Shot me Down
2 We rode on horses made of sticks.
O relógio marcava dez da manhã, o sol chegara na hora certa, quente, entrando por sua janela de encontro à cama, na hora exata de tirá-lo dela. O garoto se espreguiçou, no sono leve matinal, tinha preguiça de se levantar, estava cansado apesar do fato de não ter feito nada no dia anterior, ficou algum tempo na cama, cobrindo o rosto com o cobertor, evitando que a luz do sol tocasse sua face e tentava se lembrar do sonho que tivera naquela noite, mas não importava o quanto tentasse, de nada se recordava. Pensou em permanecer ali, mas uma lembrança o retirou da cama quase num pulo, o outro viria naquele dia, só então notou que o cheiro de algo delicioso tomava conta do ar, algo assado, claro que era bolo e era o que mais gostava, chocolate.
Seguiu para o banheiro quase correndo, lavou apenas o rosto e buscou as roupas no armário que substituiriam a camiseta e a roupa intima que usava para dormir. Abotoou todos os botões da camisa azul claro e a calça jeans terminou o visual típico, tinha um físico bonito, era magro, mas era baixinho, bom, pelo menos comparado ao outro. Os cabelos curtos não precisavam de muito cuidado, deslizou as mãos pelos fios e ajeitou um ou outro fora do lugar, colocando sobre a cabeça o típico chapéu branco. Quase caiu ao descer as escadas, afinal tentava vestir as botas no caminho, o problema é que elas não entravam direito nos pés, tinha de empurrar. Levantou-se rapidamente colocado o segundo pé e voltou-se à cozinha, esbarrando com a garota que caminhava de um lado para o outro com a vassoura na mão.– Ana, o Jack veio aqui hoje?– Jack? Ora, nem sabia que ele vinha. Não veio não, senhor. Se quiser eu aviso se ele passar por aí, mas eu não vi ele em lugar nenhum hoje. O garoto assentiu, sentindo suas esperanças de ver o amigo jogadas no chão e pisoteadas. Seria um péssimo aniversário sem ele, nem poderia imaginar, quebraria a tradição de anos que passara o dia com o outro. Seguiu para fora, cabisbaixo, agora nem o cheiro do bolo o alegrava mais, não queria comer sozinho. Seu pai viajava sempre, não o veria no dia com certeza, ele mandaria uma carta para si depois desejando feliz aniversário e a mãe, bem, ela não era bem uma amizade, era mãe, apesar de ser família não tinha muito assunto com ela. A via se sentar na mesma cadeira todos os dias antes de dormir e pentear seus longos cabelos, vez ou outra entrava no quarto para falar com ela, mas eram poucas palavras trocadas e voltava ao quarto para dormir. Tom a achava estranha de certo modo, ela nunca se incomodava por seu pai sumir por meses em viagens, estava sempre a espera dele quando voltava. Ela andava para cima e para baixo carregando o terço negro que ganhara há tempos atrás, talvez fosse presente de infância, mas parecia grudado com ela, ela usava a fé como explicação para tudo no mundo, outra coisa que o loiro não entendia, mas como adolescente, ele tinha mesmo muitas dúvidas. Sentado na varanda, ainda cabisbaixo ele podia ouvir bem ao longe o cantar dos pássaros, ali não tinha movimento, a cidade já era afastada do resto do mundo e ainda morava longe dela, tinha dinheiro, mas ele não o fazia feliz, algo faltava, o gostinho de algo que ainda não conhecia. Estalou a língua e levantou-se rapidamente, entediando-se em menos de um minuto que se sentara ali, chutou uma pedra ou duas e ainda esperava por ele, mas era típico, não viria, não desde que havia arranjado aquelas amizades, malditos sejam aqueles garotos! Iria ao lago novamente, não tinha nada para fazer mesmo, quando voltasse daria alguma desculpa à mãe e comeria o bolo feito. Iniciou o caminho, dando pausas pequenas para olhar para trás e visualizar a casa, tentava enganar a si mesmo dizendo que não se importava se ele viria ou não, até que ouviu o trotar de um cavalo por perto.– Jack! Falou para si e tinha certeza que era ele! Correu em direção à estrada que não era longe dali, atrás de poucas árvores e parou a observar o homem que carregava um cavalo negro pelas rédeas, acenando sutilmente para si com a cabeça ao passar. Cerrou os dentes, a raiva percorrendo o corpo e virou-se, irritado novamente, dessa vez não o esperaria mais, que fosse com suas novas amizades! Virou-se e ouviu o baque que deu ao bater contra algo, que inicialmente pensou ser uma árvore, mas ela não seria tão macia. O rapaz o segurou pelo braço antes que ele pudesse cair e ajeitou sobre a cabeça do loiro o chapéu.– Que isso, Tom? Caindo a toa?– Jack! Você veio, você veio mesmo!– É claro que eu vim, se eu disse é porque vinha, ora. E é seu aniversário, não é um dia qualquer. Tom sorriu e esqueceu de toda a indignação que havia sentido antes.– Me esperou muito tempo?– Não... Eu acabei de acordar.– Ah sim. Vamos pra sua casa, estou sentindo o cheiro do bolo daqui! Sem contar que deixei lá o seu presente.– Meu presente?– É, eu disse que o traria ontem, lembra? Tom achou que o sorriso pudesse ultrapassar seus lábios e segurando a mão do outro, puxou-o com passos rápidos em direção à própria casa.
– Hey, calma! Ele não vai fugir. Jack riu e abraçou o menor ao redor do ombro, típico irmão mais velho carregando o outro, que mesmo um ano mais velho parecia ser bem mais devido a sua altura. Tom cessou os passos antes de chegar em casa, justamente porque viu dali o animal preso perto da porta, e não era o cavalo do outro. – De quem é aquele cavalo?– Ahn? Ah, é seu. – Meu?!– Sim, é o seu presente.– O que? Você comprou um cavalo pra mim? Não acredito! Tom correu em direção à casa, nunca se sentira tão feliz como naquele momento. Jack andou devagar atrás dele, rindo divertido com a reação do outro e parou ao lado dele junto do cavalo, vendo-o deslizar a mão pela crina do animal, acariciando-o.– Não é qualquer cavalo! É o cavalo do lago! Jack assentiu.– Eu sei o quanto você gosta dele. A felicidade não cabia em seu peito, estava tão feliz, era o melhor presente que havia ganhado na vida, só tinha um problema, como agradeceria a ele?– Ele é lindo Jack, mas... Não sei se posso aceitar...– Ora, não seja bobo, já é seu, se não aceitar eu vou ficar muito chateado com você. Tom assentiu e sorriu a ele, observando atônito o novo mascote que tinha, já conhecido de tempos atrás e não era necessário criar afeição por ele, sempre teve.– Qual vai ser o nome dele? O garoto se pôs a pensar, lembrando-se de quando o conheceu e do que gostava, tentando encontrar um bom nome para ele, embora no fundo do peito já soubesse como chamá-lo.– O nome dele vai ser Rainforest. – Rain... Rainforest? Mas por que?– Porque eu gosto de florestas e a primeira vez que o vi foi num dia chuvoso, sem contar que era o local onde ele vivia antes, já que o fazendeiro era dono de toda aquela floresta bonita perto do lago.– É meio estranho, mas... Você escolhe. Jack rodeou o cavalo enquanto observava o garoto e soltou as amarras do animal.– Quer montar nele?– O que? Sabe que eu ainda não sei montar sozinho.– Ótima hora pra aprender, não acha? Vem.– Jack, não... Depois. – Vem, eu não vou deixar nada acontecer com você. Tom se calou, observando-o, não achava que nada pudesse realmente acontecer, mas tinha medo mesmo assim. Ele se aproximou do mascote, agora não tão livre quanto antes já que tinha uma cela sobre o corpo e com a ajuda do outro subiu no cavalo, agarrando-se às rédeas. – Tudo bem aí?– É meio alto... – Logo se acostuma. Vamos cavalgar um pouco?– Quer que eu conduza?– Não, você vai com o seu e eu com o meu. – E onde deixou o seu afinal? Jack estendeu uma das mãos, mostrando ao garoto o senhor que vinha caminhando carregando o cavalo antes visto, só então ele entendeu. O moreno aceitou as rédeas do próprio cavalo das mãos do homem e subiu, aproximando-se do loirinho. – Vamos? O garoto assentiu, mesmo com medo e bateu de leve os pés no cavalo, tinha medo de machucá-lo se fizesse com força e não queria que aquilo acontecesse, para sua surpresa ele se pôs a andar e ele seguiu o outro enquanto conduzia pela primeira vez sozinho um cavalo.– Vamos, Tom! Mais rápido, está morrendo aí atrás? Tom estreitou os olhos, não sabia como fazer o cavalo ir mais rápido, e chegou a conclusão de que teria de bater os pés novamente ali, indicando ao animal que queria correr ao invés de andar, não teve sucesso da primeira vez e Jack riu à distancia, o loiro só conseguiu na terceira tentativa, já perto de desistir e se pôs a correr junto do outro com seu cavalo negro. O cavalo de Jack era seu mascote fazia cinco anos, ele o ganhou bem novo, praticamente cresceu ao lado dele e do garoto que levava consigo onde quer que fosse. Era um belo animal, todo negro e Jack deixava que sua crina crescesse de forma natural, cortava somente o que caía em frente aos seus olhos, mesmo que sentisse pena de fazê-lo. Seu nome era Shadow, ele escolhera o nome quando criança e mantivera quando mais velho, até porque, não tinha porque mudar, gostava de como o nome soava. Tom nem percebeu quando foi que chegou ao lago, Jack o havia conduzido até lá sem que ele percebesse e riu divertido ao ver onde ambos estavam finalmente, depois de horas de caminhada em círculos. – Você não queria vir aqui? Então, eu te trouxe. O garotinho riu, parando em frente ao lago, observando o lado de lá que sempre quis conhecer, a floresta escura em plena luz do dia pela quantidade de árvores que existia ali e sorriu consigo mesmo, satisfeito. – Acho melhor voltarmos para casa, Jack, está escurecendo. – Claro, eu ainda quero um pedaço de bolo antes de ir embora. Jack chegara a conclusão de que já o tinha feito sofrer o suficiente e ao invés de deixá-lo voltar por si só segurou a rédea de seu cavalo, carregando-o no mesmo passo do próprio, lado a lado e vez ou outra observava o garoto. Quando foi que ele havia crescido tanto? Parecia ontem que o havia conhecido e agora ele era um homem e não era um homem como os outros, estava bonito. Na verdade sempre o achara parecido com uma garota, mas naquele momento ele parecia mais, era delicado, e somente com aquele olhar despreocupado vindo de si, notara o tom mudar em suas bochechas. Tom notou o olhar, mas não quis retribuir, era muito tímido pra isso e só o fez quando já estavam enfim em frente à própria casa. Num pulo desceu do cavalo assim como o amigo e sentiu um sutil constrangimento no ar que nunca havia sentido antes, talvez culpa dos olhares do outro que perseguiam a si, não sentia malicia, mas parecia estranho ter a atenção dele voltada a si. Jack parou antes que chegassem à porta e sorriu ao menor.– Bom, acho que vou deixar o bolo pra próxima. – Ahn? Não, entra, vamos comer, depois você vai.– Não, já está ficando tarde, eu tenho que ir. Nos vemos depois. Tom franziu o cenho, não entendeu porque ele tinha que ir embora, era tudo o que via, ele indo embora, mas somente se pôs de acordo e assentiu, já que não podia obrigá-lo a ficar.– Cuide bem dele, leve-o para o estábulo quando terminar de comer.– Eu levo... Jack! – Disse ele ao ver o moreno subir no cavalo, pronto para ir. – Obrigado pelo passeio e pelo presente. Jack sorriu, o sorriso de tremer as pernas e por um segundo o garoto achou que havia sentido esse tremor, mas era só impressão. – Amanhã quero levá-lo num lugar diferente. Você vai gostar. Me espere aqui as quatro da tarde. O pequeno assentiu e acenou para ele, vendo-o seguir novamente pela estrada, mas dessa vez estava em paz, não tinha incertezas, sabia que ele apareceria no dia seguinte e com certeza o esperaria ansioso por todo o dia.
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