Shot me Down
2 Second Shot
Notas iniciais
A claridade incomodava a única pessoa no cômodo e os suaves sons vindos do lado de fora da residência pareciam cantores de ópera cantando no meio de um show de heavy metal cercado de britadeiras. Três suaves batidas na porta a cada poucos minutos faziam o mesmo trabalho de um despertador, sem a vantagem de poder desligá-lo.
Finalmente se rendeu aos pedidos externos e preguiçosamente saiu de debaixo dos lençóis macios e caminhou a passos pesados para dentro do banheiro, onde havia um banho de espumas a sua espera. Novas batidas, mais próximas, avisaram que não poderia mais adiar os afazeres do dia.
Caminhou lentamente até o espelho o limpando com cuidado. A imagem refletida não lhe agradou nem um pouco, as pesadas olheiras estampavam em sua face que havia passado a noite aproveitando a juventude, vermelhos e inchados era como poderia descrever os olhos e as costumeiras cicatrizes pareciam mais profundas. Pelo menos os outros detalhes de suas feições pareciam intactos. Ninguém de fora imaginaria os atos já cometidos por trás das feições bem trabalhadas.
Saiu do banheiro deparando com uma equipe que cuidaria de sua aparência para a noite. Passou horas em tratamentos de pele, maquiagem e cuidando dos cabelos mesmo sem se importar. Preferiria passar o dia se recuperando da ressaca na cama e ter gastado somente alguns minutos se arrumando para a festa como qualquer pessoa normal de sua idade. Riu com o pensamento, sabia que nunca poderia ser normal.
Finalmente chegou o momento do evento principal, já se encontrava na ponta da escada antes de se dar conta. Seus pais se encontravam no andar de baixo lhe sorrindo encorajadores. Respirou fundo antes de pisar no primeiro degrau recebendo uma churada de palmas a cada degrau.
A bela dama finalmente chegou ao fim da escadaria sendo recepcionada pelos familiares. A primeira foi a mãe, sendo seguida da irmã mais nova, do caçula e, finalmente, do pai.
— Bem vindos a festa de minha filha mais velha, que hoje completa seus 21 anos! — Começou o patriarca assim que todos se acalmaram. — É um prazer tê-los aqui hoje para prestigiar a verdadeira passagem para a vida adulta de nossa querida Jullien, que em breve estará assumindo todos os negócios da família Summer! — Parabenizou novamente antes de dar continuação a festa.
Depois de procurar entre os muitos convidados o rosto familiar que tanto ansiava, desistiu e continuou com seu papel de anfitriã. Em uma pausa da música animada, sua visão escureceu devido a um par de grandes mãos. Virou-se sorrindo para deparar-se com o loiro de olhos chartreuse, que se encontrava meio constrangido devido aos olhares dos pais da jovem.
— Pensei que nunca viria! — Exclamou animada.
— Não poderia perder seu aniversário. — O homem respondeu em uma voz rouca e profunda. — Vire-se. — Pediu gentil e foi relutantemente obedecido. — Parabéns! — Exclamou após depositar a jóia no pescoço da dama juntamente com um beijo carinhoso o local.
Curiosa Jullien puxou o pingente a uma distância que poderia enxergá-lo. A corrente fina e dourada não cominava nem com o vestido nem com as outras jóias e a pequena arma dourada e reluzente, muito menos. A jovem mulher não se importava com nada disso, somente de receber um presente dele já era o suficiente. Agora estamos empatados, pensou, no Natal eu o dei uma corrente e agora ele me dá. Estamos ambos encoleirados.
— É bom ver quer sua relação com minha filha se mantém, rapaz. — O patriarca da família Summer o cumprimentou em advertência.
— Pai, deixe o Tony em paz! Meu aniversário, meu noivo. — Jully agarrou-se ao rapaz enquanto o “defendia” de seu pai. Depois de vários anos como melhores amigos, assumiram um namoro e fizeram com que o contrato feito por seus pais na infância de ambos entrasse em vigor.
Em pouco tempo a homenageada da noite desistiu de cumprimentar os convidados sentando-se em uma grande mesa reservada para os Summers e os Bertinelli. Rapidamente Martin correu para sentar-se no colo da irmã mais velha e se deliciar com os afagos dela, Anthony não teve tempo de reclamar, pois sua irmã caçula fez o mesmo nele. Os mais de 15 anos de diferença entre os mais velhos e os caçulas não mudava em nada a relação deles, diferente do que os de fora pensavam, nunca tentaram procurar figuras paternais nos irmãos.
Desse momento em diante as outras famílias presentes não puderam quebrar a bolha formada por eles. A grande família perfeita não deixava rachaduras para os de fora e transmitia uma aura que ninguém ousava romper. Bem... quase ninguém.
— Jurrie, cherrie! — A voz escandalosa e feminina soou estridente aos ouvidos de todos e afastou a sonolência dos mais jovens.
— Maddam Aberlie, não sabia que viria. — A Sr. Summer tentou soar tão falsa quanto a francesa.
— Ninguém poderia perder uma festa na mansão Summer. As festas são ótimas! — Aberlie comemorou se agarrando em outra taça de champagne. — Uma pena que meu filho não pode vir. Coitado! Só sabe trabalhar e não se esforça em nada para arranjar uma noiva. C’est la vie! Nem todos podem arranjar noivas tão fortes quanto Jurrien ou tão beles quanto.
O comentário de Aberlie incomodou a todos na mesa, os menores não entendiam muito do que a francesa falava por causa de seu sotaque carregado, mas se remexeram inquietos devido ao tem de voz da dama.
Os segundos de silêncio que se seguiram foram tão intensos que o ar começou a faltar nos pulmões de Jullien devido ao seu peso. Os frios olhos da ruiva a penetravam tão a fundo que parecia estar recebendo um exame de raios-X e se sentiu grata por ter aprendido a se manter indiferente, caso contrário teria se retirado para se esconder atrás da saia da mão como quando criança.
— Obrigada pelo elogio a minha filha, Aberlie. — Sra. Summer foi a única que conseguiu se recuperar e quebrar o silêncio, seu tom educado e suave aparentava real contentamento com o elogio. — Tenho certeza que seu filho vai encontrar uma noiva em breve, não é mesmo querida?
— Ah, sim, claro... — A jovem piscou atordoada alguma vezes e concordou prontamente. — Kalet é bonito e tem uma ótima personalidade, além de ser pé no chão e ter grande inteligência. Não me preocuparia com uma noiva para ele agora, ele tem um belo futuro — Jullien elogiou o amigo que, há essa hora, provavelmente estaria terminando alguma papelada e sentiu uma pontada de saudades de conversar com ele. — Mas se a senhora está tão interessada em conseguir um casamento para ele posso conversar com algumas colegas minhas e arranjar alguns encontros.
A francesa tentou disfarçar uma careta entre o sorriso, o que não deu muito certo. A idéia de não ter uma nora fútil parecia desagradar mais a ruiva do que o fato de o filho de 25 anos ainda estar solteiro. Mal sabia a socialite que o filho é gay e tem uma vida amorosa mais bem sucedida que muitos homens em seus 40. E o atual namorado dele, por acaso, se encontrava na festa e estava se aproximando da mesa onde ela se encontrava sem perceber com que a morena conversava.
— Jully-chan! — O rapaz asiático se aproximou sorrindo, o terno bem cortado escondia seus músculos definidos e os óculos que usava na ocasião lhe davam um ar ainda mais elegante, que infelizmente contrastava muito sem seu cabelo moderno e levemente bagunçado. Quando ele reparou com quem a jovem conversava tentou recuar, mas foi impedido por Anthony que se levantou e puxou mais uma cadeira para que ele se sentasse.
A francesa não fez nenhum esforço para segurar a careta seguinte, uma face distorcida com ódio, repulsa e indignação, e saiu quase batendo os pés como uma criança mimada. Talvez não o fizesse por ter muitos espectadores da cena, ou por medo de estragar os saltos de marca.
Meio a contra gosto o japonês por volta dos 20 anos se sentou a mesa entre os jovens noivos e ficou meio encolhido na cadeira, o que, considerando sua massa muscular, parecia um bloco de aço deformado. De repente ele começou a ficar de um vermelho quase tão intenso quanto o vestido escarlate da Sra. Bertinelli. Quem o visse nesse momento nunca imaginaria que o rapaz seria o próximo líder da Yakusa.
— Keiji! Que bom que veio. — Jully disse dando um caloroso abraço no rapaz sendo seguida pelo loiro do outro lado e fazendo um “sanduíche” com seus corpos. — Não sabia se você conseguiria um vôo tão em cima da hora. — O rapaz sorriu meio sem jeito e suas orelhas começaram a ficar rubras. Somente os jovens entenderam o que isso queria dizer e riram gostosamente.
— Não podia perder seu aniversário esse ano, o do ano passado foi quase um insulto. — O rapaz disse se ajeitando na cadeira depois de dar um pigarro. — Os 20 anos são muito importantes na minha cultura, significa que a pessoa é oficialmente adulta, embora sua família considere isso apenas aos 21, mas mesmo assim... — Ele retirou uma caixa considerável de dentro de um dos bolsos de seu blazer e entregou a jovem. — Também é para me redimir do ano anterior.
— Não precisava, mas obrigada mesmo assim. — A morena se curvou um pouco para frente como agradecimento.
A curiosidade foi maior e com cuidado ela desfez o laço de seda dourada e procurou o feixe da caixa de veludo vermelha. A tampa se abriu para revelar um arranjo de flores de cerejeira douradas com algumas pedras coloridas nas bordas e pérolas no centro e alguns fios dourados e vermelhos descendo em cascata em um dos lados. A garota piscou atônita por alguns segundos, a boca meio aberta e tentava encontrar sua voz para agradecer seu amigo oriental que a mirava com expectativa.
Lógico que já havia recebidos vários presentes caros e exclusivos durante sua vida, também havia dado a muitas pessoas pressentes desse tipo. Não era o valor implicado ou as jóias presentes na peça que a deixaram sem reação. Mas o gesto.
Conhecia muito da cultura do amigo, aprenderam juntos a cultura um do outro nos anos que se conheciam. Aquele tipo de enfeite de cabelo era usado somente em datas especiais ou rituais religiosos (principalmente pelas pedras envolvidas). Se ele estava entregando um presente daquele tipo a ela com certeza teria um motivo.
— É... lindo! — A morena finalmente conseguiu encontrar sua voz, mas ela não soava mais alta que um sussurro, por sorte o rapaz estava perto. — Mas... por... Por quê? — Não queria soar rude nem ofendê-lo, mas não conseguiu segurar a pergunta.
— Minha irmã vai se casar... — Disse pesaroso depois de um suspiro. — Não que eu não esteja feliz por ela, mas é que eu vou ser o padrinho e... — Ele olhou para o loiro ao seu lado como se pedisse consentimento e então continuou. — Me pediram, não, exigiram para que te chamasse para ser a madrinha. Além do, como eu disse antes, é para me redimir.
— Não vejo nada de mais em ser a madrinha da sua irmã. Com muito prazer, eu aceito. Só estou um pouco brava com o fato de ela não ter me contado! — A última frase saiu mais alta e cheia de indignação, a final, as duas cresceram juntas e tinham a mesma idade. Conheciam-se desde o colegial quando ela viajou para estudar na Inglaterra e rapidamente se tornaram praticamente inseparáveis, apesar de discutirem muito por causa do modo que pensavam.
— Ótimo! Esteja na próxima sexta no Japão, o casamento vai ser no Sábado ao entardecer. — Ele disse feliz para tentar o impacto, o que não ajudou muito já que seguiram por algum tempo discutindo. Hora em inglês, hora em japonês, em alguns momentos cada um na sua língua sem nenhum entender ao outro.
Depois da quinta vez que voltaram a falar em inglês ninguém mais na mesa se importava com os dois, as crianças haviam se retirado para dormir, os segundos mais jovens se encontravam na pista de dança e os mais velhos passeavam tranquilamente pelo jardim apreciando a noite agradável que fazia no final do inverno. O loiro estava distraído a mesa, o único que restava, bebendo e mexendo no celular e estaria lá caso começassem a se agredir.
Quando finalmente pararam de argumentar e entraram em consenso a festa já se aproximava do fim. O rapaz se retirou cansado e foi para um dos quartos de hóspedes cedidos a ele pela anfitriã.
O clima para festas de Jully, já quase nulo, se extinguiu por completo. Mesmo estando sentada seus pés doíam, ainda vieram pessoas lhe parabenizar e quase não comeu nada durante o dia. Tony a fez se apoiar em seus ombros e a ajudou a subir as escadas e entrar em seu quarto deixando os últimos convidados aproveitarem. Se despediram entre beijos e o rapaz saiu para seus aposentos.
A morena foi bruscamente despertada e posta em alerta quando seu celular começou a tocar em cima da cama. Aquele toque, em específico, só significava uma coisa.
Problemas.
Fale com o autor