Shiver

41 Capítulo 41


Emma havia trançado uma dúzia de pérolas nos cabelos de Selena, combinando com as poucas espalhadas em meio aos bordados dourados do corpete de seu vestido azul, e, fossem quaisquer outros os convidados, ela talvez estivesse arrumada demais para o jantar.

Mas Alexis vestia verde, esmeraldas na rede em seus cabelos, no colar em seu pescoço, no anel em sua mão, fazendo com que seus olhos brilhassem como gemas também. Ela segurava, muito graciosa, uma taça de ouro nas mãos, e saiu com Selena para a sacada enquanto Morzan e Aleifar — vestido de vermelho, bonito e arrogante o suficiente para ser um príncipe de verdade — se sentavam à mesa para jogar cartas.

Selena apoiou os antebraços sobre a balaustrada, e, de noite e vista de cima, Urû’baen parecia quase pacífica. Não tanto nas últimas vezes que ela andara pelas ruas, mas mais por um sentimento vago de que havia perigoso algo à espreita do que por qualquer acontecimento real. Ela vinha pensando demais sobre bandidos na escuridão.

Como se ouvisse seus pensamentos, Alexis comentou, “E é você que está investigando os assaltos aos mercadores para Morzan, não é? Ele tem te ajudado? Fizeram alguma nova descoberta?”

Estava tudo indo demasiadamente devagar, na opinião de Selena, mesmo que estivessem esperando notícias a qualquer momento, desenvolvimentos de um plano que havia sido sua ideia e que Morzan melhorara consideravelmente. Ela observou Alexis por um instante, avaliativa. Não estava prestes a lhe contar nada daquilo.

“Ele ajuda um pouco,” respondeu a pergunta mais segura, sem elaborar. “Suponho que você e Lorde Aleifar também tenham interesse em ver isso resolvido?”

“De fato temos,” Alexis admitiu. “Mas estamos deixando esse trabalho para Morzan. Ele gosta de ter contatos com pessoas estratégicas de outras classes, e de outras cidades também, e os mercadores parecem esperar que ele lhes dê algum tipo de proteção. De nós, eles esperam dinheiro apenas, investimentos. De verdade, se isso continuar, os mercadores vão perder mais do que nós.”

“Não perderiam de qualquer forma?”

Alexis sorriu, bebendo um gole de vinho. “Você joga?” Perguntou, inclinando a cabeça na direção de seu irmão e Morzan. “Cartas? É simplesmente delicioso.”

Selena hesitou apenas um instante. “Não jogo, Senhora Alexis. Não era popular no local de onde vim.”

“Você nunca chegou a me contar onde isso é, exatamente.”

“Não.”

“Mas também não é tão difícil de ter uma ideia.” Alexis tocou seu braço. “Você deveria passar uma noite comigo e minhas damas, e eu te ensinaria a jogar. Você aprenderia em pouco tempo, sem dúvida, e então poderíamos conversar e apostar e trocar segredos.” Ela abaixou a voz, conspiradora. “E por segredos, me refiro aos mais empolgantes, aqueles que não poderíamos contar se não entre mulheres, e as mulheres certas, também.”

“Entre mulheres?” Selena repetiu. Não achava que passar uma noite na companhia de qualquer um dos outros Renegados seria muito seguro se Morzan não estivesse por perto, e não tinha dúvidas de que Alexis era tão perigosa quanto os outros. “Lorde Aleifar não nos faria uma visita?”

“Eu tento o manter longe, pelo conforto de minhas companheiras. É verdade que nem sempre consigo.” Seu sorriso era deslumbrante. “Diga que vai aceitar meu convite, e logo.”

“Eu gostaria.”

Olhou para a sala, e, como se sentisse que ela o procurava, Morzan ergueu o rosto. Estendeu uma mão em sua direção em um chamado silencioso, e Selena pediu desculpas a Alexis com os olhos antes de se afastar para se juntar a ele.

Apoiou uma mão sobre seu ombro, ciente de Aleifar a observando, um sorriso pequeno em seus lábios cheios. Morzan passou um braço ao redor de sua cintura, a puxando para perto, e perguntou com os pensamentos, Alexis não estava te assustando, estava?

Assustando? Não. Selena se lembrava dele jogando cartas com seus guardas em Teirm, apenas para passar o tempo e evitar os nobres do lugar, e havia sido algo mais leve, de certa forma. Na mesa entre ele e o outro Renegado havia moedas de ouro e prata, anéis e medalhões e broches, até um pergaminho selado cujo significado ela desconhecia. Mas me perguntou sobre os bandidos e os mercadores, se ofereceu para me ensinar a jogar, e me convidou para passar uma noite com ela e suas... Companheiras.

Morzan assentiu distraído, a atenção nas cartas em sua mão. E você aceitou?

Deveria ter aceitado? Não exatamente. Disse que eu gostaria de ir.

Ele lhe ergueu os olhos díspares, uma sobrancelha escura arqueada. Mesmo?

Sim. Pensei que você poderia sempre não me deixar. Selena encolheu os ombros. Não havia se preocupado tanto com o convite, não quando seria tão fácil encontrar uma desculpa para não ir. Não é mais alarmante que ela tenha perguntado sobre o que venho fazendo?

A não ser que você tenha lhe dito algo que não devia, não, não é. Morzan sorriu. Mas você não faria isso.

De fato não. Ela estava prestes a responder quando Aleifar falou, a voz alta o suficiente para deixar claro que ele sabia que interrompia uma conversa paralela. O homem vinha tamborilando os dedos longos contra o tampo de madeira escura da mesa, os anéis de ouro e rubi brilhando na luz das lanternas, e sua fala foi um desafio calculado. “Por que não tornamos isso um pouco mais emocionante?” Bateu duas vezes na mesa com o indicador. “Eu aposto um coração.”

De onde assistia junto à porta para a sacada, Alexis deixou escapar uma risada incrédula, perguntando ao irmão se ele enlouquecera, mas Selena não entendeu. Franziu as sobrancelhas, um pouco perturbada ao perceber que Aleifar estudava sua reação.

Isso significa...?

Não é o que está pensando, Morzan a assegurou, sabendo onde ela queria chegar. Mas não posso te explicar tampouco, Sel. Não ainda. Para outro Cavaleiro, perguntou, “Está tão confiante assim?”

“Talvez eu esteja.” Aleifar sorria. “Você aceita?”

“Não.”

A voz de Morzan foi seca, definitiva, e a resposta não era bem a que Selena esperara. Mesmo em Carvahall, poucos homens estavam dispostos a recusar uma aposta, com mais receio de parecerem fracos do que responsabilidade.

Aleifar estalou a língua. “Oitenta anos atrás, você teria aceitado.”

“Provavelmente,” Morzan respondeu com facilidade. “Hoje não estou disposto a correr esse risco.”

“Inseguro?”

“Não,” ele disse mais uma vez. Não havia ninguém lá, Selena percebeu, para tomar nota de sua recusa, então talvez por isso ele não estivesse preocupado. “Só não sou descuidado a esse ponto.”

Aleifar riu, deu de ombros. “Já descobri o que queria de qualquer forma.” Depositou as cartas desleixadamente sobre a mesa, viradas para cima, e Selena estudou os desenhos intrincados com desconfiança, sem fazer ideia de seu significado. “Talvez tenha sido esperto de sua parte.”

“Com certeza,” Morzan concordou, e abaixou a própria mão.

O sorriso de Aleifar era pura arrogância, mas Morzan já se levantava, indo em direção à porta da sala e a abrindo, já ciente do que o esperava do lado de fora. Era Jaime no corredor, os cabelos castanhos um pouco mais bagunçados que o normal, os olhos verdes cansados, e Selena se perguntou se ele havia acabado de se levantar. Não sabia se já era tão tarde, se haviam demorado tanto no jantar.

O que quer que fosse que Jaime tinha a dizer, ele disse rápido, a voz baixa demais para que os outros sequer tivessem a chance de entender. E então Morzan assentiu uma vez, uma mão ainda na maçaneta de prata, e se voltou para seus convidados.

“Eu peço desculpas,” disse, e seu tom não sugeria pesar algum. Ele gesticulou, e Jaime desapareceu escada abaixo. “Mas há algo que exige minha atenção imediata, e vou precisar pedir que se retirem.”

“Um pouco conveniente, não?” Aleifar provocou, mas Selena já não tinha interesse em suas intrigas mal disfarçadas. “Justo agora?”

“Não sei por quê,” Morzan devolveu, seco. “Eu ainda tinha tempo de vencer, afinal.”

O homem só sorriu, despejando as riquezas sobre a mesa em um saco de veludo vermelho, e se levantou com facilidade, o vinho que bebera indetectável em sua postura. Ele saiu sem se despedir apropriadamente, mas Alexis parou para abraçar Morzan antes de passar pela porta, sussurrando algo em seu ouvido.

“Eu não me preocuparia, Lex,” foi o que ele respondeu, riso em sua voz.

Selena mudou o peso de perna ao observar, impaciente, e tinha vontade de apressá-los de alguma forma. Quando Morzan se voltou para ela, no entanto, tudo o que havia em seus olhos díspares era leve satisfação.

“Funcionou?” ela perguntou, mal esperando que ele fechasse a porta. “Capturamos outro homem?”

Morzan sorriu, e foi toda a resposta de que ela precisava.

Notas finais
Foi curtinho, mas espero que tenham gostado! Nos vemos nos reviews? Fantasminhas, come say hi vocês também !! Pra eu poder dar um rosto ao meu amor hahaha ♥ Amo vocês todos !