Shot me Down
5 He shot me down.
Novamente amanhecia no campo, não importa quantas brigas sejam feitas, quantos desentendimentos, quantos casais se formem, quantos se separem, o sol sempre nasce se põe no dia seguinte, no mesmo horário, a vida não espera por ninguém, o tempo não para a fim de que consertemos nossos erros ou resolvamos nossos problemas, e esse era o caso de Tom, que há mais de dois meses não tivera notícias de Jack.
Na verdade não era só ele, ninguém vira Jack desde então, desde a briga feia com o rapaz no bar, que virou assunto da cidade durante um mês ou mais, e até Tom ficara sabendo. Ele o procurou, é claro que sim, queria entender melhor a história, o que realmente tinha acontecido e como ele se sentia, porque as pessoas nunca davam uma versão verdadeira da história, alguns diziam que era Jack contra três homens, outros, que ele enfrentou o bar todo, e alguns, os menos sensacionalistas contavam que era apenas um homem, mas ninguém se lembrava do nome do garoto, só de Jack e de como ele havia defendido sua honra em frente ao ladrãozinho que ninguém sabia ao certo o que havia roubado. Os pais de Jack nem o procuravam mais, eles sabiam que uma hora ou outra ele apareceria, a única coisa que temiam era que num belo dia seu filho aparecesse morto, ou não voltasse mais, afinal, eles conheciam bem o gênio dele, era forte, nada fácil de lidar, quando colocava algo na cabeça, era difícil tirar, se arrumasse briga com a pessoa errada, poderia ser o seu dia de perder e seria sorte se só quebrasse algumas costelas como fez com seu amigo Chris. Por falar nele, Chris estava furioso e jurava se vingar de Jack, queria matá-lo, mas era fraco demais para fazê-lo sozinho, não só fisicamente, como mentalmente também. Chris era alto, mas não tanto quanto Jack, era pouco maior do que Tom, tinha cabelos loiros e médios e os olhos bem azuis, tinha muitas meninas aos seus pés, mas afastou várias com a sede de vingança até doentia que tinha pelas costelas quebradas e fraturas feitas pelo amigo. Havia se recuperado parcialmente nesses dias, embora ainda usasse as ataduras que mantinha as costelas no lugar, tinha sorte que ninguém ao certo sabia o nome do rapaz com quem Jack brigara, se não, seria ridicularizado quando saísse de casa, mas por incrível que parecesse, nem olhavam torto para ele, ele era invisível. Naquele dia Chris planejara tudo perfeitamente, atingiria Jack onde mais doía, no coração e nem usar balas, usaria a si mesmo como arma. Tom estava aflito, chateado e mal conseguia dormir a noite, preocupado com Jack e seu paradeiro, faria três meses que não o via, e isso era angustiante, o que amenizava essa preocupação era correr por aí com o cavalo, ou cuidar dele, que era a única lembrança de Jack que ainda tinha. Naquela manhã, se levantara como sempre bem cedo e fora cuidar do cavalo, já havia escovado os pelos dele e agora, estava dando água, tinha a difícil tarefa de colocar as ferraduras, e nem sabia como, então tentou seguir as instruções dadas por um policial local enquanto passava, segurou a pata do animal entre as pernas e iniciou o processo chato, sem muito sucesso, afinal o cavalo não se mantinha quieto por muito tempo e ele era inexperiente. – Ah, não, Forest! De novo não, eu estou tentando te ajudar! Tom se sentou no chão, já cansado pela sétima vez que tentava segurar a pata do animal e suspirou.– Droga, Jack... Era pra você me ensinar como fazer isso.– Hey, Tom! O loirinho virou o rosto, procurando pela voz que vinha dali e arregalou os olhos, surpreendendo-se ao ver que quem o chamava não era nem seu pai, mãe ou alguém muito conhecido, era um dos amigos de Jack, Chris.– Quer ajuda com isso aí? Tom o observou, confuso e assentiu.– Claro... Ahn... Chris tem visto o Jack? Chris engoliu em seco, não sabia se o garoto ficara sabendo sobre a briga com ele, mas disfarçou o quanto pode abrindo um sorriso e negativou.– Não, ele sumiu já faz um tempo. Tom se levantou e assentiu, deixando que Chris segurasse a pata do animal dessa vez.– Jack não te ensinou a fazer isso? O garoto negativou.– Não ficamos muito tempo juntos. Chris o analisou por um pequeno tempo e colocando a nova ferradura no lugar soltou o animal e sorriu, mais para si mesmo, então o que pensava era verdade, Jack realmente via o garoto, e não parecia ser só como amigos.– Hm... E vocês, tinham algo a mais? Ele falava com muito carinho de você.– Jura? – O loirinho sorriu. – Nós... Só somos amigos, não temos nada demais. Digo... O que ele falou pra você? Chris sorriu novamente.– Nada demais. O que acha de dar uma volta comigo?– Uma volta?– É, tem um lugar aqui perto onde ficam muitos cavalos, acho que o... Como é o nome dele?– Rainforest.– O Forest ia gostar. Tom ponderou por algum tempo e por fim assentiu, colocando a cela do mascote e subindo, logo depois do loiro, que segurava as rédeas. – Você pode me abraçar se quiser. O garoto passou os braços em torno dele, abraçando-o ao redor da cintura e arrancou um sorriso de Chris, de fato seu plano estava dando certo. O lugar onde ele o havia levado, era um campo aberto onde vários cavalos paravam vez ou outra para comer e apreciar o sol da tarde, nada muito especial, mas haviam muitas flores, Tom adorava flores e nunca deixava de reparar na bonita paisagem que elas compunham. Ao descer do cavalo, ambos se sentaram na grama onde puderam conversar por longas horas, Chris inventou a perfeita história de sua vida, dizendo que era filho de trabalhadores e que cresceu em meio ao campo cheio de flores, contemplando as estrelas a noite, a cada ponto da história que contava, colocava mais informações que deixavam o jovem abismado, viajando em sua mente para campos abertos com um rio de águas cristalinas, mas contos de fadas não existem. O pai de Chris era ladrão, viajava por vários lugares assaltando bancos e lojas, quando encontrou um policial que não gostava muito de pessoas desse tipo e que não fazia muito jus a constituições, na área dele ninguém era livre e morria qualquer um que o desafiasse. A sorte foi ainda mais cruel com ele do que qualquer um que ouvisse até esse ponto poderia imaginar, ao tentar assaltar uma loja no meio da estrada, encontrou com esse mesmo policial por ali, em pausa do serviço e levou três tiros no peito. A mãe de Chris escondeu tudo até que ele fizesse dezoito anos, conhecia o gênio do filho e não seria bom se ele saísse por aí jurando vingança à policia. Ela fez o que qualquer mãe em sã consciência faria, pegou suas malas e saiu da cidade grande para uma cidadezinha no meio do nada, onde ninguém reconheceria a trágica história de sua família.
Já podia se ver estrelas no céu quando Chris levou o garoto para casa no cavalo, onde se despediu dele com um afago nos cabelos e seguiu a longa caminhada de volta à própria casa. Naquela noite Tom não se sentiu sozinho já que tinha um novo amigo e por um momento até se esqueceu se que Jack havia sumido, tinha paz de espírito, algo que ele não podia explicar, algo puro dentro do peito, uma vontade de levantar, correr pela casa e gritar, havia recuperado a alegria de viver sabendo que amanhã o veria novamente. O loiro de fato voltou no dia seguinte e em muitos outros dias, até que um mês fora completado e já se viam bem próximos. Chris estava feliz com a vingança feita, mas Tom ainda se sentava na varanda todos os dias a espera de que Jack um dia voltasse para vê-lo. Chris era um ótimo amigo, mas não o amava, não sentia por ele o que sentia pelo rapaz de cabelos negros que lhe ensinara tanto e agora o coração apertava e o queria de volta. Naquela tarde, quando Chris chegou em seu cavalo, Tom estava em uma de suas crises, sentado e chorando sob a varanda, Chris achava que era muito drama para um garoto tão adulto que devia saber encarar a vida e por dentro, queria estapeá-lo e mandá-lo virar homem, mas ainda precisava agir como se o quisesse bem e feliz até que o rapaz voltasse, seja lá onde estivesse. Ele se abaixou em frente ao garoto e segurou as mãos dele, observando-o.– Por que chora tanto, Tom?– Jack me abandonou, eu sei, ele não costuma ir embora assim e me largar aqui... Por que ele fez isso?– Ora, ele vai voltar logo, hm?– Não vai! Me solta!– Tom, olha pra mim. – Chris segurou o rosto dele entre as mãos e o garoto ainda com os olhos cheios de lágrimas o observou, unindo as sobrancelhas ao notar a proximidade que ele tomava de si. – Vai ficar tudo bem. Tom assentiu, sentia o gosto amargo do abandono do outro, já que sempre esteve ali pra ele e não conseguia entender, tentava, mas não podia. Chris se aproximou do pequeno, aproveitando que estavam já tão próximos e tocou os lábios dele com sutileza num pequeno selo, que alarmou o garoto pelos seus olhos arregalados em direção à face dele, Chris então o segurou nos pulsos e puxou-o para si, investindo contra os lábios dele mais uma vez e os tomou a força, beijando-o. O coração bateu rápido naquele momento, tão rápido que parecia querer sair pela boca, e o frio no estomago ficou ainda maior, não era uma sensação boa, era amarga, fria, horrível, a traição é em todas as suas formas o pior dos sentimentos, a pior das vinganças e Jack nem ouviu quando a rosa vermelha caiu sobre a areia do chão, estava ali, olhando o garoto sentado na casa, junto ao rapaz que há poucos dias havia brigado, “devia tê-lo matado”, pensou e fora a única coisa que foi capaz de pensar. As lágrimas congestionaram os olhos e a razão desapareceu, não queria saber de nada, ouvir nada, nenhuma explicação, deixou a flor pega com tanto carinho ali mesmo e deu vários passos até a casa, mas que pareciam apenas dois pela leveza que os deu e tirando a arma reluzente da cintura apontou-a ao loiro mais alto, agarrando-lhe os cabelos e puxando-o para longe do garoto aos chutes. Chris se assustou, afinal, não achava que Jack pudesse aparecer numa hora como aquela, e de fato estava começando a se interessar pelo garoto, mas agora era tarde.– Eu avisei. Ele puxou o gatilho e abafou os gritos do garoto que desesperado observava a cena. Chris morreu com o tiro certeiro no peito, feito pela mesma bala que ele tentou roubar, claro que isso não foi escolhido por Jack, fora só uma ironia do destino. Jack se virou em direção à casa e ao garoto, observando-o no fundo dos olhos e Tom tremia, com medo da reação dele, porque tentara de qualquer maneira afastar o loiro, se ele pudesse explicar, se tivesse palavras para fazê-lo, se não tivesse tanto medo, mas não havia tempo. As lágrimas que deixavam os olhos de Jack escorriam por sua face, nublando suas vistas e a mão ainda estava erguida, segurando a arma apontada agora para o garoto que amava, e lutava consigo mesmo para desistir de atirar.– Jack, por favor, me deixa explicar, eu não queria beijá-lo, eu... Eu...– Não me interessa.– Jack, por favor... Eu te amo. O moreno parou por alguns instantes, o gosto amargo ainda nos lábios, todas as palavras e momentos passando rapidamente pela cabeça, a cena do beijo deles se repetindo e oscilando entre a cena de ambos no velho moinho, estava acabado. Puxou o gatilho, o garoto caiu, a mão sobre o buraco feito pela bala, as roupas brancas manchadas de vermelho e Jack transtornado, abandonado e confuso outra vez sumiu.
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