Shiver
26 Capítulo 26
Notas iniciais

O vento frio batia sem misericórdia contra o rosto de Selena, tingindo suas bochechas de vermelho e emaranhando seus cabelos castanhos, mas ela se sentia bastante confortável. Segurava sua capa cinzenta próxima de si, e, protegida pelos braços de Morzan como estava, não se incomodava realmente com a altura e o ritmo das batidas das asas do dragão.
Diante deles, o céu era de tons fortes de roxo, rosa, amarelo – um pôr-do-sol que parecia saído de uma pintura, assombroso e quase perverso. A cidade abaixo era uma mancha escura cujo desenho Selena não conseguia distinguir muito bem, com ruas estreitas e sinuosas que teciam seu caminho entre altas casas. Os extremos de Dras-Leona pareciam desorganizados e quase precários, mas era possível ver que isso melhorava conforme a proximidade ao centro – protegido por uma alta muralha amarelada, ele englobava mansões, o palácio, e uma enorme catedral que se erguia alta sobre toda a cidade.
Adam lhe dissera que não gostava do lugar onde nascera, e Selena achava que entendia.
“É uma bagunça,” disse, franzindo um pouco o nariz.
Morzan achou graça. “Em mais de um sentido,” concordou, rindo. “E isso porque você a está vendo de cima. Mas não se preocupe, não vamos ficar aqui por muito tempo.”
Ela se ajeitou contra ele, traçando com as pontas dos dedos as linhas de uma de suas mãos. “Você não gosta de Dras-Leona, então?”
“Não é minha cidade preferida,” ele admitiu, tomando sua mão nas suas e parando sua carícia. “Mas tampouco tenho horror a ela.”
“É?” Selena perguntou. “Você tem certo apreço pelo macabro, então?”
Desta vez, Morzan riu alto. “Macabro,” repetiu, sacudindo a cabeça. “Essas são palavras de Adam, não são? Você tem passado tempo demais com meus guardas, Selena, e eles não são como as pessoas a quem vou te apresentar agora. Sugiro que não fale mal de Dras-Leona para os nobres que moram aqui.”
“Claro que não.” Ela fechou a cara para ele. “Não sou burra.”
“Nunca pensei que fosse,” Morzan replicou, calmo. “Não a teria trazido comigo se te considerasse menos que muito inteligente, inclusive. Mas não custa avisar, não é?”
O dragão abaixo deles começou uma descida muito suave rumo à cidade, e Selena levou uma mão a seu colar, decidida a não dar atenção às batidas rápidas de seu coração. Uma mudança tão leve no vôo não deveria ser suficiente para a inquietar, mas era. “Estou mais preocupada com o que eles pensarão de mim,” confessou. “Nunca me viram antes, e deve ser aparente que não nasci na nobreza. Eles saberiam que não estou com você há muito tempo? Você vem muito aqui?”
“Eles saberiam,” ele confirmou, “até porque já teriam há muito ouvido rumores da corte se eu tivesse uma companheira de longa data. E sim, venho muito aqui. Dras-Leona é a cidade mais próxima da minha propriedade, então preciso dar a ela certa atenção.”
Selena se mexeu na sela para olhar para ele. “Sua propriedade?”
“Você vai ver.” Os olhos díspares de Morzan pareciam muito escuros no anoitecer, e ele ajeitou seu braço ao redor de sua cintura para lhe dar mais suporte. “Eu e você passaremos lá antes de Urû’baen.”
“Mas não seus guardas?”
“Não.”
Ele parecia muito confortável ao deixar seus guardas para trás, ou, de fato, mandá-los seguir em frente sem ele. Não haviam estado muito longe de Dras-Leona quando ele se impacientara – cansado da estrada e daquela viagem, Morzan afirmava, e isso era algo em que Selena reparava já fazia algum tempo – e a chamara para ir com ele voando no dragão. Agora eles desciam em direção à cidade, e ela estava vestida em ricas roupas de viagem e prestes a ser formalmente apresentada a outros nobres pela primeira vez.
“Se você vem muito aqui,” continuou devagar, “essas pessoas o conhecem bem?”
“Bem o bastante,” ele disse, o que talvez significasse que não o conhecessem nada. Morzan sorriu para ela. “Você se lembra do que eu te contei sobre eles?”
Selena desviou o olhar, voltando a se virar para frente, se recostando contra seu peito. “Sim.”
Morzan não lhe contara muito, na verdade. Falara sobre Lorde Brendan, governador de Dras-Leona, e sobre sua esposa, a Senhora Adara. Quando ele mencionara o filho mais velho dos dois, Marcus, Selena entreabrira os lábios em reconhecimento – já ouvira o nome antes, e o localizara com certa facilidade. “Foi para ele que o mercador disse que vendeu o colar que você estava procurando em Carvahall, não?”, perguntara.
“É bom saber que está prestando atenção, Sel,” ele respondera, sorrindo para ela. “Precisaremos resgatar essa jóia, você e eu.”
Ela concordara de prontidão. Depois do que presenciara em Belatona, rastrear um colar lhe parecia uma tarefa bastante simples, talvez até empolgante, e o dia seguinte prometia ao menos ser interessante. Quase tão interessante quanto ela esperava que fosse aquela noite.
Morzan afagou sua mão em um carinho mínimo enquanto o dragão descia para o pátio inteiro do palácio em círculos lentos. “Pronta?”
Selena considerou a pergunta apenas por um instante. “Sim,” respondeu, sincera.
O grande dragão vermelho pousou com um movimento gracioso, mas apenas sua presença era suficiente para que tanto servos quanto guardas se afastassem a uma distância respeitosa. A mulher sentada no banco de madeira mais próximo apenas ergueu os olhos em interesse, no entanto, impassível diante das expressões cautelosas de suas damas.
Morzan ajudou Selena a descer, e manteve uma mão na base de sua coluna, quase possessivo, enquanto a senhora de Dras-Leona se aproximava. Tal qual Morzan a descrevera, Adara tinha longos cabelos grisalhos que usava presos em uma trança, olhos verdes muito inteligentes e um sorriso um tanto inquietante.
Mas o erguer de seus lábios pareceu a Selena bastante genuíno quando o primeiro dos Renegados se curvou para beijar sua mão. “Senhora Adara,” ele cumprimentou. “Parece ainda melhor do que na última vez que nos vimos.”
“Ah, sim. Estou envelhecendo como o melhor dos vinhos.” Adara encontrou seus olhos díspares com facilidade. Ela não era bonita, exatamente, mas tinha uma elegância nata. “E sei que tem um gosto por eles, Lorde Morzan.”
Foi tudo o que Selena pôde fazer para não erguer as sobrancelhas em choque, mas Morzan riu alto. “Não me tente, minha senhora. Não sei se conseguiria resistir.” Ele puxou Selena mais para perto de si. “Posso te apresentar a minha companheira, a Senhora Selena?”
Minha companheira? Selena repetiu, tocando de leve a mente de Morzan, mas ele a dispensou com um ínfimo de pensamento, divertido. Satisfeita com o termo e incapaz de esconder seu sorriso, ela inclinou apenas um pouco a cabeça ao cumprimentar Adara com uma mesura discreta. “É um prazer, minha senhora.”
Adara a examinou com interesse, e Selena encontrou seus olhos verdes com o queixo erguido. “Tenho certeza que sim,” respondeu, pendendo a cabeça para o lado. “E onde foi que Lorde Morzan a descobriu?”
Ela não tinha uma resposta pronta para aquilo, e Morzan interferiu para mascarar seu segundo de hesitação. “Selena nasceu mais ao norte,” respondeu, simplesmente. “Eu diria onde, mas não vai encontrar ninguém tão valioso quando ela por lá. Selena era a melhor, e todos os outros não chegam a seus pés.”
Adara considerou suas palavras, e voltou a correr os olhos por Selena. Tomou nota de seus cabelos castanhos – um tanto bagunçados pelo vento, mas presos por uma fivela de prata –, de suas roupas de viagem elegantes, do colar de rubi e diamante em seu pescoço. Sorriu. “Vai ficar com ela, então, meu senhor?”
“Ah, sim.” Morzan retribuiu seu sorriso com facilidade. “Com certeza.”
Ela tinha mesmo um rosto difícil de ler, e estendeu uma mão para as mulheres que esperavam um tanto atrás. “Já conhece minhas damas de companhia, Lorde Morzan?” perguntou com familiaridade, e se pôs a apresentá-las uma a uma.
Selena a observou com atenção, um pensamento intrusivo a incomodando, e ousou tocar a mente de Morzan mais uma vez. Você não dormiu com ela, não é?
Ele lhe lançou um olhar que era por partes incrédulo e divertido. E de onde você tirou essa ideia?
Eu não sei, respondeu. Ela te trata de uma forma um tanto... pessoal.
Não, Sel, não dormi com ela. Morzan se abaixou sobre um joelho para falar com a mais nova das companheiras de Adara, uma garota de talvez seis anos. Ele interagia com todas com tanta facilidade, e Selena seguia seus movimentos com os olhos, fascinada. A esposa do governador de Dras-Leona? Traria complicações demais para o meu gosto. E eu conheço Adara desde que ela era apenas uma criança.
Ah. Selena aceitou sua explicação, satisfeita. Mas mais cedo ou mais tarde vou acabar conhecendo alguém com quem você dormiu, não é? É bom estar preparada.
Morzan olhou para ela pelo canto dos olhos díspares, divertido. Mas Selena, minha querida, você já conheceu.
Ela arregalou os olhos em choque, quase se esquecendo que tinham companhia. Relembrou todas as mulheres a quem ele já a apresentara, mas não encontrou resposta alguma – dezenas de possibilidades, e nenhuma que parecesse mais provável que as outras. Quem?
Não se alarme. Morzan sorria. Eu lhe digo mais tarde.
Ele falava com Adara, calmo como se não estivesse tendo uma conversa paralela em sua mente. Quando ela perguntou se eles jantariam com ela e Lorde Brendan, Morzan aceitou graciosamente.
“Eu adoraria,” respondeu, e permitiu que ela os guiasse para dentro do castelo.
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