Shiver

4 Capítulo 4


O tecido da manga da camisa de Morzan era macio contra seus dedos, e Selena precisou se esforçar para não pensar muito sobre estar andando de braços dados com ele (por mais que os moradores do vilarejo estivessem lançando olhares estranhos aos dois), porque Morzan certamente não parecia achar que estivessem fazendo nada fora do comum.

“Como vamos fazer isso?” perguntou, mais para ocupar sua mente do que por qualquer outro motivo. “Achar Gertrude e perguntar a ela para quem vendeu o colar, ou ir direto para os mercadores e descobrir por eles?”

Morzan nem mesmo hesitou. “Os mercadores devem saber, e não quero chamar atenção para mim. É melhor não envolver nenhum aldeão mais do que o necessário.”

“Você está me envolvendo,” Selena comentou em voz baixa, estudando o rosto dele com cuidado.

Ele só sorriu, voltando aqueles olhos de cores diferentes para ela. “Acho que posso confiar em você.”

Selena franziu a testa. “Por quê?”

“Por que não?” ele perguntou. “Posso estar errado, mas você me parece ser o tipo de pessoa que aceitaria de bom grado o silêncio como preço pela experiência.”

Havia algo de errado naquilo, mas Selena considerou a frase. “Talvez,” admitiu. “Mas gosto de me gabar.”

“E isso vem de uma necessidade de reconhecimento?

Sim. “Talvez.”

“Se vier,” Morzan começou, “e eu te disser que você tem o meu reconhecimento, acha que é suficiente para te satisfazer?”

“Eu...” Selena hesitou. “Eu tenho?”

Ele riu alto. “Sim.”

Selena mordeu o lábio, tentando conter seu sorriso.

“Sim,” disse. “É suficiente.”

“Pensei que fosse.”

“Se você confia em mim,” ela tentou, “quer dizer que eu posso te fazer perguntas?”

Morzan considerou por um momento. “Que tipo de perguntas?”

“Você disse que está aqui em uma missão.”

“Disse,” ele confirmou, estudando seu rosto e esperando que ela continuasse.

Selena ainda tinha dificuldade de sustentar seu olhar; pelas cores diferentes de seus olhos, que eram tão desconcertantes quanto eram fascinantes, e porque ele parecia ver mais do que ela gostaria de mostrar.

“Para testar a lealdade do povo ao rei,” ela disse. “Mas não pode ser apenas o povo de Carvahall. Vai passar por todos os pequenos vilarejos do Império apenas para isso?”

“Não, não todos. Mas vários.”

“E as grandes cidades?”

“Essas com certeza,” Morzan respondeu.

“Então você vai precisar viajar o Império inteiro.”

“Sim. Por quê?”

Selena lhe ofereceu um sorriso resignado e deixou escapar um suspiro. “É tudo que eu sempre quis. Odeio pensar que posso ficar presa em Carvahall o resto da minha vida.”

“Muitas pessoas passam a vida inteira em lugares menores. Mais isolados.”

“Mas algumas pessoas vivem no coração de novo mundo. Muitas pessoas vivem nas cidades, mesmo que não sejam ricas ou poderosas. E existem pessoas que viajam o Império inteiro todo ano.”

“Ah, sim. Alguns de nós temos sorte.”

“Você acha que tem? Sorte?”

“Eu sou o homem mais poderoso do Império, além do rei.” Morzan olhou para ela, pela primeira vez sem nenhum traço de divertimento em seu rosto. “Não, não acho que tenho sorte. Eu sou o que sou por um motivo.”

Selena não soube como responder. Eles haviam chegado à estrada e o fim do vilarejo, e o acampamento dos mercadores se estendia a frente. As tendas dos trovadores eram as primeiras, coloridas e alegres. Atrás delas vinham as tendas acinzentadas ou amarronzadas do resto dos mercadores, pontuadas por um ou outro resquício de cor vindo das dos mais ricos.

“Posso te dar um conselho, Selena?” Morzan perguntou.

Ela hesitou, desviando os olhos do acampamento para olhar para ele. Assentiu.

“Se você realmente quer conhecer o Império, se quer sair de Carvahall, se quer que sua vida seja mais do que isso,” ele fez um gesto vago para a vila, “não se prenda ao que tem aqui. Na primeira chance que tiver, saia.”

“E se eu não tiver certeza que a chance realmente é uma chance?”

“Descubra,” Morzan disse simplesmente.

Selena mordeu o lábio. “Vou tentar.”

“Bom.” O sorriso que Morzan lhe ofereceu foi apenas um leve erguer de um canto dos lábios.

Ela esticou o pescoço, tentando enxergar melhor as tendas mais distantes. “Qual delas é a sua?” perguntou, erguendo o queixo na direção do acampamento.

“A vermelha. Lá.” Ele se aproximou mais dela ao se inclinar e apontar.

A tenda era de um tom bastante escuro de vermelho e uma das mais ricas do acampamento. Selena não teria dificuldade em acreditar que ela pertencia a um mercador particularmente bem sucedido – havia outras mais extravagantes, com certeza – mas era impressionante mesmo assim.

“Ah. Ela é...”

“Sim?”

“Incrível.” Selena hesitou. “Mas menos do que você está acostumado, imagino.”

Ele assentiu. “É suficiente, e serve seu propósito.”

Eles pararam na frente de uma tenda cinza escura que seria discreta se não fosse maior que a maior parte das outras. Morzan soltou o braço do de Selena para bater na madeira que separava as abas da entrada da tenda. O mercador que saiu alguns instantes mais tarde deveria ter quase cinquenta anos e usava calças escuras e uma camisa azul acinzentada elegante. Ele empalideceu um pouco ao ver Morzan de pé a sua frente, mas sorriu e inclinou a cabeça respeitosamente.

“Meu senhor,” sua voz baixa soava um tanto frágil. “Ao que devo essa honra?”

Selena franziu a testa e sorriu de leve diante da pompa, mas Morzan não agiu como se fosse estranho àquilo. Ele puxou o desenho que mostrara a Selena na taverna do saquinho de veludo que trazia no cinto e o entregou ao mercador. “Você comprou esse colar de uma mulher da vila dois anos atrás?”

O mercador examinou a figura com atenção, um vinco surgindo entre suas sobrancelhas. “Esmeralda e ouro, bastante antigo?”

“Aquilo era uma esmeralda?” Selena perguntou, sem conseguir se conter.

O mercador apenas olhou de relance para ela; assentiu curtamente e voltou a atenção a Morzan, lhe devolvendo o desenho. “Comprei, e por um bom preço também. Provavelmente mais dinheiro do que a moça vira em toda a vida, sim, mas com certeza muito menos do que o colar valia.”

O queixo de Selena caiu, e ela ergueu as sobrancelhas em revolta. Nem mesmo porque o mercador comprara a joia por menos do que ela valia – eles faziam isso – mas porque ele falou sobre aquilo na frente dela sem a menor preocupação. “Você–”

“Ainda o tem?” Morzan interrompeu. Sua mão direita se fechou ao redor do pulso de Selena, sem usar força, mas firmemente, e ele correu o polegar sobre a mão dela em um leve aperto.

Ela se voltou para ele, confusa e surpresa, mas Morzan tinha a atenção focada no mercador, que dizia, “Não. O vendi naquele mesmo ano.”

“Vendeu para quem?”

O homem hesitou, como se não quisesse dividir a informação, mas acabou dizendo, “O filho mais velho do governador de Dras-Leona.”

“Marcus Tábor?” Morzan perguntou, sem soltar o pulso de Selena.

“Sim, ele. Pagou um ótimo preço, também.”

Selena não podia dizer com certeza, mas desconfiava que Morzan não tivesse gostado nada da informação. Ele apertou os lábios e ergueu as sobrancelhas leve e rapidamente em uma expressão que parecia parte resignação e parte desgosto. “Agradeço pela cooperação,” disse secamente ao mercador.

Este assentiu, os olhos claros descendo momentaneamente até onde a mão de Morzan ainda segurava Selena. “Foi um prazer ajudar.”

Morzan esperou até que ele sumisse para dentro da tenda antes de soltar do pulso de Selena. Ele sorriu diante da expressão dela. “Eu sei.”

“Sabe?” Selena perguntou, indignada.

“Sei,” Morzan confirmou. Ele pôs a mão sobre a as costas dela e a guiou para longe da tenda cinzenta. “Ele desprezou uma conhecida sua na sua frente, e você não gostou.”

“Ele desprezou a vila inteira! Não com tantas palavras, claro, mas o jeito como ele olhou para mim...”

Morzan continuava sorrindo, quase como se achasse graça. “Eu percebi.”

Ele parou perto da própria tenda, e acenou com a cabeça para dois homens que estavam sentados a uma pequena mesa próxima à entrada, jogando dados. Selena quase não deu atenção a eles, até perceber que, apesar de usarem agora roupas mais simples e ambos carregassem uma espada na cintura, eles eram os dois mercadores que iniciaram a discussão na taverna no dia anterior – exceto pelo fato de agora não se parecerem nada com mercadores.

Eles se ergueram, juntos, e abaixaram a cabeça para Morzan em respeito, e então o ruivo deu as costas para Morzan e Selena e entrou na tenda vermelha. O moreno se aproximou deles. “Senhor,” cumprimentou, e sorriu para Selena. “É bom vê-la novamente. Peço desculpas se pareci rude ontem.”

Ela hesitou, tão surpresa que quase se esqueceu de estar brava com o mercador de joias. “Não pareceu.”

Morzan riu baixinho. “Ela só se incomoda se você desprezar os aldeões de modo bastante explícito, ao que parece. Selena, esse é Adam. Um dos guardas mais habilidosos a meu serviço.”

“Só faço meu trabalho,” Adam explicou. “É um prazer conhecê-la.”

“E o ruivo que falou tanto ontem,” Morzan continuou, “é Neil. Ele foi buscar vinho para nós.”

“Foi?” Selena perguntou, franzindo a testa. Morzan não fizera nenhum pedido, mas talvez seus guardas já soubessem o que deveriam fazer.

Morzan confirmou com a cabeça, então se dirigiu a Adam. “Jaime já voltou?”

“Ainda não, senhor.”

Neil saiu da tenda então, trazendo consigo dois cálices de metal. Ele entregou os dois a Morzan, que por sua vez ofereceu um a Selena. Ela aceitou com um sorriso, erguendo o cálice para examiná-lo mais de perto. Os detalhes desenhados no metal – na prata? – eram delicadas vinhas.

Morzan ainda falava com os guardas. “Não estavam apostando, estavam?”

“Não, senhor,” Adam respondeu prontamente.

“Podem voltar ao jogo, então.” Morzan se virou para Selena. “Prove o vinho.”

Ela obedeceu, tomando um gole pequeno e cuidadoso. O sabor era mais rico do que qualquer outro vinho que ela já provara antes, e ela bebeu mais um gole antes de erguer os olhos para Morzan. “É maravilhoso.”

Ele riu. “Eu disse que vocês precisavam de bebidas melhores.”

O sorriso dela foi mais fraco dessa vez. “Sim.”

“Ainda está incomodada pelo comportamento do mercador?” Morzan perguntou. “Ele não disse nada assim tão ruim.”

Selena hesitou. “Não foi o que ele disse.” Ela sabia que não deveria se abrir para um homem que mal conhecia, mas conversar com Morzan era tão fácil, e ele a observava como se todas as palavras dela tivessem importância. “É só que ele estava olhando para mim como se... Como se eu estivesse ali com você porque quero dormir com você ou algo do tipo.”

Morzan inclinou a cabeça para o lado, a estudando calmamente, e perguntou, “E não quer?”

Selena corou, chocada, mas a expressão de Morzan continuava séria. “Não assim. Não como ele estava insinuando,” disse em voz baixa.

“Mas quer.” Morzan sorriu. “Ou não?”

Ela engoliu em seco, sentindo o rosto queimar, mas respirou fundo e concordou. “Sim.”

Notas finais
Hmm, sorry por esse final. Às vezes me preocupo em estar andando um pouco rápido demais, mas aí me lembro que meu headcanon (e eles são todos cuidadosamente pensados) é que a Sel e o Morzan nunca esperaram muito para fazer nada, então ¯_(ツ)_/¯. Falando em Morzan, ele está levantando algumas bandeiras vermelhas nesse capítulo -- mas do que nos outros -- e eu espero do fundo do coração que elas estivessem perceptíveis. Espero que tenham gostado, e até domingo que vem (ou antes?). beijinhos ♥