalha a outra? E nem me vem com essa de que a gente vai ter que ficar virgem porque o que mais tem é soldado e cavaleiro andando pelos puteiros aí da vida.
Saga soltou outro bufido, sem ânimo para discutir com o irmão sobre mais esse assunto.
Mas, dessa vez, ele mesmo tinha que confessar que andava vivendo maus bocados lutando contra seus hormônios adolescentes enfurecidos, que teimavam em tentá-lo a ser mais um a quebrar o voto de castidade que deveriam fazer ao se tornarem cavaleiros.
A bem da verdade, ele sabia era provável que não aguentasse muito, dado ao afã com que ele (e seus colegas que permaneceram no Santuário para treinamento, caso de Aiolos, ou que vinham constantemente para visitas, caso de Shura e dos outros) escutavam as histórias dos soldados mais velhos, para depois fantasiarem furiosamente com momentos semelhantes na solidão de seus alojamentos. E pior ainda era a maneira como arriscavam os pescoços para espiar as amazonas em seus campos de treinos, ou (momento sublime) espioná-las em seus vestiários através de lendárias frestas e buracos abertos por outros, antes deles.
Mas Kanon não precisava saber de nada disso, até mesmo para não ter nenhuma desculpa vinda de si para seus comportamentos impróprios.
Acabou que Saga pegou um livro qualquer da estante e se sentou no sofá para ler um pouco, pelo menos até a hora de comerem o que quer que se dignassem a preparar.
OOO
Já era noite, e Saga se preparava para dormir no sofá da pequena casa, composta de um quarto pequeno, uma sala e uma cozinha rústica ficava nos fundos, junto com um fogão a lenha, um pequeno tanque e um banheiro improvisado. Luz elétrica era um luxo que não havia, exceto por uma extensão que ficava no quarto, vinda de um ponto de energia da rua.
Mas não era como se ele não fosse acostumado: aquela casa era muito parecida com seu alojamento de aprendiz no Santuário, e ainda contava com a proximidade da praia, coisa que ele não tinha. Bem que ele sabia que ele não teria a mais confortável das noites, mas não era como se ele tivesse uma cama muito melhor do que aquilo em seu quarto.
De qualquer forma, não era aquilo que o incomodava. A convivência com seu irmão nunca foi um mar de rosas, mas nos últimos tempos estava ficando cada vez mais frustrante. Kanon estava ficando cada vez mais sarcástico e ácido para consigo, e Saga sentia que os poucos pontos de identificação entre eles estavam escasseando cada vez mais.
Não ajudava o fato de que ele ia avançando em seus treinamentos e, dentro em pouco, assumiria o posto de Cavaleiro de Gêmeos. Kanon, por conseguinte, assumiria o posto de 'segundo' em comando do Templo que ele guardaria. E, por mais que tentasse convencer a si mesmo e a ele de que esse também era um posto de vital importância dentro da Ordem, não havia como ele deixar de pensar que o título que Kanon outorgava a si mesmo, com imensa carga de ironia, tinha seu fundo de verdade.
'Estepe de Gêmeos', era assim que ele se dizia. A magnífica sombra do honorável Guardião da Terceira Casa.
Não que Saga não soubesse que Kanon poderia se ressentir (e se ressentia) de ter de treinar tão duro para ser um mero substituto. E bem que esse ressentimento se refletia na maneira como ele às vezes negligenciava seus treinos, e suas obrigações. Mas o que custava para seu irmão entender que aquela era a melhor opção que eles tinham? Ou ele realmente achava que, tendo eles dois ficado no orfanato de Corinto, alguma coisa melhor do que isso lhes teria aparecido? Ali eles tinham estudo, um teto, comida por conta e, bem ou mal, um futuro garantido. Era muito, muito mais do que tinham quando saíram do orfanato, isso era bem verdade.
E também não era como se seu irmão não entendesse isso por falta de inteligência. Ele era testemunha do quanto seu irmão podia ser inteligente.
Mas ele quase podia ouvir a voz do irmão dizendo que ele, Saga, achava tudo ótimo porque era quem ocupava o centro das atenções: Era ele o aspirante a Cavaleiro, era ele quem iria vestir a armadura dourada e se cobrir não só com o ouro, mas com a glória do mais alto posto dentre os Cavaleiros da Ordem.
E Kanon sempre dizia que era disso que ele gostava, era essa glória que ele realmente queria.
Só que Saga jurava para si mesmo que aquilo não era verdade.
Ele gostava, sim, de saber que era um aprendiz aplicado, e que fazia por merecer o posto que, se Atena quisesse e os deuses permitissem, ocuparia. E o usaria para ajudar os necessitados, desvalidos como ele e o irmão foram antes que o Santuário lhes cruzasse as vidas.
E, também... Se de seu destino como cavaleiro viesse a glória, que mal haveria nisso?
Não seria uma recompensa justa pelo seu esforço?
Afastou esses pensamentos da cabeça, pois ele ainda não era um cavaleiro. Não, ele era ainda só um aprendiz, e que estava dando a armadura como ganha sem ainda tê-la conquistado.
Ou, como diria o irmão, 'contando com o ovo no c* da galinha'.
Típico dele, aliás, um termo assim tão chulo. E só esse pensamento o fez soltar um bufido irritado.
O barulho da tosse seca do irmão chamou sua atenção. Kanon tossira aqui e acolá o dia todo, mas agora o intervalo entre as tosses pareciam ter diminuído. Se levantou e foi até o quarto, batendo na porta antes de entrar. Como resposta, mais tosse, e ele abriu a porta.
O irmão estava sentado na cama, um tanto ofegante já, e Saga entendeu que o que era uma crise de alergia estava se desenvolvendo em um dos ataques de asma que costumavam ter quando eram mais novinhos, no orfanato. Inclusive, mais o Kanon do que ele.
— Por que você não me chamou?
— Eu... não preciso de babá, eu disse... Eu posso me cuidar sozinho...
— Tô vendo como você pode. — Saga adiantou-se até o inalador no criado-mudo de madeira ao lado da cama. — Cadê os remédios?
— Eu já...
— Cadê os remédios, pô?
— Tão na gaveta, aí...
Saga abriu o bocal do inalador, já ligado numa das tomadas da extensão, e pingou as gotas dos remédios que costumavam usar nessas inalações. Ligou o aparelho, e deu a máscara já fumegante para que o irmão encaixasse no rosto.
— Respira devagar. — Saga disse, e o irmão não parecia disposto a seguir discutindo. Mas bem que o mais velho dos gêmeos sabia que Kanon não gostava de fazer as inalações, mas gostava menos ainda dos ataques que o deixavam respirando com dificuldade.
Fazia muito tempo que ambos não tinham crises assim, mas se lembrava de que nelas irmão ficava muito agitado e arisco. Kanon não tinha sido uma criança fácil de se cuidar, Saga era testemunha, mas quando ele tinha crises como essa, ou ficava doente, a agitação que lhe tomava de conta o deixavam quase insuportável, e pioravam muito o que já era ruim.
E as assistentes do orfanato não eram nenhum exemplo de paciência, menos ainda com um menino malcriado, dado a ataques de birra e por vezes agressivo, como era seu irmão. Nessas horas, era Saga quem tentava acalmá-lo.
Dava errado, e Kanon ficava ainda mais agitado, e agressivo, e birrento.
Ficou olhando o irmão tentar respirar devagar e fundo, mas com os dedos trêmulos segurando o inalador no rosto. Era efeito do remédio, que dava uma certa tremedeira e também acelerava o coração, ele mesmo sabia porque já usara esses remédios em si mesmo algumas vezes, por crises de tosse e alergias, e provavelmente usaria de novo, embora não tivesse há um bom tempo crises como as que seu gêmeo tinha agora. Ou poderia até ter, já que ele estava tendo.
Mas ele sentia a apreensão do mais novo, que mesmo agora, às portas da adolescência e já um adulto pelos padrões do Santuário, ainda detestava a sensação de falta de ar e afogamento que uma crise de asma trazia, tal qual a criança que ele um dia foi.
— Respira devagar... — Repetiu, e uma mão foi até uma das mechas do cabelo do irmão, e a ajeitou atrás da orelha. — Já vai melhorar...
Sua mão desceu da cabeça dele e parou em suas costas com um carinho desajeitado, numa tentativa de lhe passar algum conforto. Os olhos dele se voltaram para si, o rosto meio coberto pela máscara do aparelho. Saga viu, uma vez mais, o estranhamento nos olhos do outro, tão parecido com o que ele tinha quando via o irmão gêmeo pedir-lhe calma durante as crises de asma e acessos de raiva durante a infância.
Era como se os olhos dele perguntassem quem diabos era ele para lhe pedir uma coisa dessas.
Mas, por outro lado, se ele não fizesse isso, quem faria?
E uma parte de Saga, ainda que triste, ficou feliz de estar ali para ele.
— Você já vai melhorar, Kanon...
OOO
Saga abriu os olhos, deitado no colchão da cama do irmão tendido agora na sala, ao lado do sofá onde Kanon dormia.
A noite não fora fácil, e eles passaram boa parte dela acordados entre inalações, crises de tosse seca e alguns episódios mais de falta de ar. Acabou por colocar Kanon no sofá onde ele dormiria, e trouxe o colchão da cama até o lado do sofá para dormir com ele do lado, e só conseguiram dormir alguma coisa quando já era madrugada alta.
O irmão agora dormia a sono solto apesar de já ser bem quase umas onze horas da manhã, pela altura do sol. Achou melhor não acordá-lo, porque ele bem que dormiu pouco, mesmo. Precisava descansar, e aproveitar que seus pulmões agora colaboravam consigo.
Pensou em dormir um pouquinho mais também, mas o sol em seu rosto não colaborava. Levantou-se e foi até a cozinha nos fundos, e comeu alguns biscoitos que estavam no armário que servia de despensa. Ele tinha que dar a mão à palmatória e reconhecer que o irmão mantinha a casa até que bem organizada, já que a cozinha, apesar de dividir o espaço com um arremedo de área de serviço e um banheiro ao fundo, se mantinha até que apresentável. E, enquanto saía da cozinha e via que o irmão seguia dormindo, pensou que seria interessante sair um pouco para comprar leite e um pouco de pó de café, e se fazer um desjejum melhor.
Assim, Saga pôs a mochila no ombro direito e saiu atrás das compras que tinha em mente, apesar da ordem do Mestre de não sair da casa do irmão até que ele chegasse. Pensava em contornar a dita ordem sendo rápido e evitando outras pessoas mais próximas do alojamento, que por ventura pudessem saber que ele era Saga e não Kanon, e entrar em uma vendinha qualquer de boca fechada e sair mais calado ainda do que entrou.
Seria um crime perfeito, digamos assim, e ele pensou que daria tudo muito certo quando entrou na primeira vendinha que viu e foi cumprimentado pela moça do balcão, e acenou de volta sem dizer palavra. Pegou o que precisava, mas viu seus planos virem por água abaixo quando bateu os olhos no balcão e viu o velho professor de lutas já agarrado com uma garrafa de destilado pela metade, visivelmente alcoolizado.
"Taí o filho da mãe bêbado que nem presta, a uma hora dessas", resmungou Saga em pensamento, e tentou sair de fininho quando foi interrompido pelo outro.
— E aí, aspirante... — O velho riu, mostrando os dentes malcuidados. — Saiu de casa sem a ordem do teu mestre, hein?
— Só vim comprar umas coisas que estavam faltando. — Saga tentou imitar o tom de voz do irmão, mas foi surpreendido por uma risada do velho.
— Eu sei que tu és tu, Aspira. — O velho falou com a voz arrastada, ainda rindo, e usando a corruptela de 'aspirante' para se referir a si. — Tu não consegues me enganar, não. Ele é bem melhor na hora de te imitar.
Saga soltou um bufido involuntário, mas que foi imediatamente percebido pelo velho.
— Não é engraçado eu te ver aqui, moleque. Até porque eu posso contar pro teu mestre que tu desobedeceste ele.
— Me desculpe, senhor. — Saga falou, num tom apagado. — Não farei mais.
— Acho bom, Aspira. E o outro moleque, como tá?
Saga procurou a balconista com os olhos, e viu que felizmente ela sumira de vista quando o velho apareceu com a garrafa na mão.
— Ele está melhor, está dormindo agora.
— Então que o vagabundinho tá dormindo até uma hora dessa? Mas que esses aspiras de hoje em dia são tudo um bando de folgados, mesmo...
Saga engoliu a vontade de dizer quem ele realmente achava que era um folgado, já que ele, por exemplo, estava ali para substituir justamente a criatura ébria na sua frente, que deu a desculpa de 'sair para viajar deixando' seu irmão doente e sozinho enquanto ele se punha a encher a cara. Mas achou melhor ficar calado, e apertou os dentes para dissipar a ânsia de lhe dizer tais verdades.
— ...Mas tudo bem. Deixa o 'Aspone' dormir.
— 'Aspone'? — Saga estranhou o outro termo, com que ele se referia ao irmão.
— É, ué. Aspone. Num sabe o que é não? — O velho já ria. — Ah, bem que vocês dão uma boa dupla dinâmica. O Aspira és tu, aspirante a armadura de ouro, e o Aspone é ele, o aspirante a p**** nenhuma! Hahahaha! Porque não é o que ele é? Aspirante a p**** nenhuma! Dá risada aí, Aspira, porque essa é boa!
Saga não ria.
Aliás, ele agora apertava os dentes com ainda mais raiva, e uma vontade louca de bater no velho bebum até ele desmaiar de tanta pancada.
— Não fala dele assim... — Saga disse, em uma voz baixa. — Ele vai ser um cavaleiro, que nem eu.
— Pfffff... — O velho cuspiu quase metade da dose que tomava. — Essa foi uma piada melhor do que a minha, Aspira. E não precisas defender o Aspone não, que ele sabe muito bem se defender sozinho, o filho da p***. E é chegado na vadiagem que eu nunca vi igual. Tu sabias que ele já tá rondando o puteiro daqui, Aspira? E ele tá é certo, porque o moleque é bom de lábia, tá ficando boa-pinta, vai passar essas raparigas tudo na conversa, até parece que eu tô vendo. Daqui a pouco essas meninas daí vão 'tar tudo se estapeando por ele, capaz até quererem dar pra ele de graça, tu vais ver só.
Saga ladeou a cabeça, pasmo com o que ouvia mas querendo não acreditar no que o velho falava. Não devia acreditar, não devia mesmo, mas o par de tênis no quarto do irmão lhe veio na cabeça num golpe.
— Foi delas que ele ganhou o tênis que tá lá na casa dele?
O velho quase cuspiu outra dose, de novo, e não segurou uma gargalhada.
— Foi isso que ele te falou? — O velho ria, e aproximou-se do outro. — Ah, Aspira... Mas tu és muito verdinho, mesmo. Já teu irmão é bicho solto, conheço só de pôr os olhos. E nem é qualquer bicho solto não, que aquele lá passou duas vezes na fila da esperteza antes de nascer...
— Como ele conseguiu, então?
— Deve ter comprado, ué. E a grana é capaz dele ter ganho em briga de rua, ele gosta de dar umas coças nos marinheiros aí em troca de dinheiro. Eu que ensinei o moleque a lutar, e não é que ele aprendeu direitinho... Ou então ganhou no jogo, que o pivete já joga carteado melhor do que muito marmanjão por aí.
— Mentira sua. — Saga sibilou, pálido de raiva.
— E pra quê eu ia mentir, Aspira? — O velho deu de ombros. — Tu sabes melhor do que eu que o que eu tô dizendo é verdade.
Deu as costas ao velho e foi embora, bufando de raiva como nunca.
Ele sabia.
OOO
Ao voltar para o alojamento do irmão, Saga encontrou o Mestre, com cara de pouquíssimos amigos.
— Eu te disse para não sair.
— Desculpe, Senhor. — Saga baixou a cabeça. — Fui comprar algumas coisas para o café, que só tinha biscoito na despensa.
O mestre olhou para Kanon, acordado mas com olheiras marcando o rosto jovem e denunciando a noite agitada que tivera.
— Hunf. — O homem balançou a cabeça, enfastiado. — Seu irmão está melhor, Saga?
— Eu estou. — O gêmeo mais novo tomou a palavra. — Ele já pode voltar para retomar os treinamentos, Senhor.
— Está seguro disso, Kanon?
O aludido balançou a cabeça afirmativamente.
— Pois bem. Saga, junte suas coisas, nós já vamos.
— Sim, Senhor. — Respondeu, já entrando para pegar alguma coisa que faltasse para ir embora. Ainda sentia a raiva lhe queimando por dentro, tanto pelo tom jocoso como o velho tratara seu irmão, como pelo que soube, através dele, que Kanon andava fazendo.
— Saga? — A voz do irmão lhe fez voltear o rosto na sua direção. — 'Brigado.
— De nada. — Respondeu, e viu o irmão entrar. — Kanon?
— Oi?
— A gente vai conversar depois.
— Certo. — O tom severo na voz de Saga imediatamente disparou no outro a postura irônica, e o mais novo deu de ombros. — Como quiser. A casa tá às ordens, maninho.
Ele saiu com o Mestre, deixando a casa do irmão para trás.
OOO
— Saga?
— Sim, senhor? — O garoto voltou os olhos para o mestre, que mantinha ainda o olhar severo sobre si.
— Seu irmão passou a noite bem?
— Ele teve uma crise forte, mas melhorou com as inalações, senhor.
— Hm. — O velho mestre voltou a olhar o mar, de dentro da balsa onde estavam, na volta ao continente. — Isso deve melhorar conforme vocês cresçam. O cosmo ajuda numa batalha, mas não é bom usar cosmoenergia para aliviar sintomas de doenças.
— Certo, senhor.
— E não pense que eu esqueci que você me desobedeceu ao sair da casa de seu irmão. Você sabe que não é bom que se saiba por aí que ele também é aspirante a armadura junto com você, não sabe?
— Sei sim, senhor. Desculpe...
— Ele é a outra face de Gêmeos, Saga. — Disse o mestre com os olhos fixos no continente que se aproximava, a voz distante. — Vocês dois têm de entender isso. Um é luz, o outro é sombra, mas Gêmeos é feito de luz e sombra.
— Eu entendi, senhor.
— Devia ter entendido isso há muito tempo, Saga. E seu irmão também. — A voz do Mestre seguia distante. — E eu realmente espero que vocês entendam, um dia.
Passou-se um momento de silêncio, onde Saga pensava no que o mestre lhe dissera, e pensava no irmão que ficou na ilha. Pensava na distância que crescia entre eles, na ironia agressiva com que Kanon tantas vezes lhe tratava, nas palavras do velho embriagado que acusavam seu irmão de várias contravenções às leis de Atena, e da Ordem, e pensava nas coisas que o mesmo Kanon às vezes lhe jogava na cara.
E as palavras do Mestre, que ele tanto devia entender, perdiam uma parte do sentido no momento em que via o irmão assim. E ele não podia deixar de se sentir culpado por saber que o irmão estava por se perder, e se ele se perdesse, seus caminhos poderiam se separar.
E, desde muito antes de eles terem memória... Seus caminhos nasceram unidos. Kanon sempre estivera do seu lado, e ele do lado de Kanon, para o bem e para o mal.
OOO
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