Side Quest: A Busca Pelo Meu NPC Favorito!
24 Capítulo 24 - Fim de Jogo
A devastação causada pela primeira explosão foi enorme, destruindo tudo em um raio de um quilômetro. O lago evaporou e o que restou de rochas e escombros estava agora rodando em volta de Dia e Noite, que ainda flutuavam de mãos dadas a algumas dezenas de metros do chão.
Agora com mais espaço para se movimentar, não foi difícil para Darka alcançá-los mesmo não tendo a habilidade de voar, pois sua agilidade e força combinados com sua magia eram o suficiente para impulsiona-lo até eles.
Em um salto, ele se lançou na direção dos gêmeos e logo foi atingido por uma rocha grande o suficiente para ele se segurar e não cair de novo. A pedra continuou sua trajetória, sendo movida pela energia maçante do local.
“Preciso de uma superfície pras correntes…”
Sem tirar os olhos deles, Darka invocou suas correntes de novo. Elas saíram das pedras que giravam à sua volta e se enrolaram neles com ajuda da inércia, prendendo-os. Assim que conseguiu a abertura necessária, ele usou uma das correntes para chegar perto e ativar sua magia de absorção.
Assim que as pontas de seus dedos tocaram nos rostos dos dois, aconteceu o contrário do que esperava e o jovem sentiu sua própria consciência sendo absorvida por eles.
— Merda!
Um turbilhão de informações invadiu a mente de Darka. Era quase impossível entender o que exatamente ele estava recebendo, com vislumbres muito rápidos de várias coisas diferentes. Coisas que pareciam códigos complexos, imagens difusas das memórias de alguém e algo muito específico, que ele conseguiu identificar como um sentimento. E era como se aquele fosse o olho do furacão de informações.
Tentando manter o foco mesmo com a enxurrada de estímulos, ele se concentrou em absorver o que podia e ir até aquilo. Se sentia sem corpo, à deriva em uma tempestade, lutando contra as correntes para nadar em direção a um farol.
“Não vou deixar usarem meu mundo!”
Uma voz familiar chegou aos ouvidos de Darka, tão sutil quanto o roçar de uma pena na pele. Sem querer se distrair, apenas deixou a sensação de familiaridade de lado e continuou tentando se projetar até seu objetivo.
“Vou destruir o que construírem.”
Vingança. Esse era o sentimento que estava alimentando aquilo. Assim que percebeu isso, todo o caos em sua cabeça se dissipou e ele se viu de volta à forma humana, de pé em um espaço escuro e sem fim. O pouco que conseguia ver era graças as marcas em sua pele que brilhavam com a carga que havia absorvido no estranho caminho até ali. Ao se virar para olhar em volta encontrou Dia e Noite caídos no chão diante de uma versão diferente deles, que Darka imediatamente sentiu como a fonte de tudo. Ali estava o desejo de vingança daquela pessoa.
Ele se aproximou, sem tirar os olhos dos clones brilhantes de olhar vazio à sua frente.
— Mestre… — A voz sussurrada de Noite chegou até ele. Parecia que a qualquer momento os dois desapareceriam, e o pensamento preocupou Darka. Era óbvio que aquela coisa havia tomado o controle, mas também que não era exatamente culpa dos gêmeos.
— Fica quieto. A Yrina tá esperando vocês, é bom não deixar ela triste.
Um sorriso sutil surgiu no rosto dos dois ao ouvir aquilo.
De frente para a bomba lógica, Darka respirou fundo. Só havia uma coisa que ele podia fazer, e era impossível dizer se daria certo.
< ELEMENTO ÍMPAR DETECTADO >
— Já chega. Isso aqui não é o jogo.
Darka colocou suas mãos naquela cópia, se preparando para liberar toda a energia que acumulou. A voz familiar voltou, estranhamente se misturando a voz robótica de antes.
< é o desejo dele. >
Ao mesmo tempo, aquela mesma voz reverberou nas lembranças de Darka.
“Eu quero aproveitar essa oportunidade de viver aqui.”
— Não é mais.
✰★✰★✰
Amara tentava enxergar o que estava acontecendo lá em cima, mas desde que Darka saltou na direção dos gêmeos era quase impossível de distinguir as formas dos três na confusão de escombros e luzes. Estava tão tenso que quase chorava de ansiedade, quando sentiu alguém segurar seu ombro.
— Aquele garoto é a pessoa mais teimosa que já conheci. — Yrina sorriu para ele. Ela também tentava se manter calma, mesmo com a vida de suas três crianças em jogo.
— Isso porque a senhora não conhece a Daena. — Miko comentou quase despreocupadamente, fazendo a menina corar de vergonha e tirando um pouco da tensão entre eles.
Katarina, que estava sentada em um canto tentando parecer invisível, foi a primeira a notar a mudança na situação lá em cima. Ela rapidamente se levantou e ficou alerta, fazendo todos também levantarem o olhar.
O brilho ofuscante que emanava dos três aumentou, seguido de uma explosão silenciosa. As pedras que antes giravam freneticamente em volta deles desaceleraram e começaram a cair, enquanto a luz ia diminuindo a intensidade. Ao mesmo tempo, uma rachadura surgiu na redoma em que estavam e se espalhou até se estilhaçar completamente.
Um frio subiu na espinha de Amara, com medo do que aquilo podia significar.
— Estão caindo! — Daena apontou para cima.
Se não haviam morrido com a explosão, a altura em que estavam era grande o suficiente para resolver isso. Yrina se moveu sem nem perceber, juntando todas as suas forças restantes para saltar na direção deles e interromper a queda. Seu impulso foi forte o bastante para conseguir pegar Dia e Noite, mas Darka estava fora do seu alcance e não tinha como pegá-lo antes de cair no chão.
Assim que aterrissou com os gêmeos desacordados em seus braços, ela se virou a tempo de ver Katarina saltando habilmente para salvar Darka. Ela havia corrido logo atrás de Yrina, já notando que a bruxa não conseguiria pegar todos, e conseguiu interceptá-lo a poucos metros do chão se impulsionando de uma parte mais alta do terreno. Os dois rolaram por certa distância, e apesar de ter salvado ele da morte, provavelmente sairiam com alguns hematomas e machucados. Aliviada, Yrina voltou sua atenção para Dia e Noite, checando o estado deles antes de ir até Darka.
Amara chegou logo em seguida, tão nervoso quanto Yrina. Quase tropeçando enquanto se abaixava para checar o amigo que estava deitado de lado, ele o virou e percebeu que estava respirando. Não parecia ter se machucado muito, mas as marcas em sua pele que antes eram de uma tonalidade azul marinho agora estavam quase pretas, como se estivessem queimadas.
— Ei… — Sua mão acariciou o rosto dele, tirando o cabelo bagunçado do caminho e passando os dedos pelos estigmas abaixo dos olhos.
— Ele está vivo. — Katarina ofegava enquanto tentava se levantar.
— É bom que esteja! — Daena chegou por último, indo direto até Darka para ver como ele estava. A menina tentava parecer irritada, mas a preocupação era bem mais óbvia em seu semblante. Já Miko estava com uma inquietação evidente, alternando o olhar entre Darka e Yrina com os gêmeos. Tentava pensar em uma forma de ajudar, andando em círculos em volta de Daena, até que parou como se lembrasse de algo.
— Ele acorda quando pinica!
— Do que você tá falando? — perguntou Daena, confusa.
Miko se aproximou e começou a esfregar o rosto na bochecha machucada de Darka, o mais forte que conseguia. Depois de alguns segundos, o jovem finalmente se mexeu.
— Ai… isso pinica, Miko! — A reação dele pareceu acalmar Amara e Daena, que soltaram um suspiro de alívio.
— Pinicou! — exclamou Miko, feliz por ter lembrado das vezes que acordou o amigo fazendo aquilo.
Darka se revirou, tentando sentar. Seu corpo inteiro doía como se tivesse sido atropelado por mil elefantes, mas mal teve tempo de se recompor quando percebeu Katarina indo em direção a Yrina. Tinha lutado contra ela vezes o bastante para saber que aquela era sua postura de quem ia arrumar briga e que mesmo sem Tharia, ela ainda era uma paladina muito forte. A bruxa, alheia a aproximação, estava concentrada em usar sua magia para acordar os gêmeos.
— Kata… — Ele já se inclinava para levantar e impedi-la, mas Amara foi mais rápido. Ele correu e praticamente se jogou na frente de Katarina com os braços abertos, servindo de escudo para Yrina. Finalmente notando o que estava acontecendo, ela abraçou Dia e Noite para protege-los.
— O que pensa que está fazendo?! Saia da minha frente, garoto! — ralhou Katarina, irritada. Havia sido controlada e humilhada, sem ter dúvida que a culpa também era dos gêmeos. — Não viu o problema que essas crianças causaram?! Você mesmo disse…
— Eu sei o que eu disse! — Amara gritou, seus olhos umedecendo de lágrimas. — Se alguém vai ter que pagar por isso, sou eu, então deixa eles em paz!
— Mas o que… — Uma mão pousou no ombro da paladina. Darka a encarou, tentando passar confiança para resolver aquilo, mas era difícil quando até respirar doía.
Amara caiu de joelhos e começou a soluçar de choro. Sem saber como se explicar, ele resolveu contar tudo, mesmo que apenas Darka entendesse.
— Fui eu quem colocou a bomba lógica no jogo! Instalei ela no servidor para disparar quando o evento final acontecesse pra destruir todos os dados e…
Um abraço o interrompeu. Darka o apertava forte, tentando demonstrar que entendia e que estava ali por ele. Seja lá qual fosse o motivo também, não precisava ser dito naquele momento.
— Tá tudo bem, você tava chateado, frustrado e solitário.
— Como você…
— Eu vi lá dentro. Ouvi sua voz e senti sua raiva vindo daquela coisa, mas eu sabia que não era, tipo, você de verdade.
Sem saber o que fazer, Amara apenas retribuiu o abraço. Enterrando sua cabeça no ombro de Darka, ele continuou chorando.
— Me desculpa… Eu pensei que não ia acontecer, achei que pelo menos isso não ia se refletir aqui mas… eu sinto muito.
Um grunhido de Katarina chamou a atenção dos dois. Ela jogou as mãos para o alto e bufou de irritação, desistindo de argumentar. Estava cansada física e mentalmente, e pela primeira vez em sua vida ela só queria ir para casa em vez de lutar. Deu de costas para todos e saiu andando enquanto resmungava.
— Eu não entendi, o que é um servidor? — perguntou Daena.
— Eu sei! — Miko levantou a mão com animação. — É aquela pessoa que leva a comida na mesa quando a gente pede na taverna!
— Isso é um garçom.
— Mas ele serve as pessoas, não? Espera… — Uma expressão pensativa surgiu no rosto de Miko. — O que significa “instalar no servidor”? É um tipo de estalagem?
— Vamo deixar isso pra lá, ok? — Darka se levantou com a ajuda de Amara. — Não tem mais importância.
— Mas…
— Eu pago um caldo do mercado de Talphen pros dois se esquecerem sobre isso.
— Eu quero três! — Daena retrucou. Ela sentiu que Darka não queria entrar em detalhes e resolveu não insistir.
Inesperadamente, Amara sentiu Yrina afagar seu cabelo. Era um toque gentil, como se dissesse que não precisava se preocupar, e quando se virou para ela foi cumprimentado com um sorriso.
— Não entendi exatamente o que se passou e acredito que entenderei menos ainda a explicação… — Yrina se voltou para Dia e Noite, deitados no chão lado a lado. A respiração suave indicava que ainda estavam vivos. — … mas tenho a certeza de que acabou tudo bem.

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