Side Quest: A Busca Pelo Meu NPC Favorito!
23 Capítulo 23 - Formatação Iniciada
Os ouvidos de Darka estalavam enquanto tentava se aproximar sem ser atingido pelas pedras que eram lançadas pela força que cercava os gêmeos.
Os ouvidos de Darka estalavam enquanto tentava se aproximar sem ser atingido pelas pedras que eram lançadas pela força que cercava os gêmeos. Ele havia saltado da margem na direção deles carregando um ataque de energia em seu punho, esperando que fosse forte o bastante para empurrá-los se acertasse. Mas antes mesmo de cruzar metade do caminho até eles, uma das correntes de água que os envolvia o atingiu com força suficiente para jogá-lo no lago. Ele se levantou tossindo e torceu seu rabo de cavalo, pensando como a essa altura já teria desistido desses mobs e ido farmar algo menos irritante se ainda estivesse jogando do “outro mundo”. Mas o frio que a umidade nas suas roupas causava e a dor em seu corpo lembravam ele de que aquilo ali era bem real. Cuspindo um pouco de sangue, ele respirou fundo para tentar manter a calma e o foco que sempre teve ao jogar sério.
— Esses tentáculos de água parecem um polvo protegendo eles… Acho que vou ter que tryhardar. — Ele absorveu mais magia do ambiente, dessa vez concentrando em pequenos pontos na água ao seu redor. Estacas de gelo saíram da superfície e foram lançadas em direção aos dois, mas todas quebraram no meio do caminho devido ao fluxo de água que os cobria como um escudo.
— Preciso de uma brecha! — A voz de Yrina chegou aos ouvidos dele, seguida por estranhas palavras que começaram a ressoar pelo ambiente, enquanto mais runas apareciam em toda a superfície da caverna. Ela estava de pé, fora da área do escudo, com suas mãos concentrando uma energia alaranjada e luminosa à sua frente. Ao mesmo tempo, as máscaras dos gêmeos que estavam penduradas em suas cinturas começaram a brilhar no mesmo tom da magia.
Darka se lançou contra eles mais uma vez, mas agora mirando nos tentáculos de água que pareciam estar se movimentando cada vez mais rápido. Um deles o atingiu no peito em cheio, tirando seu fôlego por um momento, mas dando oportunidade para ele o segurar e ativar novamente sua magia de gelo. Naquele momento, em vez das estacas, Darka congelou o tentáculo que o atingiu, fazendo com que em alguns segundos quase toda a água do lago estivesse cristalizada e deixando os gêmeos expostos. Aproveitando a brecha, ele também invocou o máximo das suas correntes para prendê-los e puxou os dois de volta para o chão congelado.
— Isso não vai durar muito! — Uma rachadura logo apareceu no gelo abaixo de onde sua mão segurava, reforçando seu senso de urgência. — Precisa ser agora!
Ainda concentrada, Yrina tentava alcançar a essência dos dois para condensá-la e prender nas máscaras. Ela tentava não pensar na culpa e frustração por não ter sido capaz de fazer algo melhor por eles antes, e agora menos ainda. Falhou com Thariaknar, com os gêmeos e com Darka.
— Katarina!!
O grito de Daena a alcançou a tempo de fazê-la virar e dar de cara com a paladina correndo em fúria na sua direção, mas não rápido o bastante para alertá-la do ataque. Seu reflexo agiu apenas a tempo de soltar a energia que carregava e usar sua mão direita para segurar a adaga. Uma dor aguda atingiu sua palma, onde um fio de sangue começou a escorrer graças ao corte profundo.
Novamente, Darka notou que o contato das duas desencadeou uma reação nos gêmeos.
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— Para com isso! — O corpo de Dia atravessou sua versão fantasma enquanto tentava dar um soco nela. — Deixa a gente sair daqui!
As faces das cópias continuavam impassíveis, ignorando completamente qualquer ação que os dois faziam na tentativa de atingi-los. Noite havia tentado usar magia também, mas aparentemente seus poderes não funcionavam naquela escuridão sem fim. Os dois sabiam que algo estava acontecendo fora dali e o que quer que fosse, envolvia Yrina.
— Não adianta, Dia. Força física não funciona.
— Mas precisamos tentar! Você também percebeu, não é? Ela está lá fora! Eu senti por um instante…
Noite grunhiu, frustrado. Ele havia sim sentido o chamado por alguns segundos, mas ele sumiu tão rápido quanto apareceu. Sem dúvidas era Yrina, e a ideia de não estarem com ela começou a deixá-lo nervoso.
< EXECUÇÃO FORÇADA CONCLUÍDA >
< CONDIÇÃO [A] PREENCHIDA >
A voz repentina causou um sobressalto nos dois, que deram alguns passos para trás com receio de serem atacados.
< EXECUTANDO EVENTO LÓGICO 1/2 >
Aquilo não parecia ser um bom sinal. As versões fantasma brilharam um pouco mais forte, e os dois sentiram o fôlego se perder com um engasgo. Era como se a própria energia vital deles estivesse sendo sugada, alimentando algo.
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O estalo das correntes que prendiam os gêmeos se partindo foi como um gatilho para Darka, que correu de volta para o grupo o mais rápido que podia. Não foi difícil ligar os pontos e perceber que era o contato entre Yrina e Katarina que desencadeava aqueles surtos de magia, e pela gravidade da última ação, o que viria a seguir seria bem pior.
Em questão de segundos ele foi em direção as duas, puxando-as para a redoma onde os outros estavam. Daena abraçava Miko e Amara encarava a situação lá fora. Assim que entraram, Katarina caiu de joelhos, Yrina se virou para tentar ver o que estava acontecendo com Dia e Noite e Darka começou a concentrar mais magia para reforçar o escudo enquanto escutava o som das pedras rachando e caindo em volta deles.
— Meu corpo… — Katarina ofegou. — Parou de ser controlado.
Ela percebeu a adaga suja de sangue em sua mão e a jogou para longe, com receio de perder novamente o controle sobre si mesma. Um som agudo foi ouvido por todos, quando fendas luminosas cobriram toda a superfície do que restava da caverna, e eles observaram os gêmeos começando a flutuar novamente a alguns metros do chão.
Um brilho forte ofuscou a vista de todos e um estrondo ensurdecedor aconteceu, seguido de uma onda de choque que não destruiu o escudo, mas derrubou quem estava de pé. Em volta deles a montanha inteira se desintegrava, com as pedras e escombros da antiga cidade girando no ar como se levadas por um furacão cujo olho era os gêmeos. Eles flutuavam muito mais alto e brilhavam como pequenas estrelas.
Darka levantou, tentando tirar um pouco da poeira que grudou em seu rosto ainda úmido. Olhou em volta e analisou o estrago, soltando um sonoro palavrão ao ver que a montanha inteira acima deles simplesmente havia sumido.
— Isso já tá ficando ridículo. — Ele fechou os olhos, passando a mão na testa e levantando a franja molhada, tentando não admitir para si mesmo que estava com medo.
“Não estamos mais no jogo, Darka. Isso aqui é real.”
— É uma bomba lógica. — A voz de Amara quase se mesclava com a frase na mente de Darka. Ele virou confuso para o amigo, que tremia com o esforço de manter a compostura. — Ela foi implementada no jogo antes de ser lançado, para destruir absolutamente tudo. O evento que disparou o primeiro protocolo dela foi o contato entre a Katarina e a Yrina…
— Como é que é? — exclamou Darka. — Isso foi programado?!
Um pequeno sobressalto do mecânico fez Darka reconhecer aquela reação. Amara abraçava o próprio corpo tentando se esconder, seus olhos evitavam as pessoas e sua voz saía com esforço. Havia culpa ali.
— Eles… Eu não…
Yrina se aproximou de Amara, nervosa. Ela sabia que os gêmeos não eram pessoas comuns, e era estranho um jovem que provavelmente nem estava vivo quando ela os encontrou soubesse algo sobre eles. Apesar de tudo, ela os amava. Mesmo no início, quando eram apenas crianças sem emoção, ela decidiu que daria o melhor de si para cuidar deles e fazê-los feliz. Antes do incidente em Fearaniar, eles já demonstravam mais entusiasmo e personalidade, e ter que prendê-los em amuletos foi a decisão mais difícil que ela já havia tomado.
— Se você sabe o que eles são, sabe como ajudá-los também? — Mesmo sem saber exatamente sobre o que estavam falando, ela olhava para ele esperançosa enquanto apertava suas mãos. — Tem um jeito de parar isso, não tem?
— É que…
— Tem. — interrompeu Darka, notando a hesitação na voz de Amara. — Eu vou absorver a energia direto deles.
O plano na cabeça dele era simples; Iria fazer o possível para se aproximar dos dois e quando conseguisse tocá-los, usaria sua absorção para pelo menos diminuir o impacto da explosão.
— Você tá louco? É muita energia, seu corpo não vai aguentar! — protestou Amara.
— Provavelmente. Mas não custa tentar! — Darka sorriu, um gesto que surpreendeu até ele mesmo. Não sabia se estava tentando parecer otimista para eles ou para si, até porque a ideia de morrer ali não estava parecendo tão assustadora quanto deveria ser. Talvez fosse o famoso instinto de heroísmo o impelindo a se sacrificar por outras pessoas ou apenas um reflexo do que Lauren costumava desejar com tanta frequência antes. — Eu…
Ele foi interrompido por um abraço de Amara. Sentiu os braços dele o apertando e o rosto afundando em seu peito. Retribuindo o abraço, Darka percebeu que era a primeira vez que eles tinham esse tipo de interação, um contato físico, pensando como essas coisas só acontecem quando é tarde demais.
— Volta. — Amara murmurou, a voz quase abafada.
Darka sentiu outro abraço em sua cintura, seguido pela familiar sensação de Miko esfregando seu rosto nele. O luziwurmo não disse nada, mas Darka sabia que também era preocupação e afanou sua cabeça. Katarina estava de costas para ele e Daena apenas resmungou de certa distância, evitando encará-lo.
— Eu te abraço quando voltar, idiota.
Um tremor os lembrou da urgência da situação, e Darka soltou seus amigos. Foi até Yrina, que estampava uma preocupação enorme em seu rosto, e a abraçou também.
— Obrigado por tudo, Yrina. Cuida deles aqui um instantinho, tá?
Sem perder mais tempo, ele saltou para fora da redoma.

Glossário:
Mobs — Palavra usada para se referir a monstros dentro do jogo.
Farmar — Vem do verbo em inglês "to farm" (cultivar, no caso estando mais para 'colheita'), e significa conquistar itens ou recursos.
Tryhardar — Gíria que significa tentar fazer algo difícil de maneira intensa e persistente. Vem do termo em inglês "try hard".
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