Shot me Down
3 He wore black and I wore white.
Tom passara o dia animado e esperançoso com a tardezinha ao lado de Jack, tanto que estava pronto quando o relógio soou três da tarde, uma hora antes do combinado por ambos no dia anterior. Era uma hora quando decidiu se arrumar, tomou banho, lavando os cabelos curtos e colocou sua roupa favorita, a camisa branca de botões que ficava soltinha no corpo com a manga dobrada até a altura dos cotovelos e a calça de mesma cor, completando o visual com a bota preta quase de estimação que tinha. Não sabia porque, mas naquele dia tinha dado o melhor de si para se arrumar, até o perfume foi passado no pescoço com o cheiro suave e atrativo.
Após o ritual feito, seguiu até o estábulo onde o próprio mascote ficava solto, sem rédeas nem nada que pudesse machucá-lo e só então o prendeu para que pudesse sair junto dele, conhecendo Jack sabia que ele pediria a si que levasse o cavalo. Deu de comer a ele, algumas cenouras e um pouco de água, penteando seus pelos macios e branquinhos com uma escova que havia comprado. Acariciou sua crina como tinha costume e por fim levou-o consigo para fora, até em frente à casa. Olhou no relógio, ainda era cedo, então resolveu subir no cavalo e treinar um pouco a montaria, começou caminhando devagar, dando pequenas voltas pelo local, seguia até a estrada e voltava, vez ou outra voltava correndo, testando a própria coordenação e viu que não era tão mal, só precisava treinar um pouco, mas era óbvio que o tempo que passou vendo Jack andar com o dele o havia ajudado. Nem havia notado a hora passar, quando deu por si, já eram quatro e dez e caminhou de volta para casa, afinal o outro devia estar esperando a si. Ficou surpreso ao ver que ele realmente estava ali, mas havia chegado há pouco, tinha descido do cavalo e dava a ele um pouco de água.– Jack!– Oi Tom, não estava me esperando, onde foi? Tom desceu do cavalo e aproximou-se do outro, notando que ele também exalava um atípico cheiro doce de perfume, era diferente do próprio, mesmo assim foi perceptível, por algum motivo ele também queria se arrumar para si, e estava tão bonito com suas típicas roupas pretas, até o chapéu de mesma cor usava sobre os cabelos negros.– Ah... Eu fui... Fui dar uma volta com o Forest. Jack sorriu.– Estava praticando então?– É... Acho que sim. Tom sorriu desconcertado e Jack aproximou-se do menor, observando-o por alguns segundos até finalmente bagunçar os cabelos do loirinho como de costume.– Vai buscar o chapéu, vamos sair em cinco minutos. O garoto assentiu e correu para dentro, buscando o chapéu branco sobre a mesa, colocou-o sobre a cabeça e voltou para fora, observando o outro.– Acho melhor dar um pouco de água ao Forest, onde vamos não é muito perto. Tom assentiu e nem desconfiou do outro, iria onde ele quisesse como sempre ocorreu. Deu um pouco de água ao cavalo como o outro indicou e logo deixou o recipiente ao lado, preparando-se para montar assim como ele. Jack tomou um impulso e subiu sobre o cavalo, tomando as rédeas em mãos e o menor o imitou, só aí seguiram cavalgando para o lugar secreto onde Jack prometeu o levar. Cavalgaram até a estrada, mas não a seguiram, Jack a atravessou e seguiu pela grama que estava pouco alta naquela parte, falta de cuidados com a região talvez, ninguém costumava ir pra lá. Tom se aproximou de seu cavalo e ao lado dele o observou, curioso.– Jack, não vamos para a cidade? Achei que a gente ia jantar ou algo assim.– Não, quero te levar num lugar mais fechado, eu costumo ir lá quando quero pensar em algumas coisas.– Tipo o lago?– É, tipo o lago só que um pouco mais longe. Jack deu o típico sorriso irresistível, o que cessou as dúvidas do outro que apenas assentiu e o seguiu pelo campo em silêncio. Passaram por várias árvores e algumas flores que Tom podia ter descido do cavalo para colher, ninguém ia ali, estava claro porque as flores cresciam sem uma intervenção, tomando conta de quase toda a campina.– Estamos chegando! Tom desviou o olhar a ele e assentiu, já havia se esquecido de onde estavam com tanta distração do ambiente, era tudo tão bonito por ali, cheirava chuva, adorava isso, e não entendia porque já que o céu não estava fechado, não choveria, porém o que preocupava a si não era a chuva em si e sim o fato de estar escurecendo, podia ver o sol indo embora, pronto para dar início a mais uma noite fria. Eram mais de cinco horas quando se aproximaram do local, saberiam ao certo se um dos dois estivesse usando um relógio, mas aquilo não era importante no momento, ao menos não para Jack. Ele estendeu uma das mãos, apontando o local para o garoto e sorriu satisfeito por estarem chegando.– É ali que vamos! Tom desviou completa atenção para o local, achava que veria uma campina com mais flores, uma casa, uma cidade, qualquer coisa, menos aquilo. Era enorme e tinha uma construção bem antiga, já o ouvira falar sobre aquele lugar antes, mas tinha que admitir para si que não dera tanta atenção quanto deveria. O moinho estava intacto, apesar de velho e por ali não havia mais nada, apenas ele. As árvores foram cortadas e o sol batia de encontro a ele, iluminando-o por inteiro. Jack apertou o passo do cavalo e esperou que Tom o seguisse, já havia passado um pouco da hora que previu, mas não importava, haviam chegado finalmente. Ele desceu de seu cavalo e atou as rédeas a uma cerca que havia por ali, acostumado a fazê-lo e ajudou Tom com seu nó.
– É lindo, mas por que estamos aqui? – Tom o observou curioso.– Quero que veja uma coisa, vem! Jack o segurou pela mão e puxou-o para dentro do local, adentrando a única porta que havia ali, Tom ficou surpreso ao ver que havia uma escada dentro da construção, afinal sempre imaginou que moinhos como aquele fossem grandes, mas sem muitas coisas por dentro, nem sabia ao certo para que eles serviam para dizer a verdade. No segundo andar Jack se sentou sobre um pouco de palha que ali havia e o garoto se acomodou ao lado dele, observando a grande janela do andar de cima. – Certo, agora olha bem. Tom se ajeitou ali e concentrado procurou o que Jack queria mostrar, felizmente não precisou de muito esforço. Da parte de cima podia ver tudo, o céu azul manchado de vermelho pelo sol que aos poucos se punha e no horizonte para a própria surpresa podia ver o lago! Era lindo, mas ainda mais porque podia ver além dele, ali estavam as árvores que tanto amava, a floresta, mesmo que não fosse capaz de desvendar seus segredos estava ali em frente a si e parecia criar vida com a luz do sol que batia de encontro às árvores. Aquele era o melhor lugar para se ver o por do sol, principalmente porque o tinha consigo e nada podia ser melhor do que aquilo. – Jack... É lindo. Jack sorriu, convencido de que tivera uma reação positiva dele, e era isso o que queria, era o que planejou desde o inicio, sabia que ele iria gostar. Espreguiçou-se, cansado pelo longo caminho que fizera a cavalo e deitou-se, encostando-se sobre a palha espalhada pelo chão, macia, amortecendo o corpo sobre o chão frio e duro e observava o por do sol, intercalando com a face do garoto, que parecia admirado com a vista. O sol havia se posto, fora embora e agora era difícil enxergar alguma coisa lá fora, menos no céu onde as estrelas brilhavam como vários feixes de luz, Tom havia se deitado ao lado do amigo e sentia que não podia ser mais feliz. Ao contrário do que pensara, não estava frio, o clima ali estava agradável e era ótimo não precisar de um cobertor de vez em quando, naquele tempo ao lado do amigo, nem lhe passava pela cabeça como iriam voltar para casa em meio a toda aquela escuridão. O silêncio pairava entre ambos e havia durado o que parecia ser uma hora inteira, ninguém disse nada. Tom estava tão perto dele, mas estava concentrado nas estrelas, estava em outro mundo, viajando em algum lugar pelo céu onde podia ver o mundo todo, tocar o céu e tocar o chão, era livre finalmente. Jack porém não tinha muitos pensamentos naquele dia, tão pouco gostava do silêncio entre ambos, sentia arder no peito algo estranho, uma vontade nunca sentida antes e a colocaria em prática. Seus olhos se desviaram do teto para o menor e não precisou de muito para chamar a atenção dele, Tom ficava tímido com qualquer sinal de um olhar direcionado a ele e seus olhos cruzaram com os do outro, por longos segundos ele se viu olhando aqueles lindos olhos verdes. Tom não se moveu, mas Jack se aproximou, tinha-se a uma pequena distancia do outro, mas no peito pareciam ser muitos quilômetros. Foram segundo intermináveis até que finalmente sentia a respiração do garoto contra a face, estava quente e podia sentir que a própria também estava. Estavam tão perto que não podia mais fitá-lo nos olhos e os lábios de roçaram num suave toque que aos poucos se transformou num beijo com o encaixe de bocas. Tom se deixou levar e fechou os olhos, não sabia se era o primeiro beijo dele, mas era o próprio e era desajeitado para fazê-lo, mas não precisou saber como, quando se viu naquele momento, isso não importava para si. Jack o tocou nos cabelos, aproximando-o ainda mais de si e deslizou a mão pela nuca do pequeno, sentindo a pele se arrepiar. Ambos se mantiveram naquele toque por um bom tempo, Tom não o tocou, não sabia como, nem ao certo sabia o que estava fazendo, e preferiu se manter imóvel enquanto provava os lábios macios do maior. Jack sentiu um arrepio percorrer a espinha, havia esperado demais, precisava tê-lo e o lugar não importava, o faria seu aquela noite. Era estranho, não pensava nas consequências, só no quanto o queria, nunca tivera vontade de ter uma mulher quanto tinha vontade de ter aquele garoto naquele momento, não sabia se o sentimento era recíproco, mas o tinha entre os braços, praticamente entregue aos toques, então o faria sentir o mesmo. Ele cessou o beijo com suaves toques nos lábios do outro e quando deu por si já tinha o corpo inclinado sobre ele, as mãos não fizeram esforços para guiar até sua camisa e desabotoou os botões, um por um, e enquanto o fazia mantinha os olhos presos aos dele, sem desviar em nenhum momento, tinha medo que se desviasse a atenção a outra coisa o garoto fosse desistir da ideia, o que ele não sabia é que o mesmo tipo de arrepio percorria o corpo dele também. Tom jamais cessaria aquele toque, ansiava por ele, precisava dele, no fundo sabia que o queria para si daquele modo e o coração até batia mais rápido com a ideia de vê-lo retribuir a si. Outro beijo foi dado e Jack impôs-se contra o outro, sem a camisa como impasse, pôde sentir a pele quente do garoto contra a própria que se arrepiava sem saber se pelo frio ou pelo contato. Ambos trocaram carícias, toques, sutis, carinhosos e apaixonados, despertando em si uma paixão que nem sabiam que existia no peito e que agora se mostrava, o coração queria pular para fora com batidas aceleradas a cada olhar trocado, cada carícia, as roupas se misturaram no chão entre o negro e o branco, e assim passaram a noite, sem nenhuma palavra dita, palavras não eram necessárias. Tom foi despertado pela luz do dia que entrava pela grande janela, eram cerca de sete da manhã e para dizer a verdade nem notara que havia caído no sono, mas ao acordar se recordara que havia adormecido junto dele, enquanto o abraçava. Esfregou os olhos com ambas as mãos, piscando várias vezes para se acostumar com a luz e desviou o olhar ao lado, buscando o outro, que não encontrou. Sentiu o aperto no peito, perguntava-se se ele havia abandonado a si depois de tudo aquilo e ouviu o som de um relinchar do lado de fora do moinho. Levantou-se, vestindo a camisa deixada no chão e abotoou-a no caminho, levando consigo o chapéu e desceu as escadas para fora do local. O suspiro deixou os lábios, aliviado ao vê-lo ali e sorriu consigo mesmo, achando-se um idiota por pensar que ele iria embora. Jack desviou a atenção a ele ao vê-lo na porta e sorriu.– Bom dia, dorminhoco.– Bom dia... – Disse ele, quase corando com o pequeno flash back de lembranças que teve dos atos do outro na noite anterior.– Trouxe um pouco de água pra você. Disse ele a apontar o recipiente posto ali contendo a água límpida que certamente havia sido retirada de algum lago próximo. Tom lavou a face e bebeu pouco da água, deslizando a mão como de costume pelos cabelos loiros, aliviando o calor que sentia. – Acho que devemos ir pra casa.– Ah, nós vamos sim. Só estava esperando você acordar. Quer passar e comer alguma coisa? Tom o observou, pouco confuso, não sabia como ele conseguia agir daquele modo, tão despreocupado, como se nada tivesse acontecido entre ambos e não sabia que resposta dar, sentia-se constrangido demais para sair com ele aquela hora, precisava pensar, colocar os pensamentos no lugar.– Eu... Preciso de um banho. Podemos nos encontrar mais tarde. – Claro. Sem problemas. Ele sorriu e tomou impulso a subir no cavalo.– Vamos? Tom assentiu e seguiu em direção ao próprio, ajeitou o chapéu sobre os cabelos e sorriu meio desajeitado ao outro, saindo do local com ele e levou consigo as lembranças, sentia-se estranho, o coração batia mais forte, as mãos suavam, não conseguia olhar diretamente para ele e vez ou outra gaguejava ao vê-lo, tinha medo de dizer algo errado, de fazer algo errado, e nunca havia se sentido assim. Olhou pela última vez ao moinho e tentou entender o que havia mudado, o que havia crescido em si depois daquela noite com ele, talvez um sentimento que já sabia da existência, mas que não deu tanta importância, algo forte, impossível de se esquecer ou deixar pra lá e só teve certeza quando percebeu que não o conseguia tirar do pensamento, era amor.
Fale com o autor