Show Me Who You Are
8 Elas acham que eu sou alguma diva do pop punk?
Notas iniciais

.
Ally Dawson
.
– Não demore para me ligar novamente, ouviu?
– Ouvi, mãe – suspirei, cansada – Agora eu vou desligar. Tenho que acordar cedo amanhã.
– Tudo bem, vou deixar você descansar. Te amo muito, Ally-Gator. Beijos e se cuida. – revirei os olhos quando ela me chamou daquele apelido que ganhei aos doze anos, quando fui visitar um zoológico e um jacaré ficou me encarando de um jeito meio estranho. Parecia que o réptil estava tentando flertar comigo! Óbvio que não deu certo. Seus dentes enormes roubaram totalmente a minha atenção e anularam qualquer chance do bichano poder ter algum tipo de relacionamento comigo.
– Também te amo, mãe. Beijos e prometo ligar para a senhora assim que puder. – e finalizei a ligação.
Eu não havia mais ligado para a minha mãe desde segunda feira, quando fui quase atropelada. Nem preciso dizer que levei um sermão de Dona Penny, dizendo que eu não sei valorizá-la e que quase a matei de preocupação, que eu não atendia suas chamadas e que se ela tivesse um treco a culpa seria totalmente minha.
Coloquei o celular em cima do criado-mudo e rolei pela cama mais uma vez, tentando achar uma maneira de dormir. Eram 11:45pm – minha mãe não se dá muito bem com fuso horários, então como lá na Inglaterra ainda é de dia, ela ligou sem nem perceber que aqui já eram quase meia-noite — e nada do sono chegar. Claro, haviam muitas coisas rondando pela minha cabeça e dormir não era uma delas.
Uma delas era o concurso do Moon.
Isso sim está mexendo comigo. Depois que ele deu esse anúncio, hoje de manhã, prestar atenção nas aulas foi quase impossível. Notei que não era só eu, mas a McKinley toda estava comentando sobre o assunto.
As regras não eram complicadas. Você só precisava apresentar uma música de sua própria autoria, onde também deveria cantá-la, sendo acompanhado por algum instrumento. As audições começariam semana que vem e o próprio Austin Moon disse que escolheria a dedo a melhor composição. Certamente, isso não deixou os participantes mais aliviados.
Bom, pelo menos, eu não fiquei.
Para início de conversa, a remota ideia de entrar nesse concurso nem passou pela minha cabeça. Não passou porque eu tinha certeza de que eu não iria conseguir.
Como, me diz como, cantar na frente de outras pessoas — uma música minha, ainda por cima -, sem travar, gaguejar e acabar pagando o maior mico?
Definitivamente, as palavras Allycia e Palco não combinam na mesma frase.
O pior mesmo é que eu teria que cantar para aquele ser cujo não consigo completar uma frase, se quer, em sua frente. Acho que já me meti em situações bem constrangedoras com ele; e acredite, não preciso de mais uma na minha lista. No momento, o que mais quero é ficar longe do Moon.
Sabe, o ruim mesmo é que essa é uma oportunidade única. Em que outro momento você veria um astro fazendo um concurso, em uma faculdade, para escolher seu novo compositor? É uma chance perfeita.
Talvez se eu, sei lá, trocasse de corpo ou algo do tipo, agarraria essa chance perfeita.
[...]
– Por que, hein? Por quê? A vida é tão injusta! –choramingou Kath, pela milésima vez desde que entramos em seu carro.
Até que as aulas passaram rápido hoje. A Mckinley está uma confusão que só. Também, todos os alunos estão fazendo de tudo para conseguir ganhar o concurso do Moon. Na aula em que tive com Emma, ela tinha me dito que vários alunos a haviam procurado para obter ajuda com os instrumentos. Por sorte, não vi o Moon hoje, e até agora meu dia não está sendo tão ruim.
Bom, tirando o fato de que desde ontem Kath não para de reclamar dizendo que oportunidades assim nunca acontecem com ela, que na área em que ela escolheu jamais apareceria uma oportunidade de trabalhar com Austin Moon e blá blá blá, Nescau Cereal.
– Calma, Kath. Quem sabe o Moon não acaba fazendo um concurso para tentar achar uma parceira para algum filme dele? — falei, tentando animar a ruiva.
– É, quem sabe. — deixou um pequeno sorriso de canto, e agradeci mentalmente por meu lado antissocial estar desaparecendo aos poucos — Você estuda música, não é? — assenti com a cabeça — Por que não entra no concurso?
– Eu?! Não, definitivamente não. Já pensou em toda a atenção que o ganhador receberia? Detesto ser o foco das coisas. Além disso, minhas músicas nem são tão boas assim. — droga, deixei escapar. Quem sabe ela não percebeu?
– Então você compõe, mesmo? — é, ela percebeu — Me mostra alguma delas?
– Desculpa, mas elas são meio pessoais e bom, tenho um pouco de vergonha de mostrá-las a outra pessoa. — abaixei a cabeça quando falei aquela última parte.
– Ally, não precisa ter vergonha de mim. Somos amigas, não somos? — assenti e dei um leve sorriso — Não vou te forçar a nada. Mas se for mostrar suas músicas para uma pessoa, eu terei que ser a primeira, ouviu? — tentou fazer uma voz séria, mas acabou rindo no final. Ri junto com ela.
A cada dia que passava, Kath e eu nos tornávamos cada vez mais próximas. E olha que não faz nem uma semana que a gente se conheceu, mas já estou adquirindo um carinho muito grande pela ruiva.
Chegamos ao Jambalaya — não sei se já mecionei o nome dele antes e sim, o nome do nosso condomínio é horrível, eu sei -, Kath colocou seu Dacia Lodgy no estacionamento e rapidamente já estávamos no elevador, rumo ao vigésimo primeiro andar. Me despedi de Kath e logo entrei em meu apê, jogando minha mochila em cima do sofá enquanto ia a cozinha, beber um pouco de água gelada. Em Londres, o tempo vivia nublado, quase sempre acompanhado de uma garoa. Aqui em Miami, é sol direto e ainda não me acostumei muito bem com a mudança drástica de clima.
Agora eram 04:45pm, então decidi tomar um banho rápido, de água gelada — esse calor nos faz derreter! Desfiz o coque que havia feito durante a aula de História da Música, tirei minha roupa e logo entrei embaixo da ducha, sentindo todo o calor saindo de dentro de mim. Depois de uns dez minutinhos, desliguei o registro e peguei minha toalha, me secando em seguida. Parei para observar a imagem de meu corpo refletida no espelho de corpo inteiro que havia dentro do banheiro. Sempre fui insegura com quase tudo relacionado a minha volta, mas meu corpo era uma das poucas coisas que não se encaixavam nessa lista. Claro que eu não era 100% feliz com ele, mas não tinha do que reclamar.
Saí enrolada na toalha e fui direto até meu guarda-roupa, tirando de lá um macaquinho confortável e um tanto quanto curto, mas como eu só iria ficar em casa mesmo, não tinha problema. Fiz um coque frouxo e andei até o outro lado do cômodo, onde, no chão, notei que se encontrava Aquiles, meu violão. Eu nem lembrava que o havia trazido. Tenho Aquiles desde que me conheço por gente, e foi uma das melhores coisas que já ganhei. Ele estava um pouco velhinho, mas ainda assim continuava lindo. A madeira clara era toda trabalhada, o pequeno relevo que se formava por causa das folhas e flores que eram desenhadas ao redor do violão o deixavam com um ar mais rústico. O peguei e fui até minha cama, sentando na beirada com o violão no meu colo. Fiquei pensando em qual música tocar, mas nenhuma vinha à minha cabeça. Levantei e fui rapidamente até a sala, a procura de minha mochila. Tirei de lá de dentro meu diário e voltei ao quarto, me sentando novamente na minha cama. Deixei o diário aberto ao meu lado, em uma página que continha uma música que eu havia feito no ano passado. Dedilhei as primeiras notas e logo comecei a cantá-la.
– Living in a city of sleepless people; Who all know their limits and won't go too far; Outside the lines; 'Cause they're out of their minds; I wanna get out and build my own home; On a street where reality is not much different; From dreams I've had; A dream is all I have - cantei a primeira parte, me lembrando perfeitamente da época em que a escrevi. Foi logo após minha formatura, quando tudo o que eu queria era poder ir atrás do meu sonho e seguir a carreira musical. Puxei o ar e cantei a parte que era o refrão — Daydreaming, daydreaming all the time; Daydreaming, daydreaming into the night; Daydreaming, daydreaming all the time; Daydreaming, daydreaming into the night, and I'm alright. - o sorriso que eu tinha no rosto rapidamente desapareceu quando vi Katherine, na porta do meu quarto, com um sorriso maior do que seu habitual.
– Mas o que você está fazendo aqui?! — perguntei, talvez um pouco exaltada demais — Como você entrou?!
– Nossa, é assim que você me recebe? — perguntou Kath, fazendo uma falsa voz de indignação, mas no fundo rindo.
– A quanto tempo você está aqui? E como entrou? — já havia me levantado e ido até a porta de meu quarto, onde ainda se encontrava Kath.
– Bom, eu não tinha nada para fazer em casa, então decidi vir aqui. Bati acho que umas cinco vezes na sua porta, mas você não atendia. Então simplesmente entrei. — ela explicou aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo ir entrando na casa dos outros assim, só porque a pessoa não abriu a porta — E eu estou aqui a tempo suficiente de ouvir você cantando. Ally, sua voz é linda! Por que mesmo você disse que eu nunca te veria num palco? Porque, garota, talento você tem de sobra. — falou e entrou no meu quarto, sentando na minha cama. Foi o tempo de eu ir fechar a porta do quarto e me virar para ver que Katherine estava com meu diário na mão, lendo minha música.
Corri até ela e tirei o caderno marrom de suas mãos antes que lesse demais. Haviam coisas muito pessoais ali dentro, e minha vida não é um livro aberto.
– Acho que a senhorita já viu demais por hoje. — a cortei.
Me sentei ao seu lado na cama e me preparei para o possível interrogatório que Katherine começaria a fazer...
– Você que compôs aquela música?
...agora.
– Sabe, eu nunca tinha escutado uma música com aquela letra. E também, no final da página em que continha o restante da música, vi seu nome assinado.
Suspirei.
– Okay, fui eu que escrevi. — me rendi, e logo vi o enorme sorriso de Kath.
– Você precisa entrar nesse concurso, Ally. Caramba, sua voz é linda e essa música ficou incrível! Tenho certeza que dentro daquele caderno existem mais composições tão boas quanto aquela.
– Obrigado, Kath — sorri verdadeiramente ao ver que a ruiva era sincera ao dizer aquelas palavras — Mas não é tão fácil assim.
– Por que não? — indagou Kath.
– Bom, como vou explicar... — me enrolei um pouco, soltei um suspiro e finalmente falei — eu tenho pânico de palco.
– Pânico de quê? — perguntou Kath, que pelo que pude ver, estava bem curiosa.
– É uma fobia. Eu não consigo subir em um palco sem que eu trave, sem me enrolar, sem gaguejar. Também é por causa dessa fobia que eu não gosto de chamar atenção. Parece que as pessoas estão me julgando o tempo inteiro. É como se, quando eu estou em um palco ou algo parecido, as paredes se fechassem sobre mim. Minha respiração fica pesada e minha voz parece que some da minha garganta — olhava para baixo enquanto falava. Já estava esperando uma onda de risadas de Kath, dizendo o quanto meu medo era bobo, mas ela simplesmente me abraçou. E eu correspondi.
– Desculpa, Ally. Eu não sabia. — falou, com a voz um pouco mais baixa que o normal.
– Tudo bem, Kath. Até que eu melhorei, sabe? Teve uma vez, em uma apresentação da quarta série, em que eu vomitei no colega do meu lado. Ainda me lembro do garoto chorando e de mim, querendo que um buraco no chão abrisse e me engolisse, só para não ouvir as risadas que vinham da plateia.
– Meu Deus, isso é horrível. — exclamou Kath — Mas você melhorou? Como assim?
– Se qualquer pessoa tivesse entrado por essa porta enquanto eu cantava, eu provavelmente surtaria. Eu tenho tentando quebrar essa barreira de medo que construí em cima de mim, mas acredite, é difícil. — disse, encarando meu diário, que estava no meu colo. Notei que Aquiles estava agora no chão. Provavelmente caiu da cama quando me levantei as pressas até Kath. — Esse medo já me privou de muitas coisas, sabe.
– Como, por exemplo, de participar do concurso do Moon? É por isso que você não vai entrar, Ally?
– É. — disse, por fim.
– Mas não há nenhuma chance, por menor que seja, de você participar? — por que ela estava insistindo naquilo?
– Só se meu nome não fosse Allycia Dawson e eu trocasse de corpo. — respondi, dando uma pequena risada no final. — Mas agora, vamos encerrar esse assunto. Então, já que está aqui, o que vamos fazer? — perguntei, a fim de tentar expulsar o pensamento de que se eu participasse do concurso, talvez ganharia. Uma completa tolice.
– Que tal uma maratona de Two and a Half Men? — perguntou Kath, enquanto vasculhava a escrivaninha que tinha do lado da minha cama e apareceu com um box com a terceira e a quarta temporada completa.
– Pode ser.
E assim ficamos até o final do dia. Eu e Kath na sala, sentadas no meu pequeno sofá com uma bacia de pipoca no colo, enquanto na televisão, a série passava e trazia uma onda de risada de ambas nós duas.
[...]
A sexta-feira chegou para o agrado de todos.
Nesse dia, mal havia falado com Kath. Ela estava meio estranha desde nossa conversa de ontem, mas não dei muita bola. Depois que passamos pelo portão em direção a primeira aula, não vi mais a ruiva. Hoje também tive aula com Emma, mas acontece que até ela estava um pouco estranha. Não que eu a conheça muito bem, mas sei lá, ela parecia meio ansiosa. Fora isso, as outras aulas foram meio massantes. É incrível como alguns professores conseguem transformar a música, uma coisa que eu amo, em um assunto totalmente tediante.
E se você está se perguntando onde o professor Moon se encontra, para minha alegria, a única aula que tive com ele foi aquela na terça-feira. Uma aula com ele por semana está bom. Uma aula onde Allycia fica toda nervosa por semana está bom.
Agora, eu estava aqui na frente da McKinley, tentando avistar o carro cinza de Kath.
Sinto meu celular tocando dentro da minha mochila e não demoro para pegá-lo. Era a ruiva.
– Ally, será que você poderia ir de ônibus pra casa hoje?– perguntou Kath. Ela provavelmente deveria estar em algum lugar com bastante multidão, pois escutei várias vozes ao fundo.
– Claro. Aconteceu alguma coisa?
– Não. Mais tarde, eu passo no seu apê, okay? Tenho uma surpresa que tenho quase certeza que você vai gostar.
– Como assim "quase"? — perguntei, um tando receosa. Oh céus, o que aquela cabeça de fogo estava aprontando?
– Você vai ver. Mas enfim, te vejo daqui a pouco, branquela. — finalizou a ligação rindo.
Ao mesmo tempo em que estava morta de curiosidade, também estava com um pouco de medo. Apesar de nosso pouco tempo juntas, percebi que Katherine poderia ser bem louca quando quisesse. Às vezes isso era uma coisa boa, mas às vezes nem tanto.
Sumi com esses pensamentos quando vi que o ônibus já estava quase chegando. Acenei para ele e não demorei para subir, não me importando muito em escolher um lugar decente para sentar. Assim que chegou meu ponto, desci e logo já estava na entrada do Jambalaya, pegando o elevador e indo direto para o meu apartamento.
Hoje o sol resolveu que não iria nos dar uma amostra grátis do inferno, então não fez aquele calor desgraçado. Deixei para tomar banho mais tarde, indo direto para a cozinha e me lembrando que esse final de semana eu deveria ir urgentemente em um mercado. Comi rapidinho uma maçã verde que tinha na fruteira e voltei para o meu quarto, sem saber mais ou menos o que fazer. Eu sempre quis morar sozinha, ter liberdade e tal. Só que às vezes, o apartamento fica num silêncio, uma solidão... pior é quando você não tem nada para fazer. Deitei na minha cama e coloquei os fones de ouvido, clicando em uma playlist qualquer do meu celular. Fiquei escutando algumas músicas até sentir a circular do sono chegar.
Eu estava em uma soneca tão boa. Até que sinto alguém me chacoalhando pra lá e pra cá.
– Mas o que...? — indaguei, enquanto abria os olhos e via uma cabeça de fogo em minha frente, com um sorriso meio que culpado.
– Se você vai me perguntar novamente como entrei, por favor, poupe sua saliva. Basicamente, eu bati na porta de novo por umas cinco vezes e você não atendeu. — se é folgada? Nem um pouco.
– Você não pode ficar entrando na casa das pessoas assim, sem mais nem menos.
– Claro que posso. Fiz isso duas vezes hoje. — ai, Meu Deus.
– Não vou nem tentar discutir com você porque já vi que não vai adiantar nada. — suspirei, vencida.
– Agora, levanta dessa cama, vai no banheiro, tira essa remela do olho e arruma essa cara amassada! — disse mandona — Anda! E não demora, viu? Tenho certeza que você vai querer ver qual é a sua surpresa.
No fim, ela tinha razão. Depois de lavar o rosto, fui até a sala e me surpreendi ao ver Emma sentada em meu sofá ao lado de Kath, conversando com a mesma. Pigarreei e fui até perto do sofá.
– Emma? — perguntei, abrindo um sorriso. Era incrível o modo como eu havia me apegado a ela.
– Ally, querida. — veio na minha direção e me deu um curto abraço, do qual correspondi. Ela apontou para o sofá e me sentei ao seu lado, ficando no meio das duas.
– O que faz aqui? — perguntei, não em um tom rude, mas sim surpreso. Não esperava que minha professora estaria em minha sala conversando animadamente com minha quase melhor amiga. Estranhei um pouco a aproximação das duas, mas deixei quieto por enquanto.
– Bom, surpresa! — Katherine falou, apontando para a ruiva com cabelos curtos ao meu lado. Confesso que imaginei várias loucuras, mas era bom ter Emma aqui em casa. — Gostou?
– Claro. É ótimo receber uma visita sua aqui em casa, Emma. — falei, olhando para minha professora. Em seguida, virei minha cabeça para o outro lado, para encarar Kath — Só que, bem, você é você, então imaginei que seria alguma loucura ou algo do tipo. Seu tom havia me dado um pouco de medo pelo telefone, sabia? Imaginei tanta bizarrice. — falei, rindo em seguida.
– Acontece que a surpresa não é só isso. — Kath disse e em seguida, apontou para uma pilha de sacolas, que até agora eu não havia percebido, perto da estante onde ficava a televisão. Mas não era só uma ou duas sacolas. Eram umas vinte! Sem exagero!
– Por favor, não me digam que vocês assaltaram um shopping e agora a polícia está atrás de vocês. — perguntei.
– Claro que não, branquela. — Emma e Kath riram — Eu só chamei sua professora Emma para fazermos umas comprinhas.
– Na verdade, essas coisas são para você. — Emma disse e eu arregalei os olhos.
– O quê? Meu Deus, mas é muita coisa!- falei, ao ver o tanto de sacolas que estavam acumuladas no chão da minha sala — E por que compraram tudo isso? — falei, relutando. Eu não necessitava daquilo. Estava muito bem do jeito que estava.
– Quer parar com isso, sua ridícula? Pelo menos olhe o que tem dentro das sacolas. — Kath insistiu. Me dei por vencida e fui até o chão, onde estavam todas as sacolas, de variadas formas e tamanhos.
Okay, se elas compraram aquelas coisas para mim, elas certamente não me conhecem. Na primeira sacola que abri, tirei de lá de dentro uma blusa preta toda rasgada, com algumas caveiras em rosa. Na outra, uma gargantilha que mais parecia uma coleira de cachorro. Um par de botas rosa, com um salto enorme, cheio de spikes. Vestidos pretos, meio góticos. Calças rosa e roxa xadrez. E mais coisa de caveira. E mais coisa com spike. E mais rosa. E mais nada-a-ver-com-a-Ally.
Elas acham que eu sou alguma diva do pop punk?
– Creio que essas roupas não fazem muito meu estilo. — falei, fazendo uma pequena careta enquanto segurava um sutiã preto coberto de spikes.
– Kath, que tal contarmos da verdadeira surpresa para a Ally? — falou Emma, lançando um sorriso cúmplice para Kath. Sentada no meio daquelas coisas, comecei a perceber que estava tudo muito normal para poder ter o nome de Katherine no meio. A loucura daquilo tudo começava a aparecer. Encarei Kath, esperando uma resposta.
– Tudo bem, mas não fique brava comigo, okay? Eu contei para Emma do seu pânico de palco. — eu já ia começar a falar, quando ela me interrompeu — Por favor, me deixa terminar. — assenti com a cabeça enquanto olhava as duas sentadas no sofá. Esse assunto não estava tomando um rumo legal — Ally, depois que você me falou sobre aquilo, eu fui procurar por Emma, já que você sempre falava dela e bem, ela entende de música muito mais do que eu. Depois que eu contei tudo, Emma ficou com a opinião igual a minha sobre esse assunto. Nós duas achamos que você deveria sim participar do concurso. Você é muito talentosa e possui grandes chances de ganhar.
Processei aquela informação e me levantei, um pouco irritada. Por que ela fez isso?
– Kath, você não tinha esse direito. Você foi umas únicas pessoas com a qual me abri sobre aquele assunto. Não é algo que eu me orgulhe e que comece a contar pelos quatro ventos. — falei, passando as mãos pelos meus cabelos. Seria tão difícil assim ela entender?
– Ally, — dessa vez, Emma me chamou — eu sei o quanto é difícil para você. Também sei que não tenho direito nenhum de me meter, mas lembra do que eu havia te dito quando tivemos nossa segunda aula juntas? — franzi o cenho — Se você precisasse de qualquer coisa, que não hesitasse e viesse me procurar — busquei na minha memória e me lembrei nitidamente daquele momento. O momento em que senti um carinho enorme por ela — Aquilo que eu falei naquele dia era verdadeiro. Não precisa ter medo ou vergonha de mim — soltei o ar, que nem sabia que estava segurando. Aquela situação estava começando a me assustar — Enfim, hoje cedo, Katherine me procurou pela McKinley e me mostrou um papel onde continha a letra de uma música. A letra de sua música Daydreaming. — arregalei os olhos para Katherine. Como ela havia conseguido pegar a letra? Como se lesse meus pensamentos, Emma respondeu a pergunta que me fiz mentalmente — Bom, ela arrancou a folha do seu caderno.
– KATHERINE! — chamei a atenção da ruiva.
– Desculpa, Ally! — Kath falou, encolhendo um pouco os ombros.
– Olha, eu não sei por que vocês duas estão fazendo isso. Nem sei por que vocês compraram todas essas coisas. Eu só não quero que fiquem invadindo meu espaço pessoal dessa forma. Eu já disse pra você que não vou participar do concurso, Katherine! Sem chance. — falei, tentando enfiar aquilo dentro da cabeça dela.
– Mas e se eu te dissesse que eu sei como você vai poder cantar e participar sem ter um ataque? — falou Katherine. Do que ela estava falando?
– Acho que eu já te disse que isso só aconteceria se meu nome não fosse Ally Dawson e se eu trocasse de corpo. — falei a frase que já repeti para Katherine nem sei quantas vezes.
Katherine se levantou do sofá, foi até uma das sacolas e de lá de dentro, tirou uma peruca loira com quadradinhos cor-de-rosa que eu ainda não havia visto. Veio até onde eu estava de pé e ficou na minha frente, me entregando a peruca. Peguei-a e arqueei uma sobrancelha.
– Exatamente, Ally. — disse Kath. Mas, o que ela quis dizer?
Espera!
Não!
Ela não pode estar falando sério!
Fale com o autor