Shiver

56 Capítulo 56


Notas iniciais
bom dia, meu amores ♥ esse capítulo vai pra ana banana, que deixou aquela recomendação lindíssima que eu ainda não tinha conseguido agradecer direito, e que é simplesmente a pessoa mais linda desse mundo. ana ily ♥

Na primeira — e última — vez que Selena visitara Gil’ead, ela esperara nos aposentos de Morzan todas as vezes que ele saíra para um encontro ou reunião com outros nobres, então, por mais vezes que houvesse passeado pela cidade, o castelo ainda lhe era quase inteiramente desconhecido. Lorde Fallon os recebera para jantar em um salão suntuoso que era também grande demais para acomodar a ele, sua esposa, e apenas mais dois convidados. As paredes de pedras claras estavam cobertas por tapeçarias retratando cenas dramáticas de caça, e o tapete que cobria a maior parte do chão era de um tom rico de verde, decorado com bordados dourados; a mesa era de madeira escura e dispunha de mais dezenas de lugares vazios.

Lorde Fallon ocupava a cabeceira, com os cabelos grisalhos refletindo as chamas das velas e parecendo muito nobre em sua túnica verde escura; a Senhora Alyssa se sentava ao seu lado direito, Morzan ao esquerdo, e finalmente Selena ao seu lado, grata por tê-lo tão próximo e pela possibilidade de o tocar, tão discretamente, sempre que precisasse se reassegurar e reunir mais forças para suportar o resto da refeição.

Até então, eles haviam se limitado a assuntos seguros, discutindo os últimos ataques dos Varden às tropas do rei, a possibilidade de espiões ainda se esconderem nas cidades, disputas mesquinhas por terras entre nobres menores, alianças de matrimônio recentes, sem se aventurar muito próximo ao tópico da volta de Fäelan à corte. Mas Selena sabia que o governador de Gil’ead com certeza teria uma sala menor e mais aconchegante para um jantar pequeno, e que só estavam comendo naquele salão frio e gigantesco para que se lembrassem do poder de Lorde Fallon, por mais que ele não chegasse ao nível dos Treze Servos.

Era um tipo diferente de poder de qualquer forma, Selena supunha. Mais estável, um pouco mais distante do rei e da corte em Urû’baen, reforçado por anos de laços de sangue e tradição; Morzan poderia ter o ouvido e a confiança de Galbatorix, mas não exercia domínio sobre uma das maiores cidades do Império.

Selena tomou mais um gole de seu vinho, e então ergueu os olhos, surpresa, quando Lorde Fallon se dirigiu a ela. “Senhora Selena, há algo sobre o que nós estivemos nos perguntando.” Ele lhe ergueu um pouco sua própria taça em um cumprimento muito discreto. “Eu me orgulho de saber bem o que acontece em minha cidade, por mais que não necessariamente em minha presença, uma preocupação que tenho certeza que consegue entender.”

“Absolutamente, Lorde Fallon.” Ela lhe ofereceu um sorriso doce. “É com certeza digno de orgulho.”

“Nós sabemos, então, que esteve aqui com Lorde Morzan em sua última visita, alguns nove meses atrás. Meus homens me contaram sobre uma jovem bonita, de cabelos e olhos castanhos, talvez um pouco pálida e magra depois de um inverno rigoroso.” Ele sorriu um pouco. “E então ouvimos dizer de seu nome pela primeira vez quando chegou à corte em Urû’baen algumas semanas mais tarde, com as roupas e joias apropriadas para a mais alta das damas. É esta mesmo sua história?”

Selena conteve o impulso de olhar para Morzan; se ele não interrompera o nobre ou se adiantara para falar, era porque queria que ela o respondesse sozinha. “Ela segue essas linhas, meu senhor.” Ela não tinha certeza de onde Fallon queria chegar, e sabia que não devia divulgar mais sobre si mesma do que o necessário de qualquer forma. “Eu vejo que está tão bem informado sobre o que acontece nas outras cidades quanto sobre a sua própria. Me considere devidamente impressionada.”

Lorde Fallon ergueu um dedo para aquietá-la. “Há mais uma coisa, ainda. Rumores chegaram até nós de ainda outros de seus feitos; eles começam a se espalhar pelas ruas de Gil’ead, também, embora não sobre seu nome de fato. Algo sobre você ter enfeitiçado e matado dez homens enquanto treinava para ser útil a Lorde Morzan de outras formas?”

“Ah,” ela disse, tão suave. “Entendo.”

O governador de Gil’ead voltou os olhos claros para Morzan por um instante, como se calculasse bem o que dizer a seguir. “E certamente concorda comigo que todas essas informações não fazem sentido juntas?”

Selena franziu as sobrancelhas em uma demonstração educada de confusão. “Não tenho certeza se o compreendo bem, meu senhor.”

Foi a Senhora Alyssa quem falou. “Quanto desse conto é real? Não tudo, é claro?”

“É claro,” ela concordou facilmente. Gostaria que Morzan deixasse de ouvir e dissesse alguma coisa, mas ele parecia decidido a deixá-la responder aquele interrogatório sozinha. “Mas o bastante.”

“Mesmo?”

“As partes que podem causar alarme,” Selena especificou, “são as verdadeiras. O resto, bem...” Encolheu os ombros, esperando parecer muito mais certa de si do que se sentia. “Tenho certeza que alguma versão deve ter acertado os detalhes. Mas não entendo a preocupação, Lorde Fallon, Senhora Alyssa. Certamente meus talentos não são uma ameaça, mas um trunfo?”

E, ao ouvir isso, Morzan sorrira, e tomara com graça e naturalidade para si as rédeas da conversa. Chegaram perto de discutir Fäelan, mas sem realmente tocar no assunto; Selena descobria que se cansava daquelas conversas de subtextos e palavras não ditas, por mais que desempenhasse bem o bastante seu papel. Dispunha-se a participar da discussão, oferecendo sua opinião sempre que podia, e ainda assim não conseguia afastar a sensação de que faltavam a ela peças vitais para compreender tudo o que era dito, para montar o quebra-cabeça que eram os nobres e suas famílias e tradições de séculos e séculos.

E é claro que, se ela fosse sincera consigo mesma, aquele talvez não fosse bem o problema.

Quando se retiraram para a noite, algumas horas mais tarde, Morzan ainda parecia satisfeito, a guiando pelos corredores com um braço ao redor de seu corpo. Lorde Fallon havia lhes dado os mesmos aposentos em que dormiram na última vez que estiveram na cidade, com a vista para a cidade e o lado mais além, e a cama coberta pelo cortinado de seda tão fina que quase transparente.

Selena não teve a oportunidade de apreciar com atenção seus arredores, porém, antes que Morzan afastasse uma mecha de cabelos castanhos do seu rosto e a beijasse com uma gentileza que não mascarava por inteiro o desejo escondido por trás. Ela se entregou de bom grado por um instante, se permitindo perder no gosto rico de vinho em seus lábios tão macios, na sensação de ter seus cabelos escuros entre seus dedos.

“Você foi maravilhosa,” ele sussurrou contra ela, e foi com grande dificuldade que Selena se afastou.

Deu um passo para trás, sacudindo um pouco a cabeça, e cruzou os braços sobre a barriga. Não me sinto maravilhosa já há alguns dias, quis dizer, mas não achava que podia. Em vez disso, indagou, “Por que não disse nada quando ele me fez aquelas perguntas?” Morzan tinha que perceber o risco de deixá-la lidar com a situação ela mesma, e com certeza notara o quão desconfortável fora o momento?

As sobrancelhas escuras de Morzan se aproximaram um quase nada, porém, seus olhos díspares se estreitando um pouco, por mais que ele ainda sorrisse. “E deixar Lorde Fallon e a Senhora Alyssa pensarem que você não era capaz de respondê-los sozinha, quando claramente o fez com facilidade?”

Selena mordeu o interior da bochecha, hesitante. “Bem...” Ela desviou os olhos, desconfortável, e se sentou na cama, tirando os sapatos e abraçando os próprios joelhos. “Posso ser sincera com você?”

Morzan ergueu uma sobrancelha. “Ao invés de ser falsa?”

Ela precisou se conter pra não lhe lançar um olhar cansado e repreensivo, sem sentir qualquer disposição para lidar com aquele tipo de comentário e pensando ainda sobre como colocar tudo o que sentia em palavras. “Você sabe, quando nos conhecemos, e naquelas primeiras semanas em que viajamos juntos pelo Império, tudo parecia muito... Mágico. Era como se eu estivesse vivendo uma enorme aventura, fazendo tantas coisas empolgantes e visitando lugares novos e conhecendo novas pessoas. Era tudo tão maravilhoso e tão diferente e distante de minha vida em Carvahall, e era difícil não me impressionar.”

Morzan se aproximou devagar, parando por um instante antes de se sentar, e, por mais que esperasse que ela continuasse a falar, não parecia exatamente paciente; Selena se perguntou se ele sabia bem onde ela queria chegar.

“E então,” ela continuou, porque não podia parar agora, “quando chegamos à corte, era como fazer parte de um mundo que acreditei minha vida inteira ser inalcançável; eu aprendi magia e como lidar com os nobres, e é claro que ainda achava tudo incrível. Mas, você sabe, com o tempo tudo se tornou um pouco... rotineiro.” Morzan riu pelo nariz ao ouvir aquilo, o gesto descrente, e Selena se descobriu quase desesperada para conseguir explicar direito. “Não era ruim, é claro, principalmente porque com o tempo eu também consegui mais respeito e agregar algum valor ao meu nome, e eu não poderia nunca reclamar sobre isso. Não estou reclamando sobre isso.

“É só que... Às vezes, e principalmente desde que Fäelan voltou, eu me sinto um pouco deslocada, porque ainda existe tanto que eu não sei, e porque precisamos estar atentos o tempo inteiro agora, e sempre preocupados, e... Eu me sinto perdida, acho que é o que quero dizer, e despreparada e... um pouco assustada.”

Selena queria dizer mais, se expressar melhor, mas se sentia extremamente consciente de que, por mais que a volta de Fäelan coincidisse com o começo de todas aquelas emoções confusas dentro de si, ela não era sua verdadeira causa; olhando nos olhos de cores diferentes de Morzan naquele momento, seria impossível continuar insistindo consigo mesma que a fonte de seu nervosismo não era a noite em que o vira acordar de um pesadelo horrível, e não acreditava na possibilidade de ele não saber também.

“Honestamente, Selena,” Morzan disse, a voz carregada de exasperação, “o que você imaginava que fosse acontecer? Que você fosse chegar à corte e imediatamente se provar tão talentosa em jogos que nobres mais inteligentes que você vem jogando há décadas? Eu posso responder algumas de suas perguntas, mas você nunca entenderá de fato tudo o que se passa sem um pouco de esforço, e ainda assim você parece acreditar que tem a capacidade de acompanhar as motivações dos outros sem qualquer conhecimento sobre a economia das cidades, a história das famílias importantes do reino, ou realmente qualquer outra coisa. Você nunca estará bem preparada enquanto não entender que não pode conseguir todas as informações de que precisa apenas observando o que acontece, sem qualquer reflexão mais profunda, e acreditando que essa sua cabecinha linda é suficiente para guardar tudo o que precisa sozinha. Não é, tenha certeza disso.”

“Morzan...” Selena o encarou de volta horrorizada, se lembrando de todas as vezes nos últimos dias em que ele parecera se exasperar facilmente com ela, de como havia estado distante. Ela havia mesmo se convencido de que tudo estava bem entre eles? “Não foi isso que eu quis—”

“E você se incomoda por ter uma rotina?” Ele perguntou, seu tom progressivamente mais áspero. “O mundo é muito maior do que as partes dele que você conhece, Selena, e repleto de maravilhas a serem descobertas, e ainda assim nunca existiu possibilidade alguma de você viver sua vida inteira sem chegar a um ponto em que tudo começaria a parecer muito mundano; é assim que as coisas são. Se você nunca houvesse saído daquele vilarejo que chamava de casa, teria sido assim; se houvesse se casado com um mercador nômade e passado a vida viajando pelo Império, teria sido assim; e comigo em Urû’baen não será diferente, não importa quantos truques de mágica eu te ensine, ou em quantas viagens te leve. Eu sei que você é jovem e que essa inquietude é apenas parte de quem você é, mas não deve ser difícil entender, como o resto de nós entende, que as pessoas têm responsabilidades e coisas que precisam fazer para chegar aonde querem, e que não há qualquer chance de eu deixar tudo isso de lado para atender aos seus menores caprichos ou acalmar todas as suas inseguranças.”

“Eu sinto muito!” Selena exclamou, sentindo os olhos arderem e lutando contra as lágrimas que ameaçavam cair. “Eu sinto muito se não me esforcei o bastante, se... Se em algum momento passei dos limites ou disse ou fiz algo que não era de minha alçada, se esperei por algo que você nunca me prometeu. Eu não sabia.” Sua voz quebrava um pouco, por mais que ela tentasse mantê-la firme. “Vou tentar melhorar.”

Mas Morzan só deixou escapar uma risada descrente. “Por todos os deuses, Selena, você nunca aprende?” Ele sacudiu a cabeça, como se não pudesse acreditar no que ela havia acabado de lhe dizer. Eles falavam sobre a mesma coisa, era muito claro, por mais que não houvessem nem mesmo chegado a colocá-la em palavras. “Você não precisa melhorar, você precisa crescer.”

E, com isso, ele se levantou da cama, pegou um odre de vinho do meio de seus pertences, e deixou o quarto, a porta batendo alto atrás de si. Selena encarou as portas fechadas por um momento, ainda em choque, se lembrando da primeira vez que vira Morzan entrar por elas. Ela estivera usando um vestido novo e meias brancas que chegavam a suas coxas, e se lembrava de ter se sentido mais bonita e mais feliz do que nunca antes.

O primeiro soluço escapou sem aviso de seus lábios, e depois disso foi impossível conter os próximos. Selena se deitou onde estava, se enrolando sobre os cobertores sem nem mesmo pensar em se dar ao trabalho de vestir sua camisola, e ela podia ver o teto através do cortinado de seda, as pedras claras tingidas de vermelho e decoradas pelos detalhes dourados.

A visão a deixara maravilhada um dia, mas não mais. Selena adormeceu sozinha em uma cama grande demais para uma só pessoa, vestindo joias e roupas muito bonitas, cercada por riquezas inimagináveis, e com o gosto salgado das lágrimas em seus lábios.

Notas finais
(desculpa) (♥)