Shiver
65 Capítulo 65
Notas iniciais

Antes de encontrar Aleifar no pátio principal do castelo, Selena reviu suas proteções mágicas, se assegurando de que cada uma delas ainda estava no lugar e também que o estoque de energia em seu colar era grande o suficiente, caso ela o precisasse. Vestiu seu vestido de couro, colocando também grevas sobre suas canelas e braçais sobre seus antebraços, e pendurou na cintura sua espada fina e um punhal pequeno. Prendera parte de seus cabelos em uma trança, para que os fios não caíssem sobre seus olhos, mas deixara o resto solto, e parou para se observar no espelho apenas para aproveitar da sensação que era ver a si mesma e constatar que parecia de fato perigosa.
Não seria um sentimento tão bom mais tarde, supunha, quando ela estivesse sozinha com seus pensamentos e a realidade do que fazia, mas naquele momento ser alguém a ser temida não parecia tão ruim. Parecia-se com um tipo muito peculiar de respeito.
Ela desceu as escadas do castelo em silêncio, mais calma do que talvez devesse estar, e franziu um pouco as sobrancelhas ao ver o Cavaleiro loiro em roupas comuns, sem armadura ou qualquer proteção a mais. Seus cabelos pareciam muito claros na noite nublada e seu sorriso era arrogante como sempre, e Selena cruzou os braços ao se aproximar.
“Lorde Aleifar,” cumprimentou, porque precisava. “Não vem conosco?”
Ele lhe lançou um olhar estranho. “E por que eu iria? A Mão Negra de Morzan não precisa de ajuda para se livrar de um punhado de rebeldes, precisa?”
Não precisava. De acordo com as informações que eles haviam recolhido, os rebeldes eram um grupo pequeno e provavelmente nem mesmo vinculado aos Varden; fazia sentido que fosse esse o caso, também, quando se pensava que eles atacavam apenas soldados patrulhando sozinhos ou em grupos pequenos. Mas fora a Aleifar que a Senhora Lorana pedira que lidasse com aquele problema, e Selena supostamente só o estava ajudando.
Ela estreitou os olhos. “Com certeza não. Mas essa tarefa não é de Morzan.”
O Renegado riu. “Só siga suas instruções, Senhora Selena. Vai ser bom para sua reputação.” Ele desviou o olhar. “Olhe, aqui vem Lorana lhe desejar boa sorte.”
Lorana não faria nada do tipo, a julgar pela expressão em seu rosto. A governante de Feinster tinha os lábios apertados e os olhos muito sérios ao entrar no pátio, seguida de perto por um de seus conselheiros. Aleifar se adiantou para falar com ela, mas Selena optou por ignorar a ambos, andando até Adam em vez disso.
O guarda estava de armadura completa, mas não usava a túnica que o identificaria como servo de Morzan. Ele segurava o elmo em um braço ao falar com seus subordinados, e se virou para Selena ao ouvi-la se aproximar, inclinando a cabeça em um cumprimento discreto.
“Minha Senhora,” disse, muito mais sério do que de costume. “Estamos prontos para seguir suas ordens.”
Selena não queria deixar transparecer que Aleifar a incomodara, então só assentiu uma vez em resposta. “Logo,” prometeu. “Parece que vamos fazer isso sozinhos.”
Adam voltou os olhos âmbar para onde Lorana falava com o Renegado. “Não deve ser um problema.” Ele hesitou, como se quisesse lhe perguntar mais alguma coisa, mas pareceu desistir. “Quando estiver pronta, minha senhora. Vai se despedir de Senhora Lorana?”
“Suponho que eu precise,” Selena respondeu, resignada. Mordeu o interior da bochecha por alguns instantes, indecisa, espiando os olhos insatisfeitos de Lorana e o quê de diversão no sorriso de Aleifar ao falar com ela. Estava cansada de lidar com qualquer um dos Treze sozinha, e com os jogos dos nobres também.
Respirou fundo antes de se juntar a eles no limiar do pátio. Lorana usava um vestido claro e uma capa azul sobre os ombros, para se proteger do ar noturno que era menos frio do que fresco, e tinha os cabelos presos em um penteado elegante. Ela encontrou o olhar de Selena, e respondeu sua mesura curta com um pender muito leve da cabeça.
“Senhora Selena,” disse, seu tom quase seco. “Certamente seus guardas não precisam de você para completar uma tarefa tão simples?”
Selena conteve a observação de que os agentes da própria Lorana não haviam sido capazes de resolver o problema, já que precisava ser diplomática, e não havia nada que a senhora de Feinster realmente pudesse fazer para impedir que ela assumisse todo o seu potencial como Mão Negra.
“Talvez não,” admitiu. “Mas eu preciso disso. Sinto muito, minha senhora, mas não posso ser quem você quer que eu seja.”
Pensou que Lorana parecia um pouco pesarosa. “Tem certeza que não?”
“Não agora.” Selena ignorou a risadinha baixa de Aleifar. “Mas será um prazer livrar Feinster dos rebeldes para você. Se me permite, tenho trabalho a fazer.”
Com isso, deu às costas aos dois, assentindo uma vez com a cabeça para Adam e tomando para si as rédeas do cavalo que um dos guardas lhe oferecia. Montou com facilidade, tomando a dianteira ao fazerem o caminho para fora do castelo e pelas ruas vazias de Feinster, sentindo Adam a seguindo perto atrás de si e o resto de sua guarda mais atrás, em duas linhas curtas como quando chegaram à cidade.
Sem a proteção dos muros, o vento cortava mais frio, e ela imaginava que eles parecessem muito diferentes naquela noite escura: não uma dama pequena fazendo sua entrada, mas uma pessoa desconhecida e perigosa passando por entre as casas, seguida por homens armados sem qualquer identificação em suas roupas ou escudos. A sensação era diferente, e também muito diferente de quando ela andara por Urû’baen apenas com Neil: agora, Selena era ela mesma a ameaça, ela mesma o perigo desconhecido à espreita.
Era tudo muito novo, mas seria impossível negar o poder daquela posição, e a parte dela que gostava dele.
Como ela sabia que fariam, os rebeldes se agrupavam em um galpão deserto de armazenamento de grãos. Estavam em maior número, e ainda assim não teriam qualquer chance contra onze dos melhores homens que a guarda pessoal de Morzan tinha a oferecer: não quando estavam todos montados e armados, protegidos e bem descansados.
Foi tudo muito rápido: poucos instantes de gritos surpresos e assustados, do barulho de espadas sendo desembainhadas e de homens tentando fugir. Selena nem mesmo precisou agir; deu as ordens do alto de seu cavalo, observando tudo da entrada para impedir um fugitivo de escapar, mas mesmo aquela precaução se provou desnecessária.
Ela desmontou, se aproximando para se certificar do sucesso do plano, a própria espada em uma das mãos e o vento balançando seu vestido e seus cabelos. Correu os olhos pela cena, agora imóvel e silenciosa, antes de abaixá-los para o pouco de sangue de esguichara contra seu vestido. Estranhamente, ela se sentia muito calma.
Encontrou o olhar de Adam, e precisou engolir em seco antes de responder sua pergunta silenciosa. “Vamos deixá-los para a guarda da cidade achar,” disse. Não demoraria muito nem mesmo em circunstâncias normais, e Lorana certamente os mandaria atrás de encontrar o lugar exato e limpar a bagunça.
O guarda apenas assentiu, mudo, antes de dar aos outros a ordem de voltarem para o castelo.
O percurso pareceu demorar mais dessa vez. Selena erguia os olhos para os céus de tempos em tempos, na esperança de ver até mesmo um único ponto de luz, mas, escura como a noite estava, ela não seria capaz de ver nem mesmo uma coruja ou morcego em voo. O único som era o dos bater dos cascos dos cavalos no chão, e o único sinal de vida na cidade era o raro e eventual rosto que espiava, incerto, pela janela de uma casa.
Ela queria um banho quente, se decidiu, e um cálice de vinho. Não queria ter que lidar com Aleifar e não queria conversar com Adam, mas não sentia qualquer vontade de chorar tampouco, ou qualquer desespero. Tudo havia ido tão bem quanto poderia.
Não olhou para os guardas nos portões, passando por eles sem lhes dar qualquer atenção, mas parou, surpresa e apenas um pouco confusa, ao ver o dragão pousado no pátio principal. Tudo ali era iluminado por tochas, a luz das chamas trêmula e inconstante, e mesmo no escuro seria possível discernir o dragão prateado de Aleifar do mais escuro parado ali. Mesmo no escuro, Selena reconheceria — inconscientemente, instintivamente — aquelas escamas vermelhas.
Fez com que seu cavalo seguisse em frente, sem acreditar de fato no que via, e lá estava ele: de pé no último degrau da escada, falando em voz baixa com Aleifar, mas já se virando para ela. Seus cabelos pretos estavam mais compridos do que na última vez que ela os vira pessoalmente — e ela já sabia disso, sabia —, balançando de leve na brisa suave, e as cores de seus olhos seriam impossíveis de diferenciar naquela luz.
Aquela ameaça de sorriso fazia com que o coração de Selena batesse mais rápido, e ela desmontou sem parar um instante para pensar no que fazia. Andou dois, três passos, e então estava quase correndo, passando os braços ao redor de seu pescoço e escondendo o rosto no pelo tão macio das peles que forravam o colarinho de sua capa vermelha.
Sentiu os braços de Morzan se fecharem em volta dela, um contra suas costas, a puxando para perto, e a outra mão sobre sua cabeça, seu toque leve e reconfortante. Seu sopro de riso bagunçou alguns dos fios soltos do cabelo de Selena, e sua pergunta fui divertida e muito baixa, “Sentiu minha falta?”
Selena ergueu os olhos para ele. “Tanto,” disse, sem saber se saberia colocar aquilo em palavras. Escondeu o rosto em seu pescoço mais uma vez. “Tanto.”
Ouviu o riso debochado de Aleifar, e seu comentário seco sobre aquilo — ela — não poder realmente ser algo que as pessoas deveriam temer, mas o ignorou com facilidade. Morzan estava lá, com seu dragão, exatamente no momento em que ela precisaria mais dele, a amparando com a mesma facilidade de sempre.
Ele erguia seu rosto com uma mão, os dedos longos afastando para longe de seus olhos alguns fios de seus cabelos castanhos que haviam se soltado da trança, e então Selena estava na ponta dos pés ao beijá-lo, os braços ao redor de seu pescoço e o corpo muito próximo ao dele, aquecida e reconfortada.
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