Show Me How To Breath
2 Falling Down Is Not The Best Feeling
Notas iniciais
RECOMENDO LER ESTE CAPÍTULO COM A MUSICA : Paint It Black - Rolling Stones
Como se meu corpo tivesse sido tomado pela razão, finalmente despertada de meus devaneios, a sensatez assustou-me e por este motivo uma onde de reflexos subiu pelas minhas veias, fazendo-me saltar no assento. Isso ou a turbulência que se seguiu ao anunciar o pouso um uma das cidades que o vôo faria escala. O que eu estive pensando? Sentindo tanta admiração por uma pessoa desconhecida.
O tempo que passei me distraindo com as pequenas pessoas correndo de um lado para o outro ao pousarmos foi interminável, porém, pelo que pareceu, muito bem ocupado, já que a surpresa fez com que meu coração gelasse no momento em que virei para espiar minha companhia. Ela já não mais se encontrava ao meu lado. Decepção? Alivio? Todos estes sentimentos passaram pela minha mente até me lembrar que... Ela iria para Tókio, assim como eu. Encarei o estofado do assento se dilatando, não fazia muito tempo que havia deixado-o. Virei-me iniciando uma caçada de sucesso imediato. Ela se encontrava ao lado de outro, talvez igualmente desconfortável com sua presença. Ao meu lado sentou-se um velho carrancudo que fez questão de ignorar meu simpático sorriso de: Espero que tenhamos uma boa viajem. Ao menos não precisaria pensar na conversa adequada até o fim da viajem.
Enquanto o barulho das hélices do avião bimotor começavam a girar, tremendo todo o seu interior, dei-me por diversão tentar adivinhar a profissão do homem ao meu lado. Não seria acionista, era muito velho, e eles geralmente se aposentam aos quarenta, pois além disso morreriam de infarto. Notebook, bips, celulares... talvez um empresário, imobiliário.
O tédio novamente se seguiu, invadiu minhas veias como um veneno amargo. Olhei para frete tentando encontrar uma nova distração, encontrei-a no bolsão à minha frente, o cartão de regras e instruções para passageiros. Não tenho total idéia de quanto tempo passei lendo, porém ao cansar-me daquilo conclui que, se aquele fosse um teste para ser aeromoça, seria melhor esquecer os belos uniformes. Então, mais uma vez me encontrei observando minha antiga vizinha de poltrona, mesmo odiando, mesmo repugnando tal ato. Como desculpa para minhas ações, usei de muleta o simples fato de que, como uma criança, eu desejava explorar e entender o desconhecido, no caso, aquela bela imagem de mulher.
-Tripulação pouso autorizado.
Meu coração pulou em dobro, feliz por estarmos chegando, porém sabendo que assim teria de agüentar todo aquele processo de descida novamente. Fechei meus olhos. Fora tudo mais rápido do que pensei que pudesse ser, ou seja, terra firme. Sabia que ao atravessar aquele tubo espelhado, muito mais elegante do que o de minha cidadezinha, estaria dando o primeiro passo para um novo episódio em minha vida, e tudo mudaria dali para frente.
-Senhorita, você está atrapalhando os outros passageiros- Disse a aeromoça ao meu lado.
Olhei para traz com um tanto de receio, todos os outros passageiros olhando-me com desprezo, e no meio deles, a jovem camaleão. Conclui que era melhor sair dali correndo já que era a primeira e estava prendendo a todos. Passei pelo túnel sem olhar para os lados, ou para traz. Nota mental, andar de avião... Apenas com crachá de menor desacompanhada. Dei uma ajeitada no cabelo tentando parecer mais apresentável para minha mãe, enquanto esperava minha bagagem no meio de todas aquelas malas. Desisti de tentar parecer mais bonita não muito depois que coloquei esta idéia na cabeça, não melhoraria muito mais do que aquilo, no máximo, deixaria meu cabelo oleoso.
Ao avistar minha bagagem joguei-me para cima da esteira sentindo, como sempre, os olhos de reprovação alheios às minhas costas. Com a ajuda de um simpático, ou impaciente, homem, consegui retirar minha pesada mala daquele local. Incrível o que uns dez livros não pesam. Puxei-a, fazendo com que suas rodinhas rolassem pelo mármore do chão, já sentindo meus nervos de esticarem.
-Finalmente Amuro!! Pensei que nunca sairia de lá – Disse uma voz conhecida pulando em minha direção.
-Estava com saudades também mamãe.
-Ah, sim claro! Eu estava com saudade de você filhote
Massageei o ombro assim que fui desencarregada de levar minha bagagem. Enquanto a mulher à minha frente tagarelava, eu tentava ignorar qualquer som que pudesse ser produzido, em exclusividade o dela.
-Não é lindo? É m carro chinês, Elfa Ideal, o carro perfeito para a cidade de Tókio. Compacto e elegante.
Perguntei-me quanto tempo ela havia passado para decorar o panfleto do pequeno carro verde.
-Lindo mãe. Papai também comprou um para ele?
Ao entrarmos no carro minha mãe fez uma careta.
-Sim, um FCX Clarity, sem poluentes. – Disse desinteressada.
As vezes me impressiono com o egoísmo de minha mãe. O silêncio se seguiu enquanto nos esgueirávamos por entre as ruas de Tókio. Encostei meu queixo na janela com o intuito de observar o movimento externo. Crianças, jovens, adultos e velhos, desapareciam no meio do tumulto que se formava a cada esquina. Então seria deste jeito, este era meu futuro, apenas...desaparecer, a idéia não me agradava de modo algum.
- Amuro! Acorde minha filha, chegamos.
Encontrávamos-nos dentro de um escuro estacionamento, repleto de carros, como o da minha mãe, extremamente pequenos, para condizerem com o espaço de Tókio. Jóquei minhas pernas para fora do carro, me impressionando em como, pela primeira vez, senti-me grande, em altura, comparada a alguma coisa, já que meus pés não percorreram uma grande distância até alcançarem o chão. Andamos silenciosas até pararmos na frente de uma das quatro portas de elevadores.
-Qual é o nosso apartamento? – Perguntei
-Segundo andar, apartamento número 124. — Respondeu ela sem muito entusiasmo.
Por todo o caminho vertical feito pelo elevador tive de ouvir a tagarelice de minha mãe quanto ao meu cabelo, “Muito nos olhos, parece um Lhasa Apso, que cabelo mal tratado”, enquanto eu simplesmente tentava ignorar tais comentários, com um falso interesse entre breves assentimentos. Quando a conversa já havia tomado o rumo que criticava a minha insegurança senti um frio na barriga, o que indicava que tínhamos chegado. Tentei não parecer empolgada em demasia ao, literalmente, fugir do elevador, tentando escapar da conversa de minha mãe.
Prendi a respiração enquanto abria a porta. Estava nervosa para ver que tipo de apartamento que me residiria em minha nova vida. O ranger da madeira deu espaço à sala, que se encontrava logo depois de um pequeno corredor, onde em outra porta à direita estava a cozinha. Recordei-me de todos nossos antigos moveis ao passar pelo sofá e televisão, entrando em um novo corredor. O Quarto dos meus pais e uma outra suíte, a minha suíte, meu paraíso.
-Agora vamos lá, está tudo ajeitado, fiz um trabalho de mula aqui para ajeitar tudo isso, então não bagunce, coloque seus livros no espaço que arrumei na estante. Note que em cima da cama está a lista de regras – Apontou para a cama no meio do quarto – Acho que é só isso...
-Sim Senhora Mitiko
Ela bufou em reprovação e saiu.
Não que eu me lembrasse de ter pedido para ela jogar na minha cara a arrumação, mas como se tratava de minha mãe o egoísmo jorrava como uma bica, então procurei ignorá-la. Realmente ela havia tido muito trabalho, olhando mais detalhadamente, procurou adaptar tudo, mas não mudar o lugar e a mobília em relação ao meu antigo quarto. Sentei-me na cama, lutando mentalmente para não ceder à tentação de deitar nela, caso o fizesse Mitiko realmente me mataria. Peguei o papel escrito por uma bela caligrafia.
“1- Dormir ás dez em ponto
2- Toda roupa suja deve ser posta no cesto.
3- Horários de estudos das duas às dezenove
4- Horário para estar em casa às oito, e às nove nos finais de semana.
5- Antes de sair, trazer os amigos em casa para nós conhecermos
6- Apenas uma hora de televisão ou computador por dia.
7- O uso do computado é único, e exclusivamente para trabalhos escolares.
8- Proibido uso de drogas
9- Proibido álcool.
10- Comportar-se adequadamente sob qualquer circunstancia.”
Tentei me levantar novamente para ir jantar, mas como esperado meus pés não se mexeram, questionei-me se mamãe se zangaria demasiadamente caso me atrasasse para a janta. Ainda não havia perdido a esperança, pois como dizem, “A esperança é a ultima que morre”, não sei dizer se isso funciona no meu caso, já que desses provérbios e superstições a único que funciona de forma precisa comigo é a Lei de Murphy. Tentei levantar-me num único impulso, ficando feliz com meu resultado.
-Primeira faze, concluída!
-Amuro! Venha comer! – Gritou minha mãe.
-E bem na hora, nossa como sou boa!
A única parte da refeição que me agradou foi pensar que após aquilo eu me encontraria deitada em minha cama novamente, e como mamãe preza muito o silêncio e o respeito nas refeições, fui poupada de ouvir mais um discurso que ela faria sobre as novidades de lá ou sobre o colégio.
-Obrigada pela comida. – Dissemos em uníssono
-Posso me retirar – Perguntei
-Primeiro leve sua louça na pia, hoje você será isenta de lavá-la, mas não se acostume.
Não creio que ouvi o final daquela frase, pois na hora que ouvi a palavra “Faça isso e poderá” já me encontrei jogando a louça na pia e correndo para meu novo quarto. Joguei as almofadas no chão encoberto por carpete, tirei a fronha do travesseiro enquanto escovava meus dentes, desliguei a luz com alguma dificuldade pois ao desligar uma luz a outra se acendia, e ao desligar esta a outra ligava, até que, após duas tentativas, percebi que cada interruptor ligava uma luz e o fazia por lados opostos, uma pessoa teria percebido isto de cara, mas não eu. Aconcheguei-me mais no travesseiro enrolando-me no lençol até me sentir confortável o suficiente para conseguir dormir, e tentei não pensar no dia que se seguiria, pelo menos até ele se tornar meu presente, tentei não imaginar como seria dali para frente.
Notas finais
Agradeço a tods que me mandaram reviews, não sabem como fiquei feliz em ver a fic foi aceita por vocês...Dicas ? Criticas ? São sempre (ou nao) bem vindas -DD
não me perguntem pq eu resolvi colocar Paint It Black, como musica para este cap, simplesmente veio na minha cabeça, e eu acho que não tem muito a ver mesmo.
Kissuz
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