Side Quest: A Busca Pelo Meu NPC Favorito!

25 Capítulo 25 - Conquista Desbloqueada: Segunda Chance


A tela do notebook iluminava o rosto de Noah no escuro de seu quarto de hospital. Ele rolava desinteressado sua caixa de entrada, que listava alguns e-mails da equipe de desenvolvimento da Black Cat Games. Assuntos como “Melhoras!”, “Tenha uma boa recuperação” e “Volte logo” se repetiam na extensa lista. Os remetentes de dois daqueles e-mails eram os diretores da empresa, falando coisas sobre não ter pressa para voltar.

— Bando de falsos.

Ele fechou o notebook, frustrado. Havia se juntado a equipe como programador júnior há pouco mais de três anos, assim que a empresa foi fundada, e depois de muito esforço tinha se destacado a ponto de conseguir apresentar sua proposta e virar o líder criativo do projeto do primeiro jogo da empresa, Aria Online. Era a realização do seu maior sonho: dar vida ao seu mundo de fantasia e ainda dividi-lo para que mais pessoas o aproveitassem. Apesar do atrito que a rápida ascensão de alguém tão jovem causou em alguns funcionários, tudo corria bem e suas ideias eram muito bem recebidas.

Até que tudo mudou há alguns meses antes. Noah começou a apresentar problemas de saúde, com idas cada vez mais frequentes ao hospital e uma piora extremamente rápida. Seu diagnóstico de leucemia caiu como uma bomba, ameaçando destruir todos os sonhos que havia construído até ali. Se recusando a desistir, mesmo internado o jovem tentava ao máximo estar presente nas reuniões, sempre insistindo em receber todas as atualizações e fazer seu trabalho.

“Se eu morrer, quero pelo menos deixar minha marca no mundo.” — ele pensou. Um sorriso surgiu em seu rosto magro. — “Aria Online… vai ser meu legado.”

Infelizmente, a única coisa que o garoto de 19 anos podia fazer naquele estado era programar um pouco por algumas horas do dia, quando os enfermeiros o deixavam usar o notebook. Mesmo com suas articulações doendo e sua fadiga permanente, Noah nunca deixou de dar seu melhor.

Em uma noite, quando tentava corrigir algumas linhas da programação de uma NPC do jogo, o bipe de um novo e-mail em seu celular tirou sua atenção do trabalho.

Noah,

Sinto muito pela notícia repentina, mas Aria Online foi descartado. O CEO disse que não poderíamos depender da sua criatividade já que está doente e podendo morrer a qualquer momento, então decidiu tomar as rédeas do projeto e fazer tudo do jeito dele. O jogo será renomeado para Red Ocean Online, reaproveitando todos os seus assets e worldbuilding.

Como colega de trabalho e seu amigo, achei que deveria saber o quanto antes, já que também houve um comentário sobre não avisa-lo da mudança devido a sua saúde frágil.

Melhoras, amigo.

Uma vertigem surgiu na mente de Noah devido ao baque da informação. Todo seu trabalho dos últimos anos seria simplesmente roubado na cara dura. Era absurdo demais. Um gosto metálico invadiu sua boca, e ele percebeu que estava sangrando.

Ele não tinha muito tempo restante.

— Eles acham que podem fazer isso comigo? Não vou deixar usarem meu mundo!

A partir daquele momento, o jovem focou toda sua energia em seu notebook. Seus dedos apertavam rapidamente teclas e mais teclas enquanto ele programava algo, uma bomba lógica que seria ativada em algum momento do jogo. Noah sabia que quanto mais alto, maior a queda, então percebeu que o dano seria muito maior no pico de popularidade que Red Ocean alcançasse. Ele sabia do potencial que seu próprio jogo tinha.

— Desgraçados. Vou destruir o que construírem.

Seu objetivo era esconder a bomba lógica nos arquivos do servidor principal do jogo na forma de dois modelos de NPCs descartados anteriormente, definindo como gatilho o tão esperado clímax da história: a luta entre a cavaleira e a bruxa. Levou uma semana até que ele conseguisse completar seu plano, trabalhando escondido durante a madrugada para não ser impedido pelos enfermeiros do hospital. Eles sabiam que o garoto não tinha mais chance de cura, então apenas tentavam deixá-lo o mais confortável possível.

Sentado em sua cama tarde da noite, Noah finalmente fez o upload do arquivo. Assim que se certificou que estava tudo no lugar, sentiu seu corpo amolecendo como se suas forças estivessem se esgotado. Chegou até aquele ponto pela pura força de seu ódio, mas agora parecia ter cedido ao peso de sua doença.

Ele fechou o aviso de upload concluído no sistema, e acabou sendo surpreendido pela NPC que estava programando há alguns dias em outra janela. Uma mecânica de olhos cor de âmbar o encarava com um sorriso amigável, como se nada de ruim estivesse acontecendo. Uma frase piscava na caixa de diálogo.

[ AMARA ]

[ Está tudo bem desmontar. Às vezes, precisamos quebrar coisas para consertá-las. ▼ ]

Seu peito se apertou, e ele começou a chorar. Toda a tristeza que aquela raiva barrou durante aqueles dias finalmente transbordou, levando todo o resto de seus sentimentos junto. Seu sonho acabou, roubado por aqueles que deveriam ter ajudado a realiza-lo.

Uma repentina dor aguda fez Noah perdeu o ar. Caindo de costas na cama, sentiu sua consciência se esvair ao som dos irritantes bipes das máquinas que o mantinham vivo.

“É… game over…” — um último pensamento escapou de sua mente.

✰★✰★✰

— Pausa. Você é o criador do Red Ocean?! — exclamou Darka, surpreso. Ele parou de caminhar e encarou Amara, incrédulo.

Os dois andavam por um dos grandes corredores do castelo de Talphen, onde haviam chegado há poucas horas antes durante o começo da madrugada. Depois do caos que ocorreu na noite anterior na montanha de Jhotar, todos concordaram que seria mais seguro irem até Estephan e informá-lo da situação o mais rápido possível, para encerrar de vez toda aquela perseguição. Ambos não conseguiam dormir depois de se limparem e tratarem os machucados, então decidiram fazer uma caminhada para acalmar os ânimos e esclarecer algumas coisas.

— Não exatamente… — Amara fez um biquinho, levemente frustrado. Seu rosto ainda estava ligeiramente inchado pela crise de choro e ele tentava não olhar diretamente para Darka, sentindo-se envergonhado.

— Uau. Você… Cara, esse tempo todo… Eu… — O semblante de Darka exibia uma sequência de emoções conflitantes, indo da surpresa a compreensão, passando pela dúvida e tristeza. — Agora muita coisa faz sentido.

— Faz?

— Pera, na verdade nem tudo. Se você criou esse mundo, isso te faz um tipo de deus?

— Claro que não, seu besta. — Amara riu, pensando como a linha de raciocínio de Darka era previsível. — Minha teoria é que essa realidade sempre existiu, independente de eu ter pensado nela ou não. É difícil explicar, mas é como se o fato de eu ter criado uma história no nosso mundo fosse apenas um reflexo da existência dele aqui.

Observando o amigo por alguns bons segundos, Darka processou o que ele havia dito. Era uma boa teoria, de certa forma até poética, e imaginar que outros mundos e histórias poderiam existir em algum lugar do infinito fez ele agradecer mentalmente por ter acabado justo naquele que era seu lugar favorito.

— Ainda bem que não fui parar em Dark Souls.

Ele notou um dos guardas do corredor mais ao longe os observando pelo canto do olho, e lembrou como há pouco tempo seria impossível estar ali sem que aquele e muitos outros guardas estivesse tentando matá-lo. Os últimos dias passaram pela sua cabeça, desde que acordara no meio da luta contra Katarina até aquela caótica noite anterior nas ruínas de Jhotar. Era impressionante como tanta coisa podia acontecer em apenas uma semana.

— Darka? — Amara notou o amigo devaneando.

— Não é nada. — Darka suspirou e voltou a andar. — Só pensei que desde que cheguei aqui, fiz muitas coisas que não teria coragem de ter feito como “Lauren”, esperando que fizesse alguma diferença.

— E no final fez diferença mesmo. Você devia se dar o crédito também. — Amara sorriu, seguindo o amigo. — Quando eu pedi pra você acordar a Yrina pra te ajudar com os gêmeos, foi porque senti que sendo o protagonista você era capaz de mudar o que quisesse. Só que depois percebi que eu estava errado. Você consegue mudar porque é simplesmente você, alguém disposto a tentar. Mas quer saber? Mesmo que não tivesse conseguido impedir a bomba lógica, eu nunca me arrependeria de acreditar em você.

Darka foi pego de surpresa pelo que o amigo disse. Não acreditava em si mesmo há muito tempo, mas isso não o impedia de tentar fazer as coisas mesmo assim. Esperava que, se suas tentativas dessem certo, sua autoconfiança crescesse um pouco. Ouvir que alguém entendia esse seu lado causou um calor aconchegante em seu peito, e ele sentiu como se seu esforço estivesse valendo a pena. Mal tentou se conter e abraçou Amara, grato pelas palavras dele.

— … Obrigado, Amara. E olha, cê fez um ótimo trabalho. Esse mundo é fantástico e os babacas da Black Cat Games te devem até a alma. Você é incrível e eu sou muito grato por tudo que você criou.

O mecânico corou em resposta, sem saber o que fazer com o contato físico repentino. Ele retribuiu o abraço, sentindo uma estranha sensação que fez a expressão “borboletas no estômago” fazer sentido, e tentou mudar de assunto para disfarçar.

— Se... será que foi uma boa ideia trazer a Yrina pra cá? Mesmo que o governador Evelot não esteja mais contra você, não quer dizer que ele seja completamente neutro em relação a ela.

— Acho que vai ficar tudo bem. Contei pra ele o que aconteceu, sobre o que Ingrena fez, e ele disse que ia chamar os líderes das províncias pra uma reunião. — Darka saiu do abraço e deu uma espreguiçada, esticando as costas doloridas. — Não dá pra ficar andando com a Yrina a tiracolo por aí, principalmente se não resolvermos seja lá o que Ingrena queria com ela. Pelo menos aqui eu sei que estamos seguros, o Estephan é um cara justo. Acredito nele.

— Mas e os gêmeos? — Amara não queria admitir, mas sentia muita culpa por eles. Eram apenas vítimas das circunstâncias, sendo os modelos de NPCs que usou como disfarce para a bomba lógica quando os colocou no jogo. — Ele não vai fazer vista grossa com o que causaram.

— Eu sei… Já falei pra Katarina e pra Daena que vou assumir a bagunça deles. Também vamos deixar isso só entre nós, as outras províncias não precisam saber desse detalhe.

A brisa da madrugada soprou entre eles, e notaram que o céu ao longe já começava a clarear. Amara observou a silhueta de Darka e sentiu um aperto no peito, sem saber o porquê.

— Ei, Lauren. — Ele se encolheu um pouco. — Obrigado por não desistir de tudo.

— Hmm. — murmurou Darka, sem tirar os olhos do horizonte. Quando virou para Amara, estava sorrindo. — Acho que eu não desisti é de você.

✰★✰★✰

Massageando a têmpora e resmungando baixinho, Estephan encarava a filha que se debruçava na mesa de seu gabinete. Já amanhecia quando ele finalmente terminou de lidar com a burocracia que envolveu o incidente com Yrina, tendo enviado convocações aos líderes de Ninell e Ingrena para uma reunião de emergência assim que Daena e Katarina explicaram o que aconteceu na noite anterior. A desculpa dada para a explosão e o sumiço da montanha foi que o local abrigava uma grande quantidade de energia acumulada devido ao bloqueio da fonte de magia, e graças aos próprios Darka e Yrina o dano foi contido. Com Katarina como testemunha confiável, não foi difícil convencer Estephan.

— Você não vai me colocar de castigo, né? — Daena fez sua melhor cara de inocência. — Eu ajudei a salvar o mundo.

— Você saiu sem permissão, roubou uma das minhas motos, atirou na sua tia e se envolveu no meio de uma situação que poderia ter acabado muito mal. — Estephan estava sério, soando mais decepcionado do que zangado. Estava acostumado com o comportamento rebelde da filha, e na tentativa de criar um laço de confiança ele evitava proibi-la de fazer o que queria, exigindo apenas que Daena fosse responsável e não agisse sem pensar.

— Mas foi necessário! Eu… — Ela percebeu o olhar pesado do pai, carregando certa tristeza. Ficou calada por alguns segundos antes de continuar. — Desculpa, eu só queria ajudar.

O homem se levantou e foi até Daena, fazendo um cafuné em sua cabeça. Estava orgulhoso e preocupado com o quanto a filha era parecida com a mãe.

— Está desculpada. Sei que suas intenções foram as melhores, Daena, mas ainda está de castigo.

A menina soltou um grunhido e fechou a cara, cruzando os braços e afundando na cadeira. Lá no fundo sabia que o pai estava certo, mas ainda assim era irritante estar de castigo como se fosse uma criança malcriada. O barulho da porta do aposento se abrindo chamou sua atenção e ela viu Katarina entrar, usando sua roupa de paladina sem sua costumeira armadura, o que dava um ar mais suave a sua figura. Daena achava que ela parecia mais calma e feliz daquele jeito.

— Recebemos as confirmações de comparecimento de Ninell e Ingrena. Amandine e Garion chegarão em algumas horas.

Estephan respirou fundo e assentiu, já se preparando para a dor de cabeça que seria confrontar Garion Blackbell sobre a perseguição descrita por Darka. O líder de Ingrena parecia ter algo pessoal contra a bruxa, o que não seria impossível visto que, apesar da aparência de um jovem adulto, ele tinha centenas de anos de idade e era grande a chance de ter conhecido Yrina pessoalmente. Ninguém sabia o motivo para tal imortalidade, mas era de conhecimento geral que ele governava Ingrena há muito tempo e foi o primeiro a iniciar a caça à bruxa.

— Preciso que esteja lá comigo, Katarina.

— Acha que Garion faria alguma coisa? — Ela entendeu a intenção do irmão.

— Se eu acho? — Ele riu. — Eu tenho certeza.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Tardei mas cheguei :'D Decidi soltar esse capítulo pra não enrolar mais com tanta edição. A história finalmente vai terminar no capítulo 27 (que já está na metade)! Agora que temos beta readers (valeu gente ♥) pra dar uma força, espero entregar a edição definitiva de Side Quest logo logo ♥