Show Me Who You Are
6 Talvez seja mesmo interessante eu ficar de olho em você, Allycia.
Notas iniciais

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Austin Moon
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Dor de cabeça do caralho.
Bem feito, Austin. Quem mandou ficar enchendo a cara até o sol nascer na festa de Julie, sendo que às oito da manhã você já devia estar na droga da McKinley?
A festa nem foi grande coisa. Só me lembro de estar perto da piscina, rodeado de mulheres semi nuas, tomando o que seria meu décimo drink naquele finalzinho de tarde. De noite mesmo foi que passou de uma social entre amigos para uma verdadeira party hard. Ethan inventou de jogarmos uma espécie de roleta russa envolvendo as bebidas. Nem preciso dizer que isso não deu muito certo, não é? Era um copo atrás do outro, até que eu já não tivesse mais consciência dos meus atos por estar tão bêbado. Parecia que a energia do povo daquela festa não acabava. Depois, só lembro de ver Julie me acordando – inclusive os outros bêbados que estavam jogados pela casa – e avisando que já passavam das sete da manhã. Nem preciso dizer que tentei sair dali o mais rápido possível, já que meu turno começava exatamente às oito horas. Nem estranhei quando vi que dormi dentro de uma banheira, perto da piscina, enchida com o que parecia ser uma mistura de bebidas altamente fortes e várias espigas de milho cruas também. Não sei o que aprontei durante a madrugada, mas creio que não foram decisões sensatas e normais. Por que tinham espigas de milho dentro daquela banheira, afinal?
Não sei como consegui dirigir até meu apartamento. Eu estava acabado, morrendo de dor de cabeça e cheirando à cachaça. A primeira coisa que fiz quando cheguei foi tomar um bom banho gelado. Eu estava muito sujo, fedendo. Acredite, eu tinha pedacinhos de milho cru em partes do meu corpo que são altamente difíceis de tirar.
Quando constatei que já eram 08:13am, saí voando do apartamento em direção ao meu carro. Minha cabeça estava explodindo e meu humor não estava dos melhores. Assim que cheguei a McKinley, fui direto para a sala de Morian, que me avisou “educadamente” que não deveria chegar atrasado da próxima vez. Ela não foi exatamente rude, pois aquela mulher só faltava lamber o chão por onde eu passava. Ô diretora puxa saco, hein! Confesso que isso ás vezes é até bom e aumenta ainda mais meu ego, mas ás vezes cansa. Mas eu sou mesmo assim. Tem dias que eu quero toda a atenção do mundo, e outros que não suporto nem que me direcionem o olhar. O que é meio tosco, já que sou uma celebridade, sempre vai ter alguém de olho em mim.
Nem procurei por Ethan aqui na faculdade. Não lembro o que aconteceu com ele na casa da Julie. Bom, não lembro nem o que aconteceu comigo direito.
A primeira aula que eu daria seria uma de teatro para uma turma que estava já estava no segundo ano do curso. Eu já estava atrasado pelo menos uns vinte minutos para aquela aula. Assim que entrei no teatro que havia aqui na McKinley – onde eram feitas as apresentações, shows, espetáculos e também algumas aulas práticas -, vi que todos os alunos rapidamente se calaram e sentaram nas primeiras fileiras de frente para o palco. Assim que subi, comecei a falar o básico, do tipo “aqui sou apenas seu professor” e “preciso da minha privacidade”. Tentei falar o menos possível, pois minha cabeça ainda estava explodindo e a voz naquele teatro fazia um eco desgraçado. Eu disse que nas próximas aulas nos focaríamos na improvisação, então mandei eles formarem grupos e fazerem uma cena em que cada frase que um aluno disser, o próximo deverá falar uma frase que rime com aquela que veio antes. Enquanto eles faziam aquele exercício, me sentei em uma das poltronas da platéia e aproveitei para dormir um pouquinho nem que fosse uns trinta minutos. Sim, eu sou um professor muito dedicado e que levo esse trabalho muito a sério, sei disso. Mas não é como se eu gostasse de vir pra cá todos os dias de manhã dar aulas para esse bando de pessoas patéticas. Quando aquela aula finalmente acabou, dei graças à Deus. Bom, uma já foi.
Fui direto para a sala dos professores, um cômodo enorme onde quase tudo lá dentro era branco. Paredes, cortinas, tapetes, mesa, cadeira... tudo. Assim que entrei, vi um Ethan deitado, totalmente torto naquele sofá branco, e sua aparência não era das melhores. Quando me viu, falou com uma voz tão rouca e tão baixa que quase não ouvi.
– Acho que bebi demais naquela festa. – Ele acha? Cara, ele estava pior do que eu.
– Bom, se te serve de consolo, eu acordei com vários pedaços de milho cru espalhados pelas partes do meu corpo. – ele soltou uma risada fraca e sentou-se, totalmente desajeitado, no sofá.
– Conseguiu chegar a tempo para sua primeira vez como professor? – senti um tom de divertimento em sua voz ao dizer aquela frase.
– Não, cheguei vinte minutos atrasado. Aliás, o que aconteceu com você lá na festa?
– Não me lembro de nada. Só de acordar em um dos quartos de hóspedes que há na casa de Julie com uma morena altamente gostosa do meu lado na cama. Minha cabeça dói muito, como se a tivessem usado como aqueles sacos de areia que os boxeadores usam para treinar. Passei em casa rapidinho, somente para tirar aquele fedor de bebida de mim e vim direto pra cá. – após dizer isso, ele levanta e tira de sua mochila –que eu nem notei que estava ali do lado dele- uma cartela de aspirina.
– Ah, me dá um desses agora. Minha cabeça está numa situação igual, ou ainda pior, do que a sua. – após eu dizer isso, ele me lançou a cartela e deitou novamente no sofá, talvez fosse dormir. Sortudo. Fui em direção ao bebedouro que havia ali na sala e engoli a pílula, seguido de goles constantes de água gelada.
Quando já estava saindo daquela sala horrivelmente branca para tentar achar alguma coisa que me fizesse passar o tempo até o próximo sinal, notei que empilhada perto da porta havia uma mesinha completa de revistas de fofoca ou sei lá o que. Mas não foi isso que me chamou atenção, e sim uma revista em especial que tinha minha foto na capa e a matéria em destaque era: “Austin Moon: a prova de que o garoto perfeito existe”. Comecei a folheá-la até chegar na página da matéria e não me surpreendi quando vi que já sabiam que eu estava “trabalhando” em uma renomada faculdade. Ainda na mesma página, me elogiavam e diziam que o queridinho de Hollywood não parava de surpreendê-los, que eu era um poço de bondade e emanava humildade e honestidade, sendo eu o cara pelo qual o pai sempre sonhou em encontrar para sua filha.
Coitados.
A única coisa que faço quando vejo coisas desse tipo é rir. Rir não, gargalhar. Gargalho porque chega a ser hilário o modo como essas pessoas me vêem, de um garoto inalcançável, perfeito. As pessoas realmente acreditam que ainda existem pessoas assim hoje em dia? Pessoas do bem, que realmente fazem coisas sem esperar nada em troca, que também pensam nos outros ao invés de pensar só em si. Será que elas não percebem que é tudo uma questão de imagem? Fico me perguntando o que essas pessoas pensariam se conhecessem o verdadeiro Austin Moon, e não essa marionete que sou hoje em dia. O estereótipo de garoto perfeito criado pela sociedade.
Pensamentos desse tipo me abandonam quando escuto o sinal tocar.
É hora de mais uma aula com o professor Moon. Mas que merda.
Aquele remédio que Ethan havia me dado melhorou um pouco minha dor de cabeça, porém minha força de vontade e meu humor continuavam os mesmos.
Sem ânimo nenhum, caminhei até a sala onde seria minha próxima aula, voz. Por que eu não trouxe meus fones de ouvido? Tenho certeza que alguns alunos devem cantar mal pra caralho. Conheci alguns que tem a voz que parece uma mistura do Scooby Dôo com a Dora Aventureira. Com sorte, minha dor de cabeça está bem melhor, então não será tão ruim assim.
Com graça consegui não chegar atrasado nessa aula. Assim que entrei, a reação que eles tiveram foi a mesma que a dos estudantes de teatro. Calaram a boca, se sentaram e ficaram observando quando eu faria alguma coisa. Já estava começando com o mesmo discursinho inicial que eu falei lá no teatro sobre minha privacidade e tals, quando percebo alguém batendo na porta. Eu poderia não ser pontual, mas na minha aula, todos teriam que ser.
Quando abri a porta, um longo sorriso sarcástico se apoderou do meu rosto.
– Acho que a senhorita está um pouco atrasada, não é?
Era aquela mesma morena que caiu em cima de mim, e que depois quase foi atropelada por mim. Não foi surpresa pra mim quando vi que ela arregalou os olhos e gaguejou. Ela possui grandes dificuldades em falar, certo? E isso irritava.
Ela se sentou e logo comecei a falar novamente minhas regrinhas básicas, como estava fazendo antes de ser interrompido pela aluna gaga e com dois pés esquerdos – só pode ser isso, pois essa mulher vive caindo. Em seguida, comecei a falar em um tom que deixava bem claro a minha felicidade de estar aqui, sobre como devemos cuidar de nossas cordas vocais, qual o limite delas, como obter êxito tentando alcançar alguma nota e demonstrei alguns dos vários diferentes tons que ela pode ter. Todos estavam prestando atenção em mim, menos a gaga manca. Okay.
Me despedi com um tom alegre, pois era realmente bom que eles saíssem dali, e sentei em cima da minha mesa para olhar meu celular, pois vi que havia uma mensagem de Ethan. Quando já ia abrir a mensagem, vi que só havia sobrado eu e minha aluna que tinha sérios problemas ao conversar comigo dentro da sala. Ela já estava levantando da sua carteira para ir embora, mas eu fui mais rápido.
– Antes de ir, eu gostaria de ter uma conversinha com você, minha querida aluna. – o sarcasmo pingava dessa frase.
Vi que no mesmo instante, a garota ficou mais branca do que aquela sala horrorosa dos professores, seus olhos se arregalaram o máximo possível e percebi quando ela engoliu em seco, provavelmente tentando achar uma forma de falar alguma palavra direito. Ela voltou e se sentou novamente em seu lugar, que era no canto da sala na última carteira. O nervosismo era claro em sua expressão. E de alguma forma, isso me divertia.
– Sabe, apesar do meu pouco tempo aqui, pude notar que cada aluno dessa universidade possui um objetivo – falei, enquanto andava até chegar um pouco mais perto da minha nova aluna preferida que exalava medo e insegurança. Bom, eu não sabia se eles tinham um objetivo. Só falei isso porque foi a primeira coisa que me veio a cabeça. – E para chegar a esse objetivo, a McKinley será de grande ajuda e importância para obterem sucesso. Me diga, qual é o seu objetivo?
Talvez essa pergunta tenha pegado a branquela de surpresa, pois na hora ela franziu o cenho e pareceu pensar na resposta. Deu um longo suspiro e finalmente falou, porém com uma voz tão baixa que pensei em pedir para ela repetir.
– A-ainda não sei direito... – gaguejou no começo, mas pelo menos não foi na frase inteira. Pensei seriamente em comprar fogos de artifício para comemorar esse fato épico.
Em nenhum momento ela me encarava nos olhos, o que me faz pensar que no meu rosto havia uma expressão meio intimidadora. Gostei.
– Ainda terá tempo para pensar. O problema é que muitas pessoas usam meios errados para alcançar esses objetivos. Algumas pessoas usam as outras, algumas fingem ser boazinhas quando na verdade há um demônio muito forte preso dentro delas – tá, mas que moral eu tenho para falar disso, mesmo? Com certeza aquele exemplo se aplica a mim – Minha pergunta é se você é realmente desse jeito, ou se está fazendo tudo isso apenas para conseguir chamar a atenção para si. Sabe, cair em cima de uma celebridade causa um tumulto e tanto.
A morena me encarou pela primeira vez. De certa forma, aquela pergunta era meio verdadeira, pois eu não sabia se a personalidade dela era daquele jeito mesmo ou se ela só estava tentando tirar proveito da situação. Porém após ver a expressão da morena, não sei como, mas me pareceu impossível ela fingir, mentir ou até mesmo fazer qualquer coisa de errado. Seus olhos eram tão expressivos e de alguma forma senti que eles me transmitiam somente verdades. Agora só não me pergunte de onde eu tirei esses pensamentos.
– E-eu... n-não... – e lá vai ela de novo com a gaguejeira.
– Por favor, se for ficar gaguejando, é melhor nem tentar falar. – talvez eu tenha sido meio grosso, mas foda-se – Descobriremos com o tempo a resposta. Enfim, eu notei que a senhorita não estava prestando muito atenção na aula. Eu posso saber por quê? – seria ruim se eu dissesse que estava me divertindo com tudo isso?
Ela ficou um bom tempo olhando para baixo, talvez tentando pensar em alguma resposta, não sei. Mas óbvio que quando ela foi tentar falar novamente, a única coisa que saiu foi o som das primeiras letras. Argh.
– Eu estou tentando ter muita paciência com você. – nesse momento, ela olhou, meio que intimidamente, pra mim – Você caiu com tudo em cima de mim, é desligada e quase foi atropelada por culpa somente sua e acredite, você não está ganhando muitos pontos dentro da sala de aula, não – naquele momento, ela ficou mais tensa ainda — Só quero que saiba que eu ficarei de olho em você, querida aluna.
Aquilo não foi nem de longe uma ameaça, mas parece que ela entendeu que era. Talvez eu não tenha usado as palavras certas, mas quem liga?
– Está liberada. Mal posso esperar pelas nossas próximas aulas.
Ela se levantou da carteira e rapidamente já estava na entrada da sala, mas antes de ela sair, a chamo novamente.
– Acabei de descobrir que ainda não sei seu nome, minha aluna.
Torci para ela não gaguejar e formar algum nome que eu consiga entender.
– Ally... cia. – ela disse, e saiu da sala o mais rápido possível.
Allycia, hein.
Não sei por que, mas alguma coisa me intrigava nela. Bom, parece que achei um meio de me entreter pelo resto do ano. Me divertia ver o modo como ela ficava quando tinha que falar comigo.
Talvez seja mesmo interessante eu ficar de olho em você, Allycia.
[...]
Encaro Ethan enquanto espero uma resposta.
Na mensagem que ele havia me mandado, dizia que eu deveria vir para o meu apartamento pois tínhamos que conversar sobre algo sério.
No momento, estávamos na minha sala de estar, eu sentado no meu sofá preto enquanto ele estava sentado em uma poltrona vermelha que havia do lado do sofá.
Ele dá um longo suspiro e logo começa a falar.
– Sei que esse ano eu disse que você iria ficar parado, sem shows, filmes e nem nada, mas acontece que temos que achar um novo compositor o mais rápido possível. Já conseguiu encontrar alguém que saiba pelo menos escrever algumas rimas decentes lá na McKinley?
Eu precisava mesmo de um novo o mais rápido possível. Havia combinado com Ethan de que prestaria atenção nos estudantes para ver se algum nos interessava, mas nem me lembrei disso enquanto estava lá hoje de manhã.
– Cara, eu comecei a dar aulas hoje. Mal tive tempo de conhecer aquele inferno por completo. — respondo, em um tom meio tedioso.
– Okay. — ele faz uma longa pausa, pensa e logo continua — Bom, eu andei pensando em um jeito de encontrar seu novo compositor.
Dou um suspiro antes de perguntar.
– E qual a grande ideia, gênio?
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