Show Me Who You Are
7 Preciso de mais detalhes.
Notas iniciais

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Ally Dawson
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Fico olhando pela janela do carro enquanto vejo as casas e os prédios mudarem rapidamente por outros.
– Me desculpa, mas eu tenho que perguntar. Você é sempre tão quieta assim?
Tiro minha atenção da paisagem urbana de Miami e encaro Katherine. Eu havia aceitado a carona dela para voltarmos pro condomínio juntas, afinal nós duas moramos no mesmo local. O problema foi que desde que entramos em seu Dacia Lodgy cinza, Katherine não parou de falar uma única vez e sempre que ela me perguntava alguma coisa, eu respondia apenas com um sim ou não em um tom meio seco. Fazer com que uma conversa soasse natural e estável não era o meu forte.
– Na maioria das vezes, sim.
A ruiva para num semáforo vermelho e se vira de lado, olhando para mim. Em seu rosto eu podia ver um pequeno sorriso.
– Acho que eu falo demais, não é? Se você quiser que eu fique em silêncio, pode falar. Deve ser por isso que me chamavam de Matraca. Diziam que eu parecia um gravador quando falava. – após dizer isso, ela solta uma risada, como se estivesse lembrando da época onde tinha o apelido, que convenhamos lhe caía muito bem. Depois disso, o semáforo abriu e tudo o que nos restou foi o silêncio.
Acho que eu poderia fazer um esforço. Katherine se mostrou com bastante vontade de se aproximar de mim, e até agora eu não entendi o porque. Talvez ela fosse uma boa amiga, mas nunca saberei se não tentar.
– O que você estuda lá na McKinley? – perguntei a ela, que esboçou um grande sorriso, pela milésima vez naquele dia. Eu estava curiosa para saber o que ela fazia lá, então acabei perguntando.
– Eu estudo teatro. Estou no segundo ano. Falando nisso – ela sempre fazia isso. Você fazia uma simples pergunta e Katherine conseguia prolongar aquele assunto por um bom tempo – adivinha com quem eu tive aulas hoje? – não tive nem tempo de responder, pois ela mesma fez isso – Austin Moon!
A alegria em que ela me contava aquilo era notável. Pena que não compartilhávamos do mesmo sentimento.
Detesto me lembrar do que passei hoje de manhã. Não tem nem como explicar o quão nervosa eu estava naquele momento. Parecia que eu irritava ele. Não posso negar que fiquei surpresa ao ver que ele achava que todo aquele mico que eu paguei era encenação. Ah claro, porque eu amo chamar atenção e ser o centro das fofocas que rolam pela McKinley foi meu objetivo desde que botei o pé lá dentro. E sua missão foi cumprida com êxito, Ally.
Ironia, doce ironia.
Eu só não sabia dizer por que esse sentimento de pânico se apossava de mim toda vez que ele chegava perto. É fato que tenho realmente muitos problemas quando tenho que falar com algum homem ou coisa assim, e gaguejar perto deles faz parte. Mas com o Moon parece que tudo piorava. E não digo isso só porque ele é uma celebridade, ou lindo de morrer. Havia algo a mais. Algo que eu ainda não descobri, mas que me sufocava.
– Também tive uma aula com ele hoje. – a pior aula de todas, acrescentei mentalmente – Você quer ser atriz? – perguntei, tentando logo tirar Austin Moon de nossa conversa.
– Sim. Eu amo atuar e queria ser atriz desde meus treze anos. Sabe, me sinto livre quando estou no palco. É uma sensação maravilhosa. – imaginei que ela estivesse se recordando dessas sensações, pois fixou o olhar em um ponto específico e assim ficou por um tempinho – Mas e você, o que faz na McKinley?
– Bem, eu estudo música. – respondo, de um jeito meio tímido.
– Então no meu carro tenho a próxima Céline Dion? Que honra. – indaga ela, em um tom divertido.
Faço uma carranca e logo trato de respondê-la.
– Primeiro, não serei cantora. Ainda não sei direito em qual área irei entrar, mas tenha plena certeza de que os palcos não são pra mim. – não havia como negar aquilo. Por pior que tenha sido minha aula, o Moon fez com que eu percebesse que eu ainda não havia tomado uma decisão. Eu não tinha um objetivo certo em mente. — E segundo. Céline Dion? Jura? Tenho certeza que se você gosta dela, gosta de My Heart Will Go On. E se gosta disso, é porque gosta de Titanic. E se gosta de Titanic, é porque você chora cada vez que vê aquele filme, por mais patético e enjoativo que ele seja.
Katherine me encarou incrédula depois que eu disse aquilo.
– Você é algum tipo de vidente, só pode. – ri com seu comentário e com a expressão exagerada que havia se formado em seu rosto. – Mas eu terei tempo para fazer com que você mude de ideia a respeito do melhor filme já lançado na face da terra. – balancei a cabeça negativamente, não concordando com a última parte de sua frase – Olha, já chegamos.
Olho pela janela do carro e vejo que já estamos na rua onde fica o condomínio. Katherine vai direto até o estacionamento. Depois de estacionar e trancar o carro, ela e eu pegamos o elevador até nosso andar, que era o vigésimo primeiro. Alto, eu sei. Por alguma razão desconhecida do destino, descobrimos que o apartamento de Katherine ficava na frente do meu. A alegria da ruiva era contagiante. Logo, eu já estava entrando no meu apartamento quando escuto ela me chamar.
– Ally! – o berro foi desnecessário, pois estávamos a menos de cinco metros de distância uma da outra, sendo que a porta do apê dela dava de frente para a minha – Mais tarde, passo aí no seu apartamento, okay?
Nem consegui responder, pois só o que ouvi em seguida foi o som de sua porta batendo. E acabei de perceber que Katherine não pediu permissão para vir.
A primeira coisa que fiz assim que botei os pés dentro do apartamento foi ir direto ao meu quarto, pegando uma roupa confortável e partindo direto para o banho. Eu ainda estava meio tensa pelo desagradável ocorrido hoje de manhã, e senti que conforme a água quente escorria pelo meu corpo, levava junto com ela todo aquele sentimento. Nem sei quanto tempo fiquei embaixo do chuveiro. Vinte, trinta minutos, talvez? Não sei, só sai quando percebi que meus dedos já estavam ficando murchos. Coloquei minha roupa e deixei os cabelos molhados secando naturalmente, soltos. Depois, fui até a cozinha, pois estava morrendo de fome e já eram 04:45pm e eu nem havia almoçado direito. Olhei nos armários e balcões e percebi que preciso fazer compras urgentemente. Ainda não tive tempo de fazer compras ou algo do tipo, e a comida que tenho aqui dura no máximo até esse final de semana. Com sorte, achei um pacote de macarrão instantâneo jogado pelos fundos do armário, junto com outros poucos alimentos que havia ali dentro. Comecei a vasculhar a geladeira a procura de algo para acompanhar, e me surpreendi quando vi um pacote de salsichas no congelador. Olhei no pacote e para minha alegria, aquilo não estava vencido. Logo, tratei de procurar duas panelas na dispensa e comecei a preparar o meu almoço da tarde. E sim, eu como miojo – falar macarrão instantâneo é estranho – junto com salsicha. Problema?
Quando notei que tudo já estava fervido e cozido, peguei um prato e coloquei o miojo e a salsicha. E não, não é nojento. Sentei e quando já havia terminado de comer minha gororoba, a campainha tocou. De começo estranhei, mas logo me lembrei de que Katherine disse que viria pra cá. No final das contas, ela estava se mostrando bem legal e decidi dar uma chance para essa possível amizade. Mas óbvio que minha insegurança ainda existe e vou manter um pé atrás com relação a ela.
Abri a porta e me deparei com uma ruiva de moletom e legging preta. E como sempre, um grande sorriso estampava seu rosto. Eu já estava me acostumando com esse negócio de ela sorrir o tempo todo.
– Não vai me convidar para entrar? – perguntou, divertida.
– Claro.
Dei espaço para que ela entrasse e assim que fez, logo se sentou em meu sofá, pegando o controle remoto e ligando a televisão. Nós já estávamos nesse estágio do relacionamento? Que eu me lembre, nem saímos direito do primeiro.
– O que você faz de bom para passar o tempo aqui? – perguntou, depois de zapear todos os canais e por fim, decidir desligar a televisão novamente, visando nada de bom passando. – Já sei! Nós poderíamos nos conhecer melhor. A única coisa que sei sobre você é que seu nome é Allycia, mas prefere Ally, e estuda na McKinley, onde cursa música. Preciso de mais detalhes.
– Então vamos lá... – falei, enquanto me sentava do seu lado no sofá. Não sou acostumada a me abrir assim, mas poderia tentar – Eu morava em Londres, mas acabei... – nem consegui terminar a primeira frase, pois a ruiva me interrompeu.
– Não esse tipo de detalhe. Quer dizer, isso também é importante, mas eu quero saber primeiramente daquele tipo de detalhe. – falou, dando um pequeno sorriso malicioso.
Demorei um tempo para entender de qual tipo de detalhe ela falava, mas finalmente meu cérebro trabalhou e consegui ler as entrelinhas, depois de dar uma boa analisada na feição que Katherine carregava no rosto.
Oh céus! Ela queria saber da minha vida amorosa e sexual!
Seria errado sem eu redefinisse minhas escolhas e decidir que ficar sem amigos ou qualquer coisa, aqui em Miami, era o melhor para mim?
Pela cara de Katherine, ela não iria descansar até que eu falasse – apesar de não ter nada extraordinário para falar.
Seria uma longa tarde – e talvez noite também.
[...]
No momento, eu estava andando pelos imensos corredores da McKinley, rumo a minha primeira aula do dia. Katherine havia me dado carona e disse que de agora em diante, eu sempre poderia vir e voltar de carro com ela. Não queria abusar, mas com muita relutância, acabei aceitando. Minha conversa com a ruiva ontem até que não foi tão ruim. Lógico que a ruiva ficou decepcionada quando lhe contei dos detalhes que ela realmente queria saber, tanto é que colocou na cabeça que esse ano ela vai arranjar um macho para mim. Tentei de todas as formas contestar, dizendo dos sérios problemas que enfrento quando o assunto tratado são homens, mas ô garota teimosa, hein. Depois, só assisti Katherine falando de seus detalhes. Ela disse que conheceu um cara pela internet e que semana que vem ele estava vindo para Miami para conhecê-la. Não levo muita fé nesse negócio de se conhecerem pela internet, mas a garota parecia extremamente ansiosa pela chegada do homem até nossa cidade. Depois, realmente começamos a nos conhecer melhor, falando de onde viemos, quais nossos sonhos, essas coisas. No final, foi uma noite – ela ficou até 08:00pm lá em casa – bem divertida. E até agora não estou me arrependendo de tê-la dado uma chance.
Um som fez, não só eu, como todos os outros estudantes pararem o que estavam fazendo e focar sua atenção naquilo.
– Atenção, estudantes – dizia a Srª Morian pelos alto-falantes espalhados estrategicamente pelas paredes da McKinley – Quero todos dentro do ginásio em quinze minutos. Há um assunto importante a ser tratado. Não se atrasem.
Assim como os outros alunos, me dirigi em direção ao ginásio. Minha última lembrança daquele lugar não era muito boa, e eu espero que não aconteça nada parecido com o que aconteceu no meu primeiro dia.
Já estava vendo aonde iria me sentar, quando vejo uma cabeleira ruiva acenando pra mim — nada discreta, pra constar — na ultima fileira da arquibancada, a mais alta. Vou em sua direção e me sento ao seu lado.
– O que será que a diretora tem que nos falar que é tão importante?
– Não sei, mas esse lugar não me traz boas lembranças. – resmunguei.
– Ah, é mesmo. Foi aqui que você caiu em cima de Austin Moon. Caramba, aquilo foi hilário... – ela ia continuar falando, mas viu o olhar que eu mandei para ela e na mesma hora parou – Foi mal, Ally.
– Tudo bem, Katherine. Confesso que se você outra pessoa no meu lugar, eu também teria rido dela. – falei, deixando claro que estava tudo bem. Ela suspirou, talvez aliviada.
– Sabe, você pode me chamar de Kath, se quiser.
– Tudo bem, Kath. – depois disso, a ruiva deu mais um de seus sorrisos.
Paramos nossa pequena conversa quando vimos a diretora entrando no ginásio, juntamente com o Moon e um outro garoto moreno, que aparentava ser bem próximo dele.
– Bom dia, alunos – um coro de “bom dia” foi ouvido pelo ginásio – Tenho um grande comunicado a fazer, mas creio que não sou eu a pessoa certa a dar esse recado. – falando isso, a Srª Morian deu o microfone para o Moon, que não enrolou e logo começou a falar o que estava matando todos os estudantes de curiosidade, inclusive eu.
– Bom dia – não foi ouvido só um coro de bom dia, como também vários gritos de mulheres que aparentavam ter uma idade mental igual à de uma pré-adolescente com os nervos a flor da pele – Eu tenho uma grande novidade que com certeza vai animar vocês. Como sabem, sou um cantor – avá! – e mesmo dizendo que esse ano irei ficar parado, nunca posso abandonar meu trabalho. Vou direto ao ponto. Depois que meu antigo compositor saiu, eu e Ethan, meu empresário, – apontou para o moreno que estava do lado dele – começamos uma busca por um novo. – olhei em volta e percebi que nenhum universitário dali conseguia entender onde ele queria chegar. Seu tom parecia animado, mas com uma pequena rachadura em sua pose, percebi que metade da euforia que ele usava para falar era falsa – E bom, agora estou em uma das faculdades de artes e música mais renomada do país, e sei que aqui dentro se escondem grandes talentos, principalmente na área musical. Composição, para ser mais exato.
Onde ele queria chegar com tudo isso, afinal?
Ele percebeu que uma pequena agitação da parte dos alunos se formava e não demorou para continuar e matar logo a curiosidade enorme que crescia em cada cabeça daquele ginásio.
– Eu farei um concurso na McKinley. Qualquer estudante daqui poderá participar. – todos no ginásio prestavam atenção em suas palavras. O silêncio era absoluto, com exceção da voz do Moon. — Um concurso que decidirá quem será o meu novo compositor. — Hãn?
Preciso de mais detalhes.
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