Shiver

85 Capítulo 85


Notas iniciais
Depois de um breve hiatus (< be so fr right now), estamos de volta!!

Nevava do lado de fora das janelas da cidadela em Urû’baen, mas o ar dentro do palácio estava morno e confortável. O vestido de Selena era branco, decorado com centenas de rubis diminutos que se amontoavam no corpete e então se espalhavam por sua saia, como pétalas de rosa ao vento. O colar que Morzan lhe dera pendia, delicado, de seu pescoço, carregado com energia e feitiços de proteção, e, ao seu lado, Morzan vestia branco também — calças claras e um gibão com padrões bordados em vermelho, a capa curta sobre um de seus ombros de um tom profundo de carmesim.

Selena manteve a mão firme sobre seu braço enquanto ele a guiava através das grandes portas de entrada do salão de Galbatorix, e já estava, àquela altura, bastante acostumada com bailes como aquele.

Não que o salão não estivesse deslumbrante. Esculturas de gelo delicadas sobre pedestais de mármore, mantidas secas em seus formatos por meio de magia; pequenos cristais transparentes pendendo do teto alto em fios quase invisíveis de tão finos; os convidados todos vestidos de branco, dançando ou espalhados em pequenos grupos ao longo do cômodo amplo.

Eles se curvaram perante ao rei primeiro, como ditavam os costumes da corte, e então Morzan a puxou consigo ao fazer seu caminho ao longo do salão para conversar com os outros convidados. Eles cumprimentaram alguns dos nobres menos importantes ao longo do caminho, os movimentos todos já muito naturais, antes de parar ao lado de Alexis e Aleifar.

Ambos os gêmeos vestiam branco, embora o vestido de Alexis fosse decorado com fios dourados, enquanto as roupas de seu irmão possuíam detalhes prateados. Não estavam sozinhos, cercados por um pequeno grupo de nobres — algumas das damas de Alexis, alguns mais independentes que pareciam apenas participar da conversa —, mas que se afastaram não muito depois de Morzan cumprimentá-los, dando espaço para que os Cavaleiros conversassem mais à vontade.

Ao observá-los ir, Selena perguntou, a própria voz baixa, “Nenhum sinal de Fäelan ainda?”

Aleifar lhe lançou um olhar pouco impressionado. “Essa sutileza toda foi algo que Morzan te ensinou, também?”

Selena fechou a cara para ele, prestes a responder, mas, ao seu lado, Morzan riu baixo. Ele desvencilhou seu braço do dela para que pudesse passar a mão ao redor de sua cintura, a puxando mais para perto, e falou, macio, “É o que todos nós estamos nos perguntando, não é mesmo?”

“Nada ainda,” foi Alexis quem respondeu. Ela observou o rosto de seu irmão por um instante curto, como se procurasse por algo em sua expressão, e então se voltou para Morzan e Selena novamente, oferecendo a eles um sorriso quase irônico. “Ele deve pensar que está fazendo algum tipo de declaração ao se atrasar um pouco, eu imagino. Kialandí e Formora, porém, estão aqui desde o começo.”

Selena já os havia visto, é claro, e, percorrendo o salão com os olhos, os encontrou novamente com facilidade. Não estavam juntos, dessa vez: Formora, como sempre, usava calças ao invés de um vestido, e falava com um pequeno grupo de convidados que viera de Teirm apenas para o baile de inverno; já Kialandí parecia conversar com um dos conselheiros do rei, mais próximo do fundo do cômodo espaçoso. Dentre os Treze, o único além de Fäelan que não parecia estar presente era Enduriel, embora Selena visse Dorian a um canto, absorto em uma conversa como se não tivesse qualquer outra preocupação no mundo.

“Eles parecem estar aproveitando bem seu tempo,” Selena comentou, em partes porque estavam cada um em um ponto diferente do salão, conversando com pessoas distintas, e possivelmente adiantando estratégias simultâneas. Olhou para os elfos pelo canto dos olhos novamente, tomando nota de suas expressões. “Embora talvez não estejam se divertindo tanto.”

“Muito perspicaz, Senhora Selena,” Aleifar replicou, e então sorriu para ela. “No espírito de alcançá-los e superá-los, eu conseguiria convencê-la a dançar comigo outra vez?”

Ela franziu as sobrancelhas para aquilo, e, ao seu lado, Morzan riu pelo nariz. “Não vejo como Selena poderia considerar isso um bom uso de seu tempo ou uma boa forma de diversão.”

Aleifar ainda sorria. “Ela precisa que você fale em seu nome?”

“Não preciso,” Selena respondeu, e devolveu seu sorriso. “Mas ele está certo, é claro.” Voltou-se para Morzan, e encontrou seus olhos díspares já atentos em sua direção. “Podemos?”

Ele riu baixo. “É claro,” disse, lhe oferecendo um braço com muita facilidade, mas se deteve ainda nos gêmeos antes de se afastar com ela. “Tentem se misturar, se possível. Precisamos aproveitar ao máximo a oportunidade que eventos como esse podem apresentar.”

Aleifar fez um som baixo de desprezo, como se se ressentisse do comentário (e ele fora mesmo próximo demais de uma instrução), e Alexis se inclinou em sua direção para lhe dizer alguma coisa, a voz baixa demais para que Selena tivesse qualquer chance de entendê-la. Não teve tempo de se deter naquilo, porém, enquanto Morzan a puxava para longe, os outros dois Renegados momentaneamente esquecidos.

“Você sabe,” comentou, em vez disso, o próprio tom muito leve, “que nós estávamos dançando em um baile quando Fäelan retornou à corte. Ele nos interrompeu, eu acredito.”

Morzan tomou sua posição à sua frente sem parecer muito impressionado. “Muito rude da parte dele,” respondeu, e talvez estivesse apenas a entretendo. “Se ele tentar novamente, podemos combinar que iremos apenas ignorá-lo.”

Selena precisou rir um pouco. Permitiu que ele tomasse sua mão na dele, os primeiros passos da dança lhe vindo muito naturais, e então, muito consciente de que poderiam estar sendo ouvidos, estendeu sua mente para que pudessem falar em particular. Posso te perguntar uma coisa?

É claro, e não havia nem mesmo um aviso escondido em suas palavras.

Eu sei que Enduriel realmente está preferindo se manter neutro nessa situação inteira, ela começou, tentando encontrar bem suas palavras. Em contato com seus pensamentos como estava, Morzan talvez já soubesse. Mas aquilo tudo de Jaime tentar se manter em contato com Dorian para caso precisássemos lhe passar alguma mensagem chegou a resultar em alguma coisa? Acho que não ouço nada a respeito tem um tempo.

Morzan apertou um pouco os lábios em um gesto de desagrado que não era realmente surpreendente. Cuidado, ele advertiu primeiro (é claro), e então, Eles ainda mantém contato, para caso um dia seja necessário.

Entendo. Após refletir sobre aquilo por um instante, Selena lhe ofereceu um sorriso um pouco torto. Aconteceu alguma coisa entre eles? Às vezes parecia que sim, mas eu nunca soube de verdade.

É claro que não, Morzan respondeu, rápido demais. Ele pareceu rever suas palavras um instante mais tarte, quase à contragosto. Talvez, uma vez ou outra. Jaime não teria me contato, e, mesmo se houvesse, ele com certeza não gostaria que eu contasse a você.

Ela riu daquilo. Minha curiosidade é sincera, admitiu. Embora eu talvez devesse perguntar a ele.

“Talvez,” Morzan concordou em voz alta, sem se importar. “Ele não te contaria tampouco.”

“Não.” Selena refletiu que, dependendo da forma que Morzan perguntasse, Jaime talvez precisasse contar a ele, embora fosse possível que ficasse bravo por isso. As coisas entre os dois não estavam totalmente resolvidas ainda, ela sabia, mesmo que às vezes parecesse que sim. “Embora ele esteja muito mais aberto para comigo do que era antes.”

O sorriso de Morzan veio um pouco mais suave. “Por mérito inteiramente seu, Sel,” disse, tão macio, o elogio a deixando bastante satisfeita consigo mesma. Não falaram mais de Jaime ou de Dorian, e Enduriel adentrou o saguão na metade de sua segunda dança, se curvando diante ao rei como todos os outros, mas parecendo tão desinteressado pelo evento quanto de costume.

Morzan permitiu a Selena que participassem de mais uma dança, ainda, antes de a puxar consigo para conversar com outros nobres, falando a respeito de Fäelan apenas indiretamente. Foi durante uma dessas conversas que Fäelan chegou ao baile, e eles fingiram ignorar sua presença de início, por mais que Selena soubesse que Morzan acompanhava sua entrada com ainda mais atenção do que ela.

O elfo passou alguns minutos conversando com o rei após cumprimentá-lo — suas palavras um mistério para Selena, que estava distante demais para ouvir, mas certamente não para qualquer um dos Treze que se desse ao trabalho de prestar atenção. Ao se afastar, ele logo foi abordado por Lorde Tyron, que visitava de Gil’ead, e pareceu recebê-lo de bom grado.

Morzan e Selena falaram com ele, também, mas apenas brevemente; apenas o bastante para que ela constatasse que Fäelan ainda a deixava nervosa e um pouco insegura, e para que percebesse que seus olhos cinzentos continuavam ainda muito frios, sua expressão ainda cuidadosamente vazia. Mas o elfo parecia satisfeito, também: algo de arrogante em seu rosto enquanto fazia seu caminho pelo baile e falava com todos que se adiantavam para cumprimentá-lo, como se os acontecimentos da noite o agradassem.

Selena podia perceber que Morzan, por outro lado, não estava exatamente contente com o que via, mas não parecia demasiadamente incomodado até o momento após o jantar em que um dos conselheiros do rei pediu lhe pediu licença, na metade de uma conversa, apenas para se aproximar então do elfo, a voz baixa ao lhe dizer qualquer coisa. Fäelan o respondeu de bom grado, e olhou para Morzan e Selena apenas de relance, a ameaça de um sorriso em seus lábios tão pálidos.

Ela deixou o ar escapar por entre lábios entreabertos, e aquilo era talvez um pouco ofensivo, sabia, mas dificilmente um motivo para qualquer preocupação absurda. Mas então olhou para Morzan, e viu como seus olhos díspares estavam duros, seu maxilar apertado, e percebeu que ele talvez não enxergasse a situação da mesma forma.

“É o bastante,” ele disse, a voz baixa, e por um momento Selena nem mesmo teve certeza de que falava com ela. “Vamos embora,” completou, então, apoiando a mão na base de sua coluna, e a guiou para fora do salão, parando apenas para dizer muito brevemente a Alexis que conversaria com ela e Aleifar no dia seguinte.

Atravessaram os corredores e subiram as escadas até sua torre em silêncio, e foi apenas já dentro de seus aposentos que ele passou uma mão pelo rosto e deixou escapar um suspiro muito baixo.

“Morzan...” Selena começou, mas ele a interrompeu com um olhar.

“Está tudo bem,” foi o que disse, porém, quase como se quisesse tranquilizá-la, mas talvez como se precisasse convencer um pouco a si mesmo. “Fäelan não deveria ter ainda toda essa influência,” acabou por admitir, a voz dura. “Mas isso só significa que nossos planos não estão tendo os resultados que esperávamos. Precisamos de uma nova estratégia.”

Selena franziu a testa, os braços cruzados sobre sua barriga. “E isso significa que...?”

Morzan só riu, irônico e não como se realmente achasse graça.

“Que precisaremos acatar completamente as ideias de Aleifar, é claro.”

Notas finais