Shiver

32 Capítulo 32


Notas iniciais
Sabem que, de tempos em tempos, eu me encontro de frente a um capítulo difícil de escrever (por personagens importantes aparecendo ou cenas importantes acontecendo ou simplesmente porque é difícil mesmo hahaha), mas também acontece de esses frequentemente serem capítulos que meu eu dois/três anos mais nova (god bless her) queria muito escrever (em vez de escrever a fic direito, that is), então muitas vezes posso encontrar partes rabiscadas no meu fichário de cursinho (porque, obviamente, eu escrevia fanfic em vez de estudar). Acontece também de essas cenas serem mais ou menos péssimas, pois anos antigas, mas há uma coisa ou outra que vale a pena salvar. É o que aconteceu aqui, e espero que gostem!! Ana, como prometido, my darling, this one is all yours ♥

Morzan estava esperando por ela em frente às portas de madeira escuras de seus aposentos – sua torre, ela se corrigiu, uma vez que, depois de conhecê-la inteira, percebera que era esse mesmo o caso – vestindo uma calça escura com bordados dourados nas laterais, um gibão negro similar, as mangas cortadas para revelar o tecido vermelho embaixo, e, sobre um ombro, uma capa curta carmim decorada com fios prateados, e Selena nunca o vira mais bonito. Ele aparara os cabelos negros, também, e não havia nada em sua aparência que sugerisse que acabara de voltar de uma extensa viagem.

Ele sorriu ao vê-la se aproximar, os olhos díspares brilhando, e ergueu uma mão para tocar seu rosto, o polegar traçando a linha de seu maxilar. “Você está linda,” disse, tão baixo, e plantou um beijo muito suave sobre seus lábios. “Quase uma nobre.”

Selena se sentia nobre. Seus cabelos haviam sido puxados para trás e presos em uma rede de rubis, mas metade ainda caía sobre seus ombros em ondas castanhas, e seu vestido era de um tom escuro e profundo de vermelho, ricamente bordado, o corpete apertado o suficiente para tornar sua respiração fraca. “Quase?” perguntou, sorrindo.

“Coloque os ombros para trás,” Morzan instruiu, e ergueu seu rosto com o indicador. “E erga o queixo. Assim.” Ele a examinou, cuidadoso. “Precisa também se lembrar de endurecer um pouco o olhar quando for falar com outros e, principalmente, com o resto dos Treze. Não muito, é claro; só não deixe transparecer hesitação.”

Selena assentiu. “Posso fazer isso.”

“Mhmm.” Ele parecia quase distraído ao estudar sua postura, mas sorriu ao lhe oferecer um braço. “Pronta?”

Não seria possível se sentir pronta; não quando aquela noite tinha peso tão grande em como seria seu futuro na corte, em suas relações com nobres, na confiança que Morzan tinha nela. Mas Selena respirou fundo uma vez, e assentiu, passando o braço pelo seu. “Se estiver comigo.”

“Sempre,” ele respondeu.

Os corredores do palácio eram iluminados pelas mesmas lanternas sem chamas que os aposentos de Morzan, e um tanto mais frios. Tapeçarias vermelhas bordadas com a chama retorcida que era o brasão de Galbatorix estavam penduraras a intervalos regulares, e Selena não demorou a perceber que levaria um tempo para aprender a achar seu caminho sozinha pela cidadela.

Morzan sabia onde estava indo, no entanto, e talvez tivesse escolhido a rota mais rápida, pois logo chegaram a um corredor muito maior e mais largo, e longe de deserto. Os nobres paravam de conversar para vê-los passar, fazendo com que Selena tivesse certa dificuldade em manter os olhos fixos à frente e o rosto erguido.

“Eles estão invejosos,” Morzan disse baixinho, se inclinando um pouco para deixar claro que sussurrava algo em seu ouvido.

Selena olhou para ele. “Com inveja de mim?”

“É claro que não,” ele respondeu, o tom leve como se estivesse dizendo a mais lógica verdade. “De mim, eu diria, por ter uma dama tão bonita ao meu lado.”

Era absurdo por ser tão obviamente falso – não que não houvesse senhoras de aparência menos agradável no corredor, mas a grande maioria possuía clara graça e elegância, com os traços delicados de quem tivera sempre uma vida abastada – e Selena não pôde evitar rir baixinho, se aproximando um pouco para que seu ombro tocasse o dele. “Estou lisonjeada, Lorde Morzan.”

Morzan devolveu seu olhar, divertido. “Essa foi, acredito,” disse, “a primeira vez que me chamou assim.” E ele sorriu. “Aqui estamos.”

Pararam de frente a imensas portas de ouro, já abertas, decoradas com o desenho de um carvalho em tamanho real, um dragão mordendo o próprio rabo enrolado em seus pés e diversas cenas e criaturas espalhadas pelo tronco e pela copa. Selena parou para estudá-las, maravilhada e incapaz de se conter, e sentiu o toque confortável da mente de Morzan. Vou me certificar que tenha tempo para observá-las o quanto quiser depois, ele disse, mas não podemos nos dar ao luxo de parar agora.

Ela só assentiu, e permitiu que ele a guiasse para dentro do salão. O aposento era majestoso, maior do que qualquer cômodo que Selena vira na vida, com dezenas de pilares o sustentando e portais alinhando as paredes. Onde quer que olhasse, havia ouro, prata, e pedras preciosas, e diversas pinturas e esculturas. Selena perdeu um momento deslumbrada pela sala, apenas para depois registrar os nobres espalhados por ela, e só então o caminho aberto entre as portas e o trono.

Morzan mantinha a cabeça erguida e os olhos fixos à frente, e ela seguiu seu exemplo. O trono estava longe o bastante para que ela não conseguisse distinguir os traços da figura sentada nele ou do homem alto e vestido de cinza parado ao seu lado, mas notou como se voltaram para eles conforme faziam seu caminho ao longo do salão. Quando o homem de cinza se afastou do rei, Selena jurou poder sentir o sorriso e a satisfação emanando de Morzan.

Ele se ajoelhou diante da base da plataforma de onde se erguia o trono, a puxando consigo e parecendo estranhamente confortável na posição de deferência e subordinação. Selena o viu erguer o rosto pelo canto do olho e, finalmente, se permitiu encarar o rei.

Galbatorix se sentava confortável sobre seu trono, os dedos da mão direita tamborilando sobre o braço, e os observava com olhos muito escuros e muito atentos. Uma coroa de ouro avermelhado repousava sobre seus cabelos negros, e ele tinha barba e bigode cortados rente. Sua pele bronzeada tinha aspecto um tanto fino, mas seus ombros eram largos e seu corpo, forte.

“Lorde Morzan,” ele disse, abrindo os braços, e sua voz lançou arrepios pelo corpo de Selena; era rica, profunda, e carregada de autoridade, e tão mais poderosa do que qualquer outra que ela já houvesse ouvido. “Meu amigo. Seja bem-vindo de volta.”

Morzan se levantou, ainda guiando os movimentos de Selena, e olhou de relance pelo salão antes de sorrir. “Estou feliz em voltar,” respondeu.

“E bem sucedido, eu espero,” Galbatorix disse, embora com certeza já soubesse.

“Ah, sim. Temo que tenha perdido algumas dezenas de inimigos, Senhor.”

Galbatorix riu baixo, e voltou os olhos negros para Selena. “E o que ganhou?”

“Muito.” Morzan apoiou uma mão sobre a base de sua coluna e a fez dar um passo para frente, e foi de certo alívio quando seu toque não desapareceu. “Senhor, me permita apresentar a Senhora Selena, minha companheira e descoberta mais recente.”

Ela sentia o rosto quente e sabia que Galbatorix a estudava com atenção, e ao dobrar os joelhos como praticara, se viu confrontada mais uma vez com a improbabilidade absurda de sua situação. Como era possível, afinal, que uma jovem camponesa estivesse sendo apresentada ao rei por seu servo predileto, arrumada em vestes ricas e com jóias em seus cabelos? Selena não pertencia àquele lugar. Não poderia pertencer àquele lugar. Foi com certa dificuldade que falou, e apenas por algum milagre que sua voz soou firme. “É uma honra, Vossa Majestade.”

Ele assentiu. “Certamente. Seja bem-vinda, também, à Urû’baen, e saiba que estarei esperando ansiosamente por uma oportunidade de conhecê-la melhor.” Era incrível o efeito que sua voz tinha sobre ela, ressonando profunda em sua mente; quaisquer palavras soariam verdadeiras apenas por serem ditas por ele. “Permitirei que vá, por hora, pois sem dúvida ainda há muitos a quem Morzan deseja apresentá-la.”

“E mais que esperam conhecê-la, tenho certeza.” Morzan ajeitou a mão em volta de sua cintura, seus olhos díspares sempre voltados ao rei. “Obrigado, Senhor.”

Galbatorix apenas assentiu, os dispensando com um aceno de mão, e disse, “Conversaremos mais tarde.”

Aquela última frase fora dirigida apenas a Morzan, Selena percebeu, enquanto ele abaixava a cabeça e começava a levá-la para longe; uma promessa e uma demanda. Quando sua mente tocou a dela, no entanto, ele lhe pareceu plenamente satisfeito – um sinal de que tudo correra bem. Viu?, Morzan disse. Eu disse que seria fácil.

E ele havia mesmo dito, na noite em que lhe contara sobre cada um dos nobres mais importantes e o cuidado que Selena deveria tomar com eles, além de insistir em qual deveria ser seu comportamento. Isso foi fácil?, devolveu apenas.

“Você não achou?” Morzan perguntou, desta vez em voz alta, seu tom leve. “Quem quer conhecer primeiro?”

Selena encolheu os ombros. “Quem você preferir.”

Ele olhou de relance pela sala, talvez se certificando de que sabia onde todos estavam. “Enduriel, então. Deixemos que os outros venham até nós.”

E, surpreendentemente, ele a guiou para longe dos outros nobres e na direção de um dos portais que alinhavam as paredes do salão. O elfo recostado contra ele era alto, com longos cabelos lisos que escondiam seu rosto como uma cortina negra enquanto ele girava uma pequena esfera de prata entre seus dedos, estudando os símbolos em sua superfície. Selena se demorou um pouco em suas orelhas tão caracteristicamente pontudas, e observou, maravilhada, ele correr um dedo sobre a esfera para que os símbolos deslizassem pelo metal como tinta na água.

Enduriel ergueu o rosto quando os ouviu se aproximando. Tal qual a iluminura no livro que Selena viera estudando, ele tinha olhos muito azuis e cílios compridos como os de uma garota, e traços elegantes que não chegavam exatamente a serem delicados. Possuía um ar distraído, também, como se sua mente estivesse sempre distante, e sua expressão era quase melancólica. Não seria possível, no entanto, negar sua beleza, ou o fato de que era tão atraente.

“Morzan,” ele cumprimentou, e não era possível identificar a emoção em sua voz melódica. “Está de volta.”

E, quando Morzan respondeu, ele soou quase gentil. “Você não percebeu?”

“Não posso dizer que tenha percebido, embora certamente estivesse ciente. Recebeu meu presente, eu espero?”

“Recebi, e agradeço. Não tive tempo de examinar o livro, embora certamente pareça interessante, e não há nada como um quebra-cabeça para nos ajudar a pensar quando precisamos, não é mesmo? Afia nosso foco e serve como distração ao mesmo tempo.”

“Você não os aproveita bem, Morzan. A busca pela resposta,” e ele moveu os símbolos pela esfera mais uma vez, e eles brilharam, dourados, ao pararem na posição correta, “é um fim em si mesma.” Enduriel lhe ofereceu a esfera, e Morzan aceitou com um inclinar da cabeça. “E quem é dama?”

“Selena,” Morzan respondeu. E, para ela, “Sel, quero que conheça Lorde Enduriel, o mais inteligente entre nós e, dentre os elfos, meu preferido.”

Aqueles olhos azuis profundos encontraram os dela, e Selena descobriu que, apesar da demora do elfo em se dirigir a ela, não se sentia nem um pouco intimidada. “É um prazer, meu senhor.”

“Eu espero que sim.” Enduriel sorriu para ela. “E onde foi que Morzan a encontrou?”

Selena optou pela resposta mais segura. “Ao norte.”

O elfo assentiu. “Nasci no norte também. Na nossa cidade de Sílthrim, nas margens do lago Ardwen na floresta de Du Weldenvarden. Já ouviu falar?”

Ela hesitou. “Apenas sobre a floresta, meu senhor.”

Enduriel não pareceu se surpreender. “Sim. Ninguém conhece as cidades élficas nos dias de hoje, e por nossa própria culpa, preciso confessar. É realmente uma pena.” Quando Morzan não se preocupou em esconder o riso de discordância, ele apenas sorriu. “Espero que Morzan não planeje abrir mão de você tão cedo, Senhora Selena. Tenho certeza que será uma adição interessante à corte.”

“Certamente ficarei com ela por algum tempo,” Morzan afirmou, a puxando mais para perto de si. “Além de seu presente,” ele disse, cuidadoso, “recebi também uma carta de Fäelan.”

Enduriel arqueou uma sobrancelha escura. “É mesmo?”

“Não suponho que ele tenha dado algum sinal de que está prestes a voltar para a corte?”

“Você pergunta para mim? Sabe que não acompanho os movimentos de nobres ambiciosos.” Não que Fäelan fosse um simples nobre, Selena sabia, mas Enduriel não parecia ver grande diferença. “Alexis e Aleifar seriam mais aptos a te responder.”

Morzan sacudiu a cabeça. “Se Fäelan planejar propor aliança a alguém, terá em mente um elfo.”

“Não eu,” Enduriel afirmou. “Pergunte a Kialandí e Formora; Fäelan seria mais propenso a procurar por eles.”

“E eles,” Morzan completou, “mais propensos a mentirem.”

A resposta veio detrás deles, em uma voz feminina, melodiosa, e tão perigosa. “Algo tão triste de se ouvir,” ela disse, afiada, “e justo quando viemos o cumprimentar.”

Notas finais
Nos vemos nos reviews ♥♥♥