Show Me How To Breath
4 Lets Go For A Walk Honey
Notas iniciais
Minha respiração enganou-me, após uma grande inspirada senti o ar passar por minhas narinas e logo depois faltar, não conseguiu repetir o gesto. Pensei que pudesse ser apenas a voz de uma velha, que minha mente transformara em uma voz juvenil parecida com a de meus pesadelos que não era capaz de me recordar a cada manhã. Meu pescoço falhou ao tentar, sem qualquer coragem, virar e encarar o dono das cordas que emitiram aquela exclamação. O silêncio que se seguiu fez com que eu quase me permitisse a soltar um suspiro de alívio pensando, talvez, que aquilo não passara da obra de uma fértil imaginação, e uma noite agitada imaginando meu primeiro dia de aula naquela cidade. Mas seria muito presunçoso e minha parte também pensar que no meio daquela multidão uma voz um tanto familiar estava falando comigo. Era eu versus a teoria da probabilidade, e numa das cidades com a maior superpopulação do mundo, quem sabe não sairia vitoriosa?
— Ora essa, e eu pensando que você era a perfeita simbologia da educação.
Meu coração palpitou tão fortemente que por reflexo levei as mãos ao peito, uma tentativa de não deixá-lo pular para fora de meu corpo. Este súbito de adrenalina deu-me coragem e força suficientes para que eu conseguisse me virar em direção daquela voz, que ao se mostrar presente e não obra de minha imaginação como antes torcia para que fosse, retirou qualquer dúvida que havia em minha mente. Ela já tomara parte de alguma conversa em minha vida, e cri que não era uma situação na qual eu fazia questão de me lembrar.
— Olá! – Disse a boca sorridente ao me virar.
Não me importei em retribuir o gesto de afeto. Realmente o motivo de calafrios e suspiros de repugnância por minha parte estava bem ali, bem na minha frente. Seu cabelo havia mudado, algumas mechas verde-limão se destacavam em meio ao cabelo negro e raízes loiras, todo o conjunto brega e proposital, e pela intensidade do verde ao fazia muito tempo desde que ela pintara o cabelo. Sua maquiagem era ridiculamente pesada para andar no centro em pleno dia de semana.
— Ahm... Naubi – Disse despreocupada sem que eu tivesse perguntado nada.
Com a minha demora para raciocinar se ela havia me xingado de algo pensei que ela duvidava de minha sanidade mental, tanto quanto eu havia certeza da apresentada por ela.
Ela suspirou.
— Meu nome... Naubi. – Ela disse lentamente criando um efeito de escárnio – Você está bem?
Não está nada bem, só se for para você, garota da áfrica vestida de oncinha Pink. Ou era algo assim que minha mente elaborava e pedia para que eu respondesse, mas pelo contrario, e com certeza, sendo uma resposta muito mais esperada de minha parte eu fiquei em silencio fitando-a com um biquinho, como uma criança de cinco anos. Fiz a tabuada do oito mentalmente, como eu aprendi em um CD para crianças, tentando fazer com que meu sangue esfriasse.
— Estou bem – Foi o que pude responder.
Cogitei seqüestro e homicídio numa pequena lista de possíveis conseqüências daquela conversa, aparentemente amigável. Eu não seria tola, as incensáveis palestras do ginásio sobre não abrir a porta ou falar com estranhos haviam de ser úteis para alguma situação.
— Hm, e seu nome é...?
— Amuro – Disse sem pensar.
Mas o que era aquilo ? Nunca havia sido tão irresponsável na minha vida, dizendo meu nome a estranhos. Impossível, se minha mãe tomasse consciência do quanto eu fora imprudente, ela simplesmente me deserdaria, e realmente eu não gostaria que isso acontecesse, sempre costumei pensar que essa era uma das únicas utilidades que haviam nela, mas ainda duvidava que algum metro quadrado seria dedicado a mim em sua herança. Voltei de meus rápidos devaneios para o fato de como aquela estranha mal-vestida possuía um certo, e completamente inconveniente, poder de influencia sobre mim. Aquilo não significava algo bom.
— Vamos esclarecer umas coisas – Ela começou – Você está perdida, Tókio é cheia de travessas e becos os quais você não encontrará neste mapinha – Ela apontou para o mapa amassado em minhas mãos – E não conhece absolutamente ninguém útil neste momento para te ajudar.
Fiz uma careta, confusa, me perguntando onde ela queria chegar com aquele discurso.
— Eu posso levá-la para casa.
Minha mente fez um barulho como naqueles animes bobos da tevê, do tipo “Ting”. Me perguntei quantos deslizes seriam aceitos por minha mãe. Eu precisava de ajuda, realmente não conhecia ninguém á quem recorrer, minha mãe desconhecia as facilidades de um celular, e o quanto eu era ridicularizada por não possuir um. No final eu sabia que aceitaria aquela ajuda, mas meu orgulho vencia meu desespero, e não cederia tão facilmente.
— Sem chances – Dei de ombros.
Ela sorriu, provavelmente já esperando aquela resposta.
— Então, adeus, e muito bom revê-la senhorita...
— Isushida Amuro – Disse emburrada por ter tido meu nome esquecido.
Naubi virou-se, desaparecendo por ultimo o canto de sua boca, que estampava um sorriso de futura satisfação, e que esboçava seu divertimento com a situação. Levei uma cotovelada de um dos pedestres, aquilo havia me acordado, e suspirando, lamentando minha fraqueza corri por entre a multidão atrás da garota. Finalmente algo bom daquele cabelo horrendo, ele realmente chamava atenção.
— N. Naubi !- As palavras saiam um tanto distorcidas em razão da altura com que gritava e de minha coordenação motora.
Ela fingiu não ouviu o meu implorar, sabia o que eu queria. Seus músculos se contraíram e relaxaram em períodos de tempo não ritmados, provavelmente rindo, comemorando a vitória e a certeza. Xinguei-a internamente por seu desrespeito quanto à mim. Acelerei o passo tentando me aproximar dela, e ao fazê-lo, após receber alguns hematomas por me debater entre a multidão apressada puxei-a pela gola esperando te-la enforcado ao menos minimamente.
— Pare ! – Gritei
Ela apenas repuxou mais a boca num sorriso mais largo do que o anterior.
— Amuro, não é? – Não tive tempo de responder, imaginei, portanto, ter sido uma pergunta retórica. – Você me surpreende cada vez mais, está agarrando pessoas desconhecidas no meio da rua. Isso não pode ser considerado muito simpático de sua parte.
— Simpático ? – Repeti — Como se você entendesse o conceito de simpatia sendo a pessoa que eu já conheci que mais o ignora.
— Sei... – Ela vez uma expressão estranha – Agora podemos ir ?
Apenas assenti, não havia motivos para continuar aquela discussão, e se aquilo foi notado por ela, para mim, a simbologia da imaturidade, eu não seria a ridícula a fazê-lo. Segui-a de cabeça baixa, com medo demais para olhar para seu rosto, ou encabulada suficiente. “Não manter contato visual”, repetia a mim mesma pensando nas palestras de autodefesa. Rezei para aquela perda de tempo assistindo às palestras ao invés de estudar servisse para alguma coisa uma vez na vida.
— Acorda garota! – Ouvi a voz demoníaca gritar.
Levantei a cabeça lentamente encontrando sua face e logo, sem qualquer vergonha, desviei-me como por reflexo encarando seu queixo.
— Chegamos.
Suspirei aliviada por um milésimo de segundo. Aquele tempo me pareceu anos, talvez milênios, onde o doce aliviar da palavra “casa” transformou-se em algo amargo consolidando em meus ouvidos como um cimento, incapaz de processar a informação. Onde havíamos chegado? Não me lembrava de momento algum em que havia dito a ela o endereço de minha casa e apenas uma palavra se deixava fluir por minha circulação, tencionando meus músculos. Seqüestradora.
Nunca me foi permitido aprender ou conviver com qualquer palavra de baixo calão, mas naquele minuto forcei para lembrar-me de todos que já ouvira em todo o decorrer de minha vida.
— O... Onde chegamos?
Encarei a estreita porta gradeada e cinza, ao seu lado, uma pequena caixinha com alguns pares de botões. Forcei meus olhos discretamente tentando decifrar os números em branco apagados pelo tempo. Minha distração foi a forma infantil que encontrei para ignorar o tremor de minhas pernas. Tentei não pensar que provavelmente logo depois daquela porta estaria minha ultima residência e meu fim. Minha mãe nunca pagaria o resgate, perda de dinheiro, fazer uma nova filha melhor criada seria um melhor investimento.
- Você nem sequer disse o endereço de sua residência, além de parecer extremamente tensa no meio de tanta gente. Então imaginei que o meu apartamento seria o melhor lugar para relaxar e pensar em como chegar à sua casa. – Disse ela abrindo a porta.
Não havia um corredor como uma entrada qualquer de prédios. Ao darmos cerca de dois passos já nos deparamos com a escada em espiral. Subimos dois lances de escada, ela sempre à frente, virando-se à cada três degraus para se certificar de que eu não fugira, ou não havia sofrido uma concussão como quase ocorrera quando cai nos no primeiro degrau, culpei meu excesso de nervosismo.
Agarrei-me no corrimão da escada ao chegar em seu apartamento, preparada para fugir dali o quanto antes.
- O que está fazendo Amuro? – Perguntou ela segurando a porta semi-aberta.
Não consegui lembrar-me do momento em que lhe dei tanto intimidade para me chamar pelo primeiro nome, aquilo fez meu sangue subir.
- Nada – Respondi engolindo as outras respostas que desejavam sair em seguida.
Ela deu um olhar torto e desconfiado, suspirou e se voltou para a porta. A segui. Passando pela porta podia-se ter uma idéia geral do pequeno apartamento, a cozinha e a lavanderia e a sala não eram separadas por nehuma parede. Uma porta no final à direita indicava a existência de uma suíte. Perguntei-me como alguém consegue morar em um local tão pequeno sem ter diárias crises de claustrofobia, principalmente pois as paredes era de concreto sem nenhuma cor, dando uma aparência de sujeira constante.
Sentia como se minhas pernas não fossem possíveis de me sustentar. Soltei um gemido agudo como um freio repentino, isto e o bater de meus dentes alertara Naubi de meu estado. Ela virou-se passando de um sorriso zombeteiro para uma expressão que mostrava certa confusão. Quando pensei que meu esqueleto finalmente havia cedido à uma de suas funções, sustentação, eu já me encontrava no sofá vermelho encardido. Minha cabeça tombou para trás, finalmente a tensão de toda a mudança estava me atingindo, mas não era preciso ali, nem naquela hora, não com aquela companhia. Meu enjôo ocupou minha mente para que não se preenchesse com a vergonha. “Aqui não”, minha cabeça ecoava, temi ter dito isso em voz alta.
- Amuro relaxe. – Naubi sorria para mim agora, um sorriso insondável, nele escondia mais do que parecia mostrar.
Ela sentou-se ao meu lado empurrando-me para que eu deitasse no espaço ao meu lado que o sofá fornecia. Levantou-se novamente e se postou ao meu lado. Senti cada célula de meu corpo ficar tensa, isso despertou em sua face um estranho entusiasmo que não era por mim esperado. Naubi apoiou o joelho direito ao lado de minha cintura e jogou o reto do corpo para o outro lado, apoiando o esquerdo do mesmo modo, gotas de suor começaram a brotar de minha testa densas e salgadas, eu estava indiscutivelmente presa.
Notas finais
Digam o que estão axando, reviews ÚTEIS me alegram ^^.
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