Shot me Down

6 I hit the ground.


Ninguém está livre de um desfecho cruel, principalmente quando se trata de amor, um sentimento tão delicado e frágil, vezes não retribuído, vezes esquecido. A traição desse sentimento, gera a vontade de esquecer, a vontade de sumir, de poder nunca ter sentido tamanha coisa por alguém, e para Jack, era difícil descrever essa vontade, a verdade é que queria ter atirado em si mesmo, ali, junto dele, mas teve tanto desgosto do garoto, que não teve coragem. Era homem, não podia negar, mas no caminho para casa, havia chorado mais do que em sua vida toda, como se colocasse todo o sentimento de angustia para fora. Algo queimava em seu interior, a vingança por si só não era suficiente, queria poder voltar no tempo e atirar de novo naquele maldito que roubou o primeiro amor que teve, o primeiro que naquele momento parecia ser para sempre o único, o esqueceria. Não queria mais pensar nele, não queria mais nem vê-lo nos sonhos novamente, nunca mais iria se entregar a ninguém. Não era de se estranhar que ele havia sumido novamente, para pensar, arejar a cabeça, aprontar alguma, e quem sabe, se Deus fosse generoso, não voltaria vivo para contar as histórias, não tinha mais motivos para voltar ali, não tinha mais razões, sem o garoto, era um nada, não havia mais cor naquele campo, só o vermelho do sangue dele no chão.

O barulho ensurdecedor apareceu pouco tempo depois, uma sirene alta até demais, anunciando que estava chegando para recolher alguém de algum acidente, uma ambulância seguida do carro de policia. A essa hora, os pais de Tom já estavam do lado de fora, tentando alcançar o corpo do filho estendido no chão e coberto de sangue e poeira, mas os policiais que somente naquela hora faziam bem os seus trabalhos, seguraram os pais afim de não deixar que alcançassem o garoto. Um paramédico se aproximou, ouvindo a respiração inexistente, tentando recuperar os sinais vitais, tentando achar dentro daquele grande ato de ódio uma maneira de salvar alguma das almas. Um corpo foi colocado em um saco plástico.

Já eram três e meia da tarde, o quarto branco de hospital fazia doer a cabeça, precisava de alguma cor para cortar aquela normalidade toda, era tão monótono que só ficaria pior se servissem sopa, e para a infelicidade dele era isso que uma das enfermeiras vinha trazendo sobre a bandeja. A TV passava algum programa de auditório qualquer, nem se interessou em descobrir qual era, o olhar estava perdido naquele prato em frente a si e no doce olhar das pessoas ao redor que mudamente indicavam que se alimentasse, já que estava fraco. Tivera sorte de poupar seus ouvidos da gritaria e das lágrimas quando o viram acordar aos poucos, como se finalmente despertasse de um pesadelo.

Em suas veias corria o soro, pelo jeito havia ficado dias em coma e sabia disso pois o tempo estava fechado lá fora e o frio trincava os ossos e rangia os dentes, lá se fora toda o verão, agora viria o outono, ou até mesmo o inverno, não sabia por quanto tempo esteve fora. Pensou em perguntar o que havia acontecido, mas a forte dor de cabeça e do corpo o lembrou de tudo instantaneamente e o gosto terrível em seus lábios não era somente o da sopa.

Tom estava acordado, depois de três longos meses em coma, a bala havia sido retirada, mas a cicatriz permanecera para lembrá-lo de quem havia puxado o gatilho, não era uma sensação muito boa, na verdade, ao perceber o que havia acontecido, o garoto teve vontade de gritar, chorar e até bater em si mesmo, mas as pessoas ali não precisavam ver isso. A sorte havia sido o tiro ter sido no lugar errado, pouco mais para o lado, o teria matado junto ao loiro, tudo o que havia acontecido era uma costela quebrada e uma fratura na cabeça por ter batido no chão.

Ele engoliu a sopa, rápido até demais, sem vontade alguma de sentir o gosto dela nos lábios e silencioso ouviu os pais a contarem a ele toda a história, até ouviu os xingamentos sobre o amigo desaparecido, o chamaram de covarde, o chamaram de tolo e até ameaças fizeram, dizendo que quando o pegassem não sobraria nada. Tom suplicou que o deixassem a sós ao menos por um momento e a custas conseguiu o momento de silêncio. De olhos fechados ele se lembrou de toda a cena, todos os passos dados pelo amigo até a si, das palavras que não deixavam sua garganta, do ato falho que foi tentar explicar para ele seus sentimentos. Amaldiçoou ao loiro que viera procurar a si, maldito, tudo ocorria ali pela maldita e velha vingança, se não fosse ele, podia estar nos braços de Jack agora, numa noite tranquila em seu quarto. Mas não havia mais Jack, não havia mais moinhos, nem flores, nem estrelas no céu cinzento de outono.

Em seu peito batia o coração atordoado, magoado, ferido, em saber que ele teve a coragem de atirar em si, a coragem de olhar a si nos olhos e ser tão cruel, em não ouvir, em não perdoar. Todos disseram que ele havia sumido novamente, mas o que mais doeu foi receber noticias de que ele estava se metendo em problemas em outra cidade de novo. Tentou salvá-lo, quantas vezes havia tentado salvar ao outro de seus próprios demônios, foi pra ele um irmão, um melhor amigo, e um amante, ele destruiu tudo com suas balas de prata.

As lágrimas escorreram pelo rosto do garoto, tão aturdido, chateado, magoado que podia se livrar dele, podia voltar no tempo e gritar a ele que não o amava, só para saber se ele teria feito o mesmo. Queria poder voltar e esquecê-lo, tê-lo recusado naquela noite, ter se afastado dele, qualquer coisa... Qualquer coisa que o fizesse se sentir menos idiota agora. Jack não sabia nem um terço do que acontecera naquele dia, mesmo assim não quisera ouvir e não seria agora que iria querer.

Pobre Tom, ouvi dizer que o Jack fugiu e está em outro estado, já foi preso duas vezes e parece que arranjou uma garota pra ajudar nos crimes.Que bandidinho sem vergonha.

Dias se passaram naquele hospital, olhando o mesmo teto branco enquanto ouvia as mesmas pessoas andarem pelos corredores fazendo as mesmas observações, palavras como instável e fora de perigo sempre passavam pela sua cabeça, mas desde aquele dia, não havia dito mais nenhuma palavra, planejou em silêncio, no escuro cada um dos movimentos que viriam a seguir, esperaria que eles não estivessem mais ali, que fossem embora, e não demoraria. Seus pais, cansados de dormir em poltronas desconfortáveis se foram, deixando com ele somente o escuro e a TV que repetia sempre o mesmo programa, sempre as mesmas notícias e um dia Tom, cansado de pensar decidiu ouvi-las. Naquele dia, em especial, elas contavam a história de um rapaz, que assaltava bancos e matava civis em cima de um cavalo negro, ele e a garota eram uma excelente dupla na hora de desarmar policiais e roubar suas armas, mas sempre ao matar, deixava para trás suas balas prateadas. O nome da cidade não passou despercebido, muito menos sua localização no mapa ao fim da notícia.

A agulha que perfurava a veia foi retirada, e ele limpou os olhos cobertos de lágrimas, não choraria mais, nunca mais pelo outro, não importava quanto tempo vivesse. Estava no chão, mas arrumaria um jeito de se levantar e o encontraria, não importava quanto tempo levasse, o acharia e arrancaria dele aquele orgulho, era inadmissível que alguém fosse capaz de magoar tanto assim outra pessoa, ir embora como se nada estivesse acontecendo e deixar às moscas o amor que tiveram antes, o amor puro que cultivava por ele, sentia aos poucos se esvair, aos poucos se perder e no lugar só restava o ódio, o mesmo sentimento que fizera Jack atirar crescia agora em seu pequeno coração, e a vingança para os que a conhecem, nunca deve ser subestimada, e ele devia saber, que ela alivia o coração, mas apodrece a alma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.