Shiver

63 Capítulo 63


Notas iniciais
Bom dia, meus amores!! E boa leitura ♥

Selena poderia contar nos dedos as vezes em que ficara a sós com um dos Renegados que não Morzan, e cada uma delas havia sido em Urû’baen, com ele próximo e ciente. Contatá-lo havia sido a primeira coisa que ela fizera depois de encontrar Aleifar no pátio principal do castelo em Feinster, para que ele a reassegurasse de que ela deveria realmente ir ao jantar a que fora convidada, e lhe dissesse a melhor maneira de fazê-lo.

Estragara por completo seus planos e em boa parte a tranquilidade que Selena descobrira na cidade litorânea, e, quando a noite caiu, ela se dirigiu aos aposentos de Aleifar com uma ansiedade crescente e Adam a seguindo de perto. Havia trocado de roupa, tendo escolhido um vestido vermelho e dourado muito mais elegante do que o traje que vestira mais cedo, com o colar de rubi enfeitiçado que Morzan lhe dera pendendo de seu pescoço como uma pequena proteção e os cabelos trançados com cuidado, as mechas castanhas entrelaçadas com fios de ouro.

O Cavaleiro a recebeu ainda vestindo calças escuras e o gibão preto e dourado, mas pelo menos não tinha mais a espada na cintura. Sorriu ao vê-la dobrar os joelhos em respeito, e mais uma vez se abaixou para beijar sua mão. “Senhora Selena,” disse. “Estou feliz que tenha vindo.”

Ela se perguntou se precisaria mesmo ser simpática para com ele; Aleifar era aliado de Morzan, certamente, mas ele nunca tratara Selena com muita educação. “Meu senhor,” respondeu, porém. “É um honra.”

Aleifar sorriu, olhando para Adam por cima do ombro de Selena. “Vejo que trouxe seu guarda. Acha que precisa de segurança extra para jantar comigo, Senhora Selena?” Ele deu um passo para o lado e ergueu um braço, a convidando para entrar. “Prometo me comportar.”

“Adam não está aqui para me proteger, exatamente,” Selena replicou. Ela sabia também que, se Aleifar quisesse lhe fazer mal, nem ela nem Adam seriam capaz de impedi-lo. E o maior perigo que o Renegado oferecia não era assim tão concreto, de qualquer forma. “Mais como uma precaução, e para depois me ajudar a rever a noite e perceber qualquer coisa que possa me passar despercebida.”

O Cavaleiro não pareceu se impressionar, embora a resposta de Selena talvez o houvesse irritado um pouco. Seus aposentos, diferente do que Selena observara pelo resto do castelo, não possuíam tapeçarias ou pinturas retratando cenas no mar: a tapeçaria que cobria a parede maior, de frente a porta, era inteira em tons claros e muito agradáveis — uma colina dourada, um céu alaranjado de talvez um pôr do sol, talvez um amanhecer, e dois dragões voando próximos. Todos os detalhes eram demasiados delicados e combinavam perfeitamente com as pedras claras que formavam o castelo de Senhora Lorana. Os sofás discretos tinham seus almofadados feitos em tecido dourado, a estampa bordada em prata muito delicada, e o lugar inteiro era muito bonito.

Selena imaginava que aqueles fossem seus aposentos permanentes ali, e se perguntou se Aleifar encomendara as decorações ele mesmo; estava ligeiramente curiosa sobre o quarto e outros espaços mais pessoais, mas não o suficiente para ousar perguntar, ou se dispor a fazer o que quer que a levaria a descobrir. Seguiu Aleifar para a sala de jantar, se sentando à mesa que ele lhe indicou e correndo discretamente os dedos pelos entalhes nas laterais enquanto um criado lhe servia o vinho branco. Naquele momento, ela se sentia muito grata por já ter aprendido a prevenir envenenamentos.

“Suponho que tenha avisado Morzan sobre este jantar, Senhora Selena?”

Ela lhe ergueu o rosto, e Aleifar a observava com olhos muito verdes e muito frios. Ele era absurdamente bonito, com aqueles cabelos loiros cacheados e os lábios cheios, o nariz muito reto e uma certa delicadeza em suas feições que vinha de ter sido um Cavaleiro por tanto tempo, detalhes pequenos que tornavam sua aparência um pouco mais próxima da de um elfo.

“É claro,” Selena respondeu, e aproveitou o momento para tornar explícita a maior garantia de sua segurança naquela noite: “Morzan disse que é bastante apropriado, uma vez que ele mesmo vai jantar com a Senhora Alexis esta noite.”

Aleifar sorriu mais uma vez, mas seus olhos se estreitaram um quase nada. Ele aguardou enquanto seus criados serviam o jantar — carne coberta por um caldo doce e acompanhada de frutas diversas —, girando o vinho em sua taça, confortável demais para que Selena pudesse relaxar de verdade.

Ele se serviu de uma mordida muito delicada.

“E não acha isso um pouco preocupante?”

Selena hesitou. “Preocupante?”

“Você sabe como Morzan e Alexis são próximos,” Aleifar explicou, não tanto como se fosse óbvio, mas como se ele próprio estivesse sendo muito paciente e prestativo ao discutir aquilo com ela. “Não te incomoda, Senhora Selena, que eles estejam os dois jantando juntos, planejando seus esquemas e perdendo dias e semanas para colocá-los em andamento? Foi o suficiente para que eu quisesse fugir de lá.”

Era algo que a incomodara muito, mas no passado, e Selena se forçou a sufocar os sentimentos de dúvida e ciúmes que tentavam ressurgir, trazidos à tona pelas palavras de Aleifar. “Não tão próximos como já foram antes,” respondeu, porque era a verdade e ela sabia disso. “Eu gostaria de saber porque você deixou Urû’baen, porém. Eu não fui avisada.”

“Eu tinha assuntos a resolver em minha própria propriedade,” Aleifar respondeu, dispensando a pergunta com um mover da mão. “E, como disse, me cansei de observar Morzan e Alexis trabalhando juntos. Os dois insistem em não utilizar meu melhor talento, então não vi motivo para perder tempo por lá, os vendo inventar planos muito mais demorados e muito menos eficientes. Vão pedir minha ajuda quando estiverem desesperados, você verá, e aí talvez já seja tarde demais.”

Estaria Aleifar desabafando para ela? Selena comeu uma garfada pequena — a comida estava verdadeiramente maravilhosa — e tentou ao máximo manter sua expressão neutra. “Acredita que Fäelan tenha chance real de vencer então, meu senhor?”

“Ele sempre teve chance. Nós é que não estamos fazendo tudo o que podemos para impedi-lo.” Ele sorriu, parecendo achar graça de alguma coisa, e talvez o rosto de Selena estivesse deixando transparecer mais do que ela gostaria. “Não se preocupe, Senhora Selena. Nós Cavaleiros temos toda a eternidade para consertar nossos erros, e não é como se fôssemos precisar recomeçar por completo, é? Só é uma pena que você não possa dizer o mesmo.”

“E quem são os responsáveis por isso?” Selena perguntou, só para se arrepender um instante mais tarde. Não estava falando com Morzan, e não fazia ideia de como Aleifar reagiria a comentários tortos sobre a Queda dos Cavaleiros. Aquilo estava próximo demais de assuntos em que não deveria tocar. “Não vale a pena pensar em possibilidades fora de nosso alcance.”

Mas Aleifar só riu. “Posso ver por que Morzan gosta de você.” Ele inclinou a cabeça para o lado, quase curioso. “E quais possibilidades seriam essas? Preciso perguntar. Que você não possa se tornar imortal, o que não é bem nossa culpa, ou que não possa se tornar uma Cavaleira, uma vez que não existem mais ovos de dragão para isso?”

Selena engoliu em seco; sentia que a conversa estava indo por um caminho perigoso, mas não fazia ideia de como mudar seu rumo. “Ambas?”

Ele sorria como se Selena houvesse lhe contado algum tipo de segredo. “Morzan talvez apreciasse ser capaz de torná-la imortal, Senhora Selena, ou ao menos de impedir seu envelhecimento e também o daquele soldadinho de que ele gosta tanto, mas certamente não gostaria que um dragão nascesse para nenhum de vocês.” Ele falava de Jaime? Selena não tinha certeza, e estava cada vez mais confusa com qual seria o propósito daquele assunto. Precisou resistir ao impulso de olhar atrás de si para Adam, onde ele esperava em silêncio junto à porta. “Você deveria perguntar a ele sobre isso. Ainda há muito, me parece, que Morzan não te contou.”

Selena se recusava a deixar que Aleifar criasse problemas entre ela e Morzan. Afastando seu prato, juntou as mãos no colo em um esforço final para manter a compostura. “O que está fazendo em Feinster, Lorde Aleifar? Tenho certeza de que não veio até aqui para conversar comigo sobre Morzan.”

“Eu poderia ter vindo.” Ele bebeu mais um gole de seu vinho. “Mas não. Você deve saber que Alexis e eu temos uma aliança antiga com a Senhora Lorana e sua família, e seu funcionamento é bastante simples: ela nos ajuda e nos apoia quando precisamos, e em troca nós temos o cuidado de levar ao rei seus pedidos, e nos certificamos que sua cidade esteja em segurança. Morzan pode tê-la limpado um ano atrás, mas toda peste tem tendência a reaparecer, e Lorana pediu minha ajuda. Bem a tempo, também, você não concorda?”

Ela não fazia ideia do que ele estava falando. “Meu senhor?”

“Sua confusão diz muito. Você está aqui para procurar por qualquer indício de inquietação, e para investigar se Fäelan está ou não por trás deles, mas não encontrou muito em Feinster, encontrou? E você teve tempo, Senhora Selena. Como é, então, que não percebeu nada?” Aleifar sacudiu a cabeça, como se decepcionado, mas ainda sorria. “Morzan nos garantiu que seu trabalho em Belatona foi impecável, mas Alexis e eu precisamos confiar em sua capacidade de continuá-lo, e eu, ao menos, não me impressionei ao chegar aqui.”

Selena sentia as bochechas arderem. Não acreditava que estava ouvindo aquilo, que Adam estivesse ouvindo aquilo, e odiava não saber o suficiente para se defender ou até mesmo continuar bem a conversa. “Não faz tanto tempo que cheguei a Feinster, meu senhor, mas certamente já aprendi muito aqui. Posso ainda não ter encontrado o que quer que seja a que você se refere, mas não tenho tantas conexões quanto um dos Treze Servos, e tenho certeza que eu teria encontrado, com apenas um pouco mais de tempo.”

“Teria? Eu acredito que não, uma vez que Lorana não queria que encontrasse, e você estava fazendo exatamente o que ela queria que fizesse, não? Você teria jogado o jogo dela até que Morzan perdesse a paciência e precisasse intervir ele mesmo — da maneira que fosse —, quando o estrago já fosse maior. Você deveria me agradecer, acho, por ter vindo quando vim, e percebido o que percebi.”

“E o que é isso?” Selena perguntou, menos educada do que fora apenas alguns instantes antes, irritada com o tom arrogante de Aleifar e com si mesma por estar tão confusa. Sentia seu orgulho e sua raiva ressurgindo dentro de si, e não tinha tanta certeza que queria contê-los.

“Que Lorana tem tentado transformar você na sua ideia de uma dama perfeita, é claro. Ela vem tentando te levar a fazer seu caminho por sua corte, participando de eventos elegantes e passeando pela cidade, compartilhando com você aquela demonstração tão charmosa de carisma e generosidade. E para quê?” Ele fez um instante de silêncio, oferecendo a Selena a oportunidade de falar, mas ela não o fez. “Permita-me te contar um segredo, Senhora Selena. Lorana é fiel ao rei, mas apenas porque precisa ser. Ela não está prestes a desafiá-lo, mas isso não significa que ela goste de Galbatorix, ou de mim, ou de Alexis ou Morzan. Lorana pode estar tentando transformá-la em uma dama, mas ela sabe que não é uma dama que você deve ser.”

“Eu não...”

Aleifar a interrompeu. “Uma tentativa fútil, é claro, uma vez que sabemos que nobreza vem do sangue e que não há um pingo dela em você.” Ele riu baixo. “Nem em Morzan, se formos sinceros, mas ele é um Cavaleiro, o que é mais importante ainda e mais do que compensa. E ele pode ter começado baixo, mas certamente não tão baixo quanto você. Inúteis ou não, porém, as maquinações de Lorana teriam se tornado bastante inconvenientes, se ela houvesse tido a chance de continuá-las.”

Selena sacudiu a cabeça, descrente, deixando de lado todas as suas últimas cortesias. “Você realmente acha que eu seguiria as instruções de Lorana antes das de Morzan? Eu nem mesmo posso fazer isso.”

“Não é exatamente isso que você esteve fazendo? Lorana colocou as ideias em sua cabeça, se não mais nada. Mas você sabe, Selena,” e ela percebeu que ele a chamou apenas pelo nome, “que Morzan pode permitir que você passeie pela corte ao seu lado, mas que ele não te trouxe para Urû’baen para que se tornasse a Senhora Selena, apenas mais uma dama respeitável ao seu lado. Não, ele quer que você seja a sua Mão Negra, e, neste momento ao menos, você está falhando. Eu me considero fazendo um favor, então, ao interferir. A você, a Morzan, e a Lorana.”

Selena queria discutir, mas não sabia se podia. No fundo da sua mente — e ela estava ali com Aleifar, não estava? O mais perigoso dos Treze para uma mente mal defendida, e Selena não sabia se tinha qualquer chance de proteger a sua naquele momento —, ela revirava o fato de que Adam ouvira tudo, e que ele não poderia evitar repetir tudo para Jaime, porque simplesmente não teria escolha. Será que Jaime repassaria as informações para Morzan? Será que Selena deveria lhe dizer tudo ela mesma, antes que ele tivesse a chance?

Ela nem mesmo sabia se seria capaz de mentir para Morzan sobre isso, ou de esconder coisa alguma.

Ergueu os olhos para o Cavaleiro muito a contragosto. “Por que foi que disse que Lorana o chamou aqui?”

Aleifar sorriu. “Feinster está infestada, e ela quer que eu me livre dos ratos.” Quando a única resposta de Selena foi um leve franzir das sobrancelhas, ele esclareceu: “Ratos rebeldes. Estão atacando seus guardas e os soldados do rei, e precisam ser parados. Seria inteligente de sua parte se oferecer para me ajudar.”

Selena definitivamente não queria aquilo, mas lhe deu a resposta certa mesmo assim. “Eu não trabalho para você, meu senhor. Mesmo que eu queira ajudá-lo, preciso pedir a permissão de Morzan antes.”

O Cavaleiro assentiu, sem parecer se preocupar. “Faça isso.” Ele estalou os dedos, e seus criados entraram na sala mais uma vez. “Ouvi dizer que gosta de tortas doces, Senhora Selena. Aceita uma fatia como sobremesa?”

Notas finais
Se o Morzan não aparece, pelo menos vocês tem outro dos Renegados para odiar, não é? Ele me pediu para perguntar quem está com saudades, porém. Espero que tenham gostado!! Beijos, beijos ♥